entrevista de Alexandre Lopes
Após chamar a atenção da cena independente com seu disco de estreia, “Tempo Elástico” (2023), o quinteto fluminense gueersh retorna com uma nova proposta sonora no álbum “Interferências na Fazendinha” (2024). Formada por Lívia Gomes (voz, sintetizadores), David Dinucci (guitarra), Guilherme Paz (guitarra, voz, percussão, violão, sintetizador, colagens sonoras), Thomaz Alves (baixo) e Igor Arruda (bateria, colagens), a banda reflete uma transição natural em sua nova fase, mais ousada e experimental.
Se em “Tempo Elástico” a gueersh se destacou pelas linhas melódicas de guitarra e influências do rock alternativo e do noise pop, “Interferências na Fazendinha” marca uma clara mudança de direção, com o grupo se aventurando por texturas e sonoridades densas, mais improvisações e repetições hipnóticas reminiscentes do krautrock. Se o primeiro trabalho da banda pode ser comparado a álbuns como “Goo” e “Dirty” do Sonic Youth pela sua acessibilidade, o novo disco segue a linha de “Experimental Jet Set, Trash and No Star” e “Washing Machine”, apostando em uma postura mais arriscada e desafiadora.
Quando pergunto se a intenção da trupe com esta nova direção seria um “suicídio comercial”, a vocalista Lívia responde com apenas uma risada. O baterista Igor tenta formalizar: “Eu acredito que seja diferente do que foi o processo do ‘Tempo Elástico’, que foi uma coisa mais formada, estruturada. Agora é mais como se fossem brincadeiras [com base nos improvisos das apresentações]”. Mas é certo que a gueersh não tem intenções de ceder às expectativas de um mercado ou público, e segue firme em sua busca por uma musicalidade sem amarras – o que já é uma atitude bastante admirável.
A faixa de abertura, “PopStar Kids”, pode até enganar à primeira vista, com sua melodia aparentemente acessível e vocais suaves. Mas é a partir de composições como “Brasileirinhe” e “Djo Djo Piranha” que o novo som da gueersh se revela de forma mais clara: guitarras distorcidas, vocalizações fragmentadas em tons altos e colagens sonoras se entrelaçam com timbres vocais que lembram desde a voz estridente de Kathleen Hanna no Le Tigre até as backing vocals da banda Sabor de Veneno em “Clara Crocodilo”, de Arrigo Barnabé. “Vaninha Perereca”, que se estende por mais de 14 minutos, é uma verdadeira viagem, com letra aparentemente nonsense e guitarras rítmicas acompanhadas por uma base repetitiva de baixo e bateria. A faixa se aproxima da estrutura (e não da sonoridade) de “Marquee Moon”, do Television, com um falso fim e recomeço que a torna ainda mais interessante, especialmente em suas performances no palco.
E esse “elemento ao vivo” ainda é uma das marcas do som do grupo, sendo que muitos dos temas presentes no álbum surgiram nas apresentações da banda e essa energia foi capturada para as gravações. “A gravação da maior parte das músicas foi ao vivo e de um jeito parecido, só que agora a gente botou os amplificadores em outra sala, porque no “Tempo Elástico” a gente botou tudo numa sala só e em um volume muito alto. Agora a gente botou no volume muito alto em outra sala!”, brinca o guitarrista Guilherme Paz.

Ainda assim, o disco não se resume a improvisações em tempo real; há uma forte presença de overdubs, sintetizadores, percussões adicionais e colagens sonoras, que se tornaram elementos marcantes em faixas como “Procissão da Cabeceira”, “#8” e no final de “Caxorrin”. A atmosfera do sítio agroecológico Sereno Sana, em Macaé (RJ), onde o álbum foi gravado, também se faz presente nas texturas e som ambiente que permeiam a obra. Não é à toa o título “Interferências na Fazendinha”: ele entrega essa conexão dos músicos com essa zona rural e a experimentação que surgiu desse contexto.
Além disso, o álbum conta com a participação especial de músicos convidados: Daniel Duarte Barros (integrante das bandas Brita, Mos e Passos Largos), responsável pela gravação (junto com Rafael Rezende e Guilherme Paz), contribui com teclados em algumas faixas, enquanto Karin Santa Rosa (Balbela) adiciona camadas de vozes e percussão, enriquecendo a sonoridade do disco.
O lançamento de “Interferências na Fazendinha” também trouxe uma proposta visual diferente para o grupo: todos os shows estão sendo adornados por uma bandeira confeccionada a partir de materiais usados na gravação do clipe de “Marra” (que ainda será lançado). A bandeira se tornou uma espécie de novo integrante, acompanhando a gueersh em uma turnê que passou pelo Sudeste do Brasil, com shows realizados em outubro, e seguiu para Chile, Paraguai, Argentina e Uruguai em novembro, antes de retornar ao sul do Brasil em dezembro. A exemplo da tour do ano anterior, essas datas foram agendadas totalmente ‘na raça’ pelos próprios músicos, contando apenas com uma logística simples e um Gol 201 G4 (que substituiu a saudosa Charanga, roubada em Montevidéu em 2023).
No fim das contas, o novo álbum da gueersh é um convite à intimidade de uma banda meio hippie/punk que não tem medo de experimentar e desafiar as expectativas do público, com boas doses de humor, caos e beleza entrelaçadas em cada faixa. Com “Interferências na Fazendinha”, o quinteto reafirma seu compromisso e interesse na liberdade criativa e oferece um dos discos mais ousados da cena independente brasileira atual. Em sua passagem por São Paulo em outubro, o Scream & Yell conversou com o grupo sobre o novo disco, a turnê e muito mais. Confira a entrevista completa abaixo.
O que vocês acham que foi diferente no processo de composição e de gravação do “Interferências na Fazendinha” em relação ao anterior, “Tempo Elástico”?
Guilherme: A gravação da maior parte das músicas foi ao vivo e de um jeito parecido, só que agora a gente botou os amplificadores em um volume muito alto em outra sala, porque no “Tempo Elástico” a gente botou tudo numa sala só e em um volume muito alto (risos)! Daí tem essas músicas que tem essa [forma de] gravação e outras – “Pop Star Kids”, “#8”, “Procissão da Cabeceira” – em que fomos experimentando dentro do estúdio com os equipamentos que a gente tinha disponível, como um processo de troca para complementar parte de alguma gravação, um processo mais subjetivo. Tem isso e tem a outra parte, que é uma banda de rock realmente tocando dentro do estúdio.
Lívia: A gente gravou muita coisa depois, né? Fizemos bastante overdubs…
O que teve mais de overdub?
Lívia: Percussões. Guitarra também, né?
Guilherme: Guitarra quase que não, teve mais percussão, sintetizadores e umas colagens… O vocal e umas edições, algumas “sacanagenzinhas”, como o Igor gosta de dizer (risos).
E com essa turnê nova, vocês vão tocar fora do Brasil novamente. Como foi agendar isso?
Thomaz: Meio que cada um ficou com um território. Cada um foi mirando um lugar específico, a gente foi se dividindo e foi fluindo assim. Via bandcamp, procurando bandas novas, produtores, casas de show…
Vocês também estavam gravando um clipe. De qual música?
Guilherme: O clipe é de “Marra”, já tá gravado e finalizado, a gente vai lançar mais pra frente em algum momento. Estamos definindo ainda, mas não vou falar aqui para manter uma surpresa. Já que mídia e jornalismo, essas coisas tem vazamentos de informações sigilosas (risos). Tem muito dinheiro envolvido na gente, pô… Empresários e incentivadores (risos). Mas vai ser em breve que a gente vai lançar.
E por que vocês escolheram essa? Qual foi o critério?
Guilherme: Cara, a gente faz às vezes músicas muito longas, repetitivas e com muitas partes instrumentais e tal. E essa é uma que tem voz na música inteira, com uma letra que acho que evoca uma imagem de ideias e coisas na cabeça das pessoas. É a música mais pop que a gente tem.
