texto de Renan Guerra
Com 80 anos de idade e mais de 50 de carreira, Leci Brandão estampa uma trajetória que entrelaça arte e militância: ela foi a primeira mulher a ser admitida na ala de compositores da escola de samba Estação Primeira de Mangueira, em 1972, e é a segunda deputada negra na história da Assembleia Legislativa de São Paulo, em 2010, como deputada estadual pelo PCdoB. Ativista pelos direitos dos trabalhadores, dos negros e da população LGBTQIA+, Leci sempre teve uma vida extremamente íntima e reservada, pouco sabemos dela para além de seu trabalho artístico e social. Por isso, o diretor Anderson Lima registrou um compilado de entrevistas e depoimentos de diferentes profissionais – músicos, políticos e fãs de Leci – na tentativa de compor um panorama sobre a obra e a vida da sambista.
“Leci” (2025), documentário que estreou no In-Edit Brasil 2025, reúne uma série de depoimentos únicos, de Alcione à Beth Carvalho, de Fernando Haddad a Mano Brown. Com uma produção que durou 12 anos, a equipe do filme conseguiu reunir uma gama de entrevistados de peso, possibilitando o registro do depoimento de grandes nomes do samba que acabaram nem vendo a finalização do filme, como Beth Carvalho ou ainda alguns integrantes dos Demônios da Garoa. Essa reunião de estrelas é a maior riqueza do filme, pois com as diferentes vozes aqui presentes é possível se compreender um panorama da importância de Leci na construção de um Brasil mais inclusivo e menos desigual, bem como sua relevância para uma pluralidade de vozes e narrativas dentro do samba.
Classificada em diferentes momentos do filme como uma “operária da música”, Leci se entende estritamente como uma trabalhadora, uma artista que compreende seu ofício como algo laboral e não como um desígnio de superioridade ou que mereça louros sobrehumanos. Essa perspectiva casa muito com suas atitudes enquanto ativista política e seu trabalho constante em defesa das minorias e dos desamparados. Essa narrativa da Leci ativista, aliás, é extremamente bem desenhada no documentário que conta com roteiro assinado por Anderson Lima e Piero Sbragia. De todo modo, os depoimentos presentes no filme apenas ajudam na criação de uma figura mítica de Leci: entendemos seu legado, sua importância, mas parece ainda que o filme tateia algum lugar de distanciamento da artista.
Sua trajetória musical, por exemplo, merecia um aprofundamento maior. Entendemos que Leci começou a compor ainda jovem e apresentou-se no programa de televisão “A Grande Chance”, de Flavio Cavalcanti, na TV Tupi, obtendo o primeiro lugar e se tornando um nome popular entre os espectadores. Ainda assim, ficam bastante subjacentes às narrativas que levam Leci ao lançamento de seus discos e LPs e pouco sabemos sobre a sua relação com as gravadoras, as rádios e o mercado de jabá. Fica uma lacuna que poderia ser preenchida com histórias sobre a formatação da carreira musical da sambista e de como ela conseguiu espaço na indústria para suas composições que sempre falaram com liberdade sobre temas como negritude, desigualdade social, amor entre mulheres e transformação social.
Com pouco mais de 70 minutos, “Leci” é um compêndio rico e interessante sobre uma artista e ativista de trajetória ímpar e, por isso mesmo, a sensação final é a de que outras histórias poderiam ser agregadas à narrativa. Ainda há muito a ser descoberto da história de Leci Brandão e o filme de Anderson Lima ainda soa apenas como um mergulho no raso.
– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava.