17º In-Edit Brasil: “Ave Sangria, A Banda Que Não Acabou” foca uma das bandas mais importantes da psicodelia brasileira

texto de Diego Albuquerque

Documentário sobre a simbólica banda psicodélica pernambucana, dirigido por João Cintra e Mônica Lapa, “Ave Sangria, A Banda Que Não Acabou” (2025) estreia na competição nacional do 17ª edição do festival In-Edit Brasil.

“Ave Sangria, A Banda Que Não Acabou” tem uma vibe road movie pelo interior de Pernambuco, no qual Almir de Oliveira e Marco Polo (os dois integrantes da formação original da banda que ainda estão neste plano) passeiam na Rural, símbolo cultural de Pernambuco, com o grande Roger de Renor. Em meio às paisagens do estado, Almir e Marco Polo relembram histórias sobre a banda e respondem questionamentos de Roger, que, na realidade, são de todos que, de certa forma, foram atingidos direta ou indiretamente pelas agitações culturais do Recife nos anos 1970, que obviamente influenciaram os movimentos que vieram depois e seguem influenciando até hoje.

O documentário é feito por retalhos de memórias dos dois integrantes da banda, que contam causos interessantes, não apenas da relação entre eles e sobre a banda, mas sobre os anos 1970 no Recife, desde envio de beck de maconha em carta para os Beatles, passando pela água batizada na feira experimental de Fazenda Nova, evento precursor e também catalisador para criação de um movimento psicodélico propriamente dito em Pernambuco, entre outros. Além de relembrar os ex-companheiros de banda, geniais músicos como o baterista Israel Semente, o percussionista Agrício Noya e os guitarristas Paulo Rafael e Ivson Wanderley (Ivinho).

Em meio às falas, muita poesia, característica importante do letrista Marco Polo, aliadas à sonoridade única que os integrantes conseguiram criar com suas referências. É sempre interessante lembrar que Tamarineira Village / Ave Sangria foi como um meteoro psicodélico na Música brasileira. A banda original existiu de verdade por um intervalo de dois ou três anos (entre os dois nomes), quando da ascensão com a gravação do primeiro álbum pela gravadora RCA em 1974, até a perseguição e a censura da ditadura militar a música “Seu Waldir”, carro chefe do álbum que foi retirado das lojas e se tornou uma espécie de produto cultuado por malucos durante muito tempo.

Depois disso, cada um seguiu seu caminho, seja na música – Paulo Rafael se tornou uma referência na guitarra pernambucana e grande parceiro de Alceu Valença -. seja no jornalismo, para onde voltou Marco Polo, e até na engenharia, escolha de Almir. O retorno definitivo do Ave Sangria se deu 40 anos depois, após o ressurgimento da banda com a chegada à internet, através do bootleg “Perfumes & Baratchos”, gravação do último show da banda em 1975 no teatro de Santa Isabel, além da redescoberta do belo álbum homônimo de 1974.

Figuras como o jornalista José Telles, que foi meio quem vazou o bootleg do show após achar uma fita k7 das gravações na casa do guitarrista Paulo Rafael nos anos 2000, quando trabalhava na rádio. Além dele, amigos da época dos anos 1970, como a cineasta Katia Mesel, e outras amigas da banda, também dão seu depoimento em tom de testemunho.

“Ave Sangria, A Banda Que Não Acabou” também traz nomes da nova geração que foram influenciados pelo retorno da banda, seja virtualmente na internet ou com seus shows atuais, como Marília Parente e Juvenil Silva, além de Juliano Holanda, que integra a banda em seu retorno aos palcos, e o músico e produtor Marco da Lata (da banda Anjo Gabriel), principal responsável pelo retorno do grupo que dura até os dias de hoje. Todos eles contribuem com depoimentos.

Faz falta o depoimento de músicos da época, com o próprio Alceu, que usou a base da Ave Sangria como banda dele após o fim do projeto – Alceu é apenas citado por Marco Polo ao falar dos caminhos seguidos pelos integrantes após o término da banda. No geral, “Ave Sangria, A Banda Que Não Acabou” é um filme que, talvez, não traga grandes novidades para quem pesquisou e conheceu a banda na internet ou após o seu retorno com ótimos trabalhos, mas serve como um registro oficial meio que definitivo da importância da banda para a música psicodélica brasileira, nordestina e pernambucana.

– Diego Albuquerque é o criador do blog Hominis Canidae, um dos maiores repositórios de discos brasileiros da última década. O blog foi criado em 2009, no Recife, e divulga novos artistas e nomes indies da música brasileira, de norte a sul do país.

One thought on “17º In-Edit Brasil: “Ave Sangria, A Banda Que Não Acabou” foca uma das bandas mais importantes da psicodelia brasileira

  1. Pouco se falou aquí nesta reportagem
    Do Tamarineira Village nome criado por Rafles de Oliveira, integrante e um dis mentores da banda e onde aconteceram fatos surrealistas em muitas ocasioes, Rafles foi quem juntou Marco Polo a Almir,e este por sua vez arregimentou o restante dos músicos,se apresentaram pela TV Jornal do Commercio no programa de Carmen Peixoto em core e ao vivo,Rafles Almi Ivinho e Niedja cantaram Georgia a Carniceira,enquanto Marco ainda estava para vir para Recife,pois ainda trabalhava como jornalista em São Paulo, qd aquí a banda se reuniu e cantaram no Pub Bar Beco do Barato,depois na feira de música em Nova Jerusalén-Pe. Vieram shows no Teatro do Parque, em uma igreja abandonada em Olinda com o Show Sete cantos do Norte,além de shows no Rio G do Norte,etc etc…A fase mais criativa da banda Tb cantou com Rafles e Niedja nos vocais além de dois excelentes baterista, um percussionista,Bira Total e Israel Semente( bateristas)e Tb Agricio Noya,estes músicos foram muito importantes para alavancar o Sucesso da banda naquelas épocas de inicio .

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