Helô Ribeiro comenta, faixa a faixa, sobre as inspirações de “Céu de Gondry”, seu terceiro disco solo

texto de introdução de Marcelo Costa
faixa a faixa de Helô Ribeiro

O cineasta francês Michel Gondry é responsável por, ao menos, dois clássicos modernos: a obra-prima “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” (seu segundo filme, de 2004, também era sua segunda parceria com o gênio torto Charlie Kaufman) e o icônico clipe de “Everlong”, do Foo Fighters (sua lista de direção de clipes musicais, aliás, é de chorar). A cantora, compositora e flautista Helô Ribeiro, porém, utilizou como inspiração para seu terceiro disco solo, o recém-lançado “Céu de Gondry” (2025), a obra mais personal do cineasta francês, “La Science des Rêves” (no Brasil, “Sonhando Acordado”, 2006), filme onírico com Gael García Bernal e Charlotte Gainsbourg em que “o protagonista não distingue muito bem as fronteiras entre sonho e realidade”, conta Helô.

Cativada pelo filme, que tem um caráter autobiográfico – o apartamento do personagem principal, por exemplo, é o mesmo onde Michel Gondry morou 15 anos antes –, Helô Ribeiro, que intregra o coletivo Barbatuques, decidiu fazer “uma homenagem a este cineasta que tanto amo”. Para tanto, uniu-se ao produtor Allen Allencar e planejou um EP com cinco músicas que ela compôs ainda no isolamento da pandemia de Covid 19. Após um conselho do amigo Tatá Aeroplano, decidiu ampliar o repertório e lançar seu terceiro disco solo (precedido por “Espaço Invade”, de 2010 e “Paisagem Zero”, de 2021). “Vejo este álbum como uma colcha de retalhos”, explica Helô. “São sensações, impressões, sentimentos meio borrados e difusos. Não há uma linha narrativa, mas momentos que ondulam”, pontua.

Em “Céu de Gondry”, que está sendo lançado pelo selo Pequeno Imprevisto, Helô Ribeiro musicou poemas de arrudA (um deles, inclusive, já musicado por Alzira E) e de Marcelino Freire além de assinar parcerias com Allen Allencar e Luiz Marina, e contar com a participação de Lucas Gonçalves (Maglore) e Felipe Antunes (Vitrola Sintética). “As músicas vieram como paisagens novas, lugares internos que me pediram passagem. Cantar essas canções é como vagar por esses lugares, com mais acolhimento e menos julgamento”, conta Helô, que no revelador faixa a faixa abaixo enfileira inspirações (Clube da Esquina, Beatles, Lewis Caroll, Belchior, Lô Borges, Jefferson Airplane) e aprofunda o olhar do ouvinte sobre como cada uma dessas canções surgiu e se transformou na versão final do álbum. Ouça o disco abaixo e acompanhe o faixa a faixa.

FAIXA A FAIXA “CÉU DE GONDRY”

01) “1000 Paisagens” – É uma parceria minha com Allen Alencar. Composta à distância, cada um enviava trechos com letra e música para que o outro continuasse. Assim, era sempre uma surpresa boa quando um áudio chegava pelo WhatsApp com um novo pedacinho da canção, como um jogo de compor em que nunca se sabia que rumos a música iria tomar, o que cada um iria propor. Esta forma de criação remete muito ao tema da música, em que o eu-lírico está em um momento de inflexão: após o término de um relacionamento, repleto de memórias, saudades e da sensação de perda, se encontra em um momento de suspensão, sem saber quais novos ventos o futuro lhe reserva. Vai assim seguindo como um rio ao sabor da correnteza. O arranjo traz o piano elegante de Chicão Montorfano e o arranjo de sopros de Sergio Kafejian, com três clarones e um clarinete, executado por Daniel Oliveira. Igor Caracas tocou bateria. Quando enviei o bounce da música pro Lucas Gonçalves, que tinha tocado baixo na gravação, ele me escreveu falando que não conseguia parar de ouvir a música, que estava vidrado nela. A música já estava praticamente finalizada, mas neste momento tive a ideia de chamá-lo pra cantar o tema comigo. Eu já tinha gravado minha voz, então ele gravou a dele no estúdio da casa dele e nós sobrepusemos as vozes.

02) “Looking Glass” – Foi composta durante o isolamento da pandemia. Eu sempre acho difícil escrever letra de música, no entanto naquele momento estava repleta de sentimentos que queriam transbordar. Sentia solidão, medo, tristeza, mas ao mesmo tempo conseguia enxergar alguma beleza dentro daquela melancolia, todo mundo estava separado, mas ao mesmo tempo tão junto, tão ligado pelo amor, e me veio a imagem de uma pedra cintilante no meio do caos, de um poeta que nasce do espinho da flor. A música traz memórias de infância, Beatles e seus campos de morango, “Alice através do Espelho”, de Lewis Caroll, Lô Borges e seu vento de maio, imagens e sons de um passado distante que vieram `a tona pra compor esta canção tristemente bela. Não sabíamos o que seria de nós após aquilo tudo, então precisei buscar no passado reminiscências de quem eu era, do que vivi e que me formou, pra me fortalecer. É uma música que fala com saudade de um passado que se perdeu, daquilo que já não é mais, mas também de algo essencial que resiste e permanece. Eu e Allen buscamos esta atmosfera onírica no arranjo de cordas que Bruno Serroni (cello) e Ricardo Herz criaram. As cordas trazem uma melancolia e ao mesmo tempo uma beleza sublime, trazem tristeza e ao mesmo tempo uma esperança, como uma janela aberta. Allen tocou também uma guitarra-cítara que trouxe um tom misterioso pra canção. Compus “Looking Glass” em pleno isolamento da pandemia. Eram tempos bem tristes e eu me sentia sozinha e impotente. Estava fazendo um curso online de composição com o músico Marcelo Segretto e a música surgiu dentro deste contexto: criei como um exercício para o curso. Eu não costumo escrever letra: criar a música sempre foi, pra mim, mais fluido do que fazer a letra. Mas ali, naquele momento, eu tinha tanta coisa engasgada, que algo transbordou. Me veio a imagem de algo bonito que surgia de uma situação triste: um poema que nasce de um espinho, uma pedra brilhante que surge do fundo do caos. A imagem da pedra brilhante me remeteu à minha infância (à música que fala da rua ladrilhada com pedrinhas de brilhante), e então eu fiz um mergulho pra dentro de mim, para outros tempos, quando eu era criança, os sonhos que eu tinha, as músicas que escutava, meus livros… Beatles e Clube da Esquina, “Alice Através do Espelho”… e a letra saiu como uma mistura de algo que se perdeu e ao mesmo tempo algum fio de luz ou esperança: uma saudade triste de um passado que não vai voltar (e ali tinha o âmbito pessoal e também todos nós no meio de uma pandemia), mas também a consciência de que uma rua (a rua com pedrinhas de brilhante que se chama Solidão) sempre nos leva a algum lugar.

03) “Um Céu Inteiro” – Esta canção é uma parceria minha com arrudA. Ele costumava postar seus poemas no Facebook durante a pandemia. Eu estava louca pra compor, pra me conectar com as pessoas, pra criar, pra me sentir viva. Então escrevi pra ele perguntando se eu podia musicar dois poemas seus que eu havia escolhido. Ele me respondeu depois de uns quatro dias, dizendo que um deles sim, mas que o outro já havia sido musicado por Alzira E. No entanto. o que aconteceu é que quando eu escrevi pro arrudA perguntando, eu já tinha composto as duas músicas. Na verdade, quando eu li os poemas pela primeira vez eu já escutei música neles (os poemas do arrudA têm este efeito sobre mim). Então esta música, “Um Céu Inteiro”, ficou engavetada, combinamos que seria uma música-segredo, que ninguém iria ouvir. Tempos depois, quando enviei pro Allen uma pasta com minhas composições pra escolhermos quais iríamos produzir pro disco, esta foi junto e foi a primeira que ele escolheu. Só que eu não podia gravá-la. Então tomei coragem, enviei um áudio pra Alzira, que é minha amiga, me abrindo, contando tudo pra ela. E ela me deu a resposta mais linda do mundo: disse que queria muito que eu gravasse minha música, que ela tinha “música com duas letras, por que então não poderia haver uma letra com duas músicas?”. Disse que a liberdade, a arte, a beleza e a música estão em um outro patamar, e que este patamar é que deve ser respeitado. Concluiu dizendo: “o resto é muito pessoal, e a música é universal”. Fiquei muito emocionada com sua generosidade e de arrudA, ambos me incentivando a gravar minha versão musicada do poema, que depois descobri, é dedicado à Alzira. Então esta canção é um pequeno milagre que pôde acontecer graças à generosidade destes dois artistas que tanto admiro. Ela tem uma atmosfera lunar, de sonho, pra mim é uma música azul. Allen escolheu começar apenas com teclado e voz, e depois outros elementos vão entrando e aumentando a densidade da canção, que tem um dueto nosso na segunda parte. Ele se recusava a cantar comigo mas eu insisti bastante até ele ceder! Gravamos as vozes em seu estúdio Casa Embura, que fica no meio da floresta.

