Entrevista: Dana Colley fala sobre o legado do Morphine e a relação da banda com o Brasil

entrevista de Guss de Lucca

Não existe outra banda como o Morphine. Seja pela sonoridade única, resultado da junção de um baixo de duas cordas com uma bateria e um saxofone barítono, seja pelo trágico fim de suas atividades, marcado pela morte precoce de seu vocalista. O fato é que o trio de Massachusetts segue como primeiro e principal expoente do estilo que criou: o Low Rock.

Poucos grupos na história chegaram ao ponto de desenvolver uma sonoridade tão própria que os permitisse serem considerados expoentes de um novo gênero musical. Esse é o caso do trio estadunidense formado em 1989 por Mark Sandman (vocal e baixo), Dana Colley (saxofone) e Jerome Deupree (bateria) – esse último posteriormente substituído por Billy Conway, com quem a banda permaneceu até seu fim, abreviado por um ataque cardíaco fulminante que vitimou seu vocalista em 1999, durante um show em Palestrina, na Itália.

Durante a década em que esteve ativo, o Morphine lançou cinco álbuns de estúdio e provou que é possível fazer rock de qualidade sem a presença de uma guitarra. Além disso, o som da banda chamava a atenção pelo baixo utilizado por Sandman, que contava apenas com duas cordas e era tocado com um slide – um pequeno tubo oco e cilíndrico que se coloca num dos dedos da mão e desliza pelas cordas do instrumento. O adereço, até então só visto em contato com as finas cordas de uma guitarra, ganhou novos ares e foi peça-chave de um dos riffs mais densos do rock: os acordes iniciais da canção “Buena”, do disco “Cure for Pain”, de 1993.

Era de se esperar que uma mistura tão singular gerasse curiosidade. Durante uma entrevista no backstage de um festival, Sandman foi questionado sobre a necessidade das quatro cordas em um baixo. “Uma corda é tudo o que você precisa. As duas cordas são uma extravagância minha”, respondeu. Na sequência, defendeu o uso do saxofone barítono por uma banda de rock. “Prince usa bastante. Los Lobos também. Little Richard tinha dois. Acredito que ele é o mais rock de todos os saxofones”. Essa e outras entrevistas podem ser vistas no documentário “Cure for Pain – The Mark Sandman Story“, de 2011 (no final do texto).

O Morphine durou apenas uma década, mas o Low Rock não morreu com o fim da banda. Logo de cara seus integrantes remanescentes montaram a Orchestra Morphine, responsável por divulgar nos palcos as músicas do último trabalho do grupo, o póstumo “The Night“, de 2000. Depois disso, é possível listar duas bandas originais que trilharam os passos do Morphine: a Twinemen, cujo nome foi tirado de uma história em quadrinhos feita pelo próprio Sandman, e a A.K.A.C.O.D., cujo único álbum homônimo, lançado em 2008, é certamente o fruto mais intenso de um gênero pouco explorado.

Ambas têm um ponto em comum: Dana Colley. O saxofonista do Morphine segue, até hoje, como o mais obstinado representante do estilo que criou ao lado de Sandman, Conway e Deupree. E é junto do vocalista / baixista Jeremy Lyons e do baterista Tom Arey que ele volta ao Brasil com o Vapors of Morphine, projeto que tem como principal propósito manter vivo o legado de um dos grupos mais interessantes da história do rock. Foi com ele que o Scream & Yell conversou por chamada de vídeo num papo sobre a relação da banda com o Brasil.

Desde a morte de Mark, é você quem mantém o legado do Morphine vivo – outras pessoas também, mas não tanto quanto você. Como analisa essa jornada de 25 anos?
É um legado que pertence tanto ao Mark quanto a mim, Jerome Deupree e Billy Conway, que nós perdemos há três anos. Foi algo único que criamos juntos. Para mim é uma maneira de celebrar as vidas e o trabalho deles. Eu sinto muito orgulho e prazer em tocar a nossa música. E para mim, como músico, é um dos poucos momentos em que posso me expressar. Em outros trabalhos, onde toco com outros artistas, em gravações de canções deles, eu faço o que é preciso para ajudar naquele projeto em particular. Mas a música do Morphine é muito mais pessoal e intensa de uma forma que nenhuma outra é na minha vida.

Além de seu trabalho com o Vapors of Morphine, você também cria novas músicas dentro do estilo criado com o Morphine – outra forma de manter o legado da banda ativo. Primeiro ao lado de Laurie Sargent, no Twinemen, e depois com Monique Ortiz com o A.K.A.C.O.D. Como você analisa essas bandas? E você pensa em fazer outro projeto com músicas novas?
Você sabe por que usamos o nome Twinemen?

Sim, por conta das ilustrações feitas por Mark.
[Nesse momento Dana levanta da cadeira e some da tela. Enquanto espero, ele diz para não me preocupar com o tempo, pois responderá a todas as minhas perguntas. Então ele surge segurando uma escultura em metal do personagem Twinemen]. Um fã fez essa escultura há alguns anos. Mas voltando a pergunta, é um compromisso real estar numa banda como essas duas. Você entrega o seu coração na criação de novas músicas e depois aceita o desafio de entrar em turnê e tocar para um público que nunca ouviu isso antes. É bastante trabalhoso. E não é algo que estou buscando agora – nem pelos próximos anos. Se eu sentir uma necessidade de me expressar, eu encontrarei uma forma de canalizar isso gravando com outros grupos. Com o Vapors of Morphine nós tocamos juntos, sabemos o que estamos fazendo, o som é bom, nós nos divertimos… é como estar em casa. Teve um período da minha vida onde tudo que eu queria era estar numa banda, criando canções e fazendo turnês para pessoas que nunca ouviram falar de nós. Mas não sei se consigo fazer isso agora, nesse ponto da minha vida. Essa é uma resposta honesta.

