Três shows: Pedro Abrunhosa, Clap Your Hands Say Yeah, Deep Purple

Pedro Abrunhosa na Casa Natura Musical – 16/05
texto de Marcelo Costa / fotos de Felipe Giubilei

Pela segunda vez no ano, 2025 foi palco de um interessante movimento no cenário musical ibero-americano. Não é novidade que a grande massa consumidora de música no Brasil não dá bola tanto para artistas de países vizinhos na América do Sul quanto de Portugal e Espanha, ainda que essas cenas regionais sejam culturalmente ricas e criativas (sim, há cada vez mais honrosas exceções como Rosalia, Ca7riel & Paco Amoroso e Bad Bunny, o que demonstra que as novas gerações estão mais antenadas de que seus pais e avós, mas, ainda assim, são exceções). E ainda que o Brasil nunca tenha olhado para essas cenas como olha, embasbacado, para movimentos anglo-saxões, elas, claro, se proliferam e constroem seus próprios ícones. E o que fazer quando você é ícone em sua cena local, colhendo discos de ouro, lotando estádios e tocando em rádios, mas praticamente inexiste em um país que deu ao mundo João Gilberto, Mílton Nascimento, Marcos Valle, Caetano Veloso e Gilberto Gil, entre tantos? Desbravar território, como “tentou” Bruce Springsteen em São Paulo em 2013, poderia ser uma solução, mas, aparentemente, o que o astro argentino Andrés Calamaro e o ícone tuga Pedro Abrunhosa buscavam no país era… satisfação pessoal (pode-se, inclusive, incluir Adrian Younge nessa teoria), algo que dinheiro nenhum paga, até porque ficou nítido que a conta não iria fechar: ambos vieram ao Brasil com banda completa – o argentino trouxe sete músicos consigo, o português, seis –, e enquanto Calamaro (que usou a palavra “humildade” na entrevista ao Scream & Yell e) tocou feliz para pouco mais de 1000 sortudos no Cine Joia, incluindo Bruno Capelas, que escreveu aqui sobre essa noite, Abrunhosa foi absolutamente impecável durante duas horas frente a cerca de 300 pessoas na Casa Natura, sendo que 90% desse público era português, incluindo o técnico do Palmeiras, Abel Ferreira. Responsável pelo melhor álbum da música portuguesa dos últimos 40 anos, Pedro Abrunhosa abriu a noite com a intensa “A.M.O.R.”, destilando uma voz barítona que ora remetia a Nick Cave, ora a Leonard Cohen. Com luzes vermelhas, jeitão de cabaré e telão destacando as letras (no melhor formato lyric video), o show seguiu com “Balada de Gisberta”, gravada por Maria Bethânia, depois a intensa “É Preciso Ter Calma” e, ainda, “Diabo no Corpo”, um feat com Lenine (que participou do show no Rio). Conforme as backings Patrícia Antunes e Patrícia Silveira participavam do show, mais o fantasma de Cohen pairava no ar, então nada como uma fidelíssima cover de “Hallelujah” para honrar o bardo (e, também, o Papa Francisco). Entre os grandes momentos, aplausos para o final matador, entre o religioso e o dionisíaco, de “Leva-Me Pra Casa”, para a força da mensagem de “Talvez Foder” – com letra alterada citando a Palestina e aberta pela declaração: “Escrevi essa música 30 e muitos anos atrás e queria que hoje não esqueçamos do genocídio que acontece em Gaza. Eu, que tenho sangue judeu nas veias, me envergonho” – e das festejadas (e cantadas!) pelo público “Fazer o Que Ainda Não Foi Feito”, “Se Eu Fosse Um Dia o Teu Olhar”, “Ilumina-me” e, já no bis, “Eu Não Sei Quem Te Perdeu”, destaques de um grande show íntimo. Que venham mais, que venham todos (oi Fito, você anda sumido!).


 

Clap Your Hands Say Yeah no Cine Joia – 12/06
texto de Alexandre Lopes / fotos de Fernando Yokota

