Esse você precisa ver: O lado mais visionário (e controverso) de David Lynch ainda é visível em seu “Duna”

texto de Davi Caro

É difícil saber até onde uma obra pode ser chamada de “subestimada”. Claro, é completamente plausível acreditar que algo é digno de muito mais atenção do que normalmente recebe, ou que tal objeto de estudo não foi julgado merecedor de uma análise mais apurada. No entanto, paradoxalmente, uma obra tida como subestimada por muitos não pode ser, de fato, tida como tal. No que tange a chamada cultura “cult”, então, é que essa contradição se torna mais latente e inescapável – ainda mais quando o responsável por uma obra do título é, por si só, visto como uma espécie de avatar de tudo que se pode entender como “cult”.

Não foram poucos aqueles que se dedicaram a rememorar a vida e obra de David Lynch quando do falecimento do realizador, neste janeiro de 2025. Muitos de seus admiradores, ao prestar tributo ao legado do cineasta americano, não perderam a oportunidade de evocar filmes como “Eraserhead” (1980), “Mulholland Drive” (1998) ou “Lost Highway” (1994), êxitos praticamente unânimes de público e de crítica. Neste ponto, é necessário deixar claro que “Duna” (“Dune”, 1984) não é necessariamente uma obra merecedora do adjetivo “subestimado”: afinal, a adaptação do livro de Frank Herbert, escrito em meados dos anos 60 e transposto por Lynch para a tela grande pela primeira vez, parece angariar ano após ano parcelas enormes tanto de devotos, que se vêem transportados para o distópico universo permeado por disputas éticas e políticas com elementos típicos da ficção científica como pano de fundo, quanto detratores, incomodados com a megalomania que parece tomar conta de cada linha de diálogo, cada passagem, cada momento de tensão.

Francesca Annis e Kyle MacLachlan em “Dune”

Não se pode deixar de considerar que o mundo no qual a primeira adaptação cinematográfica de “Duna” existe hoje em dia é muito, senão totalmente, diferente daquele que a viu chegar aos cinemas pela primeira vez: desde então, o enredo desenvolvido por Herbert (e continuado em sequências pelas mãos do mesmo) já pôde ser visto tanto nas telas das televisões (como em “Frank Herbert’s Dune”, que chegou ao Sci-Fi Channel no ano 2000) quanto em telas de cinema ainda maiores – vide o magnífico trabalho de Denis Villeneuve, cuidadoso o bastante para lançar sua adaptação em duas partes (com a segunda sendo forte candidata à posição de melhor filme de 2024).

Reconsiderar o trabalho de Lynch à luz do que veio depois, ou especialmente após sua morte, pode parecer um exercício de injustiça, mas também cria a oportunidade de descobrir, ou redescobrir, diferentes tipos de beleza e virtude em um trabalho que, em sua forma final não agradou nem mesmo ao próprio diretor – que não poupou palavras ao descrever a péssima experiência que teve junto ao estúdio, que editou indiscriminadamente o material gravado. Não que se trate de um filme perfeito; qualquer um acostumado com outras jóias de seu currículo não vai necessariamente se sentir à vontade com o épico futurista. Tampouco o vão os fanáticos por franquias como “Star Wars”, “Star Trek” ou “Battlestar Galactica” (embora todas tenham bastante em comum com o escrito por Herbert). Seja como for, assistir a primeira adaptação de “Duna” para os cinemas requer, mais do que paciência, um incrível exercício de perspectiva. A recompensa garantida aos mais dispostos, porém, é muito maior do que se pode esperar à princípio.

Paul L. Smit e Sting em “Dune”

Todos aqueles já familiarizados com a complicada história através da adaptação mais recente já conhecem os meandros abordados aqui: num futuro distante, o funcionamento da sociedade como um todo é dependente do uso de uma especiaria encontrada exclusivamente no planeta Arrakis, que, devido à sua importância, é comandado de forma alternada por dois clãs – os Atreides, leais ao duque Leto (Jürgen Prochnow), e os Harkonnen, liderados pelo sádico Barão Vladimir (Kenneth McMillan) ao lado de seu sobrinho, Feyd Rautha (Sting) – mediados pelo imperador Shaddam IV (José Ferrer). Se aproximando do fim de seu período à frente do árido planeta, os Harkonnen tramam juntamente com a autoridade máxima para exterminarem os Atreides, cujo herdeiro, Paul (Kyle McLahlan) se vê envolvido em uma estranha profecia – o que o levará a ser considerado uma espécie de salvador, particularmente pelos nativos de Arrakis, os Fremen. Em tempo, a tragédia resultante da conspiração dos Harkonnen força Paul e sua mãe, Lady Jessica (Francesca Annis) para o exílio no deserto, onde as chances de sobrevivência são tornadas remotas muito devido à existência de gigantescos vermes que habitam as colinas arenosas. Encontrando os nativos reprimidos, e com a ajuda tanto da valente Chani (Sean Young) e de seu instrutor de combate, Gurney Halleck (Patrick Stewart), Paul deve provar seu valor e vingar o cruel ataque à sua família, ao mesmo tempo em que tenta entender o significado de sua presença em um ambiente simultaneamente inóspito e familiar, confrontando seu destino e compreendendo seu papel como o messias (ou Muad’Dib) de um povo à beira da extinção.

