Entrevista: A banda mineira Terceira Guerra fala sobre seu primeiro álbum, “O Preço de Ser”

entrevista de Bruno Lisboa

Formado em Belo Horizonte em 2019, o quarteto Terceira Guerra chega ao seu primeiro álbum com “O Preço de Ser” (2025) após uma série de singles. Com 13 faixas, “O Preço de Ser” aborda temas ligados desigualdade social, crise existencial e a necessidade da resistência política amparados por riffs pesados que remetem ao hardcore e ao metal.

“Neste álbum a gente quis inclusive caminhar um pouco mais na via do metal”, adianta o baixista Liniker Moura em entrevista por e-mail. “Sem deixar de lado o bom e velho hardcore que é influência para todos”, contemporiza. Ao lado dele estão Beto Santos (vocal), Thiago “Tom” (guitarra) e Daniel “Koda” (bateria).

Na entrevista que você lê abaixo, Liniker celebra o momento da cena mineira (“Atualmente, Belo Horizonte está pegando fogo, no bom sentido. As bandas e produtores vêm se movimentando muito”) e fala mais sobre “O Preço de Ser”, o poder transformador da música, referências musicais e participações especiais, entre outras coisas.

Como foi o processo de composição e gravação de “O Preço de Ser” ?
Como o Thiago, nosso guitarrista, mora em São Paulo, a parte de criação das músicas foi feita a distância. Ele sempre enviava pra gente umas prés/demos de cada som e a gente ia se alinhando sobre arranjos e possíveis ideias para as músicas. Após aprovarmos essa parte instrumental, o Beto criava a letra e já fazíamos uma outra pré com vocal. O álbum foi todo gravado no Estúdio Octo, aqui em Belo Horizonte, pelo Matheus Araújo, sendo e a mix e a master também na conta dele.

A sonoridade do álbum é intensa e visceral. Como vocês definem a identidade sonora da Terceira Guerra?
A gente sempre se intitulou desde o começo como metal/hardcore, sem nenhum rótulo muito engessado. Neste álbum a gente quis inclusive caminhar um pouco mais na via do metal, de maneira que isso trouxesse uma cara mais forte para identidade da banda. No entanto, sem deixar de lado o bom e velho hardcore que é influência para todos.

O título “O Preço de Ser” é bastante evocativo e dialoga com a contemporaneidade, no qual a luta pela existência é um exercício diário. O que ele representa para vocês — individual e coletivamente?
Cada um sabe aquilo que é, de onde veio e qual caminho precisou andar para chegar onde está. Nós, enquanto indivíduos e banda, também. Esse esforço para existir e não ser derrubado pelas amarras de um mundo sujo são uma baita inspiração pro álbum ter esse nome. Muita gente paga um preço mais alto por ser quem é, entende? Serve pra muita coisa e em várias letras isso está presente. São coisas que a gente observa no dia a dia e incomodam ou revoltam de alguma forma.

O álbum mergulha em temas profundos e contemporâneos. Que questões sociais ou pessoais mais motivaram as letras desse trabalho?
O álbum traz algumas vivências pessoais nas letras, de maneira que elas permitem uma conexão com quem está ouvindo. Algumas soam como verdadeiros relatos. A escrita do Beto facilita essa identificação e o que não faltam são as mazelas que vemos no mundo e que acabam virando tema de letra. Já é algo intrínseco ao HC e ao punk se manifestar sobre alguns temas sensíveis, infelizmente essa realidade não mudou.

As bandas Sujera, Balla, Uganga e Eminence participam do álbum. Como surgiram essas colaborações e o que elas acrescentaram ao disco?
Nos últimos anos a Terceira Guerra trabalhou com todos esses nomes, em alguma outra produção ou se trombando na estrada. Como desde o início já falávamos em chamar algumas pessoas para fazer parte do álbum, a ideia dos convites veio de forma natural. Quando os convites foram feitos, os caras curtiram tanto quanto a gente. Contar com outros músicos no álbum ajudou muito a coisa soar mais dinâmica. Cada participação colocando sua identidade nas músicas, criando mesmo. A faixa “Make Racists Afraid Again” teve as guitarras criadas pelo Matheus Araújo da Balla e participação minha. “Ascenda o Caos” foi composta e teve a guitarra gravada pelo Alan Wallace do Eminence. “Portas fechadas para o mal” tem trechos com letra e voz do Marcel Serra do Sujera. Por fim, “Terceira Guerra” teve a participação do Manu Joker do Uganga, também compondo sua parte da letra.

A Terceira Guerra é uma banda relativamente nova, mas já com uma proposta muito sólida. Quais são as referências — dentro e fora do hardcore/metal — que ajudaram a moldar o som de vocês?
Acredito que, como quase todo mundo, a gente escuta “de tudo”. A caminho de algum show podemos estar ouvindo Rap, The Cure ou de alguma banda punk dos anos 90, mas em poucos minutos já estamos ouvindo Adoniran Barbosa ou Clara Nunes (risos). A rapaziada é eclética mas algumas coisas acabam sendo mais impactantes na hora de compor. O hardcore punk está muito presente, assim como o NYHC. Já no metal, desde o thrash mais oitentista e noventista até o metal mais moderno, deathcore e etc, acabam influenciando. Então acaba sendo muita coisa, de Ratos de Porão, Rancid e Madball até Knocked Loose. De Machine Head e Sepultura até Whitechapel e Kublai Khan… No fim das contas o que vale como referência é saber como a banda deve soar e querer extrair o melhor de cada um de nós enquanto músicos e suas respectivas influências para não ser parecido com ninguém!

Historicamente a cidade de Belo Horizonte tem uma longa tradição ligada a música extrema e vocês, de forma gradual, tem conquistado espaço dentro e fora do estado das Minas Gerais. Como vocês veem o momento da cena na atualidade? E como vocês avaliam a recepção do trabalho do grupo em outras cidades?
Atualmente, Belo Horizonte está pegando fogo, no bom sentido. As bandas e produtores vêm se movimentando muito, se mantendo em atividade com eventos e diversos trabalhos lançados, desde a música extrema até sons mais leves. Ainda que as dificuldades sejam muitas, dá pra dizer que está acontecendo. Nós começamos devagar em 2022, mas com muita organização e planejamento. Fomos nos conectando, mostrando nosso som e espalhando o nome aos poucos. Ainda temos muito a conquistar, é só o começo. Em outras cidades o resultado vem sendo bastante positivo também. Desde o feedback com o público que estamos encontrando até o envolvimento com bandas que movimentam eventos em outros estados/cidades.

Algumas músicas do álbum já existiam há anos, enquanto outras nasceram dentro do estúdio. Como foi equilibrar isso no disco?
As músicas que já existiam traziam uma sonoridade que coube muito bem dentro da proposta do álbum e isso ajudou a formatar esse conjunto. E a real é que a gente tenta não engessar a nossa música, como já dito. Colocamos nossa atenção em como a coisa deve soar, então indiferentemente do que estamos criando, tentamos manter uma visão em comum no resultado. As últimas músicas a serem compostas já tem uma carinha diferente, mas no conjunto não destoou. Houveram algumas demos/prés que não entraram pro álbum também. Quem sabe lá na frente essas sejam usadas!?

 Como vocês conciliam as ideias que se complementam e as que se chocam dentro da banda?
Existe um respeito que tentamos manter ao máximo na parte do outro, sabe? O Beto com as letras, o Thiago fazendo a maioria dos riffs, eu no Baixo e o Koda com a bateria. Mesmo discutindo tudo coletivamente, acho que cada um sabe como o outro trabalha e também qual é a parte que lhe cabe. Conhecendo a identidade do companheiro de banda também você absorve melhor o processo e as possibilidades criativas. Quando o Koda entrou, por exemplo, ele trouxe uma onda mais metal pra banda que possibilitou explorar alguns novos caminhos. No entanto, ele já ouvia e sabia do peso do hardcore na Terceira Guerra.

A foto da capa do disco foi feita pelo RR, artista gráfico mineiro, e chama atenção pelo caráter interpretativo que ela tem. Qual foi a ideia por trás da arte e como ela se conecta com a mensagem do álbum?
Escolhemos para capa elementos que representassem diversos “ser”. O espelho, as cabeças no chão e tudo que temos de lidar para sobreviver e existir. A ideia era despertar sensações, visões e ampliar a interpretação de quem está vendo. Tudo ali foi em um único “click” em que deu tudo certo: a chuva por pouco não nos impediu de fazer a foto, o local escolhido, que no caso foi a escada da Lagoinha no metrô de BH, as cabeças, o reflexo no espelho molhado. No dia da foto houveram inúmeros contratempos, câmera quebrada, a chuva intensa, enfim. No fim das contas tudo isso acabou colaborando positivamente para o resultado alcançado.

Vocês procuram estabelecer uma conexão mútua com o público e isso se reflete nas apresentações ao vivo. Como vocês enxergam o poder transformador da música — tanto para quem cria quanto para quem escuta?
A música salva vidas mano. Poder sentir isso ao vivo quando alguém canta o refrão de um som seu por exemplo é gratificante demais. Colocar a galera pra fazer um circle-pit em algum som com o beat mais rápido ou trocar uma ideia com a galera depois do show são coisa mínimas que tentamos fazer pra criar essa conexão. Fazer com que nós e o público voltem pra casa com uma sensação de dever cumprido, de um dia memorável.

Como vocês esperam que “O Preço de Ser” reverbere no público? O que vocês querem provocar em quem ouve e quais são os planos futuros?
Esperamos que reverbere bastante ainda, da melhor forma possível e fazer o álbum estar no máximo de lugares. Além de cair na estrada e fazer shows, acredito que no decorrer dos dias haverão mais trabalhos em cima das músicas como clipe, live sessions ou coisas do tipo. O trabalho de divulgação é constante e dá bastante trabalho. Agora a banda tem uma cara mais “atualizada” com o disco, então traz uma energia nova também. Queremos botar essas músicas à prova, fazer bons shows e nos conectar com quem realmente tem interesse nesse tipo de música. A estrada é longa!

–  Bruno Lisboa  escreve no Scream & Yell desde 2014. Escreve também no www.phono.com.br

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