Entrevista: Mia Tomé fala sobre “Há um Herbário no Deserto”, disco em que celebra Emily Dickinson

entrevista por Pedro Salgado, especial de Lisboa

O percurso artístico de Mia Tomé é rico trafegando entre o papel de atriz, cantora e voice artist, sendo formada em teatro pela Escola Superior de Teatro e Cinema (Lisboa) e pelo The Lee Strasberg Theatre and Film Institute, de Nova Iorque. A poesia ocupou sempre um lugar de destaque na sua vida, bem como a vontade de trabalhar a palavra e o spoken word, abordando o lado feminino e autoras mulheres. Mia tem igualmente uma ligação antiga à música, fruto das lições de piano e violino que teve em criança, da vertente musical do teatro e das aulas de canto que resultaram da sua formação.

Quando nos encontramos na Cinemateca de Lisboa, a artista estava a poucos dias de lançar seu segundo disco, “Há um Herbário no Deserto” (2025), sucessor de “Projeto Natália” (2023), em que homenageava a obra da escritora e poetisa portuguesa Natália Correia. No novo trabalho, gravado no Oracle Recording Studio, no deserto de Sonora (Arizona, EUA), e produzido por Francis Kelly, Mia canta e diz a poesia de Emily Dickinson em português e inglês com ambiências pop e folk celebrando a natureza que compõe o trabalho de Dickinson e incluindo diversas sonoridades do deserto do Arizona, como o som dos coiotes e do vento.

O álbum, disponível em todas as plataformas e em vinil, resulta num trabalho momentâneo, porém intenso e cativante, composto pelo spoken word e por algumas faixas cantadas onde Mia Tomé assimila a poesia de Emily Dickinson, influenciada por todos os estímulos que a rodearam no deserto, pelos músicos com quem colaborou e por um estúdio assombrado por espíritos bons. Mia assume um tom ora expressivo ora vívido, destacando-se o pop catártico de “Pudesse eu Infinita Cavalgar” (inspirado no poema “Could I but ride indefinite”), o folk sonhador “When Roses Cease To Bloom” ou a elegante “Como as Montanhas Gotejam de Sol-Pôr”.

Relativamente ao fato do disco ser falado e cantado em inglês e português, ela justifica a dicotomia por várias razões. “O português é a minha língua nativa e não gosto de me descolar dela 100%, seja onde for. Por isso, não quis me afastar da língua portuguesa não só porque usei as traduções da poetisa Ana Luísa Amaral (tradutora do livro “Herbarium”, de Emily Dickinson), mas também porque é a minha língua e adoro celebrá-la onde for, como for e em que país for. O inglês usei-o porque ia gravar na América do Norte e mais concretamente nos Estados Unidos e tratava-se de uma poetisa americana. Por esse motivo, fazia sentido dizê-la na sua língua nativa”, diz.

Sobre a apresentação do álbum, Mia refere que “é certo que vamos tocá-lo na América com os músicos que gravaram o disco” e confirma shows portugueses, entre os quais um no auditório da Biblioteca Almeida Garrett, nos Jardins do Palácio de Cristal, no Porto, a 21 de março, onde irá estar acompanhada por Clara Lacerda, que fará algumas apresentações com Mia Tomé ao piano e nos sintetizadores. A artista revela ainda que haverá uma atuação na Estufa Fria (Lisboa), a 23 de março, bem como passagens pelos Açores e Viseu e várias escutas de vinis em livrarias com conversas, a primeira das quais será a 28 de fevereiro na Livraria Buchholz, em Lisboa.

Em jeito de conclusão, Mia Tomé elogia a criação global da poetisa americana e sublinha o âmago do seu trabalho presente e futuro: “Quando penso que Emily Dickinson em vida só publicou 10 poemas é realmente triste, porque a obra dela é gigante. Portanto, se puder escolher, irei trabalhar preferencialmente a obra de uma mulher. Nem sequer vou falar de reparação histórica, porque atualmente essas autoras não precisam de mim para nada, mas sinto vontade de fazê-lo”. De Lisboa para o Brasil, Mia Tomé conversou com o Scream & Yell.

