Longe demais das capitais, Festival Casarão celebra 25 anos em Porto Velho com grandes shows de Mombojó e Maglore

texto e vídeos de Bruno Capelas
fotos de Douglas Mosh

Nos anos 1980, Humberto Gessinger cantava que Porto Alegre era “longe demais das capitais”. Em pleno 2025, o título parece pertencer melhor a outra cidade que também tem nome de embarcadouro: Porto Velho, Rondônia. Um lugar cheio de mitos, histórias de empreitadas e fracassos e com poucos, muito poucos voos diretos para outras partes do Brasil. Saindo do Aeroporto Governador Jorge Teixeira de Oliveira, as únicas cidades hoje acessíveis são Manaus, Belo Horizonte, Brasília e São Paulo. Por rodovias, as highways também parecem infinitas: é preciso gastar pelo menos sete horas para chegar a Rio Branco; para Manaus ou Cuiabá, a conta sobe para 12h. São números e dimensões que dão a noção do desafio de fazer um festival com bandas de todo o País na região Norte.

Cumprir esse desafio é, por si só, um feito a ser comemorado com galhardia pelo Festival Casarão. Fazê-lo por 25 anos, ainda que com algumas interrupções, é um esforço quase hercúleo. Após um breve hiato no ano passado, o evento voltou com força total em 2025, realizando edições em várias capitais do Norte e do Centro-Oeste, promovendo a circulação de mais de 40 bandas entre os dias 18 e 22 de junho. Como a ocasião era mais do que especial, a festa começou antes mesmo do festival: na Semana da Música Casarão, realizada a partir do domingo, 14 de junho, na capital rondoniense, houve palestras, workshops, esquentas e também shows gratuitos no Mercado Cultural, um dos pontos turísticos mais carismáticos de Porto Velho.

Na noite da terça-feira, 17, três nomes se apresentaram por lá: o grupo Vandrin e Rafini, a banda local Sexytape e o cearense Daniel Groove, escalado tantas vezes para o Casarão ao longo de duas décadas que até recebeu o título de “Presidente” do festival. Retornando aos palcos após um breve hiato, Groove fez uma apresentação calorosa, mostrando por que tem em Porto Velho um de seus públicos mais carinhosos.

Daniel Groove

Acompanhado da Sexytape (que mostrou em seu show uma boa mistura de pop-punk e power pop com brega), Groove executou um bonito passeio pela sua obra – como nas baladaças setentistas “Seda Azul” e “Jardim Suspenso” ou no hino “Fortaleça-se”. Não foi só: ele também foi do popular (“Você Vai Se Arrepender”, de Bartô Galeno) ao panteão da MPB (“Jorge Maravilha”, de Chico Buarque). Idolatrado na capital rondoniense, o cantor teve de dar três bis – o arremate final, sugerido pela banda de apoio, foi com o inesperado cover de “Abraçando Você”, de Raimundo Soldado. Baita canção para mostrar o talento de um dos mais intensos frontman do País.

Quarta – 18/06

Marcela Bonfim

A primeira noite do Casarão “de fato” foi realizada n’O Monarka, casa de shows no centro portovelhense mais acostumada a receber noites de pagode, como denunciavam a decoração e as luzes automáticas (um bocado cafonas) do palco. Na quarta-feira, 18 de junho, a programação trazia uma curadoria que mesclava boas propostas de pop-rock com uma inusitada e rara dobradinha de música instrumental, com O Tronxo (AM) e Camarones Orquestra Guitarrística (RN).

Escudada por uma nata de músicos da cidade, incluindo o guitarrista e produtor Thiago Maziero (Os Últimos) e o baterista Rodolfo Bártolo (Wari), a cantora Marcela Bonfim teve a missão de abrir os trabalhos na casa de shows para cerca de 500 pessoas – o público, porém, chegou a apenas 40% da lotação do local no auge da noite. Responsável por um dos grandes momentos da última edição do Casarão, em 2023, em uma participação especial no show de Diogo Soares, Marcela fez novamente um dos shows mais impactantes do evento.

Prestes a lançar o disco “Amazônia Negra” pela Natura Musical, a artista trouxe da fotografia e do audiovisual a capacidade de criar imagens sonoras muito potentes e uma forte presença cênica. Mais do que isso, em canções como “Bonfim”, “Sou da Beira” e “O Tempo”, Marcela falou de seu lugar e de sua ancestralidade, abrindo espaço para questionar à sua maneira uma versão da história oficial de Rondônia e da Amazônia, mas sem esbarrar nos clichês do regionalismo. Dos projetos locais exibidos no Casarão desde a retomada após a pandemia, este é talvez o que tenha a melhor chance de rodar o País. Potência e potencial não faltam – mas é preciso combinar com a malha aérea, dado que é praticamente impossível conseguir uma passagem de ida e volta a Porto Velho por menos de quatro dígitos, um impeditivo para a circulação.

Ecdise

Na sequência, quem chegou cedo ao Monarka pode conferir outra boa novidade: a Ecdise, banda de thrash/crossover que é um projeto paralelo de Giovanni Marini, vocalista da instituição local Coveiros e professor de geografia nas horas não-vagas. Sem o peso de vinte anos de história, Giovanni mostrou-se mais bem-humorado e à vontade com a nova banda – cujo nome se deve “ao processo de troca de pele dos répteis”, explicou, enveredando pela biologia. “Vamos todo mundo trocar de pele e melhorar a sociedade”, continuou o artista, que foi candidato a vereador nas últimas eleições municipais e, mesmo fazendo parte da oposição, é o secretário municipal de saneamento e serviços básicos de Porto Velho – vale a pena conferir o que ele tem feito pela cidade em seu Instagram.

Além do conteúdo programático do vestibular, Marini também cantou sobre temas como o genocídio em Gaza (em “Sede de Extermínio”) e os povos originários. O melhor, porém, ficou para o final: “Nossa última música chama ‘Desafeto’ e é sobre aquele cara do seu trabalho que quer sempre puxar seu tapete”, anunciou o vocalista. Imagina o clima na Prefeitura. Ainda no assunto metal, vale destacar a passagem da Da Ordem ao Caos, fiel à cartilha do thrash, com direito a muitos guturais do vocalista Mário Vicente, que também atua como DJ do festival. Polivalência é isso aí.

O Tronxo

Quem também voltou ao Casarão depois de uma grande apresentação em 2022 foi a banda amazonense O Tronxo, dona de um post-rock de muita personalidade. Nos bastidores, houve quem chamasse o grupo de “Mogwai amazônico”. Faz sentido: a acurácia instrumental, a mão pesada do trio Rafa Borges (guitarra), Luiz Roberto Góes (baixo) e Anastácio “AJ” Júnior (bateria) e, especialmente, o volume quase ensurdecedor com que tocaram justificam a alcunha – embora parte da intensidade talvez não tenha sido intencional, mas sim uma questão da acústica da casa de shows portovelhense.

Misturando temas do EP “Abismo” com faixas de trabalhos anteriores, o grupo fez um belo show, daqueles pra botar um sorriso no rosto de qualquer fã de música torta – mesmo sem a presença do segundo guitarrista, Lucas Castro, que teve problemas pessoais e não pode vir a Porto Velho estrear a nova formação do grupo. Tal qual cachaça de jambu, ficou no corpo a tremedeira e aquele gostinho de quero mais.

Kanichi

Vindos do Tocantins após enfrentar um périplo de quase 24h voando para chegar a um Estado da mesma região que a sua, a Kanichi teve a missão de seguir a programação do festival no palco menor da casa. Foi uma apresentação morna: as canções de Felipe Kuroda (guitarra e voz) e Renato Rezende (bateria e programações) mostram potencial, mas o cansaço e também a instrumentação exígua, dependente de bases programadas, não ajudaram o grupo em sua segunda passagem por Porto Velho. Uma pena.

Veterana de turnês não só pelo País, mas pelos quatro cantos do mundo, a Camarones Orquestra Guitarrística aproveitou o Casarão para fazer um check em mais um Estado do território nacional. Mas não se engane o leitor pelo nome: embora conte com três guitarras em sua formação, tocadas por Anderson Foca, Thiago Andrade e Alexandre Capilé, a alma da banda é mesmo a baixista Ana Morena. É de seu instrumento que saem graves, grooves e ritmos capazes de conduzir não só o grupo, mas também os quadris do público.

