Entre o (im)previsível e o sangrento, “Comando das Criaturas” é um respeitável recomeço para a DC nas telas

texto de Davi Caro

Parece ser um consenso entre os fãs de quadrinhos e das muitas adaptações de seus personagens favoritos para outras mídias: enquanto a Marvel, com sua proposta inovadora de filmes interconectados e grandes bilheterias (em grande parte) se mostra a grande campeã no quesito “transposições live-action”, a Casa das Ideias nunca se mostrou tão comprometida quando o assunto eram suas animações. E, embora o passado recente – como mostram as várias temporadas de “What If…?” e o êxito de “X-Men 97”, ambos disponíveis via Disney+ – seja repleto de indícios que mostram os esforços de Kevin Feige e companhia em correr atrás do prejuízo, seus rivais na DC sempre se mostraram mais bem sucedidos quando o assunto são produções animadas.

Tudo isso deve fazer com que o desempenho alcançado por “Comando das Criaturas” (“Creature Commandos”, 2024) seja ainda mais doloroso de encarar para os executivos da Marvel Studios; o fato de contar com um dos grandes responsáveis pelo astronômico apelo do MCU, James Gunn (responsável pela trilogia “Guardiões da Galáxia”) como roteirista deve apenas jogar mais sal em uma ferida aberta. Demitido da empresa capitaneada por Feige após a descoberta de controversos tweets antigos (e depois temporariamente recontratado), Gunn dirigiu o subestimado “O Esquadrão Suicida” (2021) e a incrível série “Pacificador” (2022) para ser posteriormente alçado à posição de principal chefe criativo do novo DC Studios, que ignora em larga escala (salvo exceções) os trabalhos realizados com os personagens da editora homônima e inicia uma nova fase de algumas das mais celebradas figuras da Nona Arte em telas de cinema e de streaming. Não que deixe de ser previsível a escolha de Gunn em iniciar seu novo universo trazendo à tona personagens pouco ou nada conhecidos pelo grande público; tampouco é surpreendente dizer que “Comando das Criaturas” cumpre seu papel com louvor, com doses generosas de sangue e ação, impressionante desenvolvimento dramático de personagens e uma bem equilibrada mistura de bom humor e momentos tensos.

O primeiro dos vários acertos da nova série está em manter certos elementos narrativos e de elenco usados em outras produções: Amanda Waller (Viola Davis, reprisando seu papel dos dois filmes do Esquadrão Suicida, bem como de “Pacificador”) decide recrutar uma nova equipe para realizar uma operação arriscada – proteger a princesa Ilana Rostovic (Maria Bakalova), regente na nação europeia fictícia de Pokolistão, de uma tentativa de assassinato pelas mãos da guerreira amazona Circe (Anya Chalotra). Com as razões para a missão mantidas em segredo, Waller designa o general Rick Flag Sr. (Frank Grillo) como principal comandante de um time que inclui a Noiva de Frankenstein (Indira Varma), a mutante aquática Nina Mazursky (Zoë Chao), o insano Alex “Doctor Phosphorous” Sartorious (Alan Tudyk), o robô militar G.I. Robot e o animalesco Doninha (ambos vividos por Sean Gunn), com este último retornando após sobreviver aos acontecimentos do filme de 2021. No caminho da equipe, diversos obstáculos se impõem, na forma do próprio Monstro de Frankenstein (vivido por David Harbour), e inclusive de outras figuras já conhecidas no universo DC, que podem apontar caminhos a serem seguidos nos vindouros projetos capitaneados por Gunn.

O roteiro de “Comando das Criaturas”, embora não almeje requintes narrativos e se atenha com fidelidade à assinatura de seu escritor e produtor, tem em suas várias reviravoltas seu grande trunfo. À exemplo da última produção coordenada por James Gunn, nem todos os personagens, por mais cativantes e empáticos que possam ser, tem o desfecho que se esperaria. Para além de seguirem uma trajetória tradicional ou comum, alguns dos protagonistas vão muito mais além do que as primeiras impressões poderiam sugerir: Frank Grillo, em particular, se sobressai com o estoico Rick Flag Sr., que, como já indicado, é pai do comandante anteriormente interpretado por Joel Kinnaman, e sua caracterização é uma evolução em todos os aspectos. O ceticismo da Noiva vivida por Indira Varma (outro grande destaque aqui) cria uma bem-vinda dinâmica com a otimista e ingênua Nina Mazursky de Zoë Chao, em que pese a esperança da segunda em contraste com a postura pouco amigável (e totalmente compreensível) da primeira. A apresentação do Monstro de Frankenstein de David Harbour, aliás, é tão adorável quanto enervante, com um aparente idealismo dando lugar a comentários nem um pouco velados sobre toxicidade masculina, comportamentos abusivos e possessividade disfarçada de afeto. A grande surpresa, porém, está no desenvolvimento individual dos personagens de Alan Tudyk e Sean Gunn: enquanto a origem de Dr. Phosphorous é repleta de tragédias e explica a postura descontraída do radioativo criminoso, a história prévia do Doninha é pungente de tão dolorosa, e faz com que o espectador se solidarize mais justamente com o menos articulado de todos os personagens em cena.

O estilo da animação é riquíssimo em suas cores e diferentes tonalidades que intercalam flashbacks com a narrativa recorrente, e a já mencionada violência, embora pudesse desagradar parecelas mais sensíveis do público, nunca se mostra excessiva ou apelativa. As passagens mais reflexivas da trama, onde as grandes sacadas da produção realmente estão, são bem construídas em sua profundidade, com acenos a acontecimentos recentes e sutis, e contundentes comentários que tem sua mira fixada em comportamentos conservadoristas e valores preconceituosos. Tudo isso acaba enriquecendo uma produção que, à primeira vista, pode parecer apenas entretenimento escapista e pouco relevante, mas que demanda atenção e, ao fim, faz por merecer esta.

A julgar pela conclusão alcançada ao final desta primeira temporada de sete episódios (com Matt Peters e Sam Liu se revezando na função diretorial), esta não deve ser a última aparição do Comando das Criaturas no novo DCU. Com a série servindo como o pontapé inicial para a primeira fase deste novo universo (entitulada “Deuses e Monstros” por Gunn), o potencial para uma nova narrativa expandida através de cinema, animação e videogames é tão promissor quanto ambicioso. Ao que tudo indica, pela boa recepção da série animada, assim como o hype gerado para o “Superman” dirigido por Gunn (que tem sua estreia marcada para Julho), há muito a se esperar da nova era da DC. Ao escolher seu novo capitão, a editora fez uma aposta para um futuro no qual, com sorte, seus personagens serão representados com respeito e fidelidade ao material que os originou. Não importa se o assunto são grandes ícones intergeracionais ou figuras quase desconhecidas pelo grande público: se “Comando das Criaturas” indica algo, é que, muitas vezes, acreditar em seus personagens e ressaltar o lado mais humano destes, assim como a falibilidade por trás de superpoderes é, na maioria das vezes, o necessário e o suficiente.

– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.

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