A vontade de fazer o álbum “Há um Herbário no Deserto”, homenageando Emily Dickinson, foi uma consequência da relação profissional que você iniciou em 2021 com o estado do Arizona, onde efetuou uma residência artística focada nas “Mulheres Artistas do Oeste”, ou uma tentativa de aprofundar esse trabalho?
Está tudo ligado. O Arizona entrou na minha vida há muitos anos, porém fisicamente só em 2021 quando visitei-o pela primeira vez para fazer a pesquisa que você referiu, as “Mulheres Artistas do Oeste”. Nessa altura, ainda não tinha lançado meu primeiro álbum e estava a meses de o editar. Mas, encontrava-me no rancho Linda Vista que é um espaço de criação artística e tem um estúdio, o Oracle Recording Studio. Fui lá e visitei uns amigos, ou melhor, fiz esses amigos e decidi que o meu próximo disco seria ali. Ainda não tinha lançado meu primeiro álbum, mas houve qualquer coisa que me impeliu a fazer um disco nesse local. Essas mulheres artistas que investiguei estão de alguma forma ligadas à Emily Dickinson. Falamos de mulheres em que historicamente o papel delas nos westerns eram reduzidos a personagens de saloon e havia um pensamento unilateral e muito masculino. Falo de westerns porque foi o gênero cinematográfico onde me foquei. Portanto, abordar Emily Dickinson está diretamente ligado a uma homenagem a essas mulheres. Sendo que ela era do Massachussets e fui para o Arizona. Só que a Emily criou um herbário no Massachussets e nós podemos consultá-lo. O livro que  peguei para fazer este projeto é esse mesmo, “Herbarium”, em que ela evoca a natureza e quis recriá-lo noutro estado, neste caso no Arizona, que é um estado cheio de deserto. Quando pensamos no deserto imaginamos algo vazio e inóspito, mas não é assim porque a fauna é infinita e os cactos e os saguários estão lá. Por isso, tive essa vontade e decidi que íamos pegar na poesia dela e na sua ideia de natureza do estado do Massachussets e fomos recriar isso no Arizona e criar um herbário sonoro também.

O que mais a marcou na poesia de Emily Dickinson e que procurou transportar para o disco?
A evocação da natureza é muito importante e a forma como ela fala da morte e da vida através da natureza é extremamente bela. Vivemos tempos muito esquisitos. O mundo é um lugar bonito, mas é bastante feio ao mesmo tempo. Acho que percebemos o quão terrível isto pode ser. A natureza está a ser posta em causa e estamos a tratar mal nosso planeta, que é a nossa casa. É bonita a forma como a Emily dá ênfase a uma árvore, ao rio, aos pássaros e ao céu. Nós esquecemo-nos disso nesta vida frenética que temos, onde trabalhamos muito e se glamoriza a exaustão. Esse amor à natureza interessa-me muito. A maneira como ela fala da morte é algo muito especial para mim. Sou uma grande visitante de cemitérios principalmente pelas pessoas que admiro. Estive em Paris, no Pere Lachaise, e quis muito visitar o túmulo de Jim Morrison e da fantástica atriz Sarah Bernhardt. Quando estávamos a gravar no Arizona, terminamos a faixa “When Roses Cease To Bloom”, em que a Emily Dickinson fala das flores em Auburn. Eu sabia que era um local no Massachussets, mas desconhecia aquilo a que ela se estava a referir. Só descobri que ela falava do Cemitério de Auburn após gravar esse tema. Depois de gravarmos, houve um dia em que decidimos que tínhamos de ir ao cemitério e o Alex Tighe (líder e compositor do grupo americano Alex & The Moondaze e que participou na gravação do álbum) disse para irmos. Pegamos no carro e eu, o Alex e a Nicosa (Nico Paco, uma cantora, escritora de canções e multi-instrumentalista mexicano-americana, igualmente integrante da banda Alex & The Moondaze, e que também participou no disco) estivemos num cemitério em Oracle, um local pequeno, se pensarmos num lugar nos Estados Unidos, mas era enorme, extremamente humilde e a terra era seca e não dava para fazer muita coisa. Aquilo situava-se num topo e sentámo-nos lá os três e foi um momento bastante importante. Ficamos a olhar para o infinito, porque no deserto é terra sobre terra e o som do vento fazia com que o poema da Emily estivesse vivo em nós. Eu não sabia que a canção evocava um cemitério e já me disseram que lembra um pouco Lana Del Rey. É uma faixa que tem um pouco de folk. Essa é a canção do navio assombrado que rema pela areia no deserto. E era a ideia que eu e o produtor (Francis Kelly) tínhamos em mente.

