Cinema: “Homens de Barro” constrói a narrativa de um improvável romance gay no interior do Rio Grande do Sul

texto de Renan Guerra

Um casal de jovens apaixonados em um delicado romance que é perpassado por uma rixa entre famílias. Você já ouviu essa história: ela está lá em “Romeu e Julieta”, o clássico shakespeariano escrito entre 1591 e 1595. Essa famosa narrativa ganha outros contornos e nuances quando levadas para o interior do Rio Grande do Sul, com uma perspectiva homoafetiva, como acontece no filme “Homens de Barro” (2025), que marca a primeira a incursão na direção de longa de ficção da produtora brasileira de cinema Angelisa Stein. Uma coprodução Brasil e Argentina, o longa tem codireção do argentino Fernando Musa, que assina o roteiro com o também argentino Gonzalo Heredia, e direção de fotografia do premiado Bruno Polidoro (que também trabalhou no longa “A Primeira Morte de Joana”, de Cristiane Oliveira, outro filme gaúcho de temática LGBTQIA+).

“Homens de Barro” é narrado por Ângelo (João Pedro Prates), um integrante da família Miranda, que vive com seus pais e com o irmão Marciano (Alexandre Borin). Na casa ao lado vive a família Tamai com seu filho único Pássaro (Gui Mallmann). Por rixas nos negócios, já que ambas as famílias trabalham fabricando tijolos, os pais dos meninos, Élvio Miranda (Rafael Guerra) e Oscar Tamai (Cassiano Ranzolin), acabam entrando em uma espécie de guerra fria que pode explodir a qualquer momento e gerar chagas eternas nas duas famílias. Essa tensão entre vizinhos dura para além da presença dos dois pais, sendo repassada para os filhos. Já adultos, Ângelo, Marciano e Pássaro voltam a circular pelos mesmos ambientes da pequena cidade rural ondem vivem. Nessas, Ângelo acaba se envolvendo sexual e romanticamente com Pássaro, criando um romance que se torna proibido por diferentes agentes externos: a homofobia de uma cidade de interior, a relação historicamente conturbada de suas famílias e a mágoa guardada por Marciano (a sua espécie de herança paterna simbólica).

Gravado na região do Belém Velho, bairro rural da grande Porto Alegre, o que primeiro salta aos olhos no filme são as cores e os tons construídos pela fotografia de Polidoro. Os cenários com suas casas de marcenaria, seus bares de mesas nas portas, com o carteado a ser jogado sob luzes incandescentes, tudo é bastante natural aos olhos de quem já trafegou pelo interior do Rio Grande do Sul. Em segundo lugar, chama atenção a fala carregada de sotaque e que ganha naturalidade quando dita pelas vozes de atores realmente gaúchos. Além disso tudo, é curiosa também a suspensão temporal do filme: não sabemos quando essa história se passa, estamos no passado? Não há celulares em tela e isso é um marcador forte quando falamos de um filme sobre jovens que circulam entre motos e festas – que parecem bastante modernas. Em contrapartida, os personagens fumam muito, como se ainda estivéssemos nos anos 1980. Essa suspensão ajuda a criar essa espécie de mitologia para o universo do filme de Angelisa Stein.

“Homens de Barro” nos mergulha naquele pequeno microcosmo e torna críveis suas narrativas familiares e amorosas, desenvolvendo uma cumplicidade do espectador com aquilo que se vê na tela e isso é o grande trunfo do filme, pois após embarcarmos na narrativa, até conseguimos nos abster das falhas e fraquezas da trama. A curta duração da história nem sempre possibilita um aprofundamento de seus personagens e, com certeza, a história só teria a ganhar se o trio principal fosse mais bem desenhado. O nosso próprio narrador Ângelo é apresentado de forma pouco profunda, faltam-lhe detalhes que poderiam dar mais nuance ao seu amor, aos seus medos e suas ações. A simplicidade e facilidade com que as coisas se desenvolvem na história nem sempre soam verossimilhantes e isso pode criar certas quebras ao olhar do espectador, por isso retornamos a ideia de que a melhor forma de se entender o filme é embarcando nessa suspensão proposta pela narrativa. Confiando nisso ganhamos um romance que remete aos formatos clássicos: a paixão juvenil, a descoberta do prazer, o poder dos encontros e a descoberta da tragédia como parte do humano. Tudo isso habita esse universo masculino e dúbio de “Homens de Barro”.

Dito tudo isso, é interessante pensar nas escolhas estilísticas da narrativa, em como as cores, os sons e as ambiências fazem desse um filme bastante cinestésico, em que as sensações contam tanto quanto as informações e isso auxilia a suprir as faltas da história. “Homens de Barro” não é um filme perfeito, mas é em suas imperfeições que somos transbordados por sua humanidade, por sua busca exploratória pelo outro e isso é enriquecedor de se ver nas telas brasileiras.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava





Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *