Série: “O Estúdio” é uma bem humorada e genial carta de amor ao cinema e seus profissionais

texto de Davi Caro

Há uma cena no primeiro episódio da série “O Estúdio” (“The Studio”, 2025) no qual o personagem principal, o executivo Matt Remick (interpretado por Seth Rogen) desabafa, com uma colega, sobre a questão que mora no âmago de sua profissão enquanto produtor cinematográfico: “Eu adoro filmes, e sinto que meu trabalho é arruiná-los”. Para além da ironia de escutar uma fala como esta, vindo de um personagem vivido pelo diretor e idealizador da dita produção, tal indagação carregada de resignação reflete muito bem a indignação apontada por muitos cinéfilos frente ao cenário atual de Hollywood, onde boas ideias são diariamente reduzidas, descaracterizadas e lançadas em ritmo quase industrial, e com pouca ou nenhuma noção de público-alvo. A grande sacada desta fala – que dá o tom dos dez episódios que compreendem a primeira temporada da série, disponível via Apple TV+ – vai mais fundo do que se esperaria, ao indicar uma pergunta extremamente pertinente: seriam as pessoas responsáveis por arquitetar os filmes que chegam, anualmente, às salas de cinema realmente apaixonadas por cinema? E quantos dilemas comerciais, éticos e profissionais seria esta paixão capaz de atravessar?

Dirigida e escrita por Rogen em parceria com Evan Goldberg (com o qual o primeiro vem trabalhando desde “Superbad”, de 2007), “O Estúdio” é uma satírica, ácida e acelerada representação do funcionamento de um estúdio cinematográfico fictício, chamado Continental Studios, que, em meio a constantes (e bruscas) mudanças de rumo no ramo da sétima arte, luta para balancear a relevância de seu próprio legado com as necessidades mercadológicas da atualidade. Utilizando-se de um roteiro ao mesmo tempo episódico e bem amarrado, adornado com valores de produção sublimes e um elenco perfeitamente escolhido, a produção não poupa esforços em construir uma trama instigante e cheia de bom humor.

O já citado Remick não começa a passar por dilemas como o retratado acima por acaso: logo no início do primeiro episódio, sua vida começa a mudar, e possibilidades começam a se abrir graças a sua promoção, pelas mãos do inescrupuloso CEO da Continental, Griffin Mill (Bryan Cranston), chefe principal da lendária instituição. A ferrenha devoção de Matt a produções autorais é, então, desafiada a cada segundo. Não só o executivo tem que lidar com a demissão de sua mentora, Patty Leigh (Catherine O’Hara) – titular prévia do cargo que ele, agora, ocupa – como também passa a ser sua responsabilidade gerenciar uma equipe igualmente dedicada, e igualmente disfuncional: estes incluem o surtado vice-presidente de produção e braço direito de Remick, Sal Sapirstein (Ike Barinholtz); a desbocada agente de marketing Maya Mason (Kathryn Hahn); e uma antiga assistente, a jovem Quinn Hackett (Chase Sui Wonders). A dinâmica caótica da equipe, somada a uma latente necessidade de auto-afirmação (e necessidade de aprovação alheia) por parte do novo chefe, acabam criando situações ora inusitadas, ora inconcebíveis e estapafúrdias, em episódios que, apesar de serem centrados em eventos e circunstâncias diferentes, se conectam de forma sutil e espontânea.

É preciso listar os inúmeros trunfos de “O Estúdio”, e é impossível não começar falando do elenco: além de Seth Rogen, carregando com louvor o estigma de adorável perdedor que é natural a seu personagem, todo o núcleo principal tem seu momento de brilhar, e nem sempre pelos motivos mais nobres. Kathryn Hahn se reafirma como uma intérprete magnética, roubando cenas de todos os lados graças a uma combinação de sua versátil atuação e de escandalosos figurinos, e Chase Sui Wonders esbanja potencial nos capítulos em que a “novata” Quinn cobra mais protagonismo. Já Ike Barinholtz é a carta coringa no baralho da série, transbordando carisma no papel de Sal Sapirstein, e Catherine O’Hara se sobressai, magnânima e hilária, na pele da obstinada Patty Leigh. O elenco de apoio também não fica atrás, entre grandes nomes que interpretam personagens (tal qual o excelente Bryan Cranston, como o ególatra Griffin) ou, por vezes, a si mesmos.

O segundo ponto a ser exaltado na nova série diz respeito às (muitas) participações especiais trazidas nesta primeira temporada. Evitando spoilers, basta dizer que muitas das subtramas apresentadas aqui são alicerçadas em aparições de nomes estelares, que vão de Martin Scorcese a Zöe Kravitz, passando por Greta Lee, Anthony Mackie, Ice Cube e muitos, muitos outros. Tais surpresas, porém, passam longe de funcionarem como uma muleta para o desenvolvimento da narrativa, e não tiram o foco do núcleo principal de figuras em torno das quais a história gira. Ao dar espaço para convidados de tal calibre, “O Estúdio” também garante a veracidade e a perspicácia dos comentários que faz sobre uma indústria, que, conforme rememorado em um dos melhores e mais enervantes episódios desta leva, faz arte, mesmo que nem sempre com refinamento ou classe.

Refinamento e classe são, porém, a grande chave da principal vitória desta produção: o roteiro. Ao brincar com monumentos sagrados de Hollywood e do cinema como um todo – desde o primor técnico de gravar em película até o renome de eventos como o Globo de Ouro, em outro impagável momento – cabe ao texto embalar um ambicioso tratado de amor à feitura e admiração de longas-metragens. Mesmo fatores que se tornam praticamente sinônimo com o tipo de resultado almejado por Rogen e Goldberg (o que dizer dos inacreditáveis planos sequência, que permeiam vários dos episódios sem chamarem a atenção para si mesmos?) não são trabalhados de modo repetitivo, preferindo criar uma experiência imersiva capaz de cativar até aqueles pouco ou nada interessados em cinema, ou nos muitos pormenores que os envolvem.

Conforme se encerra a primeira metade de 2025, fica fácil cravar “O Estúdio” como uma das grandes produções do ano. Comparações com produções icônicas do passado (como “The Office”) não são de todo infundadas, e podem até despertar a atenção de camadas mais céticas do público. É justo também, porém, afirmar que trata-se de uma produção poucas vezes vista nos últimos tempos, se é que algo parecido já foi sequer tentado. Nem mesmo a estonteante gama de aparições especiais são o verdadeiro chamariz aqui. Ao invés disso, “O Estúdio” se sobressai por achar graça de algo que muitos, seja lá como ou por que, passaram a levar a sério demais – ou a tratar com total displicência. E por mostrar que, por trás da magia testemunhada nas grandes telas, existem seres humanos, cheios de neuroses, frustrações, crises e, claro, dilemas. “A vida imita a arte, e vice versa”, alguns dizem. Tal frase nunca fez tanto sentido como aqui.

– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.

One thought on “Série: “O Estúdio” é uma bem humorada e genial carta de amor ao cinema e seus profissionais

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *