texto de Renan Guerra
Julio Reny é uma espécie de nome sempre falado, mas pouco ouvido no universo do rock gaúcho. Na ativa desde o final dos anos 1970, o músico porto-alegrense se transformou em referência para uma geração de artistas, sendo celebrado por gente como Edu K (Defalla), Carlos Gerbase (Os Replicantes), Carlos Eduardo Miranda e Frank Jorge (Graforréia Xilarmonica). Com uma produção diversa – e um tanto difusa -, a carreira de Reny foi construída a partir de muitos “e se” e “quases”: e se Julio tivesse tido o apoio de uma grande gravadora? E se Julio conseguisse um hit para além das cercanias de Porto Alegre? E se Julio tivesse entrado na coletânea y ou tivesse estourado com o single x? Esses “e se” são esmiuçados no excelente documentário “Amor e Morte em Julio Reny” (2025), de Fabrício Cantanhede.
A partir de uma ampla e reveladora entrevista, Cantanhede consegue extrair um relato poderoso de Julio Reny, que revisita seus fantasmas, seus medos e seus erros sem qualquer filtro. Isso cria uma proximidade e uma intimidade com o espectador, nos convidando para um mergulho no passado do artista. Reny gravou ainda no início dos anos 1980 o seu primeiro disco, “Último Verão” (1983), que fez pouco barulho, mas que, lançado de maneira independente em fita cassete, tornou-se clássico cult. A partir daí, o artista trafegou por diferentes cenários: teve banda new wave ao lado de Edu K, fez misturas entre rock e rap, navegou pelos meandros do rock gaúcho ao longo da década de 1980; e nos anos 1990 se uniu a Frank Jorge em dois projetos: Júlio Reny Guitar Band e Os Cowboys Espirituais – esse último teve disco lançado pela gravadora Trama em 1998 e acabou gerando uma espécie de indie hit local com a faixa “Jovem Cowboy”.
Essa carreira repleta de altos e baixos marcada por quase grandes momentos tem como um de seus arcos mais simbólicos o show de 1985 no “Rock Unificado I”, festival realizado no Ginásio Gigantinho, em Porto Alegre, que marcou o início da expansão do rock gaúcho para fora das fronteiras do estado. Julio Reny achava que ali era o momento perfeito para mostrar seu talento para as gravadoras, e por consequência, conseguir um reconhecimento nacional, mas seu show foi um fracasso e ele acabou ficando de fora da coletânea “pau de sebo” “Rock Grande Do Sul” (1986), disco fundamental para que Engenheiros do Hawaii, TNT, DeFalla, Garotos da Rua e Os Replicantes se tornassem nomes reconhecidos nacionalmente (as cinco bandas estão no álbum), que nasceu nesse festival. Reny fala com mágoa e, compreesivelmente, com tristeza dessa fase.
Paralelamente a isso, Julio Reny tem uma vida íntima marcada por intensas paixões, casamentos conturbados, experiências não monogâmicas, perdas dolorosas e instabilidades emocionais. Ainda jovem, Reny passou por uma complicada experiência de internação psiquiátrica e durante anos lidou com as idas e vindas de sua saúde mental. Apenas nos anos 2000, Julio foi oficialmente diagnosticado com esquizofrenia e transtorno bipolar. Soma-se a isso a atual fragilidade de sua saúde física; Reny está com um grau avançado de glaucoma e sua visão está cada vez mais falha. Todos esses episódios artísticos e pessoais são narrados em “Amor e Morte em Julio Reny” pelo próprio artista – a única entrevista extra que há é de uma de suas filhas.
De resto, o filme de Fabrício Cantanhede se utiliza de imagens de arquivo e de uma rica pesquisa de materiais, trazendo falas interessantes de outros artistas do rock gaúcho ainda nos idos dos anos 1980. Tudo isso amarra a narrativa de forma extremamente coesa, construindo um grande documentário sobre um personagem único. Não é necessário ser um fã de rock gaúcho ou um entendido de música para se interessar pela narrativa do filme: o que salta aos olhos aqui é a complexidade humana de um personagem falho, cheio de nuances, de sonhos e de amarguras.
“Amor e Morte em Julio Reny” é um complexo e doloroso retrato sobre arte e rock, sobre como expectativas e ilusões constroem mitos e, especialmente, sobre como a realidade se sobrepõe a qualquer fantasia artística. Mesmo com esse filme, é provável que Julio Reny siga “nome sempre falado pouco ouvido”, mas ainda assim é fundamental que ele possa ainda em vida repassar suas dores e glórias a limpo de forma tão sincera e corajosa.
– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava.