Três perguntas: Lipe explora os contrastes entre a natureza da Chapada Diamantina e a urbanização em suas canções

entrevista de Danilo Souza

Artista baiano criado em Piatã, na Chapada Diamantina, Lipe é um nome para ficar de olho na nova safra da música brasileira. Com dois álbuns produzidos e lançados de forma independente em anos consecutivos – “Do Contra”, de 2024, e “Um Rombo no Peito e Um ‘S’ nas Costas, de 2025, suas canções trazem referências de nomes como Tom Zé, Novos Baianos e Tim Bernardes, além de influências instrumentais de Jimi Hendrix e John Frusciante.

Buscando se incluir na cena de Vitória da Conquista, cidade onde vive atualmente, também na Bahia, o cantor busca manter sua essência e as características da cidade do interior dentro de suas composições, como nas faixas “Você, o Sol e a Serra” e “Carta ao Coronel”.

Responsável por todas as etapas do disco, desde a composição até a mixagem e o envio para as plataformas, Lipe apresenta o seu processo como indie, algo que realmente soa como uma produção feita em casa, mas que mantém a qualidade no resultado final. Na conversa abaixo, Lipe fala sobre sua saída de Piatã e a adaptação em Vitória da Conquista, e como tudo isso está reverberando em sua música.

Você se define como um filho de Piatã, município da Chapada Diamantina, na Bahia. Eu venho da mesma região e sei como a beleza e calmaria daquela região pode ser uma inspiração e um refúgio para os artistas. De que modo compor e produzir música em um lugar tão pacato influenciou na sua arte?
Acho que eu não tinha a visão da grandeza que é a região antes de sair, sabe? A gente meio que está acostumado a lidar com serra pra todo lado, cachoeira e tal. E quando vim pra cá [Vitória da Conquista], foi aquele susto de que existe outro mundo. E por ter nascido e criado dezessete anos por lá, foi um choque largar a família, vir pra cá pra estudar e tal, parece que eu me reconheci dentro dessa identidade da Chapada Diamantina a partir disso. Precisei sair pra poder querer voltar. Nessa acabei encontrando essa coisa meio de retrocesso, de entender que tem mudanças acontecendo na Chapada e no mundo inteiro, mas a Chapada parece um lugar que parou no tempo, mas ao mesmo tempo transiciona o tempo todo. E aí minha arte se baseia nisso pela necessidade que tenho de tentar resgatar coisas de que sinto falta.

Ainda falando de Piatã, sua cidade natal, este é um nome originado da língua Tupi e significa “pé-duro”, expressão que também é usada informalmente para se referir a pessoas que moram fora dos centros urbanos. Nota-se um pouco dessa identidade interiorana em algumas das suas músicas, como “Carta Ao Coronel”. Ainda há muito de Piatã em você? Quais características você trouxe da sua cidade nessa sua vinda para Vitória da Conquista?
Muita gente me fala que eu pareço o Chico Bento aqui, aquele episódio do “Chico Bento no shopping”, e justamente porque tenho esse apego à identidade de lá. Eu não sabia dessa definição de Piatã, não tinha me ligado, e é realmente isso, é uma questão de um quase negacionismo urbano, o tempo todo eu quero resgatar o que tem de melhor na simplicidade, que é morar na Chapada. Sobretudo numa das cidades que é menos [lembrada], apesar de ter muito valor cultural, turístico e, inclusive, comercial com a questão do café e tal, ela é meio apagada entre tantas outras cidades que têm popularidade turística, como Lençóis, Rio de Contas, Mucugê e tal. É legal mostrar que tem outro lugar e que acho que tem tanto valor quanto os que são populares. Sinto falta de ter o infinito da serra encarando assim na janela, porque é a coisa que mais me cercou a vida inteira. E ficar aqui nessa planície cercada de prédios é… meio triste, apesar de ser outra realidade, ser outra vida que também tem seus reflexos culturais e sociais, com certeza, mas é uma coisa que não me sinto tão incluso, não me sinto tão pertencente.

Fazendo um paralelo com a primeira pergunta sobre produzir música em um lugar pacato, agora morando em Vitória da Conquista, a terceira maior cidade do estado da Bahia, como você enxerga essa influência urbana na forma como você escreve suas canções?
Acho que já influenciou de maneira mais indireta. Não sei se sinto muita aproximação da realidade ainda daqui, pelo tempo curto que eu moro aqui, apesar de já estar há dois anos agora. Acho que a parte que mais me influencia são as experiências com os músicos que eu tive aqui. Mas acho que não me situei ainda de citar e refletir essa realidade daqui, o desconforto, muitas vezes pelo caos de não estar acostumado com essa coisa, mas também de muito conhecimento agregado, principalmente na faculdade e tal, porque a gente trabalha muita coisa relacionada com a arte. O fato de eu ter conhecido minha namorada aqui também influenciou nas minhas músicas e tal.

– Danilo Souza é estudante de jornalismo da UESB (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia). Acompanhe seu trabalho em instagram.com/danilosouza.jornalismo/

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