Camarones Orquestra Guitarrística

Batendo cumbia, carimbó, blues, surf rock e muitas outras pulsações em um liquidificador na velocidade 10, a Camarones fez um show agitado e envolvente – provando, ao lado d’O Tronxo, que não é preciso ter letra para engajar um público interessado. Só não foi melhor por conta do sistema de som da casa, que teve praticamente a noite toda um volume demasiadamente alto e qualidade desafiadora para técnicos e artistas.

Quem mais sofreu com o som foi o quarteto paulistano The Mönic: dono de um rock básico, fincado no hardcore e no pop punk, o grupo quase não se fazia entender pelo público, com as guitarras encobrindo completamente o jogo de vozes entre Dani Buarque (guitarra), Joan Bedin (baixo) e Alê Labelle (guitarra). Para piorar, a banda ainda perdeu mais tempo quando uma corda do baixo de Joan arrebentou no meio da apresentação, pondo fim a um jogo usado pela artista há mais de cinco anos.

The Mönic

Se no palco principal a acústica era um desafio, no palco menor os obstáculos ainda eram contornáveis, como ficou claro na apresentação de outra instituição local: a banda Os Últimos, de Ariquemes, 200km distante da capital do Estado. Renovada por uma turnê em 2024 que passeou pelo Norte e pelo Nordeste, o grupo fez um bom trabalho com sua sonoridade pop e radiofônica, inspirada nos melhores momentos de Lulu Santos e, vá lá, Jota Quest. Destaque, mais uma vez, para as boas guitarras de Thiago Maziero e para a condução mais do que competente de Laura Brandhuber na bateria.

Os Últimos

Já o final da noite ficou por conta da Maglore, que apresentou no Casarão pela segunda vez seguida um show da turnê do disco “V”, lançado em 2022. Com som mais bem ajustado do que as outras bandas da noite, devido à presença do técnico Ícaro Reis, o grupo fez o seu melhor em cerca de 90 minutos. É difícil, aliás, botar reparo em um repertório já tão executado pelos quatro cantos do País, capaz de mesclar as excelentes canções do trabalho mais recente com hits de diversas fases – do power pop “Às Vezes Um Clichê”, da estreia “Veroz”, ao reverb-Faber-Castell de hinos como “Me Deixa Legal”, “Clonazepam 2mg” e “Calma”, de “Todas as Bandeiras” (2017).

Mais que isso, é interessante notar o quanto o quarteto capitaneado por Teago Oliveira é capaz de executar bem o que se propõe tanto no estúdio quanto no palco, ao contrário de outros companheiros de geração de entregas desiguais. Mas é preciso que se diga: após quase três anos de muito bom uso, este é um conjunto de canções que começa a pedir por renovação – seja pela passagem do tempo (o otimismo vermelho de “Eles” hoje se transforma num sorriso amarelo), seja pelo fato de que até mesmo em paragens menos frequentadas a banda já passou várias vezes. Em outras palavras: está na hora da Maglore gravar um disco novo. Enquanto isso não acontece, porém, é difícil dizer que há algo de errado para quem quiser seguir bailando num show que se encerra com “Mantra” e a indefectível “Espírito Selvagem”, mesmo com o ouvido zumbindo. Valeu, valeu.

Maglore

Quinta – 19/06

Afetada por uma visita ao recém-reinaugurado museu da Estrada de Ferro Madeira Mamoré (uma das atrações turísticas mais legais de Porto Velho) e por doses cavalares de tambaqui em diferentes preparos (na brasa, frito, com molho de maracujá e até à parmegiana!), a reportagem do Scream & Yell teve um pequeno atraso na segunda noite. O retardo fez a equipe perder a apresentação de Klazanorth e chegar apenas ao fim do show de Negra Mari, rapper de Ariquemes que encerrou sua passagem pelo palco principal com clássicos do funk carioca como “Eu Só Quero É Ser Feliz”.

Projeto Clandestino

Na sequência, veio o Projeto Clandestino, quarteto do Triângulo Mineiro que trafega pelas vertentes do blues rock e do classic rock, com direito a roupa preta, gaita e canções sobre identidade e amores perdidos. Se as canções próprias não chamaram muito atenção, vale o destaque para uma esperta cover de “Preciso Urgentemente Encontrar Um Amigo”, de Roberto e Erasmo – mas conhecida e reproduzida pelos mineiros no arranjo imortalizado pelos Mutantes em 1970. Você sabe o ditado: “it’s only rock’n’roll…”

Doral & Duda Raposo

Recém-chegada de uma viagem de oito horas direto de Rio Branco, em micro-ônibus com direito a ar condicionado quebrado e janelas que não abriam, a manauara Doral não deu bola para o cansaço na hora de subir no palco. Com uma sonoridade que passeia entre o folk fofo e o pop good vibes de gente como Vitor Kley, o grupo soou um pouco deslocado na proposta geral do festival, mas conquistou a ala jovem do público com produção esmerada, boa presença de palco e a participação da cantora Duda Raposo, também de Manaus. Poderia ter funcionado melhor (como foi jogando em casa, dois dias depois) se o som da casa colaborasse – embora seja necessário dizer que ajustes transformaram a situação de catastrófica na quarta-feira em apenas irritante no dia seguinte.

Além da Doral, estavam no micro-ônibus entre Acre e Rondônia o Mombojó e o grupo 43duo, de Paranavaí (PR), que se apresentou logo após os amazonenses no palco menor do festival. “Nós viemos do extremo Norte da região Sul para tocar aqui no Norte”, brincou o guitarrista Hugo Veloso. E vieram mesmo: Porto Velho, na verdade, foi a última parada de uma viagem feita por ele e pela baterista Luana Santana a bordo de um Chevrolet Spin branco, com diversas apresentações e boas conversas entre Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Rondônia.

43duo
43duo

Com o recém-lançado “Sã Verdade” debaixo do braço, o grupo fez um dos shows mais impactantes do festival, reproduzindo no palco a psicodelia sem naftalina do disco, masterizado por Alejandra Luciani (Boogarins, Carabobina). Em apenas meia hora, o 43duo fez uma bela exibição dos temas do álbum, com Hugo pilotando guitarras e pedais e Luana revezando seus membros entre a bateria e um synth bass potente. Pena que, num set tão curto, faltou a música mais legal do novo trabalho: “Navio de Sonhos”, uma releitura da pioneira banda Gralha Azul que, já em 1969, falava sobre reforma agrária. Mas nada que um próximo show deles não resolva.

Nitro

Naftalina, porém, foi o que sobrou no show da Nitro – banda histórica de Porto Velho que ajudou a organizar o festival Madeira Rock Festival, precursor do Casarão, e chegou a gravar com Rick Bonadio. Em formato power trio, a banda liderada pelo baixista Dennis Carvalho faz um rock básico dos anos 2000, à moda dos grupos que gravavam com o produtor da Midas Music. Hoje, porém, é um som que soa mais do que ultrapassado – e até mesmo quando alça um voo de galinha conceitual, ao reler “A Minha Mente Ainda É A Mesma”, de Edgard Scandurra, o grupo acaba soando datado.

Na mesma hora, não foram poucos os presentes que desviaram o olhar do palco para o celular, assistindo aos minutos finais da histórica vitória do Botafogo sobre o PSG no Mundial de Clubes. E por falar em covers, vale dizer que elas foram o destaque da apresentação do rapper Vision Apache, que releu Criolo (“Convoque Seu Buda”) e FBC (“Frank e Tikão”) – mas ao contrário o que diz a letra do rapper mineiro, Apache ainda não parece ter exatamente um bom “plano para ficar rico”, precisando de um pouco de maturação em seu trabalho.

Vision Apache

Entre a Nitro e Vision Apache, o Mombojó fez – de mansinho – o melhor show do Festival Casarão 2025. Com um set de uma hora, o grupo começou tranquilo, relendo as músicas mais lentas da estreia “nadadenovo”, lançada há 21 anos e celebrada na atual turnê (quarto melhor disco da década 00 em votação no Scream & Yell). Pelo meio da apresentação, porém, ao ver um casal com camisetas do disco “Carne de Caju”, dedicado à obra de Alceu Valença, o grupo fez um desvio e decidiu abrir espaço no setlist para a obra do decano com “Sino de Ouro” e “Coração Bobo”.

Foi a senha para uma meia hora final arrasadora: a mescla entre hits, o repertório do tributo e de “nadadenovo” gerou uma combinação explosiva, cujo pavio partia diretamente dos samplers, programações e sintetizadores de Chiquinho. A partir deles, Felipe S. obtinha a base para destilar seu charme e carisma em uma sequência sensacional: “Papapa”, “Morena Tropicana”, “Faaca” e “Missa”, desembocando no hino “Deixe-se Acreditar”. Um dos melhores shows do ano em território brasileiro na estreia dos pernambucanos em Rondônia.

Mombojó

Boa mistura também fez a Quilomboclada, a “Nação Zumbi rondoniense”. Presença certa em todas as edições do Casarão nos últimos anos, o grupo fez em 2025 sua apresentação mais interessante no festival ao convidar a rapper Sandra Braids e o compositor local Bado. Juntos, os três nomes têm excursionado pelo Norte e pelo Nordeste no circuito Sesc. A união do peso da banda com o rap potente de Sandra e a verve poética do cantautor deram boa cor ao repertório, que apresentou standards como “Bera” e “Afroindígena”. Com tempo inicialmente previsto para 40 minutos, a apresentação acabou durando uma hora por conta dos atrasos técnicos da Jovem Dionísio – a extensão permitiu um momento mais experimental de Bado ao violão, mas também diluiu um pouco da força da performance.

Quilomboclada & Sandra Braids

Com a casa ainda cheia pela metade, o Jovem Dionísio ainda demorou mais 20 minutos para preparar seu palco – oportunidade para o DJ Mário Vicente botar pra tocar crássicos como “Mr. Jones” (aquela) e “Born to Be Wild” (aquela também). Ao subir, o grupo curitibano exibiu uma salada sonora: foi do psicodélico ao trap higiênico (“to bem”, do meme “cê reparou que eu me arrumei? ah, tô bonitinho!”) em poucos minutos. Foi o suficiente. Quando eles cantaram “Acorda Pedrinho”, este repórter – que não se chama Pedro – já estava fabricando zês há um tempo em sua cama. A vida é muito curta pra ver um show inteiro do Jovem Dionísio, amigos.

Jovem Dionísio

Sexta – 20/06

Em sua última noite em Porto Velho, o Casarão tinha na programação a maior quantidade de artistas rondonienses escalados para atuar – foram seis ao longo da noite, em meio a um total de dez shows. Quem teve a missão de dar a largada nessa maratona às 20h, com uma hora de atraso para o previsto inicialmente, foi justamente a melhor banda local do dia: a Wari, um dos muitos projetos do baterista Rodolfo Bártolo. Fundada há 15 anos e sem nunca ter tocado fora do Estado, o grupo faz um bom pós-punk cantado em inglês – um tanto cartilhesco, OK, mas ainda assim mais experimental e sensivelmente superior à média dos grupos da região.

Wari

Para quem duvidasse, foi fácil fazer a prova dos nove conferindo Expresso Marciano, Chevy e os Galáticos e Benvindo ao Pacífico, três formações locais que passaram pelo palco d’O Monarka com propostas mais próximas do classic rock. Estreante no festival, a primeira tenta embarcar numa sonoridade viajante e bem-humorada, mas se limita a um humor rasteiro, enquanto a Chevy e os Galácticos se esforça, mas não diz bem a que veio. Já a Benvindo ao Pacífico tem bons músicos, com destaque para o baixista Anderson Benvindo, mas suas letras filosóficas acabam soando densas, repetitivas e, em alguns momentos, pedantes

Expresso Marciano

Analisadas em seu próprio contexto, tais sonoridades já podem ser vistas como conservadoras. Postas em contraluz com uma banda como Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo, que se apresentou entre a Expresso e a Chevy, a comparação se torna quase cruel. Não que a culpa aqui seja de Sophia, uma das figuras mais carismáticas de sua geração em cima de um palco, ou do trio que a acompanha – Vicente Tassara (guitarra, voz e teclados), Téo Serson (baixo) e Theo Cecato (bateria e voz).

Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo

Em pouco mais de cinquenta minutos, ela contou piada, agradeceu a produtora Francesca Ribeiro por ficar na lojinha, fez corinho pros colegas de banda, fez discurso e até berrou um “Palestina Livre”, depois de contar que chegou a Porto Velho no mesmo voo que o governador Marcos Rocha, recebido no aeroporto com “louvores e bandeiras de Israel” após ficar preso num bunker em território israelense. “Não é privilégio de vocês: a gente também tem um governador vergonhoso”, arrematou Sophia, que tinha voo marcado para Manaus logo na sequência da apresentação. Com a enorme perda de tempo para o início do festival, foi necessária uma inversão logística, colocando o grupo paulistano para tocar no palco menor – e cedendo o slot seguinte no palco principal à Chevy, o que pode ter afetado em partes a performance do grupo de Vilhena.

Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo

Para o quarteto paulistano, a mudança foi uma boa notícia: ao tocar no palco menor para uma pequena mas poderosa multidão de 50 pessoas, Sophia e seus companheiros pareciam estar num inferninho ou portinha da Vila Madalena. Terreno mais que propício para o grupo destilar o repertório de seus dois discos num cruzamento de Pavement, Tropicália, Vanguarda Paulistana e um cadinho de Nietzsche, além de mostrar duas boas inéditas: “Cinema Brasileiro”, hino sáfico pronto para celebrar a boa fase da sétima arte nacional, e a sacana “Eu Não Bebo”. Ao final, ainda teve tempo para um excelente medley de “Delícia / Luxúria” e “Segredo”, duas das canções de amor & tesão mais poderosas dos últimos anos. Em tempos de bet, não custa nada fazer uma aposta: dois ou três anos podem ser suficientes para dar a Sophia e seus amigos o posto de headliner em muitos festivais independentes do Brasil.

Zoohumanos

Enquanto ms. Chablau já estava a caminho de Manaus, a acreana Zoohumanos prosseguia os trabalhos: se em estúdio o grupo remete aos Los Hermanos e ao rock dos anos 00, no palco a sonoridade se espalhava para o rock e algum balanço da música negra. Ainda no palco menor, também passou por lá a Beradelia. Outra atração praticamente fixa do Casarão, o grupo mistura o formato rock dos anos 90 à la Red Hot Chili Peppers com uma pegada regional, buscando celebrar a cultura beradeira. À primeira escutada, soa interessante, mas com três apresentações em três edições seguidas, o grupo não apresentou muita coisa nova.

Beradelia

O mesmo não se pode dizer de Gabriê, cantora rondoniense que já participou do “The Voice” e é o principal nome mais à MPB da cena local. Se em temporadas anteriores ela buscou a sofisticação, trazendo banda completa com direito a sanfona e flauta transversal, desta vez a artista simplificou, apoiando-se numa formação de baixo, guitarra e bateria. Além disso, Gabriê parece ter começado a entender a velha máxima de que é preciso cantar a sua aldeia para falar do universal.

Gabriê

Em vez de canções sobre suas férias na Bahia, como mostrou em 2023, ela trouxe à tona a forte “Da Beira”, lançada no ano passado, quando Rondônia passou 70 dias sem chuva e em meio à fumaça das queimadas. É um caminho, mas ainda falta algo – noção que ficou evidente quando a cantora, apesar de dispor de um repertório amplo, decidiu repetir o single ao final de seu show. E olha que a apresentação ainda teve tempo compartilhado com outra pequena estrela da cena, o cantor Bonfantti: com careca lustrosa e muita maquiagem, ele fez dueto com Gabriê e também mostrou temas de inspiração LGBTQIA+, como a balada “Espinho”.

O relógio já passava da meia-noite há tempos quando o cearense Mateus Fazeno Rock subiu ao palco, antes ainda da Beradelia. O público, que já não era grande, estava na casa das dezenas de pessoas presentes – mas tinha em suas fileiras a aparição ilustre de Vitor Brauer, da Lupe de Lupe, atualmente em residência artística na capital rondoniense. A plateia quase vazia não importou para Mateus, que lutava para superar a gripe contraída após o choque térmico no périplo Fortaleza-São Paulo-Porto Velho.

Mateus Fazeno Rock

À base de muita dipirona, o cearense buscou fazer o que pode para mostrar as bonitas canções de “Rolê nas Ruínas” (como “Melô do Djavan”) e “Jesus Ñ Voltará” (“Melô de Aparecida”, “Pôr do Sol Marrom”). Pena que alguns problemas no som afetaram o final da apresentação, deixando de fora do repertório uma de seus melhores temas, a envolvente “Legal Legal”. A boa notícia? Mateus não só prometeu voltar, como também mandou avisar que terá disco novo em agosto.

No planejamento inicial, a Rancore deveria fazer o último show do Casarão em Porto Velho a partir de 0h30. O quinteto paulistano só subiu ao palco, todavia, lá pelas 2h15 da manhã, quando um punhado de incautos ainda permanecia n’O Monarka. Quem ficou, porém, pode ver uma banda cheia de vontade. Ainda que as letras nem sempre condigam com a idade dos músicos e os refrões sejam cheios de frases feitas, em uma proposta de rock populista, é difícil dizer que o Rancore não entrega o que promete – especialmente pelo vigor do vocalista Piteco Martins.