Falando nesse lance da “música mais pop”, ouvi o “Interferências na Fazendinha” e gostei bastante. Mas penso que quem gostou dos momentos pop do “Tempo Elástico” pode estranhar esse disco novo. Com o perdão da palavra, vocês não acham que estão cometendo uma espécie de ‘suicídio comercial’?
Lívia: (risos)
Não me levem a mal, eu acho legal isso que vocês estão fazendo. O “Tempo Elástico” é um disco muito bom, mas justamente porque ele teve uma boa circulação e divulgação, tem gente que pode vir aos shows esperando ouvir algo dele, mas vocês estão tocando apenas coisas do “Interferências na Fazendinha” e outras inéditas. Imagino que vocês estão de saco cheio das faixas antigas, seria isso?
Guilherme: Cara, a gente é uma equipe de trabalho. A banda é esse personagem, o personagem “banda”, mas a gente também usa o show como uma parte muito importante do processo de composição. Então faz mais sentido pra gente experimentar outras coisas dependendo do show. Então às vezes é interessante tocar uma música nova ou algum tipo de ideia que a gente está experimentando em casa, que ainda nem são músicas, mas deixam a gente mais atento ao momento. As outras composições que temos eu até curtiria tocar, mas é melhor tocar as coisas novas.
Lívia: Para mim, essas coisas novas são mais divertidas de tocar.
Igor: E essas músicas surgem da gente tocando espontaneamente, as partes vão surgindo durante o show. A gente tenta fazer a composição na espontaneidade, de tocar mesmo, aí acaba saindo de um liquidificador de coisas. Acredito que seja diferente do que foi o processo do “Tempo Elástico”, que foi uma coisa mais formada, estruturada. Agora é mais como se fossem brincadeiras.
Thomaz: Eu acho que muitas dessas músicas novas a gente começou a maturar a partir da turnê do ano passado. Tocamos muito essas músicas na turnê e elas se transformaram durante o caminho. A cada show tinha uma coisinha nova. Aí no começo de 2024, quando fomos parar para gravar, elas ficaram totalmente diferentes. Então o show meio que acaba reverberando e espelhando esses processos.
Lívia: A gente também ficou fazendo as músicas do “Interferências na Fazendinha” junto com outras músicas que a gente tem trabalhado. E aí a gente fez várias imersões, tocando essas músicas de agora, mas também trabalhando nesse outro processo por vir ainda. E aí é um outro processo dentro do processo, que acabou surgindo. Nos shows tocamos algumas desse outro.
É, deu pra perceber que tinham músicas que não eram do disco no show.
Igor: É, tem umas coisas que não são desse disco que já estão rolando agora. Esse processo realmente invade o outro assim, a gente toca algumas coisas já engatilhando pro futuro.
Lívia: Na turnê do “Tempo Elástico” a gente já foi fazendo uma coisa assim também, tocando um pouco das outras que viriam.
O esquema dos shows é sempre um lance mais espontâneo assim?
Guilherme: Gravação e show são coisas bem diferentes. Nesse tempo que a gente está junto, realmente acho que a gente se dedicou bem mais em trabalhar no que é uma música ao vivo do que em técnicas de gravação. Então acho que nesse ponto de gravação a gente ainda tem muito a observar para fazer coisas mais interessantes. Mas aí o show… qual foi sua pergunta mesmo? (risos)
Se é uma coisa mais espontânea ao vivo do que tocar essas músicas em gravação.
Guilherme: É, pra gente o show é mais espontâneo, mas também tem bastante prática do que é pra acontecer no palco. Inclusive agora tem um novo integrante do grupo, que é a bandeira que a gente está levando desde que passamos a fazer coisas no teatro, em cenografia e tal. Tem essa parte de arte visual da banda também, que o David faz, então meio que a gente tá evoluindo essas coisas todas juntas.
Você falou como se a bandeira fosse um integrante novo da banda. Quem fez a bandeira?
Lívia: Várias pessoas. Eu fiz a parte da costura em si, com ajuda da minha avó e amigos: Pâmela, Maria Rita, Guilherme, ficamos muito tempo fazendo…
Guilherme: A bandeira é feita de restos do que usamos no clipe, de coisas que a gente usou para fazer a cenografia dele. Então foi uma ideia que tive na época e a gente foi desenvolvendo junto. Tem a bandeirinha do merch também, e a gente tá tentando unir essas coisas todas… Um dia Igor vai se vestir de morcego!
Lívia: Sim!
Eu fiquei reparando nos títulos das músicas do disco novo e parece que tá mais satírico em relação ao anterior. Isso é proposital ou foi meio espontâneo?
Igor: É espontâneo. Acaba que a gente se depara com nomes, brincadeiras e bobeiras, que aqui é todo mundo riso frouxo (risos). Fala uma coisa e já pega, fica a piada interna da coisa. “Djo Djo Piranha” a mãe de Lívia que batizou, né?
Falando sobre “Caxorrin”… na letra você diz que vai dar leite condensado pro personagem, mas você sabe que não pode dar doce para cachorro, né? (risos)
Lívia: Sim, sim! Mas é qu ele fuça o lixo e pega o leite condensado!
Então você falar que vai dar o leite condensado pra ele não quer dizer que você realmente vai dar, é só pra chamar ele e tal.
Lívia: É! Eu quero dar um banho nele na verdade!
Thomaz: É a isca. (Risos)
Tem várias coisas do disco que percebi que vocês não tocaram ao vivo porque acho que são colagens sonoras. Vocês pretendem fazer uma adaptação para tocar isso no palco vivo ou não necessariamente precisa acontecer?
Guilherme: Eu acho que não precisa ser tudo tocado ao vivo, por mais que a maioria a gente toque muito. Eu não tenho esse apego de ter que tocar uma coisa ou outra. Cada dia é um dia e cada lugar tem uma coisa. A gente já teve shows muito traumáticos por ter um setlist inapropriado. Eu tive shows muito ruins por questões físicas também. E aí talvez fosse melhor tocar sentado, sabe? E tocar uma música mais calma… Às vezes a gente não sente tanta essa liberdade, se coloca numa posição que vai passar um desconforto, o lugar às vezes não tem um som adequado, e vai sofrer para tentar tocar uma coisa que não vai dar certo. Então a gente está tentando agora ser mais leve, mais relaxado, para sentir isso em cada lugar.
Eu até tinha perguntado para a Lívia o que vocês iriam tocar hoje e ela falou “a gente ainda não fez o setlist”. É sempre um lance assim? Vocês pensam 5 minutos antes ou inventam na hora o que vai tocar?
Guilherme: A gente já tocou sem setlist algumas vezes. Foi o caos completo, de sair desnorteado de quem sou, tipo por ter passado mil coisas, e já teve dias muito bons… não que esses dias tenham sido ruins, mas muito mais caóticos. Em algum momento a gente usou um setlist mais padrão e foi trocando umas músicas. Na última turnê a gente repetiu muito uma ordem e ficamos muito bons nisso. No final a gente estava muito bem treinado nas transições. Aí agora todos os shows que a gente fez foram setlists diferentes, teve show que a gente fez sem setlist, teve show que a gente fez em cima da hora, teve show que a gente tem sei lá, dez possibilidades de setlist… E vamos misturando e sentindo como está a temperatura das pessoas, do lugar. É uma coisa que a gente depende de uma troca, senão não vai fluir. Por que a gente vai com uma coisa pré-concebida, que talvez faça a gente quebrar a cara, sabe? Estamos tentando ir por um caminho que flua mais assim. Isso quer dizer às vezes passar um pouco mais de azia e ansiedade (risos).
Comparando que vocês já tocaram aqui e fora do Brasil, vocês sentem que rola uma receptividade diferente pro material mais experimental? Como é a reação das plateias de lá em comparação com as daqui?
Igor: Quando a gente tocou fora no ano passado, essas músicas ainda estavam em formação. Mas assim, em termos de receptividade, as pessoas lá fora não costumam saber o que está por vir. Agora parece que a gente se comunica melhor, a ponto de alguém esperar alguma coisa assim (risos). Então é meio surpresa, tipo o circo começando. Mas sempre rola o apoio moral, no mínimo. Ninguém nunca chegou e falou que odiou, no máximo fez uma cara de dor de cabeça (risos).
