entrevista de Alexandre Lopes
Quem acompanha a cena independente brasileira provavelmente já cruzou com o nome Gabriel Ventura. Guitarrista de timbre inconfundível da extinta e cultuada banda Ventre, artista solo desde 2020 e há mais de uma década um dos responsáveis pelos bastidores dos shows de Lenine, Ventura sempre transitou entre os holofotes e os cabos de som. Agora, ele se coloca novamente no centro da própria criação com “Pra Me Lembrar de Insistir” (2025), seu segundo álbum solo, lançado em maio pela Balaclava Records.
Mais do que um conjunto de canções, o disco é um registro de sobrevivência criativa, um lembrete íntimo e ao mesmo tempo aberto ao público de que criar música é uma necessidade e surge como fruto de perseverança. O álbum soa quase como um diário, redigido à mão por violões delicados, memórias gravadas em fita cassete e colaborações de amigos músicos como Felipe Duriez, Bruno Giorgi, Emilie Roussille, Aline Gonçalves, Arícia Ferigato, Vitor Araújo, Vovô Bebê, Yuri Pimentel e Patrick Laplan (também co produtor do álbum).
O título do disco nasceu como um bilhete pessoal para o próprio músico, mas acabou ganhando um significado coletivo. “Insistir”, aqui, não é apenas uma ideia, mas uma prática. Do Gabriel adolescente de 17 anos gravando ideias num gravador caseiro em 2006, ao artista maduro que segue, quase duas décadas depois, fazendo as mesmas perguntas. “Desde aquela época, até antes, já estava batendo cabeça nisso aqui. Tentando fazer, aprendendo, buscando”, confessa o músico.
Com uma sonoridade mais acústica e íntima do que sua estreia solo, “Tarde” (2020), o novo trabalho revela um artista mais silencioso, mas não menos potente. E mesmo que não viva exclusivamente de sua música (Gabriel continua atuando como roadie de Lenine), sua entrega artística carrega a força de quem insiste – seja nos palcos ou nas gravações.
“Pra Me Lembrar de Insistir” também ganhou forma visual em clipes como o de “Fogos” e o duplo “O enfeite do não e o sim / Toda Canção”, dirigidos por Isadora Ravacci, Alexandre Rozemberg e Raphael Barbanjo (que também assina a capa e as fotos do disco) por meio da produtora Filmes Possíveis. O foco destas obras está no processo do músico: mostrar o fio passando pelo violão, a câmera registrando os gestos de Gabriel, o detalhe antes do som. Porque esse também é o espírito do disco: a beleza e o significado que ainda existe em fazer as pequenas coisas ao seu tempo.
Na conversa a seguir com Scream & Yell, Ventura fala sobre o processo de criação do álbum, a experiência de viver a música dentro e fora dos palcos e sobre como seguir adiante, mesmo quando tudo parece pedir o contrário. Confira a entrevista completa abaixo.
O nome do disco (na integra acima) é “Pra Me Lembrar de Insistir” e trata sobre você continuar fazendo música. Quando vi o título, me pareceu algo melancólico e também no sentido de resistência – sobre ser músico autoral nos dias atuais, o que está bem difícil. Quando escolheu esse nome, pensou nesse sentido amplo também? Ou estava pensando mais em você mesmo?
Cara, é engraçado… O título em si tem mais a ver com o processo, com o ato de fazer um disco, do que com o tema das canções que estão presentes nele. De certa forma, eu acho um disco muito romântico. Pra mim, o disco é super amor. Mas quando dei esse nome, estava pensando mais em mim. Mas em um sentido também amplo, que é exatamente isso que você falou. Desculpa o clichê, mas é foda ficar dando esse eterno murro em ponta de faca, sabe? É um processo muito longo, realizar um disco. Muito emotivo. Então você fica muito sensibilizado. Envolve muito dinheiro porque, obviamente, você tem que pagar todo mundo que está trabalhando. Nada nesse universo se realiza sozinho. Por mais que a gente tente centralizar, tentar realizar todas as funções, se esgotar até o máximo e ficar sem dormir, porque não tem muito dinheiro pra pagar profissionais capacitados pra isso. Isso pode até acabar enfraquecendo o próprio resultado, mas já seria outra conversa. Mas acho que é isso mesmo: fazer o disco foi pensar profundamente no porquê eu insisto em fazer isso. Então acho que foi uma busca por respostas nessa questão. Mas esse meu questionamento no sentido amplo. Eu acho que é de todo mundo. Seja na arte ou não. O mundo está difícil… sempre foi. Viver é complicado, de certa forma. Então é pessoal, mas também generalizando, porque não é um questionamento só meu.
Eu li umas entrevistas mais antigas e lembro que você comentava que a música não é o seu único ofício. Você trabalha com o quê exatamente?
Eu sou roadie. Trabalho para vários artistas, como freelancer, em festivais e tudo mais. Mas o trabalho que mais faço, há mais de 10 anos, é com o Lenine. Viajo com ele, sou roadie dele há mais de 10 anos.
Então você vive de música, mas não necessariamente da sua música, né?
Exatamente.
E como é que você acha que está o cenário agora, no pós-pandemia? Tanto no trabalho como roadie quanto pra tocar seu material… Você acha que já deu uma estabilizada ou piorou?
Cara, como músico estou mais afastado. Talvez eu nem seja a melhor pessoa pra responder isso… É que eu me mudei do Rio de Janeiro, vim morar em Petrópolis no meio da pandemia, então vai fazer, sei lá, quatro, cinco anos. E aí é aquela coisa: quem não é visto, não é lembrado. Então hoje eu toco basicamente comigo mesmo, sabe? Não me sinto muito capacitado pra falar como é viver de música agora, sinceramente. Porque pago minhas contas exclusivamente com o trabalho de roadie. Às vezes rolam umas produções, produzo alguns artistas, gravo guitarra pros outros aqui em casa. Mas essa soma definitivamente não paga o meu aluguel, minha conta de luz, o mercado… Não dá. Isso vem majoritariamente do meu trabalho como roadie. Então talvez sobre isso eu possa comentar melhor. Mas acho que meu caso também é um pouco mais setorizado, pelo fato de eu trabalhar com um artista só há muitos anos. Isso acaba meio que me deixando quase exclusivo dele. Mesmo sem querer ser, e sem que ele queira que eu seja. Mas por estar quase sempre com ele, quando os amigos me pedem: “Pô, me cobre aqui nessa data?”, eu acabo dizendo: “Putz, bicho, tenho Lenine nessa data, não vai dar”. Aí o ritmo de convites acaba diminuindo também. Se o cara me chama uma, duas, ou três vezes e não dá, ele acaba chamando outra pessoa, né?
Claro. E está todo mundo certo!
Sim, sim. Então acabo trabalhando mais com ele nesse tempo todo. O que é um gigantesco privilégio, estar com um medalhão da música brasileira e mundial há tantos anos. Ter a confiança de zelar pelos instrumentos dele, de estar de olho nos shows e tudo mais. É uma responsa gigantesca e uma honra, um aprendizado absurdo. A quantidade de coisa que você aprende observando é assustadora. Estar perto de um cara como ele é tipo uma faculdade interminável. Você fica ali, falando de vida, de relação com equipe, de como tratar os outros, como tratar o fã, como chegar no palco… E isso eu também acho importante na questão do músico. O que eu vou dizer agora é uma brincadeira, tá? Mas acho que todo músico tinha que passar por um estágio de alguns meses a um ano trabalhando como roadie, locando amplificador, essas coisas. Acho isso importantíssimo, porque setoriza o ego do músico, tira esse glamour bobo de que é um ser iluminado, dotado de um talento angelical. Você tem que aprender a falar com as pessoas, tem que entender que seu trabalho é tão importante quanto o do padeiro. É uma especialização que você fez na sua vida. Você perdeu um tempo estudando uma parada, o cara ali perdeu tempo estudando outra parada. E esse fato de você zelar por alguém ou por um grupo de pessoas, bota a cabeça no lugar, bota o ego no lugar. Acho isso importantíssimo.
Voltando sobre o disco novo: sinto que tem mais violão do que guitarra nele. Mas fora isso, o que você acha que fez de diferente nesse trabalho em relação aos anteriores?
É, com certeza. Mas acho que é algo natural. E vou te dizer: se eu lançar um terceiro disco, vou repetir isso. Se lançar um quarto, também. É um amadurecimento. Não tem muito pra onde fugir. A gente vai ficando mais velho – estou com quase 37 anos – então quero falar sobre outras coisas. Quero naturalmente explorar elementos musicais dentro do meu trabalho que eu não explorei antes. Os temas vão mudando. O disco que você mais ouve em 2025 não vai ser o mesmo de 2026, e assim por diante. Então, de certa forma, eu fiz tudo e nada de diferente. Porque a pessoa continua sendo a mesma. Cada um tem partículas de individualidade que não tem como tirar. Você pode até tentar suprimir, mas não adianta. Esse Gabriel está ali sempre. Mas mudam os temas, o que está sendo dito, a forma como as coisas são arranjadas. Comparando com o primeiro disco, agora com um olhar mais clínico, acho que quis fazer menos cortes. No primeiro, forcei um pouco essa barra propositalmente. Era tipo: “Caraca, estou curtindo muito aqui, nossa senhora, pra onde eu fui e voltei!” Eu queria dar essa dinâmica mesmo, porque tinha a ver com o que estava sendo dito nas letras. E pra mim, a palavra sempre é o norte de tudo; o arranjo da música vai atrás do texto. Talvez por isso eu não tenha muita preocupação com refrão. “Ah, vou voltar pro refrão”? Normalmente não. Eu vou fazendo música em partes – A, B, C, D, E – porque estou emoldurando a historinha que quero contar, do jeito que consigo. Nesse segundo disco, eu quis tornar essa moldura um pouco mais fluida. Um pouco mais fácil, palatável, menos brusca. No primeiro disco eu dava umas freadas muito secas. E agora quis abrir mais a instrumentação, o que foi maravilhoso. Eu ainda não tinha experimentado isso: abrir o processo e chamar pessoas com quem nunca tinha tocado, sem briefing nenhum e dizer: “ó, a música é essa aqui. Pensei em você. Faça o que você quiser, um beijo”. Claro, me permite conversar depois, se tiver algo que a gente precise ajustar… Mas se eu chamei a Arícia, a Aline, o Vitor, o Vovô Bebê, o Patrick, o Yuri… é porque eu quero o Patrick, o Yuri, a Aline, e não uma extensão de mim. Não tem que ser igual. Isso foi talvez a parte mais prazerosa: descobrir isso. Pode ser comum pra vários artistas, mas pra mim, não era nem um pouco. É muito interessante entregar algo que você achava que sabia como ia ficar e receber de volta uma parada que você pensa: “Meu Deus… caraca!” Isso me deixou muito contente. Quero continuar exercitando isso daqui pra frente. Mas essa coisa do violão, eu realmente quis que tivesse mais presente. Acho que o violão traz uma cor, uma coisa mais íntima. Sempre tem ali um violão de nylon, uma coisa mais pessoal… Tinha arranjos que, na minha cabeça, soariam muito melhor com violão. Então segui esse caminho. E também foi uma maneira de apresentar outro lado meu, algo diferente. Guitarra é maneiro, mas já fiz um disco assim. Tem o que fiz no Ventre também. Mas eu estudo violão à beça, então queria poder mostrar esse estudo também. Teve essa grande vontade. Mas vai do que a música está pedindo. Eu posso ter minhas vontades, mas a palavrinha ali, o texto, está dizendo o que precisa. A gente só vai colocando uns desenhos em volta.
Você acha que, pra esse disco, você compôs mais no violão? Ou sempre foi assim, e dessa vez você só resolveu explorá-lo mais na gravação?
Eu acho que, pra mim, compor – seja no violão, seja na guitarra – depende mais do que estou próximo naquele momento. Não tem uma coisa tipo: “Ah, eu gosto de compor sentado, ao meio-dia, com luz natural…”. Não é isso. Eu fico estudando, e se num determinado momento da minha vida estou estudando mais violão, eu vou acabar compondo mais no violão. Isso não me impede de depois levar pra guitarra, ou o contrário. Talvez no “Pra Me Lembrar de Insistir” eu estivesse estudando muito violão naquele momento, e justamente em algumas músicas, eu não quis levar pra guitarra porque não precisava. Outras eu comecei no violão e achei que ia ficar mais bonito na guitarra. E outras eu realmente já fiz direto na guitarra. Então é uma coisa muito… abstrata, sabe? Não tem muita regra, não.
Eu percebi que no disco também tem harpa. Você pensou primeiro no som do instrumento ou na contribuição da pessoa, especificamente?
Foi um pouco dos dois. Eu conheci a Arícia, que foi quem gravou maravilhosamente a harpa. Obrigado, Arícia! Acho que foi num show que fiz em Belo Horizonte, naquele projeto Tranquilo, se não me engano. Um esquema mais intimista… E aí a Arícia foi assistir ao show, e quando acabou a gente ficou trocando a maior ideia. Eu não a conhecia. A gente se deu super bem, ela falou que tocava harpa, me mostrou uns vídeos, umas coisas… e eu fiquei com aquilo na cabeça eternamente. Pensei: “Porra cara, uma harpa ia ser foda.” Aí, quando comecei a gravar “Fogos”, falei: “Cara, em ‘Fogos’ ia ficar incrível.” Então, naquele momento, eu já estava pensando no som do instrumento, mas porque já tinha ficado com essa vontade depois de conhecer a Arícia. Viramos amigos, aquele tipo de pessoa que parece que você já conhece há muito tempo. Aí pensei: “Pô, vou manter ela por perto.” Fiquei com isso na cabeça. Aí uniu o útil ao agradável.
E nesse disco, como no anterior, você trabalhou novamente com o Patrick Laplan na produção e tocando alguns instrumentos, bateria e baixo. Queria que você falasse um pouco sobre essa parceria de vocês dois, como começou e se estendeu para esse disco também.
Ah, é um pouco do mesmo caso da Arícia. Eu já tinha feito dois trabalhos com o Patrick, mas bem esporádicos. Ele me chamou pra gravar umas coisas, acho que foi com o João Capdeville e com o El Efecto. Fui lá, gravei, aquela coisa rápida: você troca uma ideia, dá umas risadas, grava, e volta pra casa. Aí, um belo dia, ele me ligou e falou: “Pô, cara, vamos fazer um som…” E eu falei: “Porra, claro!” Estava sem tocar com outras pessoas já fazia um tempo, o Ventre já tinha acabado, enfim… Fui lá, e rolou de novo essa coisa de parecer que a gente já se conhece muito bem. Mesmo sem muita intimidade pessoal, a gente meio que começou a tocar direto, nem falou muito. Foi tipo: “Senta aí, toca qualquer coisa, e no fim a gente vê qual é.” E foi isso. Hoje somos grandes amigos, criamos uma intimidade musical muito profunda. A gente gosta de coisas muito parecidas. Claro, tem lugares que ele vai e eu não, e vice-versa, somos pessoas diferentes, mas a gente se dá muito bem, troca muito bem, conversa muito bem. Isso é muito importante, ainda mais quando você está compondo e produzindo qualquer tipo de trabalho – não só música. Tem que haver diálogo, tem que se entender, tem que falar a mesma língua. Na época do “Tarde”, eu já estava com isso na cabeça: queria fazer um disco e chamei o Patrick pra fazer comigo. O “Tarde” é basicamente eu e ele o disco inteiro: todos os instrumentos, todas as baterias, todos os baixos é ele tocando, gravando, pensando junto. Quando fui fazer o segundo disco, chamei ele de novo. É uma pessoa de quem eu gosto, com quem me sinto confortável, sou um grande fã. É outra pessoa com quem eu aprendo o tempo inteiro. Quero estar perto. Foi natural.
Você falou sobre essa coisa mais espontânea, de deixar rolar ou controlar mais a gravação. Aí, ouvindo o disco, quando cheguei nas faixas “Inspiração 1 – Ano 2006” e “Inspiração 2 – Ano 2024”, achei que elas pareciam demos, esboços de canções. É isso mesmo?
Sim. Essas duas vinhetas cumprem um papel importante pra mim: afirmar o título do disco e o porquê de insistir. A “Inspiração 1 – 2006” é uma fita cassete minha de 2006. Eu me encontrei com ela fuçando coisas. E a “Inspiração 2 – 2024” também é um trecho gravado em fita cassete, agora em 2024. Então é isso: “Pra me Lembrar de Insistir”. Voltei lá no Gabrielzinho de 17 anos tocando, tentando entender como fazer música, gravando com um gravadorzinho de fita cassete Philips. Guardei todas essas fitas, achei, e joguei direto, não tem manipulação nenhuma. Dei play na fita, gravei pro computador, e o que você escuta é isso aí. Tanto que a gravação tem uma qualidade meio estranha, desafina às vezes – tem essas coisas de fita cassete. É isso aí, é o que é.
E a de 2024 você gravou com um equipamento parecido?
Sim, com um gravador de fita também. Não foi o mesmo porque infelizmente, ele já não funciona mais. Mas peguei um outro gravadorzinho, uma fita cassete velha – não achei onde comprar uma nova aqui perto, em Petrópolis, mas também nem procurei muito. Usei uma dessas fitas que tinham programas de rádio que eu gravava quando era moleque, pra tirar música. Gravei por cima de um desses trechos e fiz o mesmo processo: joguei pro computador, pronto.
É uma atitude meio saudosista. Você pensou nisso como conceito também? Como você enxerga essas duas faixas dentro do álbum?
Cara, não acho que, nesse caso, a busca tenha sido estética; não era uma coisa de buscar o “antigo”. Não estava preocupado com isso. O foco era na naturalidade da coisa: não tem edição, afinação, equalizador, nada. É aquilo ali. E isso, naturalmente, traz uma intimidade. Na faixa de 2024, por exemplo, eu estava aqui, nesse mesmo quartinho onde estou falando com você agora, que é onde gravo minhas coisas. Tem esse aspecto íntimo. E mais do que isso, era essa afirmação: sigo insistindo. Talvez por isso a faixa de 2024 fecha o disco. É quase como se, na minha cabeça, eu dissesse: “Ó, tô seguindo, hein.” E a de 2006 é tipo: “Desde aquela época, até antes, já estava batendo cabeça nisso aqui. Tentando fazer, aprendendo, buscando.” Pra mim, essas faixas amarram o conceito do disco. Elas são muito importantes por isso.
Uma pergunta sobre uma faixa específica: “Lanny” é uma homenagem ao Lanny Gordin?
Obviamente, até pela harmonia. Não tem como. Aquele tipo de acorde ali… aquilo ali, o querido professor nos ensinou e nos ensina eternamente. Aquilo era pra ser a introdução de “Brusco”, tanto que ela está logo antes. Eu quis separar pra dar destaque, pra poder nomear. Porque estava muito óbvio. Se eu colocasse aquilo e falasse: “Uau”, não. Cara, aquilo ali é Lanny Gordin, pelo amor de Deus. Então eu quis prestar essa homenagem. Ele é um medalhão na minha cabeça, assim. Escutei muito, sigo escutando e aprendendo.
Vi que o disco já tem dois clipes – na verdade, três porque um deles une duas músicas em um clipe só. Queria que você falasse um pouco sobre eles.
Acho que nos clipes, assim como em tudo que eu pretendo fazer na minha vida, o mais importante é a troca. Em “Fogos”, eu chamei a Isadora e a galera da Filmes Possíveis, a produtora que realizou o trabalho, Isadora, Alexandre… E eles me apresentaram o Raphael Barbanjo, que também virou um grande amigo depois. Ele acabou comandando mais o clipe duplo, mas foi ele quem fez a capa e todas as fotos do do álbum, de divulgação, tudo é dele. Ele também fez a direção de fotografia dos dois clipes. E foi isso: convidei, a gente tinha a ideia de fazer um clipe, e a Isadora e o Alexandre desenvolveram todo o enredo. Eu só fui atrás ali: “Gabriel, senta aqui.” Eu: “Beleza.” “Senta aí, olha pra cima.” Eu: “Ok.” Foi meio que isso. Claro que eu pontuo algumas coisas, porque é um trabalho que vai me representar. Mas não só a mim, a eles também. Se eu fiz o convite, não posso depois ficar dizendo: “Ah, isso aqui tá doido.” Então fiquei nessa posição mesmo. E isso foi “Fogos”.
E de onde surgiu a ideia de combinar as faixas “O enfeite do não e o sim” e “Toda Canção” num clipe só?
Cara, foi na verdade uma grande dúvida. Eu não sabia qual das duas músicas lançar. Fiquei em dúvida, “caraca, lanço uma? Lanço a outra?”. Aí falei: “Quer saber? Vou lançar as duas. E vamos ver o que vai dar”. E aí fomos criando essa ideia. O motivo visual foi esse: o encordoar do violão. O Felipe Durães deu uma ideia maravilhosa de deixar a coisa mais “nude”, mais aberta. Porque eu não estou botando corda no violão – é um cordão, na real. Então tem aquele cordão do meu lado, e estou passando ele pelo violão. Eu, Barbanjo, Isadora, Alexandre, discutimos bastante o tema e chegamos nessa ideia de mostrar mais o processo. Já que o nome é “Encordoar” e a gente está fazendo material audiovisual, vamos também mostrar o processo do audiovisual. Então tem cena deles filmando, tem cena do Barbanjo com aquela câmera velha dele. Isso também amarra o nome do disco. É mais uma maneira de olhar pro ato de insistir. Porque se eu estou insistindo, eles também estão. Todos nós estamos, seja no que for. Mostrar isso, o processo de encordoar, de filmar, de montar, aproxima a gente de uma resposta pro “por que seguimos insistindo?”. Talvez, quando a gente olhar pra trás, entende o como e o porquê de fazer as coisas.