Rancore

Por outro lado, é preciso dizer que o baixo público presente no final do festival pode servir como um sinal de alerta – vale lembrar que, há três anos, em condições e horários parecidos, Otto reuniu mais de duas centenas de pessoas para fechar o Casarão logo após a retomada da pandemia, numa época em que ainda havia medo da covid-19. É evidente que as condições são diferentes daquele período. Para começar, o Casarão 2025 foi feito na raça, dividindo atrações com outras etapas em Estados do Norte e sem apoio de algum edital, como explicou o fundador e curador Vinicius Lemos em entrevista recente ao Scream & Yell.

Além disso, com menos verba, é natural que se invista menos em publicidade – seja em rádios, outdoors ou nas mídias sociais. No que tinha de divulgação orgânica, porém, o Casarão sofreu também com a ambição de organizar várias etapas em diferentes cidades, o que deixou muita gente confusa na hora de entender quem tocava, aonde e a que horas.

O interesse do público também parece ter mudado: tanto a pandemia quanto a retomada de um festival que ficou quase uma década parado geraram um apetite inicial que não se concretizou em 2025. Pesou ainda a coincidência das datas do evento junto às das festas juninas e arraiás, verdadeira febre em Porto Velho. Além disso, a curadoria ampla que o festival rondoniense se acostumou a fazer pode deixar muita gente confusa – ou com preguiça de sair de casa para ver uma banda que não está nas suas playlists já de antemão.

Junte-se a isso o fato de que o festival têm repetido várias atrações de fora nos últimos anos: Maglore, Daniel Groove e Terno Rei apareceram em duas das três edições pós-pandêmicas, por exemplo. É claro que trazer artistas com boa ligação com o público local pode ajudar, mas o fator novidade parece pesar na hora de converter escolhas em ingressos vendidos – não à toa, a noite mais povoada do festival foi a que trouxe os “estreantes” Mombojó e Jovem Dionísio. Vale ainda dizer que muitos artistas locais também tem espaço fixo no festival. É uma iniciativa mais do que relevante para valorizar a cena rondoniense, mas que também ajuda a deixar o festival inchado e, por vezes, eclético demais. Implementar algum tipo de rodízio ou mesmo promover encontros pode ser uma forma de contemplar sem gerar descontentamento.

Há algo, porém, que não faz parte das responsabilidades do Casarão – muito pelo contrário. Em um cenário em que o midstream é cada vez mais exíguo e os números de ouvintes mensais ditam a regra do jogo, é um desafio entender quais artistas podem ocupar a posição de headliner em festivais independentes. Um caminho do meio entre ser uma atração capaz de atrair o público, mas sem deixar o hype inflacionar os cachês para fora da realidade brasileira (ainda que seja preciso aqui recorrer à velha máxima de que “não tá fácil pra ninguém”). Adicionar a derivada da complexa logística da região Norte a essa discussão torna a equação ainda mais difícil de se fechar. Ainda assim, esta é uma conta que precisa ser feita – e nesse sentido, mesmo com diversos percalços, vale mais reconhecer os acertos do Casarão nesta edição que celebra seus 25 anos.

Eles são muitos: entre o joio e o trigo, há agora bons nomes de Rondônia que merecem alçar voo pelo Brasil. Trazer os artistas de fora para estabelecer contato com a cena local é algo que pode trazer frutos para os dois lados. Elaborar um circuito que une Porto Velho a outras capitais da região pode e deve servir para reduzir custos, além de ampliar o acesso a novas e diferentes opções de música. E, sobretudo, é preciso falar dos shows – e as apresentações dos mais variados nomes, do Mombojó ao 43duo, da Maglore ao Tronxo, da Camarones a Marcela Bonfim, vão ficar na memória por um bom tempo. Se o leitor permite mais um gracejo: eu disse que acreditassem, eu pedi que acreditassem… pois aconteceu em Porto Velho.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010. Fez as fotos de Daniel Groove, Wari e Beradelia.
– Douglas Mosh é fotógrafo de shows e produtor. Conheça seu trabalho em instagram.com/dougmosh.prod

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