Lívia: De querer abaixar um amp, alguma coisa assim…
Guilherme: É, abaixar o amp acontece. Eu mesmo abaixaria o amp, mas às vezes tem que ficar mais alto do que eu gostaria. Então faz parte esse tipo de coisa.
Thomaz: Cuidado com seus ouvidos, tem que cuidar dos seus ouvidos, galera jovem. É bom usar um protetor às vezes, cuidar do volume… isso é bom!
Guilherme: Limpar o ouvido também é bom, fazer lavagem, usar um cotonete (risos).
Inclusive eu reparei que você estava usando protetor auricular no show hoje. Mas é porque a guitarra está muito alta para você?
Guilherme: Eu tô usando protetor agora, nunca usei antes. Dois dias atrás a gente tocou no Rio e o amplificador de guitarra estava a uns 15 cm da minha orelha e foi doideira. Ficou alto e estou com dor até agora, uns dois dias com dor em volta da minha orelha, dor física mesmo. No outro dia minha cabeça ficou bem estranha, os dois ouvidos doendo muito. E aí eu procurei na internet mas não tinha muita informação sobre isso…
Aí você leu no Google que está com câncer, né? Não faça isso…(risos)
Guilherme: É, eu descobri que eu vou perder meu pé porque o sangue está coagulando (risos)… Mas aí tem que preservar o ouvido por um tempo para ver se alguma coisa se regenera porque talvez algum percentual de audição eu devo ter perdido. Mas deve ser bem pequeno, eu espero. Amém.
Papo de músico nerd: vocês não tocam em afinação normal não, né? Percebi que em certos momentos você mudou os tons de algumas cordas. Qual é a afinação que vocês usam?
Guilherme: Ih, fodeu (risos)
David, reparei que você usa uma afinação bem grave…
David: É um tom abaixo, basicamente. Vou falar a verdade, cara. Entregar o ouro… (risos)
Olha só, se é segredo e prefere não falar, eu corto aqui!
David: Não não, eu faço questão de falar (risos)
Mas como funciona? Porque as partes que o Guilherme toca e o que você faz são diferentes, mas são complementares. Você vai fazendo tudo por ouvido? Você fica olhando o que ele faz ou vai na sensação?
David: Na sensação mesmo. A gente se encontra em Nárnia.(risos)
Legal! Eu não conseguiria fazer isso, tenho um ouvido ruim, tenho sempre que ficar olhando ali…
David: É que a gente cheira muito chulé um do outro, né? Aí já viu, né? (risos)
Acho que é muito foda a forma como as guitarras conversam, foi uma das coisas que me atraiu no som de vocês ouvindo o disco, antes mesmo de ver ao vivo. Citando a minha amiga Isabella, ela falou que “Vaninha Perereca” era a “Marquee Moon Tropical” ou alguma coisa assim (risos). Com esse disco, percebo que vocês estão indo muito mais para uma onda do krautrock do NEU! ou coisa assim. Isso é espontâneo? Ou vocês pensam “vamos fazer algo mais nesse sentido”?
Guilherme: Cara, se a gente quisesse fazer uma música ser de um jeito, provavelmente ia ficar de outro jeito…
Thomaz: Um bolero!
Guilherme: Ou ia ficar de um outro jeito que não esse aí. Essa a gente tocou muito já, e ela até ganhou uma pegada, um beat que é meio krautrock no meio, mas ele nem existia. Foi no momento que aquilo começou a acontecer assim, então ela já foi de muitas formas. Inclusive agora ela é diferente da gravação e a gente ficou uns meses sem tocá-la. Quando a gente foi tocar, ela ficou mais diferente ainda. Agora a gente está conseguindo tocar mais parecido com a gravação para ficar meio temático do disco.
Geralmente o David que faz as artes visuais da banda. Foi o David que fez a capa do “Interferências na Fazendinha” também? Qual foi o conceito?
David: Cara, assim como na música, a gente faz as outras coisas tudo junto, todo mundo dando ideias, falando coisas. Foi bem coletivo. Não lembro exatamente o conceito, a gente não conversou muito bem sobre isso. Eu fiz umas coisas e a gente foi dando pitaco e aí chegou nessa coisa. Todos juntos e opinando, fazendo junto e trocando ideias, botando pra frente. É isso.
E o lance do nome “Fazendinha” é como se fosse um retrato de experiências de vocês no sítio Sereno Sana?
Guilherme: Também, mas “fazendinha” é uma gíria lá do Rio que eu não sei explicar. É tipo um “lugar de prazer”. A gente sempre brinca com isso em vários contextos, usamos essa palavra muito entre a gente, aí ela tem vários sentidos internos. E as coisas foram se complementando com o tempo, assim como todas essas músicas surgiram de improviso nos nomes. E nessa temática, coisas que foram se construindo com tempo. A gente foi refletindo sobre isso, entendendo coisas que surgiram nas músicas, nas letras, no instrumento e no som. E esse nome surgiu no final. Era tipo “gueersh e seus amiguinhos na Fazendinha”, “gueersh não sei o que na Fazendinha”… Aí a gente ficou brincando com esse nome um tempo, até que chegou o nome “Interferências na Fazendinha”. Talvez daqui a um ano fosse outra coisa. “Outra coisa na Fazendinha” vai ser o volume dois, hein? Atenção! (risos)
Lívia: E também tem a ver com esse retrato do que a gente ficou ali gravando e passando tempo junto nesse lugar, que é o sítio Sereno Sana, na serra de Macaé.
Guilherme: Nosso amigo Rafael Rezende é o nosso empresário, ele que deixa a gente ficar lá no sítio. Ele investe “dinheiro energético” na gente, “dinheiro espiritual”.
Thomaz: Ele investe vibes na gente há muito tempo, e é muito bonito estar lá com ele, todo mundo junto, comendo o macarrão com sardinha que o Igor faz muito bem semanalmente.
Lívia: Sim, total!
Guilherme: Mas no sereno não tem sardinha, no sereno é água!
Lívia: Tem cultura, água e trabalho (risos)
Bom, acho que já podemos encerrar. Tem alguma coisa que acham que eu não abordei nas perguntas e vocês querem falar? Fiquem à vontade.
Lívia: Comprem merchs! (risos)
É sim por favor né? Comprem merch sempre! Mas lembrei de uma outra questão: antes vocês estavam fazendo a turnê com a Charanga (uma Parati 1.8 de 1993 que foi roubada durante a passagem da banda por Montevidéu/Uruguai em 2023). Agora vocês estão fazendo a turnê com qual carro?
Thomaz: agora é um golzinho. Exatamente um golzinho 201 G4, tirado do umbral para fazer essa essa viagem (risos). Ele estava no esquecimento dos carros, a Charanga foi embora e ele apareceu como o substituto.
RIP Charanga.
Lívia: RIP Charanga…
Guilherme: O golzinho 1.0 duas portas, com os instrumentos amarrados em cima numa lona velha, meio fodida, cheio de madeira remendando…
Lívia: Com câmara de ar…
Guilherme: Com câmara de ar e corda! O carro, coitado, arriado. Parece que ele tá pulando mas…
E quem dirige? Todos vocês?
Guilherme: A gente vai dividindo. Aí tem uma coisa que é importante: tem o piloto, o co-piloto e…
Igor: O co-co-piloto também, que é uma função não menos importante. O co-co-piloto que auxilia o co-piloto, porque tem certos co-pilotos que é uma loucura. Aí tem que ter um co-co-piloto para ajudar moralmente, porque o co-co-piloto é uma merda também, então o co-piloto soma um co-piloto ruim e no final, dá um só. Até dar merda!
Lívia: Ontem teve o co-co-co-piloto! (risos)
Igor: Foi necessário o co-co-co piloto para resolver a situação! (risos)
– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.