Dana Colley mostra a escultura baseada no personagem Twinemen (da ilustração no canto superior esquerdo) 

Eu entendo, mas sinto em ouvir, pois A.K.A.C.O.D. é uma das minhas bandas favoritas.
Muito obrigado. Essa é a ideia. Nossa missão foi completa. Que era fazer um álbum que nós gostássemos e achássemos bom. E é uma banda que eu adoro. Nós podemos nos juntar para tocar aquelas músicas de novo. É algo possível. Estou em contato com Monique. Larry [o baterista do A.K.A.C.O.D.] esteve na minha casa na última véspera de Natal. Nós nunca consideramos deixar de fazer isso. Mas teria que valer a pena para que todo mundo dedicasse um tempo para fazer acontecer. É como as coisas são hoje em dia.

Em entrevista, Mark definiu o estilo do Morphine como Low Rock (ele também disse Fuck Rock, mas acredito que Low Rock seja mais apropriado). Pensando no som do Morphine como o primeiro de um gênero musical, você conhece outros artistas que são influenciados pele sonoridade criada pela banda e podem ser categorizados como representantes do Low Rock?
Tem muitas bandas que fizeram covers do Morphine e tentaram tocar as nossas músicas – e acho que posso considerá-las parte disso. Nesse momento não consigo pensar em ninguém fazendo isso atualmente. Acho que o Radiohead usou alguns aspectos do que nós fizemos em uma das canções do álbum “OK Computer”. Tenho certeza de que existem representantes por aí, mas eu teria que voltar no tempo para buscar nomes mais apropriados. O conceito de tocar um instrumento com uma corda só tem muita história. E a combinação do saxofone barítono com a bateria também. Talvez olhando para trás seja possível encontrar músicas com mais semelhanças.

Mark tinha uma ligação pessoal com o Brasil. Ele morou aqui por um tempo e falava um pouco de português – até compôs uma música em nosso idioma chamada “Brazil”. Você lembra dele dizendo alguma coisa sobre nós ou o nosso país?
Todo o tempo. Ele não parava de falar. Era isso sobre o Brasil, aquilo sobre o Brasil. “Chega de falar do Brasil, ok?” / “Vamos comer arroz com feijão?” / “Tá bom. Você cozinha enquanto fala sobre o Brasil.” Eu estou obviamente brincando. Mas ele amava o Brasil. E teria amado ter tocado com o Morphine aí. Eu afirmo isso porque sei. Mas nós nunca descobrimos um jeito de fazer acontecer – e nós tentamos. Fizemos turnês em todos os lugares do mundo e nunca conseguimos no Brasil. É por isso que, em partes, é muito importante para nós tocar por aí. Nossa primeira passagem pelo Brasil foi com a Orchestra Morphine, em 2000, num festival de jazz em Ouro Preto. Foi muito importante para todos os integrantes, sabendo o quanto Mark amava o Brasil, poder levar um grupo para tocar as canções do álbum “The Night“. Foi a minha primeira vez no país. Lembro que fizemos o show e depois fomos curtir as praias do Rio – as pessoas mais animadas que você já viu embaixo de guarda-sóis.

Depois você esteve por aqui com o Vapors of Morphine em 2012 e 2017, em São Paulo. O que pode dizer sobre essas apresentações para o público brasileiro?
Foram shows fenomenais. Eu fiz um vídeo na primeira vez em que estivemos aí, do nosso hotel. Estava rolando um grande festival nas ruas [a Virada Cultural] e eu conseguia ouvir as músicas do meu quarto. Eu vi muita gente e ouvi canções maravilhosas. Não existe um lugar como esse. A alegria nos rostos das pessoas. A habilidade de se divertir e curtir a vida de um jeito que eu nunca tinha visto. Vindo do hemisfério norte, onde todos… [Dana sobe o zíper do casaco pesado que veste].

O que os fãs podem esperar desta apresentação? Algo diferente dos últimos shows no Brasil? Alguma novidade no setlist?
Eu espero que não sejamos repetitivos. Certamente haverá similaridades. Mas temos um novo baterista que se chama Tom Arey – e ele é fenomenal. Acho que quem gosta de percussão vai curtir o jeito dele tocar. Ele pega o que Jerome Deupree faz e o que Billy Conway fazia e incorpora ao seu estilo. Deu a nossa banda uma nova energia e uma nova direção. Nós o roubamos de outros grupos com quem toca e ele estará com a gente nesse show. E acredito que o público vai amá-lo. Nós faremos o melhor show possível. Subimos ao palco com os nossos corações e se tocarmos algo que já tocamos antes, garanto que vão sentir como se fosse novo.

Estamos chegando ao fim da entrevista. E como um fã de A.K.A.C.O.D., tenho que dizer que adoraria ver você, Monique e Larry tocando por aqui algum dia.
Faça acontecer. Só precisamos de algumas passagens de avião, quartos de hotel, transporte terrestre, três refeições diárias e alguns milhares de dólares e você nos terá por aí. É sempre sobre a demanda.

– Guss de Lucca (@gussdeluca) é jornalista, historiador e no passado já foi cartunista do Scream & Yell. Leia todas as tirinhas feitas para o site aqui.

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