17º In-Edit Brasil:: “Alma Negra, Do Quilombo Ao Baile” reconstrói a história dos bailes de soul brasileiro

texto de Renan Guerra

O Brasil ainda tem muitas histórias a serem contadas, especialmente histórias negras. Historicamente, as histórias não-brancas foram deixadas à margem. Pensar na pesquisa do passado negro brasileiro, mesmo o mais recente, é desbravar um mar de apagamentos e esquecimentos, onde acervos se perdem, memórias se apagam ou registros nem existem. Possibilidade fundamental é registrar oralmente a memória dessas vivências. Com uma produção lenta de quase 12 anos para ser finalizado, o documentário “Alma Negra, Do Quilombo Ao Baile”, de Flavio Frederico, consegue compilar relatos de vários personagens que acabaram morrendo antes mesmo do lançamento do filme. Parece uma informação meio baixo-astral, mas é de se celebrar que o filme tenha conseguido registrar em vida relatos fundamentais de artistas negros que desenharam uma história.

Uma das frases mais célebres da historiadora, professora, roteirista, poeta e ativista Beatriz Nascimento falava sobre a memória do Brasil como “uma história feita por mãos negras contada por mãos brancas”. Isso se aplica demais a duas questões: a música brasileira do século XX e a ditadura militar. Esses tópicos são sempre abordados por perspectivas brancas; a memória musical sempre vem de uma ótica zona sul carioca e as memórias da ditadura nascem de olhares de uma esquerda branca apartada dos debates raciais e de outras minorias. Nesse sentido, o filme de Flavio Frederico ousa ao tentar costurar um século de histórias, tensões raciais e possibilidades em um documentário de menos de duas horas; mas o pior é que funciona e ele consegue abrir portas para memórias e narrativas, costurando questões políticas, culturais e sociais, tudo através de um ritmo: a soul music brasileira.

“Alma Negra, Do Quilombo Ao Baile” revisita o nascimento da soul music no Brasil e suas raízes no som de nomes como Toni Tornado, Wilson Simonal e, obviamente, Tim Maia. A partir desse ponto de partida inicial, o filme abre diálogos com diferentes pensadores de raça e história brasileira para entender como o baile de soul era um espaço de congregação da comunidade negra em meio a ditadura militar brasileira dos anos 1970. Os pensamentos de Beatriz Nascimento e Lélia Gonzalez são costurados ao lado da voz presente de Edneia Gonçalves, socióloga e educadora que funciona quase como um fio condutor do filme, é ela que alinhava os temas e consegue transmitir ao público de forma clara e direta as nuances que podem ressurgir ao se recontar essas histórias. É a partir desses pensamentos que nasce a correlação exposta no título do filme – “do quilombo ao baile” – criando interconexões entre as experiências quilombolas dos séculos XVIII e XIX e as possibilidades de aquilombamento urbano para as populações negras do século XX.

Para que toda essa história de “Alma Negra, Do Quilombo Ao Baile” ganhasse vida, o diretor Flavio Frederico trabalhou no roteiro ao lado de Mariana Pamplona, buscando dar forma a ousadia temporal e teórica em que eles se colocaram. Para acompanhar essa narrativa, o filme ainda conta com a direção musical de BiD, figura central para o nascimento do filme e que também assinou a produção do documentário. Falando em sua porção musical, o filme de Flavio Frederico nos apresenta uma série de importantes nomes da música soul brasileira, da banda Black Rio aos hits de Hyldon, dos mandamentos de Gerson King Combo ao soul anos 80 de Sandra de Sá. Neste passeio, se destaca o nome de Cassiano, mestre celebrado por diferentes nomes durante o filme, que relembram tanto sua maestria quanto sua história de complexidades.

Todos esses artistas e nomes ajudam a compor um panorama do que levava as pessoas para as pistas de dança nos anos 70; isso tudo acaba se conectando diretamente ao excelente documentário “Chic Show”, de Felipe Giuntini e Emílio Domingos, e que fez sucesso no In-Edit de 2023. Ambos os filmes sofrem com a falta de registros audiovisuais dessa época, lidando com uma série limitada de fotos e poucas cenas em vídeo, de todo modo, ambos brilham ao trazer relatos históricos e fundamentais para se pensar essas memórias dos bailes. Por exemplo, poder ver em “Alma Negra” a atriz e cantora Zezé Motta relembrando as suas memórias de passar noites e noites a dançar soul nos bailes cariocas é algo de encher os olhos.

No final das contas, “Alma Negra, Do Quilombo Ao Baile” resulta em um trabalho riquíssimo de uma equipe que teve a ousadia de se aprofundar e mergulhar nessas histórias com o devido respeito e cuidado que elas merecem. Um belo documentário que resgata um passado de festa, de liberdade e de criatividade negra.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava

 

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