Quando está gravando, você evita ouvir outros artistas pra não refletir no seu trabalho?
Cara, não, eu não evito ouvir nada não. Pelo contrário, eu acho que eu escuto mais coisas, sabe? Escuto para me inspirar mesmo. Não acredito nessa coisa de “Nossa Senhora, caiu um raio na minha cabeça e fiz uma música”. Não, não. Eu tento, fico reescrevendo letras interminavelmente, fico na picuinha da harmonia eternamente. E acho que ouvir outras coisas vai me dando ideia, me inspirando. “Ah, vou fazer por aqui, vou fazer por ali.” Como a gente falou antes, não dá para você retirar sua individualidade, pelo menos eu não imagino como isso seria possível. Eu não acho que é porque estou ouvindo outro artista que eu vou deixar de ser eu, sabe? Claro que pode rolar uma referência a algum músico, por exemplo, o Lanny. Eu olho e falo: “Pô, pelo amor de Deus, Gabriel, baixa a bola, né, amigo, segura.” (risos) Mas, no fundo, não acho isso negativo. O importante é você saber dosar isso e contar com a ajuda de um amigo. Eu produzi esse disco com o Patrick, então o olhar dele também foi muito importante. Então você vai encontrando essa medida, que é variável, cada um vai ter a sua, mas você encontra essa dosagem. Mas, para mim, ouvir as coisas é bom demais. Só me traz mais ideia, mesmo.
Depois que você termina um álbum, você costuma voltar a ouvi-lo ou você meio que deixa de lado, tipo “não aguento mais”?
Eu não escuto muito não. Escuto mais no processo inicial, porque tem aquela coisa de fazer show. E geralmente, quando você lança um disco, você já gravou ele há um tempo. Às vezes, eu realmente não lembro mais como é que eu toco as coisas. Então, preciso ouvir para me lembrar de como é que fiz isso, pensar nos arranjos, o que tem que ter. Porque transpor o disco pro ao vivo é uma experiência completamente diferente. Não é só reproduzir tudo o que está ali; é outra coisa, outra experiência. Para mim, cada um tem sua visão, mas eu volto a ouvir o disco para relembrar e decidir o que deve ter no show, o que não precisa, e assim por diante. Mas passado esse processo de aprender o que ainda estou aprendendo nele, acho que não vou ouvir muito não, porque este foi um disco que eu me arrisquei a mixar, então foi um envolvimento gigantesco. Você escuta as coisas com uma lupa muito grande. Tipo, a açãozinha da bateria, que você fica ouvindo ali… Caraca, é um processo interminável. E isso se conecta a essa coisa da mudança do ser humano: o que escuto hoje posso não gostar amanhã. Então, várias escolhas que fiz como mixador naquele momento provavelmente eu vou discordar daqui um tempo. Acho que, se ficar ouvindo, vou sofrer, pensando: “Ai, podia ter feito isso ou aquilo. Ah, por que fiz isso?” Então prefiro não ouvir, porque é importante manter o registro do momento. O disco é aquilo que você estava vivendo, tocando daquele jeito, o que você gostava, o que você tinha. Eu prefiro curtir dessa forma, ao invés de ficar revirando e sofrendo. Eu sei que, inevitavelmente, parte de mim vai fazer isso, então eu prefiro não ouvir.
Entendi. E esse “não ouvir” é só uma questão de respeitar o momento que foi. Como uma foto. E, às vezes, é bom deixar passar um tempo…
Exato, é isso. Eu acho que quando você não ouve por um tempo, há algo de gostoso, porque, quando escuta de novo, você pensa: “Porra, maneiro, hein! Gostei”. Sabe? É deixar esse sentimento acontecer. Se você fica preso ali, pensando em todos os motivos e tentando encontrar falhas, você não vive o disco como ele é. E, por mais que eu saiba que, daqui a algum tempo, eu possa ouvir e achar que poderia ter feito diferente, esse distanciamento é bom.

E o que você tem ouvido hoje em dia? Imagino que tem os clássicos que você ouve sempre. Quais são os seus?
Ah, eu sempre volto para os mesmos. Gonzaguinha, por exemplo, é um cara que eu sempre escuto, compondo. Ele tem uma coisa na escrita que é muito comovente, me identifico demais. Não é sobre copiar o cara, é sobre buscar inspiração no que eu gosto. Siba para mim também é um dos maiores, se não o maior, letrista e compositor da atualidade. E eu sou muito fã, não posso falar maior, não! (risos) Porque a gente não conhece todo mundo, mas é um dos maiores, com certeza, dos que eu conheço. Eu também escuto muito o Rodrigo Ogi. Ele tem uma história, desenvolve os enredos de uma maneira que você fica pensando que está vendo um filme e fica pensando: “Meu Deus, o que vai acontecer agora?” E você quer ouvir mais, porque é fascinante. Essa galera de São Paulo… Eu gosto muito de escutar o Rodrigo Ogi, o próprio Kiko Dinucci, e Juçara (Marçal), nossa senhora, sempre. Como no disco eu busquei muito violão, fui atrás dos medalhões do violão brasileiro para pegar referência. Passei pelo Lenine, que sempre me influenciou, mas, ouvindo os discos dele, percebo o quão avançada é a produção dele, com colagens nas músicas. O [João] Bosco também! E aí, você vai buscando, porque, no fundo, eu tinha esse norte: “Violão, vou estudar isso aqui”. Não tem lugar melhor que na música brasileira para aprender. Então fui ouvindo essas influências. Esses, talvez, sejam os mais recorrentes na minha vida e no processo do disco.
E o que você acha que seria o mais improvável de as pessoas acreditarem que você escuta? Tem algum som ou algum estilo que você acha que as pessoas diriam: “Isso não é a cara do Gabriel”?
Rapaz, não sei… porque essa pergunta me joga no exercício que eu acho perigoso fazer, embora todo mundo faça: projetar-se no outro. Ficar pensando: “Como é que o outro me vê?” (risos). Caraca, isso é um negócio muito grande. Mas, tendo que falar algo, talvez a onda do rap. Eu escuto muito, muito, muito rap. Acho muito revolucionário. Desde os Racionais, lá atrás, você pega os primeiros álbuns, e tem uma construção histórica neles que é impressionante. O Rodrigo Ogi, que eu mencionei, também tem algo nesse sentido. Tem algo na construção de história e como ele consegue emoldurar o enredo de uma forma muito sensível. Não vejo outros estilos fazendo isso de forma tão intensa. Claro que tem exceções, mas no rap nacional principalmente, eles exploram muito isso. É quase como um filme. Cada música que você escuta, os barulhinhos, as informações vão vindo e mudando… Você está na cadeia, depois num hospital, e essa construção é impressionante.
Você pensa em fazer algo nesse estilo algum dia? Aquele tipo de narrativa cinematográfica, como se fosse um filme, contando uma história?
Não sei se é para mim, não… Os caras dominam essa linguagem de uma forma que eu não tenho. Eu me inspiro nisso de certa forma e tento fazer isso, mas do meu jeitinho, à minha maneira. Talvez meu jeito de contar história seja diferente, mas eu busco algo nesse sentido. Meu trabalho tem um pouco como a coisa do “Tarde”, de ter esses cortes bruscos. É o meu jeito de emoldurar a cena. Mas meu jeito de escrever e pensar é diferente. E ainda bem que é, porque é a nossa individualidade, que é o mais importante. Mas meu jeito de compor, de certa forma se aproxima disso: de tentar sempre estar nesses climas, de ter um telefone que toca do nada, de ter uma quebra, porque é assim que eu acho interessante. A música, para mim, tem esse poder: ela pode ser um ritual. Você vai ouvir e ser transportado para aquele lugar. Eu acho que na música, o entretenimento puro não deveria ser o único objetivo. A música tem esse poder de te fazer pensar, de te inspirar, de te transportar para outro lugar. Não que o entretenimento não tenha seu valor, tem seu momento, mas a música deve ter o poder de fazer isso também, de te fazer ver o mundo de outra forma.
– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.