Embora vivamos em um mundo onde as possibilidades infinitas da sétima arte são capazes de conceber improváveis obras-primas (como os já mencionados dois longas de Villeneuve), é inimaginável o quão impossível uma adaptação de “Duna” deve ter soado a um espectador ocasional de cinemas nos anos 80. Ao ponto de outras tentativas anteriores terem falhado de forma retumbante: no início da década anterior, com uma versão filmada por Alejandro Jodorowsky tendo sido planejada, esquematizada e roteirizada, mas foi tida como “suicídio comercial” e cancelada (o excelente documentário “Jodorowsky’s Dune”, lançado em 2013, ajuda a criar um vislumbre do quão deslumbrante e inviável a produção deve ter parecido aos estúdios e ao público desde sua gênese). Tentativas foram feitas, já no final da década de 1970, de atrelar o diretor Ridley Scott aos planos de realização do filme após a compra dos direitos pelo produtor italiano Dino De Laurentiis. A aproximação com David Lynch, numa tentativa de evitar a perda destes direitos, fez com que este último declinasse a proposta de dirigir “O Retorno de Jedi” (algo que, apesar de exótico, é fascinante de imaginar). Mas Lynch persistiu, e as filmagens tomaram forma no México entre Março e Setembro de 1983.

Kyle MacLachlan e Sean Young em “Dune”

A folha corrida do elenco de “Duna” é até hoje fonte inesgotável de intriga e fascínio, mas todos os nomes que desfilam na tela demonstram níveis de entrega invejáveis a seus papéis, indo contra a maré de um roteiro quase intransponível e atingindo níveis impressionantes de êxito. As alegorias assumidamente inspiradas pelas circunstâncias da então vigente Guerra Fria (de acordo com o próprio autor) podem fazer com que algumas performances pareçam mais caricatas e menos tridimensionais à primeira vista (a repugnante figura do Barão Harkonnen é um exemplo disso), enquanto outras, como a do médico Wellington Yueh (Dean Stockwell) ajudam a criar empatia por um personagem forçado a trair aqueles a quem jurou lealdade.

Em se tratando de atuações, porém, McLahlan rouba a cena, se jogando com abandono e dedicação em direção a um papel difícil. O mesmo pode ser dito de Young e Stewart, esbanjando sua versatilidade em seus respectivos papéis, o que ajuda a valorizar os impressionantes sets e figurinos (com destaque para a muito comentada sunga utilizada por Sting, ainda que nem sempre levada a sério). Falando nisso, o trabalho animatrônico dedicado à caracterização de Arrakis, e dos vermes gigantes que o habitam, se tornou referência de cinematografia, e os magníficos storyboards realizados previamente não perderam em sua transposição frente às câmeras. Outro ponto de curiosidade é relacionado à trilha sonora do filme, composta e executada em grande parte pela banda americana Toto. “Em grande parte” por causa do insuspeito envolvimento do músico e produtor Brian Eno, cuja contribuição (o etéreo “Prophecy Theme”, feito ao lado do parceiro Daniel Lanois) não soa deslocado junto às composições do experiente grupo, que dão o tom da grandiloquência da adaptação ainda que não funcionem tão bem como obras isoladas de seu complemento visual.

Mesmo toda a dedicação dos envolvidos não foi capaz de salvar “Duna” do destino de muitos outros filmes da mesma estirpe: a versão do diretor, mesmo após extensos cortes, foi estimada em três horas de duração, o que foi tido como pouco interessante por De Laurentiis e pelos executivos da Universal, responsável pelo financiamento do longa. Assim, narrações em off foram adicionadas, e inúmeras cenas foram reeditadas a fim de concentrar ou agilizar determinados pontos da trama – ao passo que inúmeras cenas foram descartadas por completo. Tal interferência fez com que Lynch fizesse inúmeros esforços para se distanciar do corte resultante, que julgou ser pouco representativo de sua ética de trabalho, e exigiu que seu nome fosse substituído, na versão exibida pela primeira vez na televisão, pelo pseudônimo “Alan Smithee”. De lá para cá, o cineasta já recebeu várias propostas de lançamento de versões estendidas, ainda que tenha recusado todas e evite ao máximo discutir o filme em entrevistas. No fim, “Duna” foi lançado em DVD totalizando 186 minutos, com os créditos originais preservados.

A recepção concedida a “Duna” foi negativa quando de seu lançamento original, com comentários que iam de sua longa duração à sua confusa e, aos olhos de muitos, inconsistente narrativa. Somente a partir dos anos 2000 o filme passou a ser reavaliado de maneira mais positiva, com a visão “surrealista” de Lynch da obra de Frank Herbert. O autor Max Evry publicou, em 2023, o livro “A Masterpiece in Disarray”, no qual explora a realização do épico de 1984 através de entrevistas com a grande maioria dos envolvidos, e procura reimaginar o papel desempenhado pelo filme junto ao grande público, realocando o épico junto a seus contemporâneos e elucidando o complicado e intrigante legado da produção nas décadas subsequentes. Comparar a concepção de 1984 com a mais recente adaptação pode ser uma grande injustiça, mas faz crescer o respeito e até a admiração por uma obra que tentou (e, em alguns aspectos, conseguiu) traduzir uma das maiores fábulas de ficção científica de todos os tempos para o grande público: uma trama de intriga política, conflitos éticos e legados moralmente controversos, que, para o bem e para o mal, reflete tanto sua truncada realização quanto um mundo que, cada vez mais, espelha suas reflexões existenciais. David Lynch viria a ser responsável por muitos outros grandes momentos na história do cinema, e quase todos poderiam ser listados pelos muitos fãs que o homenagearam em sua súbita passagem. E não são poucas as evidências que justificam incluir “Duna” em meio às grandes obras de sua carreira – uma produção mal-entendida por muitos, mas que serve como o testamento de um cineasta visionário, persistente, e capaz de total abandono em prol de sua própria arte.

– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.





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