Ao vivo em BH, Gilberto Gil recebe Samuel Rosa e confirma que “o melhor lugar do mundo é aqui e agora”

texto de Gabriel Pinheiro
fotos de Alexandre Biciati

O tempo parou em Belo Horizonte, no sábado, 14 de junho. No centro do palco, como a ponta de um redemoinho de lembranças compartilhadas por mais de 55 mil pessoas num estádio lotado, Gilberto Gil. Patrimônio vivo da música e da cultura brasileira, o cantor baiano chegou à capital mineira com sua última grande turnê, “Tempo Rei”, que começou em Salvador e já passou pelo Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. “Nesses tantos anos temos nos encontrado tantas vezes” declarou o cantor ao surgir em cena recebido aos gritos de “Gil, eu te amo!”. De maneira recíproca, declarou: “Também amo vocês todos. Tem sido assim durante todos esses anos. Esse encontro entre nós”.

De “Palco” à “Toda menina baiana”, a viagem no “Tempo Rei” de Gil começou em 1981 e terminou em 1979. Em diferentes direções, o set list (conforme decupado aqui) não segue em linha reta, realizando desvios, saltos e retornos por todo o seu valioso repertório. O Tempo de Gil não é linear. É espiralar, se movimentando de uma direção à outra.

Gil funde passado, presente e, porque não, futuro neste novo show. Não à toa, uma enorme estrutura em formato de espiral, instalada no centro do palco, acima de Gil e da banda, dança aos olhos do espectador. Entre luzes e projeções, essa instalação espiralar parece traduzir, em imagem, o Tempo, sua continuidade e seu movimento ininterrupto. Em conjunto com a estrutura, todo o palco é primoroso, num trabalho esmerado de animações e projeções, verdadeiro desbunde de imagens e cores.

“Quando vocês gritaram ‘Gil eu te amo’ eu sempre digo que é recíproco. Um, dois, dez todos iguais” comentou Gil noutro momento, citando a canção “Esotérico”. Junto ao Tempo, o Amor é outra palavra-chave deste show-ritual-celebração de Gil. “O amor é mais difícil que a morte”, ele destacou.

Com uma banda afiada, “que evoca o bailado de todo um planeta”, Gilberto Gil desfilou por parte fundamental de sua carreira. Aos gritos de “Sem anistia!”, como vem acontecendo em todas as paradas dessa turnê, Chico Buarque apareceu no telão, celebrando a carreira e a vida do amigo e contando a história de uma composição compartilhada dos dois, “Cálice”, canção símbolo da resistência contra a censura e a violência da ditadura militar. Na sequência, Gil fez uma interpretação memorável da música.

Confirmando a grande maioria das apostas entre o público belorizontino, a participação especial do show na capital mineira, surpresa até o último segundo, foi de Samuel Rosa, vocalista do Skank e fã confesso de Gilberto Gil. Juntos, Rosa e Gil cantaram um hino que é um dos maiores sucessos da carreira tanto do baiano, quanto do mineiro – numa regravação do Skank: “Vamos fugir”.

Mais de 2h30 e três dezenas de músicas depois, quem esteve no Mineirão saiu dali de alma lavada. Na caminhada de volta, ainda dentro do estádio e passando pela esplanada, os olhares marejados eram muitos, cantarolando as canções de um mestre, as obras de um Rei. Sim, o Tempo é Rei. Mas Gil é Deus do Tempo. Sob seu comando, compartilhamos ali um Tempo só nosso, em suspensão – mas em pleno ritmo e movimento, ao som de muitas das mais belas músicas da nossa história. Um bálsamo pros ouvidos, pros olhos, pra alma. “O melhor lugar do mundo é aqui e agora”.

– Alexandre Biciati é fotógrafo e editor da Phono: https://www.phono.com.br/
– Gabriel Pinheiro é jornalista. Escreve sobre suas leituras também no Instagram: @tgpgabriel

One thought on “Ao vivo em BH, Gilberto Gil recebe Samuel Rosa e confirma que “o melhor lugar do mundo é aqui e agora”

  1. Que texto belíssimo!!!! Traduziu com belas palavras todas as emoções sentidas naquelas duas horas e meia de espetáculo do grande rei do Tempo, Gilberto Gil! Sim, o show foi tudo isso e naquele momento o sentimento era único: ” O melhor lugar do Mundo é aqui e agora’ !

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