04} “Babel” – Esta música é uma parceria minha com Allen. O álbum “Céu de Gondry” inicialmente seria um EP com apenas 5 músicas. Quando decidi que se tornaria um álbum com 8 canções (por sugestão de meu amigo Tatá Aeroplano, que disse que disco é muito mais legal, melhor pra fechar show, pra divulgar), eu e Allen combinamos de compor juntos pra criar as músicas que faltavam. “Babel” é uma delas (a outra é “1000 paisagens”). Comecei então a buscar em meu celular trechos de músicas que crio e gravo, esboços que deixo lá pra um dia, talvez, virarem canções. Achei este pedaço de música cantarolado com palavras soltas e meio sem sentido, uma letra monstro. Fui buscando o significado daquelas palavras esparsas, tentando buscar em mim o que eu estava querendo dizer, mesmo que inconscientemente, quando cantarolei aquilo. Então eu tive um processo de auto-investigação e por um bom tempo eu escrevi a letra desta música sem saber muito bem de que eu estava falando. Eram sentimentos esparsos, sensações, impressões. Eu sabia que a atmosfera era triste, mas, também, havia ali beleza. E a música foi acontecendo como cacos que fui juntando, como destroços, como uma babel onde se falam diferentes línguas. Enviei para Allen e ele criou o refrão final. Foi tão bonito, porque o que ele criou me fez entender o que eu havia criado sem saber direito o que era. O que ele depreendeu do que eu havia feito deu sentido àquilo. Mais uma vez, a canção traz uma atmosfera melancólica e de triste beleza. A parte inicial tem uma melodia descendente como a de “Dear Prudence” ou “Na Hora do Almoço”, de Belchior. Uma linha melódica que sugere um mergulho interior. É uma música simples, despretensiosa, despida, sem muitos floreios.

05) “Quem é Você?” Esta canção é uma parceria minha com Luz Marina. Naquela época do isolamento da pandemia, em que todos queríamos nos conectar de alguma forma, a Luz postou em seu Facebook um convite: “Quem aí quer compor comigo?”. Eu escrevi imediatamente pra ela, e em seguida ela me enviou um poema seu. Este poema era “Quem é Você?”. Eu adorei e compus a música na mesma hora. Me inspirei um pouco na canção “White Rabbit”, do Jefferson Airplane. Depois que a música foi produzida ela foi pra outro lugar, mas quando compus conseguia imaginá-la na voz de Grace Slick. A canção fala de amor (ou desejo) à distância, dos tempos modernos, do que imaginamos a partir do que não vemos, e foi criada quando estávamos imersas neste universo virtual. Foi a primeira música do álbum a ser produzida e lançada. Eu e Allen buscamos uma sonoridade mais eletrônica, mais crua e vazia no início, e depois a música se preenche, embala e sempre que escuto sinto que estou andando de carro com o vidro aberto e sentindo o vento no rosto e nos cabelos. Ficou leve.

06) “Cada Gota” – Esta parceria minha com arrudA foi composta da mesma forma que “Um Céu Inteiro”. Vi seu poema postado no Facebook, amei instantaneamente e musiquei. Durante a pandemia havia uma plataforma, não me recordo o nome agora, que selecionava clipes para postar no seu canal. Havia regras: a canção tinha que ser executada em trio, e as canções selecionadas recebiam um valor em dinheiro, o que para os músicos que não estavam conseguindo trabalhar durante o isolamento era algo maravilhoso. Os clipes eram aqueles caseiros, de celular, cada um se gravando no seu quadrado. Resolvi chamar pra compor meu trio os músicos Lucas Gonçalves, que tocou baixo, e o André Hosoi, meu colega no Barbatuques, que tocou bandolim. Eu toquei guitarra, violão de aço e gravei as vozes. Os meninos me enviaram seus áudios, eu joguei tudo no Logic, coloquei uns efeitos (um inclusive bem espacial e maluco no bandolim do Hosoi), montei o vídeo no Final Cut e enviei. Naqueles tempos aprendi a produzir vídeos e áudios em casa, foi o que salvou. Fomos selecionados e o vídeo foi divulgado no tal canal. Tempos depois, quando eu e Allen estávamos escolhendo as músicas pro álbum, quis resgatar esta canção, que fala da grandeza que existe nas pequenas coisas, do oceano que existe em cada gota. Usamos os áudios originais, Allen colocou uma guitarra que casou super bem com o que havíamos gravado anteriormente. Estão esta canção é híbrida, foi produzida em dois momentos diferentes. Nasceu de uma forma caseira e depois foi finalizada em estúdio, ganhando uma mix e uma master mais caprichadas.

07) “Álbum” – Foi composta por Ro Fonseca, Bareta e Edu Marin, do trio Barbárie. É a única música do álbum que não é de minha autoria, mas quando a ouvi pela primeira vez pensei: “como eu gostaria de ter composto esta canção!”. O Ro foi o produtor de meu primeiro disco, “Espaço Invade”, lançado em 2010, e eu gosto muito do trabalho dele. Essa música fala de um amor perdido, e a letra se desenrola como alguém que está vendo um álbum de fotografias de viagens: memórias de lugares pelo mundo e saudades de situações vividas com alguém que já não está mais lá. A harmonia é a coisa mais linda do mundo e eu fiquei com vontade de fazer um arranjo de flautas com uma cama harmônica bem impactante, que fizesse a música crescer no final. Modulamos o refrão pra ele ficar em uma região mais aguda do que a versão original, reforçando este momento de forte densidade emocional da música. Colocamos metalofones no intermezzo, que conferiram um caráter onírico pra faixa. Convidamos o Felipe Antunes pra cantar comigo, um amigo, cantor e compositor de quem sou muito fã. Gravamos as vozes no estúdio do Allen, que fica no meio do mato, passamos o dia lá em meio a cantos de passarinhos e essa atmosfera de paz transparece na faixa.

08) “Este Poema” – Esta música é uma parceria minha com o escritor Marcelino Freire. Marcelino é bastante conhecido por seus livros em prosa, mas o que nem todos sabem é que ele é também um grande poeta. Eu musiquei este poema por ocasião de um show que fiz com uma outra banda de que faço parte, a Sons & Furyas, em que Marcelino fez uma participação especial lendo textos de sua autoria. Na época ele enviou alguns poemas inéditos para mim e Vanessa Bumagny, a outra compositora da banda, e cada uma musicou um. O que escolhi foi “Este Poema” (que não tinha ainda nome na época). Ele fala da grandeza do amor, de como o poema é feito para a pessoa amada e não para os livros ou para a literatura. Ele se vale de um formato literário, o poema, para justamente rechaçar a literatura e engrandecer o amor, para colocá-lo acima do patamar da literatura (que é o objeto de amor de um escritor). Escolhi colocar acordes dissonantes quando a letra é mais raivosa, e acordes harmônicos quando o poema traz a declaração de amor. Quando fomos produzir a faixa, Allen, que é fã de Arto Lindsay e estava escrevendo um trabalho de pós-graduação sobre ele, se inspirou e colocou umas guitarras super barulhentas nos momentos dissonantes. Nos momentos em que a harmonia relaxava eu fiz camas vocais bem ternas.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

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