entrevista de Bruno Capelas e Igor Müller, do Programa de Indie
Eles têm menos de 30 anos, parecem saídos de um desenho animado dos anos 1970 e já contabilizam cinco álbuns em uma carreira de início precoce, ainda na adolescência. Quem ouve os Lemon Twigs em estúdio ou no palco, porém, pode achar que eles são veteranos: seja por suas harmonias vocais, pelas letras delicadas ou pelas melodias que remetem a nomes como Brian Wilson, Paul McCartney e Alex Chilton, o grupo dos irmãos Brian e Michael D’Addario têm conquistado fãs ao redor do mundo – incluindo gente como Elton John, Tim Bernardes, Iggy Pop e Todd Rundgren.
Em 2025, foi a vez do Brasil: em sua primeira passagem pelo país, o duo fez dois shows na capital paulista – um no Popload Festival, sob o sol quente de um dia de outono, e outro no Cine Joia, em apresentação solo num Popload Gig. “O público manteve a energia lá em cima”, diz Brian D’Addario em entrevista concedida nos bastidores do festival no Parque do Ibirapuera, logo antes da apresentação de Kim Gordon.
Em um papo rápido, os dois irmãos mostraram bastante personalidade, falando sobre a forma como veem a música, a relação fraternal e a fama de banda retrô. “Não queremos copiar ninguém. Queremos ser o mais criativos que pudermos, considerando apenas a música em estado puro, sabe?”, diz Michael, o mais novo dos dois. Eles também falam sobre a relação com o pai, o também cantor Ronnie D’Addario, e listam seus discos favoritos para levar a uma ilha deserta. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Essa é a primeira vez do Lemon Twigs no Brasil e vocês acabaram de fazer seu segundo show. O que vocês acharam?
Michael D’Addario: Foi muito legal. Nós tivemos um show realmente divertido ontem [no Cine Joia], a platéia estava cheia de energia, cantando com a gente. E a casa de shows era realmente muito bonita. O show de hoje também foi bom, considerando que a gente tocou às 13h. Estava muito quente, então acho que foi bom o bastante.
Brian D’Addario: O público manteve a energia lá em cima, mesmo dando pra ver que todo mundo estava com calor. As pessoas estavam sofrendo.
Brian, você tocou uma música brasileira no show do Cine Joia no começo do bis – o “Choro nº1” de Villa-Lobos. De onde veio isso?
Brian: Bem, fiz aula de violão clássico quando era mais novo, de maneira que aprendi um monte de peças de Villa-Lobos. Essa era uma que eu lembrava da juventude.
Michael: Ele é muito bom, né?
Brian: Foi muito legal ver que as pessoas reconheceram. Quando toquei na passagem de som, vi que a equipe estava assobiando. Foi legal.
Foi uma surpresa muito bacana! Vocês começaram a tocar muito jovens, o pai de vocês [Ronnie D’Addario] era cantor. Ele dava aulas para vocês quando vocês eram crianças? Como vocês descobriram a música?
Brian: Era meio informal. Ele ensinou pra gente o básico de cada instrumento. Se a gente tinha uma pergunta, ele respondia. Mas era bem tranquilo, nós só tocávamos juntos.
Michael: Normalmente, a gente tocava Beach Boys, Beatles, Dave Clark Five, essas coisas. A gente costumava tocar algumas coisas de rock mais simples. Depois, ele nos ensinou a fazer harmonias vocais. Ele dividia as vozes entre a gente, às vezes dava uma parte para minha mãe também fazer um coro de quatro vozes. Foi assim que a gente começou, foi assim que criamos nossa banda. E basicamente começamos a fazer a mesma coisa: quando éramos adolescentes, o Brian dividia as vozes para quem tocava com a gente. Era legal. Foi como nós aprendemos mesmo. Era muito legal.
Mas não era uma coisa meio opressiva, tipo aquele pai que cobra os filhos para jogar bem no futebol americano?
Michael: Não, não era como no filme “Whiplash”. Ele era ótimo.

Ficamos felizes em ouvir isso. O som de vocês tem uma série de influências dos anos 1960 e 1970, isso é bem fácil de perceber. No entanto, li numa entrevista recente que vocês não querem ser chamados de “banda retrô”. Por quê?
Michael: Não ligamos para esse rótulo, na verdade. Não importa. Mas a verdade é que não nos consideramos “retrô”.
Brian: Não? Achei que sim.
Michael: Não importa, na verdade. Nós tentamos escrever músicas próprias. Se fazemos uma melodia que reconhecemos que vem de uma música que gostamos, nós mudamos. Não queremos copiar ninguém. Queremos ser o mais criativos que pudermos, considerando apenas a música em estado puro, sabe?
Brian: É claro que a gente gosta de um certo formato de canção, o som das guitarras de 12 cordas, esse tipo de arranjo e de qualidade sônica. Nós gravamos em fita, esse tipo de coisa. Mas a verdade é que isso tudo faz parte do melhor esquema para o rock que nós fazemos. As gravações de rock que ouvimos hoje em dia não soam tão legais e intensas, até mesmo as gravações alternativas parecem suaves demais. Nós só tentamos fazer o que eles faziam nos discos dos anos 1960, porque são discos que todo mundo gosta. Quase todo mundo gosta. Ao menos eu gosto, sabe?
Uma das coisas que me chamaram a atenção na performance de vocês no palco é que vocês estão sempre sacaneando um ao outro. Mas é só piada, né? A relação de vocês não é como a dos Wilson ou dos Gallagher, certo?
Michael: Não, não. Quer dizer, os Wilsons se davam bem!
Eles brigaram mais no final, né.
Michael: Sim… e era mais um problema de primos que de irmãos, né. Mas não sei, Brian, o que você acha?
Brian: Nós nos damos bem, mas nós brigamos sobre coisas pequenas praticamente o tempo todo. Mas as brigas nunca duram muito.
Michael: É uma linha tênue, às vezes. Adoro quando ele me sacaneia no palco.
Brian: Não ligo.
Michael: Mas quando sacaneio ele, o que é mais frequente, muitas vezes acho que ele não gosta tanto.
Brian: Só gosto se o público gosta. Se eles acham que é engraçado. Mas se eles não dão risada, só penso: “será que você pode calar sua boca e tocar sua guitarra?”
Michael: Mas não dá pra saber. Não dá pra saber se as pessoas vão rir até que eu fale. Tipo quando joguei o copo em cima de você agora pouco. Não dava para saber se seria engraçado!
Brian: Acho que não… mas bem, acho que isso responde o que você queria saber, né?
Michael: Às vezes você precisa arriscar. Quem não arrisca não petisca, né?
É isso aí. Brian, você se arriscou recentemente lançando um disco solo. Como surgiu essa ideia?
Brian: Preciso dizer que pra mim é engraçado chamar esse disco de um álbum solo, porque nós trabalhamos nele do mesmo jeito que trabalhei em qualquer uma das minhas músicas com o Michael. O que acontece é que fiz algumas das músicas sozinho, como “Till the Morning”, mas na maior parte nós trabalhamos juntos. A questão é que nós não queríamos colocar essas músicas no próximo disco do Lemon Twigs, queríamos que o próximo disco começasse do zero.
Michael: Nós acabamos juntando essas músicas todas em um só lugar. Faz sentido, porque todas elas têm uma cara meio country, meio “baroque”. São coisas que o Brian faz, que podem parecer meio diferentes em um outro disco, mas que ficam coerentes juntas.
Michael, você vai gravar um disco solo também?
Michael: Acho que não. Sou preguiçoso demais para fazer isso. (risos) E sabe, nós temos que gravar um disco novo pra banda em breve. Fiz alguns shows solo. Gosto de fazer shows solo, mesmo quando o Brian aparece. Acho que gostaria de fazer shows sozinho, só para provar que consigo sem depender de mais ninguém. Mas discos? Não sei, não ligo. Acho que prefiro fazer discos do Lemon Twigs, mesmo.
Isso significa que vocês preferem estar no palco ou no estúdio?
Brian: Acho que gostamos dos dois. Tem sido bom fazer essa turnê. Nós ficamos quatro meses no estúdio e acho que realmente ajuda a gravar melhor quando você faz shows.
Michael: Sabe que eu sempre achei que gostasse mais do estúdio, mas agora acho que gosto mais de tocar ao vivo. O estúdio pode ser meio entediante, meio chato.
Muitas das músicas de vocês falam de primeiros amores, de se apaixonar. É o tipo de coisa que acontece quando você é adolescente. Como vocês eram na escola?
Brian: Acho que OK? Sei lá, eu tinha um grupo de amigos, incluindo o Michael e o Danny, que está com a gente na banda. Cresci com eles. Mas sei lá, eu não tinha uma vida social muito grande. Era OK, ninguém me enchia muito o saco?
Muito?
Brian: Não! Quer dizer: quando eu estava no ginásio as pessoas me chamavam de gay.
Não que seja certo, mas nessa fase todo mundo chamava os outros de gay.
Brian: Sim, sim. Estava tudo bem. Nós não tínhamos muitos amigos, éramos peixe fora d’água. Crescemos num subúrbio que era meio chato, eu não gostava.
Temos uma pergunta clássica para fechar a conversa. Quais são os discos que vocês levariam para uma ilha deserta?
Michael: Provavelmente “A Hard Day’s Night”, dos Beatles. Acho que “Radio City”, do Big Star. Ou “Pet Sounds”.
Vocês gravaram com o Jody Stephens, não é? Falamos com ele ano passado!
Brian: Ele é incrível. Um cara muito engraçado!
Michael: Voltando… Ok. “Smile” ou “Pet Sounds”. Poderia ser qualquer disco dos Beach Boys, sabe? “Friends”, “All Summer Long”, “Today”. Todos os discos dos Beach Boys funcionariam.
Brian: Três, certo? Bem, vou falar minha lista. “Southern Nights”, de Allen Toussaint. Adoro esse disco. “Songs of Leonard Cohen”, de Leonard Cohen. E “Discover America”, de Van Dyke Parks.
– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.


