Esse você precisa ver: “A Sombra do Vampiro” e a ficção por trás da realidade da feitura de um clássico

texto de Davi Caro

Existem muitas razões que justificam a reputação de “Nosferatu” como o marco zero do terror no cinema moderno. O filme de F.W. Murnau, exibido pela primeira vez em 1922, possui um apelo que, além de influenciar diretamente (e inevitavelmente) a nova releitura feita por Robert Eggers, lança sobre si uma mitologia muito maior do que uma adaptação não autorizada do Drácula de Bram Stocker seria capaz de conjurar. Quando se observa a produção muda expressionista, afinal, é possível rastrear elementos narrativos e estéticos cujas influências são perceptíveis no horror como fenômeno multimídia. E, proporcionalmente, as teorias da conspiração originadas pela película são o mais remoto antecedente aos rumores sombrios de conspiração e morte que permearam outros clássicos, de “O Exorcista” (1973) a “Poltergeist” (1982). O maior destes rumores, provado falso ao longo do tempo, se referia à ideia de que o ator Max Shreck – responsável por dar vida ao macabro Conde Orlok, a criatura homônima – seria, de fato, um vampiro, alimentando assim o imaginário popular conforme o filme foi redescoberto ao longo das décadas.

“A Sombra do Vampiro” (“Shadow of the Vampire”, 2000) toma para si a tarefa de trazer tais rumores à tona pela primeira vez, contando a suposta história misteriosa da produção de “Nosferatu” e tornando assim a lenda urbana um fato conhecido para além dos admiradores do gênero. O drama/horror dirigido por E. Elias Merhige sob a produção conjunta da BBC Films e da Saturn Films (estúdio então coordenado por Nicolas Cage) faz uso de um elenco repleto de acertos e um roteiro bem amarrado em suas soluções para trazer algo que vai além de uma simples narrativa ficcional inspirada em fatos reais: com um enervante John Malcovich no papel de Murnau, e um assustador Willem Dafoe como o dúbio e magnético “Max Shreck” nos papéis principais, a suposta história por trás do mais importante filme de terror já feito ganha uma interpretação que mostra, com perfeição, uma fábula de obsessão e tragédia onde as funções de protagonista e antagonista não são tão facilmente determinadas.

A trama se inicia em 1921, com o diretor alemão gravando tomadas internas com a atriz Greta Schröder (Catherine McCormack), que prosseguem com a equipe de gravação – que incluem o produtor Albin Grau (Udo Kier) e o ator principal do filme, Gustav von Wangenheim (Eddie Izzard) – viajando em direção à Checoslováquia para filmagens externas. No processo, entretanto, uma informação parece ser mantida à revelia dos envolvidos na gravação: quem é, de fato, o misterioso intérprete destinado ao papel do sinistro Orlok, além de um nome e uma reputação obscura. Somente ao chegarem à locação designada para representar o castelo do monstro sanguessuga é que a equipe se vê frente à frente com Shreck, que, conforme informado por Murnau, somente gravaria à noite, sempre maquiado, e nunca sairia de seu personagem em todas as interações com os colegas.

O estranhamento causado pela revelação do suposto ator, junto a reticências dos moradores locais, insistentes em manter crucifixos suspensos todo o tempo, dá lugar a estranhos episódios de pessoas doentes em meio à equipe. Conforme o diretor insiste em seguir em frente apesar de pessoas desaparecendo durante as gravações, os cada vez mais alarmados assistentes de Murneau começam a desvendar o enigma por trás da enigmática e sombria figura com quem contracenam, ao mesmo tempo que descobrem um lado tão ou mais enigmático e sombrio daquele por quem são liderados.

Os valores de produção por trás de “A Sombra do Vampiro” são o primeiro aspecto a indicar o esmero por trás da produção do filme: a cinematografia de Lou Bogue chegou ao ponto de utilizar-se de fitas de 35mm – mais granuladas – para evocar uma estética mais antiga. Tais elementos casam maravilhosamente com a trilha sonora de Dan Jones, apropriadamente orquestral, e em momentos reminiscente do “Nosferatu”. Esta combinação termina embalando um enredo que constrói tensão ao mesmo tempo em que não parece se levar tão a sério, em momentos extrapolando sutilmente as barreiras do realismo (em especial na atuação expressiva de Eddie Izzard e os surtos imprevisíveis de Catherine McCormack).

Mas o grande mérito do longa de E. Elias Merhige – e do roteirista Steven Katz – repousa nos ombros dos dois atores principais: John Malcovich talvez tenha uma de suas performances menos intrincadas aqui, ainda que saiba conduzir a loucura obsessiva de F.W. Murnau com a sutileza de um artista disposto a sacrificar qualquer coisa em prol de sua arte. E, em contrapartida, Willem Dafoe encontra em traços quase caricaturais da interpretação original de Max Schreck o combustível para sua caracterização ora quase cômica, ora perturbadora do vampiro Orlok, com resultados que, apesar de produzirem empatia, são sempre envoltos por uma irresistível sensação de repulsa. Seja nas interações entre o Conde e os outros membros da produção, ou, sobretudo, com o próprio Murnau, a atuação de Dafoe é o principal pilar do filme, em uma visão mais humanizada em comparação com outras iterações do personagem – seja com a contemplativa atuação de Klaus Kinski (que, fiel à história adaptada, é chamado de Drácula no remake de 1979 dirigido por Werner Herzog) ou com os aterrorizantes trejeitos de Bill Skarsgard (na versão de 2024).

A crítica especializada fez questão de sinalizar aprovação pela interpretação de Dafoe, que mostrou abandono e dedicação ao conduzir seu papel de maneira tridimensional e surpreendentemente profunda. O lançamento limitado, e o curto período nas grandes salas de cinema antes de uma apressada investida no formato de DVD, no entanto, acabaram limitando o acesso do público ao longa. Embora condecorado com o status de cult ao longo dos últimos 25 anos (em um fenômeno que, ironia das circunstâncias, espelha o próprio redescobrimento gradual do original de 1922), o filme deve, ao fim, atrair fãs do clássico – ou do remake dos anos 1970 – para quem permaneceu desconhecido até agora, ou mesmo novos devotos, instigados pela também excelente atuação de Dafoe no longa de Eggers, desta vez como o Professor Von Franz. O grande diferencial de “A Sombra do Vampiro”, porém, se exime da responsabilidade de retratar as compulsões de uma criatura assustadora como o imortal filme que o inspirou; o foco aqui, pelo contrário, é dividido com as perversões mascaradas e a irrestrita dedicação de um indivíduo aparentemente normal, que levanta questões intrigantes, e mortificantes, sobre a vida, a morte e o valor que ambas têm, ou não, frente à imortalidade de um legado que somente a arte é capaz de igualar, ou superar.

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– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.

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