Olhar de Cinema 2025: Safira Moreira fala sobre o processo de criação de “Cais”, seu primeiro longa

texto de João Paulo Barreto

Longa metragem intimista, “Cais” (2025), primeiro longa de Safira Moreira, cuja carreira inclui diversos curtas premiados, vinha sendo desenvolvido há alguns anos tendo com produção cuidadosa de Flávia Santana, da Mulungu Realizações Culturais,, ao lado da Omnirá Filmes e a Giro Planejamento Cultural. O filme integrou recentemente o Festival Internacional de Cine en Guadalajara, no México, e será exibido em julho no BlackStar Film Festival, na Filadélfia (EUA), tendo sido premiado, em 2024, no Sundance Documentary Fund, vinculado ao Sundance Institute.

“Cais”, que contou com o patrocínio do Rumos Itaú Cultural e o Fundo Avon Mulheres no Audiovisual (FAMA), aborda a recente perda da cineasta, cuja mãe faleceu há pouco tempo, bem como a chegada de seu primeiro filho. “Ando ansiosa para saber como o filme será absorvido pela audiência”, comenta Safira. Durante a fase inicial de pré-produção, Safira perdeu sua mãe. Após um período no qual se fazia imprescindível uma pausa na realização do filme, um sentimento de luto, mas também de reflexão e consciência sobre o modo como seria necessário resignificar a obra, acabou por nortear o trabalho.

Outro momento importante da vida de Safira durante essa fase de criação de “Cais” foi a chegada de seu primeiro filho. O longa passou por mudanças nesse processo que trouxeram à diretora uma construção narrativa que divide emocionalmente com o público essas questões de sua vida pessoal. No mesmo período de produção, Safira Moreira realizou curtas metragens como “Alágbedé” (2021) e “Da Pele Prata” (2025). São trabalhos que, também, abordam aspectos familiares e culturais da vida pessoal da diretora, auxiliando na maturação de “Cais”.

Mateus Aleluia e Tiganá Santana, músicos baianos, enriquecem de modo emocionante o filme com depoimentos sobre ancestralidade, vida, morte e perenidade do conhecimento. Em certo momento, em uma rima visual precisa, vemos a jovem mãe Safira e seu rebento, o pequeno Amani. Logo em seguida, Seu Mateus fala sobre os aspectos citados. Parceira de Safira na montagem do filme, a cineasta e montadora Tenille Bezerra colaborou nessa construção visual e narrativa a enriquecer “Cais”, filme que é um dos destaques da edição 2025 do festival curitibano Olhar de Cinema. No papo abaixo, Safira fala sobre o processo de criação do longa. Confira!

“Cais”, mesmo sendo um filme que traz a passagem de sua mãe como um guia de reflexão para a audiência, é uma obra que equilibra de maneira muito impactante aspectos sobre a vida, sobre a consciência da finitude, sobre essa paz interior diante dessa plenitude. Como diretora, como foi essa construção narrativa e como  foi emocionalmente para você dividir com o público essas questões de sua vida pessoal?
O filme estreia em junho, e ando ansiosa para saber como ele será absorvido pela audiência. Mas “Cais” é um filme sobre tempo, os movimentos da vida. Sinto que é um antídoto que criei para mim mesma, para atravessar o luto, compreender de um modo mais amplo a vida, e a ancestralidade que só existe no presente. E agora quero poder oferecê-lo as pessoas que estejam lidando com temas difíceis em suas vidas. O filme tem uma trajetória intuitiva antes de tudo. Éramos uma equipe de quatro adultos e um bebê, atravessando a Bahia e o Maranhão de carro, filmando coisas que eu sonhava, que minha mãe guiava, que tínhamos que encontrar no caminho. Um caminho que tem o Rio Paraguaçu como condutor, e o Rio Alegre como presente. Foi sendo esculpido no tempo, mesmo.

Ainda nessa abordagem, quero te perguntar sobre as rimas visuais tão eficientes que o filme traz, como a que vemos você com o pequeno Amani e, logo em seguida, vemos Matheus Aleluia falar tão sabiamente sobre tais aspectos de vida, de envelhecimento, e de equilíbrio dentro dessa percepção. Isso, claro, somadas às observações de Tiganá Santana. Na montagem, como foi esse diálogo entre você e Tenille Bezerra para a criação dessa estrutura entre imagens e falas que dialogam tão bem?
Eu vejo seu Mateus como uma grande voz de sabedoria, que em poucas palavras consegue decodificar os mistérios da vida. É uma dádiva escutá-lo, assim como Tiganá, Dona Maninha, outras vozes do filme. Tenille é madrinha de meu filho, alguém que está muito próxima aos acontecimentos de minha vida, e uma montadora extremamente sensível. A poesia atravessa nossas vidas, e acredito que esse olhar pro mundo, para as águas profundas, para o tempo, é algo que nos conecta. Assim, quando entrego à ela as imagens e intenções de “Cais”, o que vem desse encontro é muito especial. Ter a coragem de respeitar os silêncios do filme, não ter pressa em contá-lo.

Lembro-me de termos conversado sobre “Cais” ainda em sua fase inicial, quando o projeto passou pelo Brasil Cine Mundi, em Belo Horizonte. De lá para cá, muita coisa aconteceu em sua vida. O falecimento de sua mãe, a chegada de seu filho são duas delas. Como esses acontecimentos, entre outros que você queira citar, afetaram a construção do seu roteiro e escolhas de direção?
Sinto que “Cais” é um filme guiado pelo mistério. Era o rio da vida que corria solto diante dos meus olhos, e não havia possibilidade de pensar sobre outra coisa que não a dinâmica da vida-morte-vida. Tem algo sobre o filme que é o fato de eu ter desistido de fazê-lo no momento em que minha mãe adoeceu gravemente. Era impossível alcançar o filme que estava na minha cabeça desde 2018, era impossível alcançar qualquer coisa. E é desse impossível, insondável, incapturável, que “Cais” renasce. Um dia, semanas depois da passagem de minha mãe, entre o sono e o sonho, eu vi a possibilidade de construir um outro filme, e percorri os rios da Bahia e do Maranhão em busca da alegria de minha mãe, de sua força vital, e fui em busca de mim também, em busca de um solo firme para meu filho e sobrinhos. Não havia um roteiro cinematográfico, só o desejo de encontrar certas paisagens restauradoras, vozes que sempre me transformaram (como Mateus Aleluia e Tiganá Santana). Um desejo de agarrar a vida mesmo, e o cinema como um meio para isso. Foi a certeza de que fiz cinema para realizar “Cais”, e esse filme me salvar.

Outros trabalhos seus foram finalizados durante a produção de “Cais”. Filmes como “Alágbedé”, “Da Pele Prata”, entre outros. Como esses projetos ajudaram na maturação de seu primeiro longa?
Eu sinto que “Alágbedé” e “Da Pele Prata” são filmes importantes para minha construção artística. Nesses dois filmes eu olho para o trabalho de um ferreiro, Zé diabo, e um ourives, meu pai, Chico da Prata. São ofícios milenares, que atravessam o tempo, em matérias densas, com uma capacidade vital infinda. Trabalhos que estão espalhados pelo mundo, em terreiros de candomblé, com filhos e filhas de santo. Esses filmes me trouxeram maturidade em compreender a gramática do ofício, quase como se eu me espalhasse neles para absorver melhor o meu trabalho enquanto uma cineasta-artífice. Que tem um certo modo de contar, que persegue certos temas, que apreende determinadas energias no trabalho que realiza.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.

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