Os 10 °C da noite de quinta-feira não impediram que o Cine Joia recebesse o retorno do Clap Your Hands Say Yeah a São Paulo. Antes da banda norte-americana subir ao palco, quem abriu os trabalhos foi a mineira Paira, às 20h30 (fotos 1 e 2). Com a casa ainda vazia, o duo formado por André Pádua e Clara Borges iniciou seu set com um som meio confuso, mas que encontrou equilíbrio a partir da segunda faixa. O show, focado em seu primeiro lançamento, “EP1”, alternou dedilhados suaves e passagens mais intensas, com beats de drum & bass e guitarras distorcidas. Após cerca de 11 músicas, o Paira se despediu discretamente de um público que já começava a se posicionar para receber a atração principal. Às 21h32, Alec Ounsworth surgiu no palco, acompanhado de Ben Collins (guitarra e teclados), Todd Erk (baixo e vocais) e Jonas Oesterle (bateria), para passear pelo repertório do disco de estreia, de 2005. Entre as músicas, o líder do CYHSY não poupou comentários sarcásticos e fez piada com o frio: “O que está acontecendo? Achei que estávamos no Brasil. Mas tudo bem, vamos tocar umas músicas e esquentar.” Quando a correia da guitarra de Ben se soltou durante uma música, Alec improvisou um “bate palmas” em português para dar tempo ao roadie de fazer o conserto. “Let the Cool Goddess Rust Away” e “Over and Over Again (Lost and Found)” marcaram os primeiros pontos altos do show, mas foi em “Skin of My Yellow Country Teeth” que a plateia participou de verdade, cantando junto a melodia do teclado. Um cover meio errático (antecipado na entrevista ao Scream & Yell) de “You Can’t Put Your Arms Around a Memory”, de Johnny Thunders – com Alec esquecendo a letra – veio para anunciar a segunda parte do set. Uma parte do público se deu por satisfeita e começou a deixar o Cine Joia. Ounsworth não se mostrou incomodado e seguiu com seu humor autodepreciativo, chegando a tirar sarro de “Ketamine and Ecstasy”, ao dizer que era a música perfeita para buscar cerveja ou ir ao banheiro. Depois de anunciar que sairia do palco e retornaria para um bis, o Clap Your Hands Say Yeah dedicou “New Fragility” ao Dia dos Namorados no Brasil, tocou mais duas faixas e encerrou o show às 22h54. Sem se levar muito a sério, Alec Ounsworth entregou mais do que um show divertido e nostálgico; ofereceu um reencontro imperfeito e honesto com um tempo que, de algum jeito, ainda pulsa fortemente na memória dos indies brasileiros.

Deep Purple no Festival Best of Blues & Rock – Parque do Ibirapuera, 15/06
texto e fotos de Bruno Capelas

Há muitos atributos que um fã de música pode buscar num show. No caso do Deep Purple, “novidade” não é exatamente um deles – não só pela longevidade do grupo, que soma mais de cinco décadas de serviços prestados ao rock, mas também pela ostensiva presença dos britânicos no Brasil. Desde 1991, o quinteto já tocou 77 vezes aqui, dos grandes centros a cidades como Santo André e Nova Odessa. Além disso, vale acrescentar que a última passagem do Purple no país foi há menos de um ano, com um repertório praticamente idêntico ao exibido no Ibirapuera pela banda em 15 de junho, encerrando a edição 2025 do festival Best of Blues and Rock. O que não significa, porém, que o show do grupo não tenha tido seu charme. Primeiro, porque é admirável ver figuras como Roger Glover (baixo) e Ian Paice (bateria) em cima de um palco – enquanto o baixista, ainda que impecável, é mais discreto, Paice chama a atenção pela potência em suas mãos. Segundo, pelo afinco com que uma banda cheia de clássicos abre mão deles (“Burn” e “Perfect Strangers” foram ausências sentidas, para ficar em dois exemplos) em prol de canções recentes como “A Bit On The Side” e “Bleeding Obvious” – ambas de “=1”, lançado em 2024. Terceiro, porque poucos grupos souberam adaptar seu formato e repertório para a velhice tão bem quanto o Purple. Aqui, vale menção ao gogó de Ian Gillan: se não exibe obviamente os mesmos agudos do passado, ele equilibra bem seus tons em 1h40 de show – ao contrário do que se viu no mesmo lugar com o “novinho” Richard Ashcroft, que sofreu um pouquinho na semana anterior. Além de boa voz, Gillan busca fazer seu melhor: ele toca gaita, abre espaço para o competente guitarrista Simon McBride (o único sub-70 da banda) e até conta piadas. “As pessoas acham que essa fala do aquecimento global, mas é sobre quando botei fogo na minha casa”, brincou, ao introduzir “Lazy Sod”. Quem também teve bom humor foi o tecladista Don Airey, que não só citou “Garota de Ipanema” e “Aquarela do Brasil”, mas até abriu uma cerveja em meio ao seu solo, embora a cor do casco denunciasse que não era a patrocinadora do festival. Por fim, mas não menos importante, é preciso dizer que os clássicos estiveram lá – da abertura com “Highway Star” à dobradinha de “Machine Head” com “Space Truckin’” e a indefectível “Smoke On The Water”. É claro que não há nada de novo aqui, mas enquanto Gillan, Glover e Paice puderem subir num palco para tocar esses (e outros) hits, eles merecerão um espaço sob a ribalta. Já dizia Mário Jardel: “clássico é clássico e vice-versa”.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.
– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br
– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

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