texto de João Paulo Barreto
Dirigido pelo cineasta soteropolitano Leandro Afonso, “Ontem Lembrei de Minha Mãe” (2025) aborda a questão da violência em zonas rurais da tríplice fronteira a partir das lembranças de um homem que, após ter brutalmente tomadas de si as próprias terras, retorna mentalmente ao passado e ao trauma. Dessa vez, no entanto, a música lhe acompanha, trazendo a partir desse protagonista para o espectador uma sensação de certo conforto diante de tamanha violência que o tempo lhe evoca. O filme integra a programação do festival curitibano Olhar de Cinema 2025.
“Eu já sabia de questões espinhosas ligadas a parte do Oeste do Paraná, mas não sou de lá, e nem conhecia profundamente a história da região,” explica Leandro em entrevista ao Scream & Yell. “Esse roteiro nasce da descoberta, mas não no sentido colonialista, do descobrimento como um eufemismo pra invasão e roubo, e, sim, no sentido de conhecer e reconhecer os lugares como eles são para, a partir daí, identificar quais e como devem ser captados para os propósitos do filme”, pontua o diretor.
01. Nessa entrevista ao Scream & Yell, o diretor baiano aprofunda esse processo de criação. Confira!
Conhecendo sua filmografia, é perceptível uma ligação estreita com o cinema feito em outros países da América Latina, principalmente a Argentina. Em “Ontem Lembrei de Minha Mãe”, você traz uma abordagem social que consegue, em uma mescla de música popular e imagens que evidenciam essa raiz cultural latino-americana, criar esse aspecto poético e contemplativo, mas que tem uma forte denúncia da violência. Na criação do seu roteiro, como se deu a busca por esse equilíbrio entre imagens e a abordagem de um tema tão urgente?
Esse roteiro nasce da descoberta, mas não no sentido colonialista, do descobrimento como um eufemismo pra invasão e roubo, e, sim, no sentido de conhecer e reconhecer os lugares como eles são para, a partir daí, identificar quais e como devem ser captados para os propósitos do filme. Esse processo criativo levou a gente a pesquisar e a se informar, a procurar e a encontrar antes de escrever, antes de colocar em texto as diferentes versões do roteiro. Mesmo assim, algumas locações mudaram muito em uma semana e, naturalmente, a filmagem planejada também teve que mudar. Foi um desafio maior para a equipe, mas abraçar esse desafio estava em sintonia com o curta. Então, esse equilíbrio, se é que dá para falar em equilíbrio, se deu menos a partir de uma imposição do que eu ou Ana Beatriz – co-roteirista –queríamos escrever e mais a partir de uma realidade que estava lá – seja nos acontecimentos históricos, seja nas locações escolhidas para dialogar, contemporaneamente, com esse relato histórico-ficcionalizado.
Como se deu sua aproximação dos fatos e denúncias apresentados no filme?
Essas denúncias chegaram para mim só em 2022, quando fui ser professor da UNILA (Universidade Federal de Integração Latino-Americana), em Foz do Iguaçu. Lembro que, no primeiro ano, entre junho de 2022 e junho de 2023, eu estava completamente fechado à ideia de filmar qualquer coisa porque estava exausto com a conciliação entre a UNILA, a tese e os freelancers necessários no contexto de um professor substituto tão longe de casa. Era um caos. Só depois desse primeiro ano me permiti essa aproximação dos fatos a partir também de um lugar criativo. Ali, em meados de 2023, eu já sabia de questões espinhosas ligadas a parte do Oeste do Paraná, mas não sou de lá, e nem conhecia profundamente a história da região. Vivi cinco anos em São Paulo capital, mas fora isso minha vida foi toda na Bahia. Sou baiano, pô! Quem sou eu pra falar sobre aquilo? Mas aí, pouco a pouco, com uma investigação sobre histórias, músicas, artistas, questões ambientais que transcendem a região e se conectam à América Latina, com uma equipe de pesquisa que é a primeira creditada no curta, decidi que fazia sentido montar um time e transformar essas inquietações em filme.
A presença materna, tanto no título quanto na narração em off, que se revela ao final como sendo um fala transmitida via rádio (algo que dá ainda mais força à ideia de denúncia e não complacência da obra) , traz ao seu filme uma abordagem tenra e ainda mais dolorosa em relação às consequências da violência que “Ontem Lembrei de Minha Mãe” possui. Na escrita do texto, como você buscou estruturar essa abordagem dentro de uma análise da dor e da saudade, mas sem deixar de lado a necessidade de se manter rígido na busca por justiça?
O ponto de partida foi trabalhar com o cinema musical – infelizmente sem dança (risos) – como manifestação artística e, também, como ferramenta de comunicação de problemas sociais. Antes de ter um roteiro ou qualquer verba, mandei uma mensagem para um grupo de alunos e ex-alunos da UNILA em busca de equipe para um musical-político-ambiental. Os primeiros anúncios em busca de equipe procuravam uma pessoa que ou cantasse ou dançasse ou tocasse algum instrumento na tríplice fronteira. A estrutura para esse curta vem por um podcast, essa espécie de rádio contemporânea, porque ele também parte do som. As primeiras notas do filme aparecem antes da primeira imagem. Então uma coisa que ficou evidente, desde muito cedo, é que a gente buscaria imagens que dialogassem com a parte sonora: ela que sempre foi a guia principal de “Ontem Lembrei de Minha Mãe”.
Em relação aos números musicais representando o cancioneiro popular regional, como se deu a pesquisa de tais aspectos culturais e a inclusão orgânica dos mesmos no seu filme?
Eu não vivi aquela história: nem na barriga eu estava na época. Foi necessário ler, escutar, aprender. A investigação em geral é nada glamourizada, por vezes subvalorizada, vista como secundária diante do talento criativo, do criador-autor, do pretenso gênio dotado, mas faço questão de destacar várias obras cruciais à pesquisa base para a história ali contada. Lembro, por exemplo, de “Brincando de Deus: como a humanidade vem alterando a natureza há 50 mil anos”, de Beth Shapiro, importante para pensar sobre essa sexta onda de destruição em massa que a humanidade vive – e que não tem precedentes na nossa história. Lembro de um artigo de Tereza Spyer, em um livro de Utopias Latinoamericanas, sobre o Bem Viver. Foi importante também conhecer “A Breve História da Tríplice Fronteira”, de Micael Alvino da Silva, e a dissertação de Ana Paulo dos Santos sobre as Sete Quedas. Recorri também a muitos episódios do podcast Radio Ambulante, maravilhoso para quem se interessa por histórias da América Latina. “Ontem Lembrei de Minha Mãe” é muito menos um roteiro criativo que um processo investigativo. Se preferir, o roteiro só existe por causa de muita investigação, que levou muito, mas muito mais tempo que a escrita do roteiro em si. Essa investigação, é importante frisar, inclui também o boca a boca. O plano mais longo do filme, por exemplo, é em uma locação sugerida por um iguaçuense, um dono de livraria, o Claimar Granzotto. Para as músicas, aconteceu algo mais ou menos similar. Eu participei de encontros do MILPA, um projeto de extensão da UNILA, ligado a danças e músicas latino-americanas, e lá eu conheci algumas canções que me interessaram, de folclores de diferentes países latino-americanos. Dessas, eu gostei muito de três e me apaixonei por uma, que se encaixava lindamente no final do filme. Aí perguntei a Felix Eid, coordenador do projeto e que terminou sendo diretor musical do filme, se aquela música que me arrebatou estava em domínio público. Ele foi categórico: “Leandro, todas as músicas que a gente toca e canta estão em domínio público. Menos essa”. Como o filme nasce originalmente de uma ideia de se fazer um musical independente de editais, tínhamos aí uma questão. Então descobri que músicas aparentemente em domínio público não estavam e demandavam também, portanto, custo para licenciamento. Tentei então negociar com a primeira música, aquela pela qual me apaixonei. Tinha reservado uma grana do edital (Lei Paulo Gustavo, contemplado em janeiro 2024) para esse licenciamento, mas foi se aproximando o período da filmagem e nada vinha de resposta. O contrato com a UNILA de professor substituto estava se encerrando e eu precisava estar em Buenos Aires antes de 14 de abril de 2024 para o doutorado sanduíche. Essa resposta veio no dia 15 de abril, com um valor dentro do que estipulamos, só que, a essa altura, como não podia correr mais riscos, já tinha combinado outra saída com Felix. “Félix, eu faço a letra, você faz a música, certo?”. Havia muita pesquisa em livros, artigos e podcasts que ainda não estavam no filme e entraram, então, na música. Eu fiz a letra, cantei para Felix e ele transformou em uma música de fato, dentro de um gênero e com uma instrumentação que fazia sentido para o que vislumbramos do filme.
Para fechar, volto ao que citei antes em relação ao poder do rádio como forma denunciatória do seu curta. No século XXI, com a internet a funcionar, em certos aspectos, como esse quarto poder, o filme traz um paralelo pertinente do rádio com outros modos de tornar evidente para a sociedade tais fatos. Estando familiarizado com a urgência dos mesmos, como você analisa a processo de se fazer justiça nesse âmbito que o filme traz?
Rapaz, eu não sei. O filme trabalha com acontecimentos históricos, com uma visão atravessada pelo que eu pensei daquele universo naquele momento, pelo que (Pedro) Tannus, assistente de direção, ou a continuísta Hellen (Naara), sugeriram, pelo que muitas das pessoas envolvidas no universo retratado pelo filme pensaram para ele ao longo do processo. É doido falar em justiça quando a gente fala de morte literal. Formas de vida solidárias estão morrendo. A gente não pode esquecer que lei e justiça são coisas diferentes e nem sempre caminham juntas. Que justiça a gente pode fazer com quem morreu? Se eu perco um pai, uma mãe, uma irmã, uma forma de vida sustentável e comunitária ligada a meus antepassados, se eu perco tudo isso graças a uma obra que poderia ser feito de outra forma, de que justiça posterior a essas perdas estamos falando? Se o ponto de partida é a naturalização da morte forçada das pessoas, de que justiça estamos falando? A palavra justiça não é citada nenhuma vez em “Ontem Lembrei de Minha Mãe”, mas seria descabido dizer que ela não é importante à história. O que será então que o filme vai dizer sobre o que ele nunca menciona, mas lhe é fundamental? O que será que o filme vai dizer, para diferentes pessoas, sobre a ideia de justiça naquele contexto?

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.