
The Cigarettes na LAJE SP (15/2)
texto, fotos e vídeos de Bruno Capelas
“Cara, tô me sentindo na Casa da Matriz, Rio de Janeiro, 1998”. A frase de Gabriel Thomaz, entreouvida em meio ao show do The Cigarettes na Laje, dava bem o tom de celebração indie da noite. Pudera: além do líder dos Autoramas, a plateia contava ainda com Tatá Aeroplano, Zé Antonio Algodoal (Pin Ups), Malu Maria, Jair Marcos (Fellini/3 Hombres), Victor José e Elisa Moos (Antiprisma). O time do palco, por sua vez, não deixava por menos: acompanhando Marcelo Colares, estavam Ana Zumpano (bateria), Beeau Gomez (baixo) e John di Lallo (synths) da Retrato, além de Gordinho, guitarrista do Pelvs. O senso de deslocamento temporal não se devia apenas aos presentes, mas também pela sonoridade: em uma saleta cheia de calor tanto atmosférico quanto humano, Colares privilegiou as canções da grande estreia “Bingo”, lançada em 1997 pelo selo midsummer madness. Quase todas elas foram cantadas a plenos pulmões pelos presentes: estiveram lá “Lips”, “We’re Gonna Make a Sound”, “Annabel Lee”, “Junk”, e claro, “The Beauty of the Day”, que contou ainda com a participação luxuosa de Lê Almeida na guitarra. Houve novidades também: preparando um disco vindouro sob a supervisão de Ana Zumpano, Colares mostrou as inéditas “Empty Inside” e “Move Away”, que mostram que o espírito que ocupou as madrugadas de um estúdio de nome gelado em Botafogo há quase três décadas segue pulsando. Mais que nostalgia, porém, o sentimento que orientava a noite era o da importância da música como instrumento de sentido da vida, como filosofou certo alemão: sem ligar para quaisquer limitações, Colares (que foi diagnosticado com ELA em 2022, “uma doença crônica e progressiva“) mostrava que o que mais importava naquele momento era estar ali, tocando, perto dos amigos e de quem lhe quer bem. Uma pulsão de vida tão forte que por vezes fazia a realidade parecer sonho. A sensação onírica era amplificada ainda pelas projeções psicodélicas, pela ilusão de ótica causada pelas “faixas de segurança” da Laje e pelas intervenções de John di Lallo aos sintetizadores, ajudando a estender as canções por seis, sete, oito minutos de camadas maravilhosas de ruído e melodia, como aconteceu em “Friendship”. Para encerrar, uma releitura delicada e deliciosa de “Titanium White”, da Stellar – e dedicada por Colares aos amigos Fábio L. e Beatriz, que já viajaram fora do combinado. Sem dúvida, uma das noites mais bonitas do ano em São Paulo – e ele ainda está só começando. Que venham mais pra gente celebrar a vida assim.
Sting no Parque do Ibirapuera (16/2)
fotos de Fernando Yokota / texto e vídeos de Bruno Capelas
De volta ao Brasil após oito anos, o inglês Sting começou sua apresentação na capital paulista de forma arrasadora: em uma sequência de classe, ele enfileirou hits do Police (“Message in a Bottle”, “Every Little Thing She Does is Magic”) e da carreira solo (“If I Ever Lose My Faith in You”, “Englishman in New York”, “Fields of Gold”). Era a promessa de um grande show. Não que todos os pagantes tenham visto: em um dos primeiros usos recentes do Parque do Ibirapuera para shows gringos solo (com direito a área vip), problemas na fila e na revista levaram muita gente a só conseguir entrar lá pela terceira ou quarta música. Não foi o único problema da organização: filas no bar também levaram ao abandono dos sistemas de copos descartáveis, com cervejas sendo servidas direto na latinha. Com todo mundo já dentro do parque e de cerveja na mão, porém, foi Sting quem se atrapalhou: ao enfileirar quatro lados-B da carreira solo e a climática “Synchronicity II” após os hits já citados, ele reduziu o ritmo do espetáculo de maneira a quase não conseguir recuperá-lo. Não contribuiu o fato de que muitas das canções apresentadas pelo britânico enveredam pelo reggae e por alguma leitura de world music, duas abordagens em