Crítica: Em “Sounds Like…”, Florry reafirma influências sem deixar de lado sua personalidade singular

texto de Davi Caro

Desde o single “Do Me”, seu primeiro lançamento em 2021, o grupo norte-americano Florry vem trilhando um caminho interessante que os posiciona entre as melhores bandas a despontarem nesta década. Idealizado e liderado pela multiinstrumentista Francie Medosch em sua adolescência, o grupo originado na Pensilvânia chega agora ao seu quarto disco, “Sounds Like…” (2025), se afirmando como uma das mais singulares formações desta geração enquanto solidifica sua abordagem moderna da sonoridade e estética do início dos anos 1970, quando a aproximação do rock com o country se mostrava uma grande promessa graças a Crosby, Stills & Nash, The Band e, claro, Bob Dylan. Ao filtrar tamanhas referências através de seu próprio filtro anárquico e surrealista, Medosch (acompanhada de um time extenso de músicos que inclui violinos, pedal steel e sopros, explodindo os limites de um arranjo de banda tradicional), o Florry se coloca como uma espécie de sucessor conceitual de nomes já laureados, como o de Kurt Vile, sem nunca perder sua própria personalidade.

O que não quer dizer que suas referências não sejam mostradas com orgulho a todos capazes de compreender a origem de suas inspirações. “Eu adoro a ‘Rolling Thunder Revue’”, disse Francie em entrevista recente com o jornalista Steven Hyden – fazendo referência, óbvio, a uma das fases mais caóticas, catárticas e fascinantes de Bob Dylan ao vivo, em meados de 1975. “Tive um clique, e pensei ‘Okay, preciso de pelo menos seis pessoas para esta banda’”. Ainda que passe muito longe de um esforço nostálgico, “Sounds Like…” carrega muito do mesmo espírito coletivo que dominou o velho Zimmerman e seus companheiros. E vai além: valendo-se de uma jovialidade que contrasta com arranjos surpreendentemente sofisticados, a Florry se mostra como uma das bandas mais singulares a despontarem na última década. Por muitos motivos.

O primeiro deles tem a ver com a impressionante habilidade de escolher ótimos singles. “Hey Baby”, o primeiro deles, é um excelente demonstrativo das proezas instrumentais do grupo, com destaque para o guitarrista John Murray e seus vôos lisérgicos. Se o Real Estate resolvesse gravar um disco em Woodstock, o resultado não seria tão diferente desse, com direito a um breakdown no meio da composição. Já “First it was a movie, then it was a book” soa mais moderna principalmente em seus timbres de bateria (cortesia do instrumentista Joey Sullivan), que orgulhariam Charlie Watts. Além disso, outro segredo está nos alucinantes duelos entre Murray e Will Henrikson (este a cargo do Fiddle, um instrumento semelhante ao violino). E os vocais, claro, são boa parte do diferencial na sonoridade da Florry – divididos principalmente entre Medosch (que toca diferentes instrumentos ao longo do disco) e a também guitarrista Katya Malison, é neles que reside boa parte do magnetismo por trás da sonoridade do grupo. Mas o mais surpreendente dos cortes de divulgação é, sem dúvida, “Truck Flipped Over ‘19”, com riffs que se aproximam sem ressalva do stoner rock (apesar de uma duração de pouco menos de quatro minutos).

Além de servir como uma demonstração do alcance da sonoridade do grupo, “Truck Flipped…” é também estrategicamente posicionada no meio do tracklist de 10 músicas, e permanece como a composição mais distinta do álbum. Em sua primeira metade (composta pelos dois primeiros singles, além das ótimas “Waiting Around to Provide” e “Sexy”), “Sounds Like…” já coleciona alguns de seus melhores momentos. “Sexy”, inclusive, conclui com o barulho de palmas, o que conjura a atmosfera crua de uma performance ao vivo, ao passo que “Waiting Around…” é praticamente um tributo à The Band, com espaço para o baixista Jon Cox se sobressair.

Não que o lado B do disco seja desprovido de momentos marcantes. A bonita “Big Something” valoriza as harmonias do pedal steel, e é uma das mais “country” das novas composições. “Dip Myself in Like an Ice Cream Cone” é mais esparsa em sua instrumentação, e talvez seja a menos “amigável” das faixas – mas agrada após audições mais atentas. “Say Your Prayers Rock”, por outro lado, é talvez a menos memorável das canções, com melodias que custam a se sobressair em meio às passagens mais inventivas do trabalho. E o contraste fica ainda mais evidente quando se leva em consideração as duas canções de encerramento. “Pretty Eyes Lorraine” é a joia escondida do disco, com vocais que dão gosto de ouvir, e o som do Fiddle em primeiro plano. Junto com “You Don’t Know”, levada em um delicado dedilhado de violão, a dobradinha poderia muito bem ser confundida com alguma gravação das míticas “Basement Tapes” de Dylan junto à The Band. Principalmente a segunda, a mais longa do álbum, também ajuda a valorizar o passe do produtor Colin Miller, responsável pelo som de um outro iconoclasta indie dos tempos atuais, MJ Lenderman.

Em pouco mais de 40 inacreditáveis minutos de duração, o novo disco da Florry faz questionar seu título. Qualquer ouvinte atento é capaz de perceber, sem ir tão longe, as principais referências da sonoridade da banda, o que toma um significado ainda mais irônico quando se trata de dez faixas reunidas em um disco chamado “Sounds Like…”. Mais do que simplesmente ressaltar o reconhecimento de suas próprias influências, Francie Medosch e seus asseclas parecem ter consciência do movimento revisionista que se dá a seu redor, sem se incomodarem enquanto solidificam um impressionante e respeitável repertório. Ao fim, além de se provar merecedor de atenção, “Sounds Like…” alcança trunfos que muitos almejam, e poucos conseguem. Em meio a um cenário tão rico em influências, mestres e discípulos, afinal, (e com o perdão do trocadilho) ainda não há ninguém que soe como a Florry.

Ouça o álbum na integra abaixo!

– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.

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