Entrevista: Bar Italia comenta sobre disco “The Twits”, indica livros e fala sobre signos astrológicos

entrevista de Alexandre Lopes

Considerado uma das revelações da música em 2023, o trio londrino Bar Italia começou em 2019, quando Jezmi Tarik Fehmi (guitarras, vocais) e Sam Fenton (guitarras, vocais) – que já tocavam juntos na banda Double Virgo – conheceram a artista italiana Nina Cristante (vocais). Morando no mesmo prédio em Peckham, Londres, durante a pandemia de Covid, os três passaram a compor e gravar de forma caseira, inspirados por uma fusão de pós-punk dos anos 1980, indie rock dos anos 1990 e algo de trip-hop.

Estes trabalhos iniciais acabaram sendo lançados pelo selo World Music e, após dois álbuns, um EP e alguns singles, a banda rapidamente chamou a atenção da imprensa britânica. Ainda nesse período, a banda também despertava curiosidade por manter uma certa imagem enigmática, evitando entrevistas e aparições públicas.

Todo o burburinho culminou na assinatura de um contrato com o icônico selo alternativo norte-americano Matador Records (Pavement, Yo La Tengo, entre outros) em 2023 e o lançamento de dois álbuns feitos em estúdio: “Tracey Denim” em maio e “The Twits” em novembro. Os discos foram bem recebidos pela crítica e levaram o grupo a se apresentar nos EUA, com concertos esgotados em Nova York, Los Angeles e festivais como Coachella, Primavera Sound e Glastonbury. O EP mais recente, “The Tw*ts”, lançado em junho de 2024, complementa “The Twits” com três faixas inéditas compostas após o lançamento do álbum.

Em uma entrevista bem amigável via Zoom com o Scream & Yell, cuja pauta principal era a estreia da banda em terras brasileiras em dezembro, turnê que acabou posteriormente cancelada após a conversa, o trio comentou sobre o que esperar para os próximos passos do Bar Italia no estúdio, signos astrológicos, o mistério que cercou o grupo no início da carreira, entre outras polêmicas. Confira abaixo.

Vocês começaram a trabalhar juntos durante a pandemia e têm quatro álbuns e três EPs. Acho que já dá pra considerar uma carreira prolífica. O primeiro disco foi gravado em casa e o último em um estúdio improvisado em Maiorca, na Espanha, certo? Vocês pretendem continuar trabalhando dessa forma improvisada, meio lo-fi?
Nina: Só queria corrigir isso, desculpe. Nada foi improvisado. Na verdade, o estúdio em Maiorca foi bem planejado e equipado. E entre esse disco no estúdio e o que gravamos no quarto do Jezmi, tivemos o “Tracey Denim”, que também foi gravado em estúdio. Recentemente estávamos usando estúdios em Londres e queremos continuar trabalhando de maneiras novas e interessantes. Não estamos interessados em manter um estilo lo-fi, porque na verdade não era essa a intenção. Até em Maiorca o estúdio era bem equipado e nós gastamos bastante tempo escolhendo e enviando os equipamentos para lá. Sim, existiram coisas com um toque DIY [Do It Yourself/”faça você mesmo”], mas a ideia era mais ter acesso a um estúdio totalmente acessível e remoto, ao invés de ser DIY.

Jezmi: Acho que vamos continuar trabalhando em novas formas, outros estúdios ou talvez conseguir outra pessoa para nos produzir. Acho que queremos escolher formas novas de trabalhar para manter tudo interessante.

Sam: Também acho que tem um pouco de beleza que encontramos nas imperfeições do que fizemos antes. Quanto mais o tempo passa, mais você tem a chance de reconhecer coisas que você não sabia que estava fazendo. E eu não gostaria de perder algo disso no que escolhermos fazer depois. Mesmo que usemos um estúdio mais sofisticado ou algo assim. Sempre tentamos manter algum senso de autenticidade, mas isso pode assumir qualquer forma.

Nina: Acho que somos bons em ir por etapas, mas sem exagerar nos passos. Estamos indo progressivamente. Ainda não trabalhamos com um produtor e podemos optar por isso depois, mas por enquanto não foi necessário para o álbum. Somos um pouco protecionistas, como poderiam dizer.

O último disco que vocês gravaram foi somente vocês três?
Nina: Sim, a não ser que precisássemos de um baterista para um take específico.

Jezmi: Isso.

Nina: E no último EP tem o baterista com quem estamos tocando ao vivo.

Sim, sei que no palco vocês contam com um baterista e uma baixista (Liam Toon e Emilie Palmelund). E quanto a gravar com uma banda completa? Pretendem fazer isso no próximo álbum?
Sam: Depende do que precisamos. Normalmente, adicionamos um baterista quando necessário. Não temos a intenção de mudar radicalmente nosso processo de gravação.

Nina: Usamos Liam para o EP. Mas para baixo não, porque Jezmi e Sam conseguem tocar, então não foi necessário. Mas se resolvermos fazer um tipo de álbum mais ao vivo, seria diferente.

Já vi uns vídeos da banda ao vivo e achei bem diferente do que é no estúdio. Tem uma energia mais crua e acho que soa melhor assim. 

Jezmii: Eu gosto de bandas assim, acho que é importante fazer diferente. Eu não gosto de bandas que apenas gravam ao vivo e esperam que isso seja uma experiência interessante. Mas também não gosto de quem faz coisas super produzidas e depois tentam reproduzir exatamente tudo aquilo ao vivo.

Houve um período de mistério em torno da banda no início, por que vocês não estavam dando entrevistas. E isso acabou chamando mais atenção para vocês. Vocês acham que essa atenção excessiva já passou? Foi difícil lidar com isso?
Sam: Não achamos que foi muita atenção. Pareceu mais que as pessoas estavam fixadas na ideia de que éramos misteriosos, algo que nunca buscamos ativamente. Não tentamos evitar ou criar algo nesse sentido.

Jezmi: Apenas somos pessoas bem reservadas…

Nina: E o mistério surgiu mais por circunstâncias e não por intenção. Não podíamos tocar ao vivo [por causa da pandemia]. Se tivéssemos tocado ao vivo desde o começo, as pessoas teriam conhecido nossa aparência e som. Mas ao invés disso, continuamos lançando músicas por um selo que também se mantém de certa forma meio misterioso. Mas isso foi só algo que aconteceu por acaso e não chegou a ser exatamente pesado. Não sentimos dessa forma.

Em entrevistas passadas, vocês mencionaram signos astrológicos e alguns de vocês tocaram em uma banda chamada Double Virgo. Signos são importantes para vocês ou é apenas uma coincidência?
Sam: Eu acho que não somos crentes fervorosos em astrologia, mas não conseguimos evitar de fazer piadas ou falar sobre isso. Porque achamos interessantes as coisas todas que englobam isso. Seja porque isso te preenche de alguma forma como uma religião ou não, definitivamente é algo que gostamos de falar sobre. E é engraçado, as características dos signos das pessoas podem realmente se manifestar nelas. Eu não sei nada além do signo solar. Algumas pessoas vão além e sabem o que seriam os ascendentes, mas eu mesmo não sei nada além do signo solar.

Nina: Qual é o seu signo solar?

Eu sou câncer.


Nina Cristante: Ah, legal!

Jezmi Tarik Fehmi: Minha mãe é de câncer.

Nina Cristante: Minha irmã também!

Eu sei que isso provavelmente foi uma piada, mas em uma entrevista anterior, vocês mencionaram não querer ser associados a bandas de Londres e a forma como elas interagem entre elas é meio “nojenta”. O que quis dizer com isso?
Nina (sorrindo e levantando a mão): Eu discordo disso!

Jezmi: Desculpe a todo mundo por dizer merdas nas entrevistas… (risos)

Nina: Foi só algo tirado um pouco fora do contexto.

Jezmi: Acho que… Às vezes pessoas de outros países confundem as coisas porque existe um contexto muito específico de fãs da música londrina.

Nina: Os quais não são nossos amigos…

Jezmi: Essas não são pessoas que conhecemos. Mas não somos como as crianças elegantes que vão ao Guild Hall Bally e não gostaríamos de ser associados a algo assim. É isso que eu quis dizer.

Sam: Mas quando tocamos em Londres, geralmente há um sentimento muito especial, uma espécie de sentimento familiar. Temos tocado por todo o mundo e houve tantos shows incríveis e tantas multidões lindas, mas há algo realmente muito bom sobre o público de Londres, como eles se sentem conosco e como eles se expressam. E há um sentimento de que às vezes eles têm uma espécie de orgulho por sermos uma banda de Londres, um senso de pertencimento em relação a nós, o que me deixa muito feliz. Eu gosto de ver que, graças a eles, existe uma excitação extra que às vezes só aparece em Londres

Nina: É um pouco diferente para mim porque sou italiana e vim morar em Londres, então não tenho o mesmo tipo de associação cultural que Jezmi tem com o grupo demográfico de lá, por exemplo. Então faz sentido o que você está dizendo sobre Guild, mas eu simplesmente mal conheço essa escola, por exemplo.

Jezmi: Temos muitos amigos em Londres que estão em grandes bandas que as pessoas ainda não conhecem, mas que deveriam. Não é que não nos associemos a outros fãs de Londres. Porque nós fazemos isso, mas as pessoas em geral provavelmente ainda não sabem quem elas são.

Nina: Elas ainda estão ascendendo.

Como tem sido a experiência de fazer turnês após a pandemia, considerando problemas financeiros e outros desafios?
Sam: Não temos muito um ponto de referência para comparar como era a indústria musical antes de começarmos. Tem muitas bandas que começam já sabendo alguma coisa da indústria, mas nós não sabíamos nada. No entanto, ao ler livros e absorvendo a cultura popular, temos a impressão de que uma banda poderia fazer um pouco mais de dinheiro do que se faz hoje em dia. A quantidade de trabalho que você tem que fazer versus o quão confortável você está vivendo não é necessariamente o que você esperaria. Mas é difícil dizer o que seria correto e claro, cada banda está se virando de uma forma diferente, cada uma faz dinheiro de formas diferentes…

Jezmi: O que eu sei é que passamos muito tempo no controle da fronteira com a França.

Nina: Sim, por causa do Brexit.

Sam: Sim, o Brexit tornou as coisas mais difíceis do que a pandemia!

Li que vocês têm interesse em biografias e fenômenos culturais de bandas. Alguma leitura que gostariam de destacar?
Jezmi: Acho que fui eu quem disse isso. Não quero falar por todos os outros, mas “Nossa Banda Podia Ser a Sua Vida” (de Michael Azerrad) é um dos melhores livros de música já escritos.

Sim, eu adoro ele também!


Jezmi: “The KLF: Chaos, Magic and the Band who Burned a Million Pounds” é ótimo. A música deles é uma merda, mas o livro é ótimo.

Sam: Doctor Who, isso sim! (risos)

Jezmi: Bom, são esses dois que se sobressaem para mim!

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br

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