que o silêncio se faz mais presente – e, aqui, mais uma vez, as vozes da plateia paulistana foram mais presentes que a banda em diversas ocasiões. Também não ajudou a comparação cruel das performances ao vivo dos músicos de apoio Dominic Miller (guitarra) e Chris Maas (bateria) com as gravações executadas por Andy Summers e Stewart Copeland. Pena também que a produção não soube aproveitar o fundo do Auditório Ibirapuera para projeções, como acontece em outros festivais. No que coube ao baixista, porém, ele não fez feio: apesar do tempo, a voz estava bonita e o baixo foi esmerilhado como sempre. A sensação de “freio de mão puxado”, porém, apareceu em vários momentos, como na leitura mais lenta de “Can’t Stand Losing You” ou nas performances menores de “So Lonely” e “King of Pain”. Felizmente, a energia prometida no início do show voltou antes do fim, com muita gente fazendo coraçãozinho e pulando apaixonadamente ao som de “Every Breath You Take”, antes do bis com a eterna “Roxanne” e a anticlimática “Fragile”. Na prova dos nove, uma noite divertida para tirar do checklist da vida vários hits, mas aquém do potencial e do peso de Sting e do Police na história da música pop.
Linda Martini no A Porta Maldita / Bar Alto (13/2 e 18/2)
texto, fotos e vídeos de Bruno Capelas
Com mais de 20 anos de bons serviços prestados ao barulho em Portugal, o Linda Martini é uma das maiores bandas deste século do lado de lá do Atlântico. Aqui no Brasil, porém, o grupo fez sua estreia apenas em fevereiro de 2025 – e em dose dupla, que é para ninguém botar defeito. Nas duas apresentações, que privilegiaram o repertório do recente “Passa Montanhas”, sétimo álbum da carreira, lançado neste 2025, vários fatores chamaram a atenção. O primeiro foi o alto volume com que a banda gosta de se apresentar ao vivo. Outro foram as bem tramadas camadas de guitarras propostas por André Henriques e Rui Carvalho, que não só herdam conquistas sonoras de bandas como Sonic Youth, mas as atualizam para novos contextos. Além disso, é necessário destacar a mão pesada do baterista Hélio Morais e a força do baixo de Claudia Guerreiro, tão discreta quanto potente. No primeiro concerto, n’A Porta Maldita, destaque para a participação do público, que surpreendeu os músicos com seu conhecimento da banda, e também para inserções de canções mais antigas do repertório, como “Panteão” e o inesperado bis com a incrível “Dá-Me A Tua Melhor Faca”, da estreia “Olhos de Mongol” (2006). No Bar Alto, com excelente som comandado por Alejandra Luciani e um público mais misto devido ao fato da apresentação fazer parte de uma noite promovida pelo MIL – Lisbon International Music Network, o grupo viveu uma experiência dupla. De um lado, focou ainda mais nas canções do álbum recente – o primeiro inteiramente gravado com Carvalho após a saída de Pedro Geraldes, em 2022 – e fez uma denúncia da retomada do fascismo ao redor do globo antes de executar “E Não Sobrou Ninguém”. Do outro, também abriu espaço para participações especiais de Victor Caldas (que deu colorido especial e tessitura à punk “Putos Bons”) e Maria Beraldo. Com a cantora de “Colinho”, foram duas faixas: primeiro, uma releitura roqueira para um medley de “Truco” e “I Can’t Stand My Father Anymore”, numa abordagem que poderia fazer bem às próximas apresentações de Beraldo. Depois, a catarinense usou seu saxofone para amplificar outro grande número de “Passa Montanhas”, “Eu Às Vezes Perco-Me”, aproximando universos sonoros que poderiam parecer distantes. O melhor, porém, ficou para o final, com o grito intenso de “foder é perto de te amar / se eu não ficar perto”, do já clássico encerramento “Cem Metros Sereia”. Na soma dos dois shows, se depender dos brasileiros, o Linda Martini pode ficar mais perto de nós, porque esta é uma banda pronta para ser amada por aqui.
– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.




