texto de Fabio Machado
Segundo o historiador (e eventual colaborador na carreira solo de Marcelo D2) Luiz Antonio Simas, Gurufim é uma brincadeira com música, bebida e comida que se fazia em velórios nas comunidades pretas e pobres no Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX. É literalmente “beber o morto”, celebrar a vida daqueles que se foram (e também enganando a morte, numa visão mais espiritual).
É um conceito distante do que estamos acostumados na visão européia ocidental, marcada pela tristeza e silêncio nos ritos de despedida. E para o Planet Hemp, um grande gurufim foi a escolha para encerrar os 32 anos de atividade na forma da turnê “A Última Ponta”, que vai passar por diversos pontos do Brasil a partir de setembro até um encerramento em grande estilo em São Paulo, dia 15 de novembro, no Allianz Parque, com a megaestrutura típica de outras “despedidas” vistas recentemente no cenário brasileiro, de Gil a Sepultura.
A referência ao gurufim apareceu algumas vezes durante a coletiva com jornalistas realizada em São Paulo, da qual Scream & Yell participou, trazida pelo próprio Planet Hemp. E a naturalidade diante desse encerramento de ciclo é visível para Marcelo D2 (voz), BNegão (voz), Formigão (baixo), Nobru (guitarra), Pedrinho (bateria) e Daniel Ganjaman (produtor e multi-instrumentista). Para BNegão, o anúncio da última tour representa “uma energia diferente de final, que não é aquele final ocidental clássico”. É algo que também representa uma necessidade de fechamento pela própria banda, segundo D2. “Parece que estava todo mundo com o coração esperando que alguém tomasse a decisão, tá ligado? Vamos fazer, vamos ser Planet Hemp pela última vez.”

Embalados pela jornalista Roberta Martinelli (que fez as vezes de apresentadora e mediadora do evento), é inevitável a reflexão dos músicos diante desse final de ciclo – em especial BNegão e D2 – sobre diversos momentos da carreira e do legado que deixam na música e nos movimentos sociais e políticos do Brasil. “Era um sonho de todo mundo aqui, de fazer parte de alguma coisa interessante. Acho que naquele momento, a gente não sabia o que era, mas fomoa atrás e acabamos virando o movimento”, comenta D2, ao relembrar a trajetória de “dramas e prisões” que envolve o grupo.
Ao serem perguntados sobre o que esperar em termos de participações especiais e novidades para essa sequência derradeira de shows, D2 e BNegão prometem trazer artistas tanto influenciados como referências para o grupo carioca, mas não confirmaram nem negaram um último registro de estúdio durante esse período, optando por manter o mistério no ar com a ajuda do parceiro Ganjaman.
Não deixa de ser irônico revisitar essa história em um evento reservado para jornalistas e criadores de conteúdo que hoje representam a “mídia especializada”, já que os veículos de mídia na década de 1990 estavam longe de ser simpáticos às bandeiras promovidas pelo Planet Hemp – com a tradução em português (“Planeta Maconha”) enfatizada em noticiários de TV para sinalizar a polêmica em torno da descriminalização das drogas – tema que avançou apenas recentemente no país, vale dizer.
Mas nesse movimento, a banda conseguiu pautar debates e plantar sementes; algumas dessas sementes estão florescendo agora, na geração que descobriu o grupo com “Jardineiros”, disco de 2022 – impulsionado pelo cenário político daquele período – que conquistou dois Grammys Latinos e foi eleito disco do ano aqui no Scream & Yell. É em meio a esse momento criativo que o Planet anuncia a sua última ponta, sem sinal de tristeza e preparados para celebrar com o mesmo espírito dos primeiros anos. Confira a seguir os melhores momentos da coletiva.

TRAJETÓRIA E LEGADO
D2: Eu acho que a gente tem uma história longa. Todo mundo nessa banda, nos anos 90, sonhou muito em participar de um movimento que a gente nem sabia o que era. Era um sonho de todo mundo aqui, de fazer parte de alguma coisa interessante. Acho que naquele momento, a gente não sabia o que era, mas fomos atrás e acabamos virando o movimento. A gente não só fez parte, mas a gente fez o movimento acontecer. Porque a história do Planet Hemp é uma história cheia de tramas e prisões e coisas… Esse drama todo que envolve o Planet eu acho muito interessante.
BNegão: Uma coisa importante dessa parada é que, quando a gente decidiu (acabar com a banda), eu acho que tem uma energia clássica. A gente estava falando lá dentro sobre isso. Uma energia diferente de final que não é aquele final ocidental clássico, europeu. Tipo assim…
D2: Gurufim.
BNegão: Exatamente, é um gurufim, que é a descendência africana. Que a galera comemora, tipo… Tem uma galera que dança para ir para a guerra, tem uma galera que dança para comemorar a colheita, e dança para o final do ciclo. E canta. Isso que está no gurufim, que está em New Orleans também, que é uma parada que eu acho foda. Sempre pensei nisso. Que é aquele esquema clássico da fita amarela. [nota do redator: citação à canção “Fita Amarela” de Noel Rosa].
VIDA E MORTE DE SKUNK
D2: A morte do Skunk (integrante fundador do Planet Hemp que morreu em 1994) foi um baque muito grande.
BNegão: A gente foi no show para acabar a banda, com 30 pessoas, né? E era um show deprê, aí a madrasta do Skunk chegou e falou com a gente. O Skunk era um hater clássico. Ele odiava tudo, desde que nasceu. E ela falou que a única coisa que o cara gostava era o Planet. Então, a gente decidiu continuar o Planet, naquele momento triste pra caralho, todo mundo arrasado, por uma memória do Skunk. Ninguém tinha um horizonte dessa geração dos 90. Tinha aquela rebarba dos anos 80 e não tinha horizonte nenhum, era tipo nada na frente. Então, a gente decidiu continuar em homenagem ao Skunk. E acabou que a banda e a geração toda estourou dessa loucura. Mas completamente fora do planejado.
D2: A gente precisava terminar o Planet no gurufim, no alto astral. Quando começaram a fazer o filme “Legalize Já” (2018), o Bernardo virou e falou assim (para os diretores Johnny Araújo e Gustavo Bonafé): “Cara, não deixa a gente ficar triste, sabe? Porque passamos por muita coisa, teve morte por AIDS, no auge da AIDS, no começo da banda”. Essa galera toda aqui da banda, a gente tinha um sonho, viveu desse sonho, e é muito difícil fazer isso. A gente é muito privilegiado por isso. Teve esse caminho, teve morte, teve prisão, mas a gente sempre se divertiu pra caralho. O melhor momento pra gente terminar a banda é rindo da nossa história, dando um foda-se.
EXPECTATIVAS E SURPRESAS PARA A TURNÊ
D2: Acho que a gente vai contar a história da banda com os nossos quatro discos, né? Uma coisa de muitas participações. O Planet sempre foi essa coisa de ter muita gente envolvida. Desde eu e o Skunk até o Seu Jorge, Pitty, tantos amigos. A gente quer celebrar esses feats famosos ou não famosos,. Que fizeram parte dessa história do Planet. Então, acho que esse show vai ter muitas participações.
BNegão: O Seu Jorge tocou percussão no “A Invasão do Sagaz Homem Fumaça” (2000), ele rodou o mundo inteiro com a gente. A primeira vez que ele saiu do Brasil foi com a gente.
D2: E é muito legal porque a gente se sente muito honrado. A gente tocou semana passada no Festival João Rock. E o Seu Jorge saiu do palco dele correndo para participar do nosso. O BayanaSystem estava indo para a Austrália, mas ficou lá. A gente se sente muito honrado desses amigos fazerem tudo para participar do show. E aí, a gente quer fazer um show longo. São shows em estádio, então tem essa coisa de ser um show maior. O Ganja deu uma ideia da gente incorporar a música desses convidados no nosso próprio show. A gente fez isso com a Pitty no Rock in Rio. A gente tocou a música dela, a gente tocou música das Mercenárias. Então, a gente quer… Além desses convidados tocarem para a gente, é lógico que a gente vai passar os hits desses quatro discos, sabe?
BNegão: E outros não-hits também. Tem vários não-hits também.
D2: A gente só tem hits. (risos)
BNegão: A nossa ideia é ter participações gerais nos shows. A gente vai anunciando com o andar da carruagem. Ah, e tem o lance do Batman Zavareze também, que vai ajudar a ser um showzaço mais ainda. Acho importante falar dele. Porque ele é um diretor gigantesco, desses shows gigantescos que rolam nos estádios. Ele fez o (show do) Paralamas. E foi sensacional. E a gente tem essa relação muito doida (com ele). O câmera que fazia o (programa) Banda Antes da MTV, no Rio de Janeiro era ele.
D2: Uma coisa que deu muito certo, que eu achei, dos 30 anos lá do DVD, foi chamar bandas que influenciaram. A gente chamou muita gente que correu com a gente. E pouca gente foi influenciada e que nos influenciou. Acho que o caminho dos convidados vai vir mais por aí. A gente já tem essa galera: Pitty, os nossos contemporâneos. Acho que agora a gente vai chamar mais Major RD, que nem foi. Mais rapper novo pra participar. Queria chamar também o DeFalla… as bandas que nos influenciaram. Como foi com as Mercenárias. E sobre gravação de música nova… Será? E aí, Ganja? [nota do redator: Ganjaman responde apenas “Não tô autorizado”, enquanto D2 sorri].
TERMINANDO CICLOS
D2: A energia do Planet é muito forte, ela é muito necessária em vários momentos, mas ela precisa estar presente pra gente ser Planet Hemp. E sei lá, a gente teve momentos assim, e estava faltando uma turnê nessa volta, sabe? Mas a gente não conseguia ir (em frente). E aí teve um dia que eu falei pros caras: “a gente não é mais uma banda”. Eu lembro que todo mundo falou, “como assim?”. E eu: “Cara, a gente precisa se ver mais, vamos fazer isso na nossa vida? Vamos tirar quatro meses, e ser quatro meses Planet Hemp, e aí depois a gente acaba a banda”. E ninguém falou: “não, nem fudendo”; Todo mundo falou: “Tá bom, tá bom, então vamos fazer isso”. Parece que tava todo mundo com o coração esperando que alguém tomasse a decisão, tá ligado? Vamos fazer, vamos ser Planet Hemp pela última vez.
Eu acho que esse Planet Hemp tem uma energia, cara, que é só ali. Eu vou contar uma história meio louca. A gente estava num show na Fundição Progresso e eu estava chapadaço. E aí eu dei um pulo. Ficou tudo em câmera lenta, assim. Eu comecei a pensar: caralho, mano, eu estou com 50 e poucos anos. Até quando eu vou conseguir pular assim? Dentro do Planet Hemp, tá ligado? Eu basicamente, para fazer uma metáfora, antes que eu me machuque quando cair nesse pulo, é melhor parar aqui, tá ligado? A ideia de parar, cara, é porque realmente a gente acha que o ciclo se fechou, sabe? E se vai voltar, eu acho muito difícil. A gente é meio cabeça dura quando a gente toma decisões.
O IMPACTO DE “JARDINEIROS”
BNegão: A gente já tinha, na verdade, voltado em 2012 a fazer show, shows grandões, gigantes e tal, mas era uma coisa de greatest hits total, era um negócio confortável, a gente ficava ali só tocando os hits e tal. A gente voltou (a gravar músicas novas) por isso (o momento político). Todo mundo falava: Vocês têm que falar alguma coisa, têm que aparecer, cadê vocês, tal. E a gente falou: vamos aí. [nota do redator: “Jardineiros” foi lançado durante o governo Jair Bolsonaro, com a banda se tornando uma voz crítica contundente do ex-presidente e da direita conservadora].
D2: A gente é uma banda que precisa de muito propósito. A gente ficou 20 anos [em hiato] por conta disso, acho que a gente está aqui nesse momento por conta disso. Tem que ter um propósito. Vamos terminar a banda, vamos fazer uma turnê incrível. Essa volta tinha propósito. E deu uma reviravolta, porque saiu daquele lugar do ódio e veio o “Jardineiros”, que é um disco super de reconstrução e acolhimento.
LEGALIZA QUANDO?
D2: Acho que a gente pode ver o copo meio cheio e meio vazio, sabe? Acho que a gente tem mais voz nas minorias hoje em dia do que tinha 30 anos atrás. Era um absurdo uma banda que nem o Planet… A gente começou o Planet Hemp seis ou sete anos depois do fim da ditadura militar. “Eles” só descobriram que o Planet Hemp era planeta maconha depois de alguns anos. A gente só foi preso quatro anos depois. Eles são meio lerdos mesmo (risos).
A gente conseguiu entrar nesse sistema, mas aquele mundo lá era muito mais agressivo do que hoje. A gente estava conversando sobre isso, do quanto que a gente fazia bullying um com o outro quando a gente era moleque. Que era meio terrível, e hoje em dia é incapaz (de ser feito). Era um outro mundo, era um mundo diferente. Eu acho que a gente caminhou com a questão da legalização.
Tudo bem, o Brasil é a vanguarda do atraso, vai legalizar na América do Sul inteira e no Brasiln ainda, você fala maconha, e as pessoas ficam… Mas o Brasil sempre foi essa vanguarda do atraso, o último país a adotar educação pública, o último país na América do Sul a acabar com a escravidão. Mas acho que a gente tem um mundo diferente agora, melhor. Muita gente acha que a ditadura militar ainda pode voltar, que deveria voltar, superinflação, tortura, mas pelo menos hoje em dia a gente pode conversar, na época de 90 nem essa conversa era possível.
BNegão: O assunto da maconha originalmente só aparecia nas páginas policiais, E a gente colocou na mesa de jantar essa discussão. Lógico, depois a gente acabou botando nas páginas policiais (risos). E agora a gente acabou de participar da Marcha da Maconha, que foi foda, com gente do Brasil todo, e marchas em vários lugares do Brasil, isso é maravilhoso, sabe? Você tem gente que está falando sobre o assunto, discutindo sobre as questões em volta da maconha, questões de saúde, questão de saúde física, mental, de tudo, enfim, de tudo que envolve a planta, isso é um avanço fudido. O Planet é uma banda rap-punk, muito punk e muito rap, e tendo essa parada de colocar as coisas para serem discutidas. A gente fez isso através da maconha, a gente usou a maconha como uma porta de entrada para as discussões, e foi isso que aconteceu.
D2: A gente vem de uma linhagem de grande contestadores. Que começa sei lá quando… Dos anos 60, da ditadura militar, mas isso vem da Guerra dos Malês..; Então, acho que a gente faz parte dessa linhagem. De favelados e de povo oprimido que não quer se calar. Eu venho de uma camada social que era completamente invisível. Até meus 20 e poucos anos, eu achava que eu não era ninguém no mundo. A cultura hip-hop que me falou, ouvindo Racionais, Public Enemy: não, mano, você é o cara, tá ligado? Você tem valor também. Então, eu espero que a gente tenha influenciado nisso, sabe? Não é aquela coisa de contestar. O Planet é uma banda que gosta da confrontabilidade. Isso pra gente sempre foi muito importante. Eu gostaria que se tivesse um legado na vida política e musical aqui no Brasil, eu gostaria de deixar essa confrontabilidade, sabe? Essa falta de conforto. Gil Scott-Heron falava que a revolução não vai ser televisionada. A revolução não vai ser feita dentro das Big Techs, sabe? Não vai.
BNegão: Essa coisa da quantidade imensa de ativistas, de políticos, e não só da erva, mas também ligada a várias outras políticas. A pessoa vem falar comigo: “Cara, o Planet foi fundamental ali. Foi o começo de puxar o fio, sabe?” De um molequinho olhando sem saber o que está acontecendo, daqui a pouco vem aquelas palavras, as ideias, e aí: “Pô, tem isso também? Vou procurar essa porra”. E ir puxando o fio, sabe? Eu acho que essa é uma função que a gente tem, muita gente tem. E a gente também é resultado de fios que a gente puxou, que foram deixados ao longo do tempo.
“A MACONHA É DO POVO PRETO”
D2: Cara, eu acho que o Planet Hemp, a gente está nessa coisa, rap, rock, o rock é preto, as pessoas esquecem isso, mas o rock é música preta. Funk, a gente tem uma base nessa musicalidade, porque todo mundo aqui cresceu ouvindo música preta, até os brancos. Então, eu acho que tem uma, assim, dentro do nosso DNA, a música preta é o que trouxe a gente até aqui, galera. Acho que quando eu e o Skunk, a gente pensou em falar de maconha, o primeiro pensamento era sobre isso, a gente queria levar hoje aquela comunidade, as favelas do Rio de Janeiro.
Vocês acham que hoje é violento? Nos anos 90 era muito violento, as guerras de facção, e aquilo ali afetava muito o nosso povo. Nossa intenção era essa, e acho que a grande contribuição disso, é jogar a luz sobre esse assunto, sobre aquele lugar que ainda é massacrado, a gente viu isso em Santo Amaro, a gente vê isso todo dia. Quer dizer, a gente não vê isso todo dia, mas acontece isso todo dia, a gente viu o que aconteceu em Santo Amaro. Acho que o Planet Hemp tem um legado pro povo preto, essa luz que a gente jogou sobre esse assunto, e falou: ó, gente, tem gente morrendo aqui que não tem nada a ver com essa porra da luta. Acho que talvez isso seja o nosso maior legado.
BNegão: E essa parada da questão social, a gente veio dessa raiz do punk e do rap nacional. A primeira vez que eu ouvi as questões sociais serem faladas no Brasil da forma que eu achava que tinha que ser falado, foi com o punk e o rap nacional. Que era a galera falando sobre a polícia, que a polícia mata, que o governo rouba, que a igreja fez essa merda, que não sei o que, falando do que estava acontecendo no Brasil e fora dele. E aí depois veio o rap em português, uma sequência assim. Então, a gente teve uma criação de formação de caráter muito forte pelo punk rock nacional e pelo rap. E a gente escolheu o assunto, o Planet escolheu o assunto da maconha pra falar sobre a questão social. Porque você falar sobre maconha, você fala sobre o povo preto, porque a maconha é do povo preto, originalmente clássica, africana. Eu já fiz trabalho em presídio. Segurança máxima. Complexo do Bangu. E aí, cara, o que eu vi lá de quantidade de gente que não tinha que estar lá, sacou?
D2: Preta.
BNegão: Exatamente. A maioria esmagadora. E sempre… A pessoa, sei lá, pô, estava com galho, estava com um restinho de maconha. Tá preso por 20 anos? Acabou a vida do cara. Então falar sobre maconha, do jeito que a gente fala, é falar também sobre essas pessoas, sacou? Porque a gente tá falando pra… finalizar essa situação. Que é a coisa que eu falo, desde que, sei lá, o STF falou que não sei o quê da quantidade e pá. Uma galera comemorando, eu falei: cara, eu não vou comemorar. Eu só vou comemorar na hora que começar a ver a galera saindo da prisão que foi pra lá por causa dessa merda. Que não era pra ir.
VIDA APÓS O PLANET
D2: O Bernardo é um cara que falou: se a gente for voltar, por favor, não vamos falar que vai acabar. A gente ficou alguns dias falando isso.
BNegão: É sacanagem. É jogar sujo.
D2: Eu também acho. A gente conversou um monte sobre isso, e assim, todo mundo chegou nesse consenso que sim, cara, vamos acabar. E a gente continua sendo artista. Eu tenho minha carreira solo, Bernardo também, todo mundo aqui. A nossa voz vai continuar aí no ouvido de vocês. Pode ter certeza que vai estar tocando no rádio, no TikTok, não sei aonde. A gente vai estar por aí.
BNegão: Tem trabalho de todo mundo. O Ganja, o Pedrinho, como produtores absurdos, trazendo uma cena também foda. O Ganja é produtor da maioria dos discos do Baiana (System). Pedrinho, pra mim, é o cara que melhor tira som de rock. Pouca gente sabe disso. A gente tem essa sorte no nosso baterista. Ele é um dos melhores técnicos de som e produtores aqui do Brasil, do estilo de som que a gente faz. Várias coisas passam por ele. O “Jardineiros” teve muito essa parada. Então, assim, todo mundo tem um lance. Formigão tem as bandas. O Nobru tem as bandas. Os caras têm trilhões de bandas.

COMUNIDADE E SEPARAÇÕES
D2: O Planet Hemp é muito comunidade. Eu volto de novo pro nosso mundinho ali interno, sabe? Acho que os melhores momentos que a gente passou enquanto banda, as pessoas não viram. Foi a gente no backstage se abraçando, a gente ligando um pro outro e falando, “cara, vamos acabar a banda, mas não vamos acabar a nossa amizade”. Sonhando, ouvindo o disco do Funkadelic lá a primeira vez, cheirando cola. Caralho, não sei se eu podia falar isso (risos). Esses momentos foram muito legais… Pô, esse último disco (“Jardineiros”) foi incrível! Quando a gente escreveu a primeira música, que a gente escreveu junto eu e o Bernardo, eu falei, “caralho, mano, faz vinte anos que eu não escrevia com o BNegão”, tá ligado? Caralho, meu parceiro, faz vinte anos que a gente não escreveu uma música junto! Eu cresci com BNegão, Black Alien, Marcelo Yuka, Chico Science, sabe? uma porrada de cara maneiro.
BNegão: Eu tenho essa história muito louca, porque eu entrei pro Planet pra banda continuar existindo, quando o Skunk ainda estava vivo. Ele falava: “Pô, vai lá no show que eu não posso”. E, enfim, por ter saído várias vezes da banda, acho que eu saí sete vezes, não, saí duas (risos).
D2: Nessas saídas do Bernardo, ele sempre aparecia na minha casa com aquela VHS emprestada, a camiseta que eu emprestei pra ele, eu abro a porta e falo, “puta merda, saiu da banda, né?” (risos) É, parece que eu fiz namoro, ele traz a camiseta do Dr. Dre, a VHS do The Cramps, e fala, ai, puta merda, saiu da banda (risos).
– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos. A foto que abre o texto é de Jazmin Hicks / Linear Labs
Uma das maiores bandas do Brasil, que tinha potencial para ser a maior, com um estilo único, irreverencia, letras de musicas bem elaboradas e com grande critica social, que estremecia a sociedade, três grandes vocalistas e letristas, Marcelo, B Negão e Black Alien o grupo todo muito bom, a separação dos 3 impediu que o planet fosse maior, inclusive com uma carreira internacional.