entrevista de Bruno Capelas
Em tempos de compras pela internet, nem sempre um presente de aniversário chega a tempo da data de celebrar alguém querido. Mas “Gismonti 70”, álbum feito pelo Bianca Gismonti Trio para homenagear Egberto Gismonti – o pai da bandleader – demorou um pouco mais que alguns dias para chegar ao seu destino. Inicialmente pensado como um show em 2017, o disco só chegou às plataformas digitais em dezembro de 2024, quando Egberto já assoprava 77 velinhas – culpa da pandemia, de uma gravidez e de trabalhos remotos feitos ao longo de anos numa conexão Brasil-Hungria.
Em momento algum, porém, Bianca Gismonti desistiu do projeto. “Homenagear e agradecer ao meu pai terá sentido durante todas as existências que eu tiver”, conta a pianista, que gravou o álbum ao lado de Julio Falavigna (bateria) e Antônio Porto (baixo). No repertório, há standards do repertório de Egberto, como “Palhaço”, “7 Aneis” e “Água e Vinho”, mas também lados-B, incluindo algumas canções com letra – faceta menos presente da obra do compositor nascido em Carmo (RJ), especialmente após os anos 1970.
“Incrivelmente, existe um público imenso que acompanhou os anos de canções do meu pai, e que me pergunta sempre se ele pretende voltar a cantar. Resolvi incluí-las por eu querer mostrar um pouco do imenso espectro da sua obra e por amar (também) a sua época de canções”, conta Bianca, que pretende dedicar a temporada de 2025 a shows deste repertório e também à gravação de um novo disco com o trio, “Tapeçaria”.
Na entrevista a seguir, a artista revela detalhes dos bastidores do disco, explica o processo de seleção de repertório e presta homenagens ao pai, um dos maiores nomes vivos da música brasileira – para não iniciados, “Gismonti 70” serve como cartilha em caminho suave a uma trilha das mais impactantes. Ela também já faz planos para as homenagens de 2027, quando o progenitor completará 80 anos, mesmo sabendo o peso da responsabilidade. “Acredito que nem dezenas de vidas seriam suficientes para suprir a imensidão da criatividade e genialidade artística que Egberto possui”, diz.
Egberto Gismonti completou 70 anos em 2017. O disco “Gismonti 70”, porém, chegou em dezembro de 2024, quando ele completava 77. Qual é a história desse disco, Bianca?
Em 2017, meu pai completou 70 anos, em dezembro. No início daquele ano, percebi que o maior presente que poderia dar a ele seria o de tocar a sua música, agradecendo pela benção de ter tido a música como um caminho de sonhos e realidade desde sempre. Passei meses me emocionando e escolhendo o repertório que formou o show Gismonti 70 – nome em homenagem aos 70 anos dele e, também, em menção ao seu disco emblemático, “Sonho 70”.
E por que ele demorou tanto tempo pra sair?
Finalizei o show em dezembro de 2017, estreando no Rio, com meu pai na plateia. Em 2018, viajei por vários continentes com o show e registrei o álbum em Budapeste, Hungria. Em 2019, gravei as vozes no Rio. Em 2020, durante a turnê na Europa, eu iria mixar e masterizar na Hungria, mas veio a pandemia. Aguardamos. Em 2021, eu engravidei – hoje, eu e Julio, baterista do trio, temos um filho lindo de 3 anos. Em 2022 e 2023, fizemos a mixagem e masterização remotamente. Por fim, em 2024 fiz, finalmente, o registro fotográfico na casa do meu pai e lançamos também em dezembro! – finalmente!

Como foi a decisão de escolher o repertório? Que critérios você utilizou para eleger as músicas que mereceriam estar no álbum? Ele deu alguma opinião?
Escolhi fazer um certo apanhado de composições de diferentes épocas, mesclando músicas com as quais eu já tinha profunda familiaridade (como “A Fala da Paixão” e “Forrobodó”) com outras, emblemáticas, que eu nunca tinha tocado (como “O Sonho” e “Lôro”). Quis mesclar, também, estilos diversos. Meu pai participou quando todas as escolhas e arranjos já estavam definidos, mas deu ideias maravilhosas para alguns arranjos, que incluímos no resultado final.
Ainda no mesmo assunto: houve alguma música que quase entrou? O que você chegou a considerar mas desistiu no processo?
Sim, eu pensei em gravar “Bianca”, composição que meu pai fez para mim, com ele e meu irmão Alexandre nos violões. No fim, acabei priorizando a formação de trio e a homenagem no “formato” de presente.
Uma das coisas que chamam a atenção no disco é a inclusão de “O Sonho” e “Auto Retrato”, que são músicas cantadas – algo menos frequente na carreira do seu pai, especialmente depois da década inicial. Por que você decidiu que elas precisavam estar presentes no álbum?
Incrivelmente, existe um público imenso que acompanhou os anos de canções do meu pai, e que me pergunta sempre se ele pretende voltar a cantar. Por eu querer mostrar um pouco do imenso espectro da sua obra e por amar (também) a sua época de canções, resolvi incluir 3 das que gosto muito – no caso, “O Sonho”, “Auto retrato” e “Saudações”. Foi uma alegria imensa cantá-las.

Outra releitura que me chamou a atenção foi a inclusão de “Asa Branca” junto a “Maracatu”. É uma marca do seu pai nos últimos anos inserir citações de músicas nas apresentações dele, talvez sempre. Mas por que essa citação aqui, junto com o Villa Lobos?
Quem acompanha a história do meu pai, conhece o disco emblemático “Trem Caipira”, apenas com arranjos absolutamente originais para composições de Villa Lobos. Além disso, Villa Lobos e Luiz Gonzaga são raízes originárias e fundamentais do nosso solo musical brasileiro.
Como foi o processo de recrutar os músicos para participar do disco contigo? E como foi a participação deles dentro desse formato?
Gravei o primeiro disco com Julio Falavigna (bateria) e Antonio Porto (baixo) em 2012. Já tinha passado por três discos antes do “Gismonti 70” e a intimidade e linguagem do trio foi sendo desenvolvida ao longo desses anos. Além disso, cada um deles possuía a sua história pessoal com o repertório do Egberto, o que foi absolutamente inspirador para os arranjos que criamos.
Como já dito antes, “Gismonti 70” demorou para ser lançado. Como foi revisitar esse material ao longo dos anos? Teve algum momento em que você achou que não fazia mais sentido lançá-lo?
De forma alguma! Homenagear e agradecer ao meu pai terá sentido durante todas as existências que eu tiver!
Qual o plano para levar esse disco para os palcos?
Todos! 2025 será ano de lançamento em shows, além da gravação de um novo disco do Trio (agora com Julio Falavigna na bateria e Fernando Peters no baixo), chamado “Tapeçaria”.

O disco foi gravado e lançado por uma gravadora húngara. Às vezes, há a percepção de que o trabalho do seu pai é mais bem percebido no exterior do que aqui. Você concorda? E se sim, por que isso acontece?
Cada cultura possui a sua história e sua forma de percepção das criações artísticas. Mesmo dentro do nosso imenso e maravilhoso Brasil, as diferentes cidades se manifestam de maneiras completamente diversas à mesma manifestação artística. No caso da carreira dele, certamente o fato de ele ter passado a gravar pelo selo ECM, a partir de 1978, dificultou o acesso aos discos. Hoje, na minha história, não existe mais este obstáculo, porque as plataformas digitais estão disponíveis a todos.
Muitos artistas dos anos 1970 da música brasileira têm sido redescobertos pelas gerações mais novas. Isso ainda não aconteceu com a obra do teu pai da maneira como ocorreu com outros artistas da mesma época. Como você vê isso? E como “Gismonti 70” pode fazer parte desse movimento?
Nesses anos todos que vivencio a música como sonho e profissão, felizmente, sigo testemunhando um público plenamente apaixonado e ávido pela música do Egberto. Acredito que todas as pessoas que seguem mantendo viva a obra de um artista contribuem para a sua eternização.
Por outro lado, seu pai segue em franca atividade – especialmente tocando ao vivo. Só nos dois últimos anos eu vi dois shows incríveis dele (falei sobre um aqui). Você tem algum palpite para o segredo da longevidade dele?
Acredito que nem dezenas de vidas seriam suficientes para suprir a imensidão da criatividade e genialidade artística que Egberto possui. Ele vivencia a música intensamente e tem uma gratidão e respeito imensos às pessoas que o acompanham há tantos anos, além de, claro, seguir cuidando da própria saúde com a maior responsabilidade.
Pra fechar: E o que você está preparando para o aniversário de 80 anos dele?
Sim! Quero fazer um “Gismonti 80”! Já estou até com a lista das possíveis composições a entrar!
– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.