entrevista de Bruno Lisboa
A menores atos está de volta! Sete anos após “Lapso” (2018), seu terceiro disco, e com mudanças na formação, o trio carioca retorna com “FIM DO MUNDO” (2025), um disco dividido em três atos (Vazio, Em Demolição e Depois do Sol e da Chuva) que refletem um momento de transformação com um som mais denso que explora novas abordagens tanto na produção quanto nas composições.
Surgida em 2002, mas com uma formação atual que começa a se construir com a entrada de Cyro Sampaio (guitarra / voz) em 2010, depois a chegada de Celso Lehneman (baixo) em 2015, e por fim o acréscimo de Gu Marquardt (bateria) em 2024, a menores atos sempre se destacou por uma sonoridade post hardcore carregada de emoção e honestidade. “FIM DO MUNDO” é um novo passo nessa trajetória.
Contando com Gabriel Zander na produção, o novo disco ainda destaca participações especiais de Ale Sater (Terno Rei) e Rodrigo Suricato (Suricato, Barão Vermelho), respectivamente nas faixas “gravidade: e “não tem mais verão”. Na entrevista abaixo, Cyro fala sobre o processo criativo por trás do novo álbum, as mudanças na sonoridade da banda, parcerias, referências sonoras, intenções alimentadas para com o público, planos futuros e muito mais. Leia abaixo!
“FIM DO MUNDO” parte de uma analogia com um cenário apocalíptico. Como foi o processo de transformar um conceito tão denso em uma narrativa coesa, dividida em três atos?
Foi um trabalho mais de organização do que havia sido criado, no fim das contas. Conseguimos amarrar a história de forma que fizesse sentido essa construção em três partes. Às vezes mais guiado pelo clima das músicas, em outros momentos pelo contexto das letras, mas a gente queria que o álbum soasse coeso mesmo, como se fosse um filme, com início, meio e fim.
Vocês mencionam no release para a imprensa que o álbum foi construído em um período de desmoronamento. Esse “fim do mundo” é algo mais pessoal ou inspirado no caos coletivo que vivemos nos últimos anos?
Um pouco de cada! Comecei a escrever algumas dessas letras ainda no meio da pandemia e, na sequência, muita coisa também aconteceu no âmbito pessoal que serviu sim como combustível pra temática do álbum, como término de relacionamento, saída de integrante da banda. Então, no geral, se trata mais de uma visão pessoal, de quem enfrenta um “fim do mundo” particular.
Apesar do título impactante, há um tom de renascimento e superação no álbum. Como foi equilibrar essa dualidade entre destruição e recomeço nas composições?
Essas composições acabam sendo um retrato desse momento nosso mesmo, então era necessário também que o disco refletisse essa ideia de renascimento. De certa forma, por si só, esse disco significa isso pra nós. Acho, inclusive, que reforça a ideia de que o fim do mundo também é um recomeço, o que fica explícito em alguns detalhes, como por exemplo o fato do último som do disco também ser o primeiro, da faixa “Vazio”.
Este foi o disco em que vocês mais se envolveram na produção. Como essa escolha expandiu o som característico da banda?
Já tinha tempo que a gente queria inserir outros elementos e crescer o nosso som. Fizemos isso de maneira mais intensa pela primeira vez em “Breu” (single de 2021) e isso abriu demais as nossas possibilidades. Claro, do nosso jeito, sem querer mudar drasticamente o que já fazemos há mais de dez anos, mas também mostrar um pouco da construção do nosso gosto musical, que ao longo do tempo naturalmente vem absorvendo várias outras abordagens.
Faixas como “nem choro, nem festa” e “furacão” são conduzidas por beats eletrônicos. A inserção dessa estética sonora surgiu de uma necessidade narrativa ou foi mais um experimento sonoro?
Eu criei o beat de “nem choro, nem festa” ainda sem saber o que viria a ser. Era um daqueles momentos de entressafra da banda, eu vinha compondo algumas músicas pro meu projeto solo, então foi um experimento completamente despretensioso, que veio de uma vontade de explorar uns beats mais diferentes, muito infuenciado pelo “Enclosure”, do John Frusciante, Björk também e, porque não, um pouco do funk carioca, com essa estética lo-fi. Em algum momento comprei uma drum machine, onde recriei o beat, levei pra banda e foi uma luta até a gente achar o formato ideal. Nela tivemos a participação do Pablo Greg, músico e produtor parceiro que já vem trabalhando conosco em várias faixas, inserindo alguns elementos e arranjos. Além dele, quem acabou sendo essencial pra finalização dessa produção foi o Celso (Lehnemann, baixista), que assumiu a responsa de montar as partes de uma forma mais interessante e acabou fazendo dessa uma das nossas preferidas. O mesmo aconteceu com “furacão”, mais um belo trabalho do DJ Celso, que inseriu esses beats junto com a batera orgânica, além de vários elementos que deram esse tom mais obscuro à música. Nesse caso, os elementos entraram depois da criação da música, então fazem mais parte da construção estética do disco, indo pra uma pegada mais NIN.
O violão assume diferentes papéis ao longo do álbum, imprimindo um caráter mais solar ao disco. Como vocês decidiram quando ele deveria estar no protagonismo, como em “não tem mais verão”, ou servir como complemento?
Essa foi uma escolha bem natural. Em “não tem mais verão”, que foi uma música criada no violão com a ideia de ter essa cara bem folk/pop, a novidade foi ter incluído a guitarra, o que levou a canção um pouco mais pro indie/alternativo, numa onda mais Courtney Barnett, que acabou sendo uma referência pro resultado final. Nas demais músicas que usam o violão, como “sorte” e “tudo no mesmo lugar”, a gente buscou explorar mais o lado percussivo do instrumento, também pra preencher mais o som com camadas, o que acabou dando a tônica pro “FIM DO MUNDO”, um disco mais denso, que a gente quis levar pros extremos e usar todos os recursos que estavam à disposição. Mas desde o início era uma certeza pra gente a vontade de usar o violão no disco.
O Ale Sater e o Suricato são artistas de universos musicais distintos, mas que se encaixaram perfeitamente no disco. O que vocês buscavam nessas colaborações e como foi o processo criativo com eles?
O Suricato veio como sugestão do Mateus Simões, nosso grande amigo que vem trabalhando conosco como diretor executivo e que já tinha uma relação com o artista. Claro que já acompanhamos ele faz tempo e adoramos a ideia, tanto pelo que ele representa hoje musicalmente, quanto pela presença dele na internet, sendo sempre tão interessante e assertivo. Felizmente, ele aceitou e gostou do convite, ao que fui pro Rio acompanhar a gravação e acabamos nos conectando bastante. Ele é um cara supertalentoso, com uma grande sensibilidade e generosidade, e foi um prazer tê-lo conhecido. Já o Ale é um amigo querido, com quem sempre encontro seja na estrada, seja nos roles pela cidade e já vínhamos conversando sobre uma colaboração faz tempo. Mas só depois que finalizamos a gravação do disco que enxerguei a voz dele em “gravidade”. Pra nossa felicidade, ele super se identificou com a música e entregou ainda mais do que eu esperava, com várias (lindas) camadas de voz e uma interpretação absurda da canção. A voz dele é linda e ele é um dos artistas contemporâneos que mais admiro. No final das contas, concordo muito que a contribuição dos dois artistas encaixou perfeitamente no disco.
A estrutura em três atos é algo raro em álbuns de rock no Brasil, ainda mais em tempos em que o público tem optado por ouvir faixas avulsas ao invés do álbum. Vocês já tinham esse formato em mente desde o início ou ele surgiu durante o processo criativo?
Foi algo que surgiu com o álbum praticamente pronto. Também motivados pelo Mateus (Simões) que nos deu a ideia de criar um conceito do álbum que amarrasse essas músicas em uma história mais bem contada e agregasse ainda mais significado pro trabalho.
Cada ato possui uma identidade lírica e sonora distinta. Qual foi o maior desafio em manter a coesão entre eles sem perder a individualidade de cada parte?
Curiosamente, o primeiro ato (VAZIO) sempre ocupou esse lugar. Até tentamos mexer nessa ordem, mas acabamos voltando à ideia original. Foi um trabalho de quebra-cabeça mesmo, pra encaixar as peças num suposto lugar “certo”. Teve um dia que abracei essa missão, me debrucei sobre as músicas e letras e criei o esqueleto dessa montagem, fazendo uma ligação entre as letras e o clima das músicas. Acabou que o segundo ato (EM DEMOLIÇÃO) se tornou o mais pesado, em todos os sentidos e aí finalizamos com o alívio de DEPOIS DO SOL E DA CHUVA, que já dá essa cara mais otimista, de renascimento.
Desde o início, a menores atos tem expandido os limites do hardcore. Vocês sentem que o novo disco é o trabalho mais ousado da banda até agora?
Com certeza. Desde o início, conversamos entre nós e nosso produtor Gabriel Zander (prod/mix/master) que queríamos explorar os extremos nesse trabalho, de uma forma bem dramática. Pro lado mais pop e pro mais dark, no instrumental e nas letras. E acho que conseguimos isso, tanto pelos beats e violões quanto nas músicas mais pesadas como “de canção em canção”. E interessante pensar que talvez a (canção) mais ousada do disco tenha sido “não tem mais verão”, que acabou sendo a mais diferente de tudo que já fizemos antes.
Como vocês esperam que os fãs interpretem o álbum e se conectem com essa narrativa do “FIM DO MUNDO”?
Eu acho que o “FIM DO MUNDO” traz uma dose cavalar de menores atos. Pegamos um pouco do desespero do “Animalia” (2014), somamos com a pré-produção cuidadosa do “Lapso” (2018), mantivemos a temática pessoal cheia de sentimentos e tivemos a presença de um novo integrante, o Gu Marquardt (bateria) que deu a cola que a gente precisava pra unir todos esses pontos em músicas que vão muito mais direto ao ponto, sem perder a nossa essência. Já consigo perceber o quanto o público realmente se conectou com esse novo trabalho e com essa nova fase da banda. Ansiosos pra ver essa conexão nos shows da turnê.
Já tive a oportunidade de ver vocês ao vivo e os shows têm como elemento e força motriz a intensidade. Como será a nova turnê e quais são os planos futuros?
A nova turnê já começa em fevereiro, temos vários shows marcados e a gente espera demais a participação do público cantando alto essas músicas novas, tanto quanto as clássicas. É realmente o nosso melhor trabalho, na nossa opinião e temos muita convicção de que o show vai entregar toda essa emoção e cuidado da produção. O plano é tocar em cada canto desse país e além. Levar o nosso “FIM DO MUNDO” pra todos os lugares.
– Bruno Lisboa escreve no Scream & Yell desde 2014. Escreve também no www.phono.com.br
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