Como correu a gravação no Oracle Recording Studio, no Deserto de Sonora, Arizona, EUA, e em que medida o local e a direção do produtor Francis Kelly influenciaram o rumo do álbum?
Correu muito bem. Estou muito agradecida por tudo o que passei ali. Todas as vezes que visito o Arizona são sempre especiais e esta também foi. Poder concretizar este projeto que senti desde a primeira vez que queria fazer lá foi uma oportunidade que o universo me deu. Estou muito grata por isso. As pessoas com quem colaborei fazem parte da minha vida e são meus amigos. Eles vivem a 8.000 quilómetros de mim, mas falo com eles quase diariamente. O Alex Tighe, a Nicosa e o Francis Kelly são artistas muito talentosos. Eu desejava fazer este trabalho com eles e todos tinham algo para acrescentar ao álbum. Antes de ir para o Arizona preparei as bases. Não sou instrumentista porém tenho algumas bases musicais e toco guitarra também. Portanto, fui compondo as melodias que queria para cada poema, gravei-as no meu estúdio de forma caseira e enviei essas demos para o Francis e para o Alex. Estive apenas um mês no Arizona. Isto pode ser intenso quando não estás com as pessoas, mas tentei aproveitar o tempo ao máximo. Quando cheguei ao Arizona, depois de enviar as maquetes, eles já tinham pensado em alguns arranjos. Houve uma faixa, “When Roses Cease To Bloom”, em que eu não estava muito feliz com o resultado. Embora só saiba alguns acordes básicos de piano, a intuição guiou-me e sentei-me uma vez ao piano na segunda noite e criei essa melodia e disse ao Francis: “Vamos! É isto!”. Foi muito importante ter o Francis, a Nicosa e o Alex já que parecíamos crianças a divertirem-se no estúdio, ou seja, tudo era possível. Houve um momento em que fomos tocar arco de violino num metalofone, porque aquele som fazia sentido. Era importante quebrar um pouco as regras, uma vez que este disco não era normativo e composto por canções redondinhas que têm um refrão. Então sentimos que o processo não podia ser assim e se era para desconstruir fizemo-lo. Abrir o piano e tocá-lo de outra forma ou usar um arco para o metalofone. Outra coisa que eu quis muito, e como lhe digo pretendi recriar esse arquivo sonoro, era ter um DNA do deserto. Por isso, fomos várias vezes à rua recolher sons do deserto. Houve uma madrugada em que o Francis Kelly foi registrar os uivos dos coiotes e em várias faixas conseguem-se ouvir esses uivos lá atrás. Gravamos também o som dos pássaros, do vento a bater nas folhas e o nosso andar na areia. Eu queria bastante ter esses elementos, porque o álbum foi feito ali e tinha de incluir todas as impressões digitais do deserto de Sonora que eu conseguisse obter. Não captei sons do rio Colorado, que fica perto do Grand Canyon, já que estávamos a seis horas de distância de carro. Por isso, o mais próximo dos sons de água que recolhi foram os da piscina do rancho Linda Vista onde fomos todos juntos e tentamos simular um rio (risos). Foi fundamental ter como produtor o Francis Kelly, que confiou totalmente em mim. Isto de pegar em poesia e dizê-la, que podia ser uma determinada coisa, beneficiou do fato de termos confiado um no outro. Como ele é tão talentoso, senti que ia mesmo correr bem. Foi fundamental ter esta equipa.

“Oráculo Para Emily” acaba por funcionar como eulogia e desenlace da viagem iniciada com “Welcome Sonora Desert”. Concorda?
Concordo em absoluto e fico extremamente feliz que você tenha lido assim. Imaginei o trabalho como uma pequena peça de teatro. Há uma abertura, um “welcome” ao deserto, um “sejam bem-vindos”, este é o meu mundo, da Emily e dos meus amigos, estamos no deserto e vamos viajar por diversas razões e depois terminamos. A faixa “Oráculo Para Emily” foi escrita por mim, consiste em vários poemas que eu reescrevi e misturei e é um agradecimento também. Quando estava a prepará-la disse: “Quero que isto soe a uma reza boa ou uma bruxaria boa”. Porque queimaram-se demasiadas mulheres por serem bruxas ou por dizerem que o eram. Ser bruxa para mim é algo de bom já que significa ser livre, ser mulher e acreditar em direitos iguais. Por isso é que temos a voz da Nicosa a sussurrar e de uma amiga que também colaborou. A Nicosa tocou flauta e fez um spoken word muito interessante nessa canção. A flauta transversal dela deu-nos uma ‘vibe’ de ópera, mas também a ideia de encantar a serpente com a flauta. No início de “Oráculo Para Emily”, temos um som de sino que traz o imaginário da igreja e da espiritualidade que a Emily Dickinson tem, tal como a religiosidade. Gostaria de referir que há uma faixa da Lana Del Rey de 2012 que eu gosto bastante (“Video Games”) que começa com um sino e isso perseguiu-me durante muitos anos. Por isso, pedi para ter um som igual e disse: “Vamos a uma igreja!”. Acabamos por encontrar um carrilhão que estava no mesmo tom desse sino que eu procurava e gravei-o para o disco. No fundo, é o momento punk do álbum (risos).

Você já colaborou com a banda americana Alex & The Moondaze e o músico português Noiserv, entre outros. Existe algum músico brasileiro com quem gostasse de estabelecer uma parceria?
Adoro o Tim Bernardes e gostaria de fazer uma parceria com ele. Tenho uma história com o Tim que nunca se resolve. Em 2023 fiz o tour do álbum anterior, “Projeto Natália”, e fomos a Washington DC e a Boston. Quando estava em Washington, e ia ter uma apresentação nesse dia e encontrava-me na rua com um colega a ter uma discussão sobre um problema que surgiu sobre o concerto, passou por nós o Tim Bernardes muito perto da Casa Branca. Dsse ao meu colega: “Meu Deus está ali o Tim Bernardes!”, porque gosto muito dele. Não era o momento certo para o ir cumprimentar, mas fiquei muito chateada por não o ter feito. O Tim também tinha um show nesse dia em Washington. Depois disso eu vim para Portugal, ao fim de duas apresentações nos Estados Unidos, e o Tim Bernardes também veio. Encontrava-me eu no Lisboa Ao Vivo (sala de espetáculos lisboeta) a ver um show do Kevin Morby e Tim Bernardes estava ao meu lado e contei ao meu companheiro. Ele disse para o cumprimentar e dizer-lhe que o vi há três semanas na Casa Branca. Mas não o quis incomodar mais uma vez. Em 2024 estive no Brasil a dar um concerto e estava hospedada em frente à Arena Jockey, no Rio de Janeiro, e o Tim Bernardes fazia um show na mesma altura e não nos cruzámos aí, também. É quase uma coisa kármica. Portanto, na América, Portugal e Brasil o Tim está sempre perto de mim e nunca falamos. Ele é o artista brasileiro com quem eu mais quero colaborar. Adoro mesmo o trabalho dele. Tim é um poeta.

Gostaria de deixar uma mensagem aos leitores do Scream & Yell?
Eu estive no Brasil apenas uma vez e mais concretamente durante 48 horas, no fim de novembro passado, no Rio de Janeiro, e fiquei encantada. Aquele lugar é um portal, um portal de luz, alegria e de bons corações. A minha apresentação aconteceu em um pequeno festival chamado “Desdobramentos da Palavra”, que se desdobrou em diversos lugares, eu atuei no palco da PUC com dois músicos brasileiros maravilhosos: o Marcello Magdaleno e o Vinicius Magdaleno. Foi espetacular, porque eles fizeram versões e escolhemos poemas de autoras da língua portuguesa, tal como angolanas e são-tomenses. Foi no Brasil que eu toquei pela primeira vez “Pudesse eu infinita Cavalgar” e eles fizeram uma releitura linda e muito tropical dela. Recordo-me de dizer: “Agora eu só quero esta versão (risos)”. Por isso, este herbário nasce na América do Norte, mas também nasceu no Brasil. Fizemos um belo trio e foi uma alegria estar no Rio. Gostaria também de deixar o meu coração com os brasileiros e desejo que haja disponibilidade para me escutarem e de ouvir o que tenho para dizer neste meu sotaque mais duro e não tão bonito como o vosso. Espero que possamos colaborar, porque isto de partilharmos uma língua é a coisa mais bela e poderosa do mundo. É importante unir forças pela arte. Acho que é mesmo muito bonito.

– Pedro Salgado (siga @woorman) é jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream & Yell desde 2010 contando novidades da música de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado aqui.



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