“Extermínio: A Evolução” se equilibra dramaticamente entre perseguição zumbi e uma relação afetuosa entre pai e filho

texto de João Paulo Barreto

Logo em sua cena inicial, quando surge um flashback referente ao dia em que o vírus que transforma pessoas em zumbis assassinos se propagou em “Extermínio” (2002), sua nova sequência, “Extermínio: A Evolução” (2025), cuja história se passa 28 anos depois, entrega uma proposta de brutalidade para além do esperado. Ao quebrar uma regra quase estanque em filmes de terror, na qual há uma espécie de limite quando se trata da violência assassina atingir crianças de forma explícita, o terceiro exemplar da franquia, que volta a contar com o seu diretor original, Danny Boyle, parece querer marcar um território de crueza para seu espectador. Não que isso seja um problema…

Nessa empreitada, o longa, escrito pelo irregular Alex Garland (roteirista do ótimo “Ex-Machina”, do mediano “Guerra Civil” e do primeiro “Extermínio”), já diz a que veio em seus momentos iniciais, quando a lembrança noventista do roteiro, que utiliza os famigerados Teletubbies da forma assustadora que eles secretamente sempre intentaram, juntamente à direção de arte deste momento a entregar a época em que o mesmo se situa através de uma torre de CDs, criam uma tensão de horror em tenras e infantis faces desesperadas. A partir desse ponto, a violência com a qual Boyle e Garland apresentam o prólogo de sua continuação, junto a uma válida crítica à cegueira propagada pela religião, coloca sua audiência diante do que um filme com a premissa pós-apocalíptica de “Extermínio” garante como entretenimento.

Dando a impressão de que o teor pesado de sua sanguinolência slasher vai nortear toda a sua narrativa, o filme, porém, se equilibra dramaticamente entre os momentos perseguição zumbi e uma relação afetuosa entre um pai junto ao seu filho, ambos sobreviventes que vivem em uma sociedade isolada dentro dos muros de uma ilha. Interpretado por Aaron Taylor-Johnson, o pai, porém, possui escolhas equivocadas em relação ao modo como os ritos de passagem de seu filho devem ser executados à medida que o menino cresce. “Isso é um trabalho para dois homens”, desabafa tarde demais o homem diante de um grupo de zumbis que o cercam sozinho junto ao filho. Mas é o que dizem quando afirmam que sem decisões ruins não há filme.

A participação de Johnson, no entanto, logo cede espaço para o talentoso ator mirim Alfie Williams, que vive o jovem Spike, garoto que precisa, no continente, localizar um médico ermitão (Ralph Fiennes) para que o mesmo possa ajudar sua mãe doente. Na pele do decidido rapaz, o menino transmite com eficiência e segurança todo o desespero de se ver diante daquela jornada. Nessa construção, ao se perceber lidando com a própria maturidade diante do trauma da perda e da morte, Spike se torna o verdadeiro protagonista de “Extermínio: A Evolução”, alguém cujo modo de lidar com a morte perante rituais trazidos por aqueles mais velhos que se apresentam como guias parecem lhe trazer a evolução que o forçado título nacional almeja pregar.

Inserindo rimas visuais relacionadas à humanidade diante de um avanço e aprimoramento bélicos, Boyle traz para seu filme inserções de comparações de guerras seculares com um futuro que chegou e trouxe uma volta do arco e flecha como uma arma eficiente. Ironicamente, ao se cortar para o uso de metralhadoras por certos personagens, vê-se a fatalidade da morte alcançar a tais homens primeiro.

Na figura de Ralph Fiennes na pele de um médico que decidiu viver afastado daqueles poucos que se uniram em um novo contrato social, encontra-se a peça de reflexão que o texto de Alex Garland busca pregar como uma ideia filosófica diante do caos. No entanto, algumas decisões como a de dopar com morfina zumbis ao invés de matá-los ainda faz o espectador se perguntar o que se passa com as estúpidas premissas vistas aqui.

Mesmo contendo as já esperadas firulas visuais conhecidas de Danny Boyle, como as que destacam cortes rápidos em diversos enquadramentos dos personagens em uma mesma cena, ou quando corvos anunciam a chegada de um zumbi alfa como arautos da morte, Extermínio: A Evolução ainda consegue captar de forma impactante sua audiência com cenas de simples criação, porém de não menos impacto visual e dramático, como aquela que mostra uma zumbi em trabalho de parto.

Escrito como parte de uma trilogia, o filme tem em seu final em aberto uma possibilidade de ampliar seu leque dentro desse universo de mortos vivos já tão explorado no passado por mestres como George Romero e Tom Savini. Com um segundo filme com a direção de Nia DaCosta (da excelente nova versão de “Candyman”) e roteiro do próprio Garland já finalizado e previsto para estrear em janeiro de 2026, “Extermínio: A Evolução” tende a ser um passo inicial para algo bastante promissor no cinema de gênero de terror.

Como apreciador do estilo, porém, sempre haverá as revisitas a outros Mortos-Vivos a passear em shoppings e nos divertir bem mais.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.

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