17º In-Edit Brasil: “A Última Banda de Rock”, de Lírio Ferreira, navega pelos altos e baixos da Cachorro Grande

texto de Renan Guerra

Entre 2018 e 2019, a banda gaúcha Cachorro Grande viveu tempos turbulentos, com uma ruptura clara entre o guitarrista Marcelo Gross e o vocalista Beto Bruno, ambos membros fundadores do grupo. Gross saiu da banda oficialmente em 2018; já em 2019 ele retornou para uma última turnê. Esses shows de despedidas foram o ponto de partida para que a história da banda fosse recontada e é assim que nasce “A Última Banda de Rock” (2025), dirigido pelo pernambucano Lírio Ferreira – nome fundamental da retomada do cinema pernambucano e autor de clássicos como “Baile Perfumado” (1996) e “Árido Movie” (2005), Lírio tem uma interessante bagagem com documentários musicais, tendo assinado “Cartola – Música para os Olhos” (2006) e “O Homem Que Engarrafava Nuvens” (2009), sobre Humberto Teixeira, parceiro musical de Luiz Gonzaga.

Ferreira parte do fim da banda e traz um retrospecto de como a Cachorro Grande se transformou num dos nomes mais importantes do rock nacional do início do século. Para isso, retornamos para a Porto Alegre dos anos 1990 e repassamos as referências basilares de Gross, Beto Bruno e toda a turma – Beatles, Rolling Stones, Who e todo o rock inglês. Com uma narrativa fluida e cheia de bom humor, “A Última Banda de Rock” consegue desenhar bem o caminho trafegado pela Cachorro Grande, desde o seu nascimento underground na boemia porto alegrense até seu primeiro disco como cartão de visitas de um som que conversava com os anos 60, mas que ainda assim reverberava tensões e desejos daquele novo milênio que nascia. Aos poucos, adentramos em todo o desenvolvimento da banda como nome de relevância nacional dentro do rock alternativo – desde seu lançamento pela DeckDisc até sua relação direta com a MTV, emissora que foi espécie de casa paulistana para a banda gaúcha.

O filme consegue trazer grandes highlights da história da banda, indo de suas premiações até seu marcante show abrindo para os Rolling Stones; mas mais que isso, o talento de Lírio Ferreira consegue captar todo o espírito caótico do grupo, especialmente o caos do espírito rock’n’roll, com seus exageros de álcool e drogas até a famosa falta de asseio dos integrantes (risos). Mas para além da farra e da bagunça, “A Última Banda de Rock” capta de forma muito genuína a amizade e irmandade da banda, desde os quatro integrantes presentes na formação atual – Beto Bruno, Marcelo Gross, Gabriel Boizinho e Pedro Pelotas – , como os ex-integrantes que são mencionados durante o filme. É essa narrativa de amizade que se torna uma das espinhas dorsais do filme, pois quando essas amizades se rompem e as mágoas aparecem é que surge uma tensão bastante humana de personagens que não buscam esconder ou diminuir suas dores diante da câmera – aqui um claro resultado do trabalho profissional e respeitoso da equipe do filme.

Numa das passagens mais tensas, Gross e Beto Bruno resgatam e revivem mágoas, ao que Bruno afirma que nunca mais essa banda retornará, alegando que ele nunca mais dividiria o palco com Gross. Isso foi em 2019. O filme foi finalizado em 2024. De lá pra cá o tempo correu, as coisas mudaram e a Cachorro Grande voltou aos palcos, com Gross e Bruno juntos de novo – atualmente a banda está rodando com uma turnê celebratória dos 20 anos do disco “Pista Livre” (2005). Enfim, outros caminhos que não cabem no filme de Lírio Ferreira… de todo modo, isso não diminui a força de “A Última Banda de Rock”, pois o filme se fecha em um ciclo muito bem amarrado, dando conta de um período de tempo importante para a banda e desenhando um importante registro de um universo do rock alternativo brasileiro que – para o bem e para o mal – já não existe mais. Não temos uma resposta definitiva se a Cachorro Grande é realmente “a última banda de rock”, mas o fato é claro de que eles bagunçaram o cenário nacional nos anos 2000 e isso, por si só, já é feito grandioso!

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava

One thought on “17º In-Edit Brasil: “A Última Banda de Rock”, de Lírio Ferreira, navega pelos altos e baixos da Cachorro Grande

  1. Oi Renan, o mercado da música não admite mais esse tipo de artista. Esses “excessos” da banda criaram um folclore por cima deles, que não sabemos mensurar até que ponto foi legal viver os velhos chavões do tal roquenrou (profissionalmente falando).

    Eu sei que após a extinção da MTV em 2013 eles se foderam (assim como muitos outros). Sem essa projeção nacional da MTV e uma Deck para dar suporte, somada a falta de traquejo dos caras para se entender com a internet e encontrar com o seu público na web, ficou mais difícil entender esse momento no mercado musical que eles trafegavam (2013 em diante).

    O único DVD da banda existe por uma casualidade (via MTV) como eles mesmos confirmam. Também pela MTV, anos antes ao DVD, eles ganharam uma premiação de melhor show ao vivo. Cadê o registro desse período ? Nesse sentido, Cachorro Grande foi uma banda que pecou por talvez não conduzir a carreira de uma forma tão profissional assim.

    Sabe o jogador de futebol que nos anos 90 tomava cachaça no sábado e domingo ia marcar o gol no Maracanã ? Esse bom brasileiro não existe mais, porque o futebol atual não admite esse tipo de comportamento. Antes de ser jogador o cara precisa ser atleta (infelizmente).

    Eu entendo que esses momentos de baixa da Cachorro Grande aconteceram mais por conta de uma inabilidade de condução na carreira. E não pela parte musical, que sempre esteve muito bem resolvida. Esse “defeito” mercadológico, talvez tenha sido o grande charme do grupo gaúcho, mas que o tempo soube cobrar o seu preço.

    Obs: o documentário é legal

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *