"Os Infiltrados"
por Marcelo Miranda
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15/11/2006

Uma voz fora da tela fala sobre a influência do homem num determinado ambiente, enquanto a câmera apresenta ruas e guetos. Estamos de volta ao universo urbano e violento de Martin Scorsese. Fechando uma trilogia informal sobre a máfia, iniciada com Os Bons Companheiros e prosseguida por Cassino, o diretor nova-iorquino aborda em Os Infiltrados esse universo tão marcado pela ambigüidade e solidão.

É de solidão que se alimenta o cinema de Scorsese. Personagens no limite da própria vida tentam se impor num contexto onde tudo parece estar contra eles e sua sanidade. Taxi Driver e Touro Indomável são os exemplos mais notórios, que revolucionaram a forma de se fazer cinema nos EUA dos anos 70. Mas mesmo trabalhos considerados "menores" do cineasta se caracterizam pela temática do solitário, como Depois de Horas, Vivendo no Limite e A Época da Inocência. São filmes em que mudam-se o tempo, o figurino, o fundo histórico, mas mantém-se a essência dos conflitos: o desajustado contra o ambiente que o cerca.

Os Infiltrados traz tal conflito para os dias de hoje, para as ruas de Boston. Divide a ação entre a gangue de um perigoso mafioso (Jack Nicholson) e o departamento de polícia da cidade. Em cada local, um agente disfarçado espiona para entregar o outro lado. Matt Damon e Leonardo Di Caprio interpretam personagens-irmãos — não irmãos de sangue, mas irmãos de angústia, de anseios, de solidão. Interessante a forma como Scorsese retrata cada um desses caras: de um lado, Damon é cínico, calmo, mais calculista e racional; do outro, Di Caprio é um pavio aceso, que explode a todo momento em rasgos de fúria e violência. Ambos são "ratos", termo pejorativo para quem se infiltrou nos negócios alheios.

Martin Scorsese deixa de lado o virtuosismo técnico e narrativo de seus filmes de máfia anteriores para se fixar num enredo mais direto e seco. Refilmando o excelente Conflitos Internos (2002), longa de Hong Kong dirigido por Andrew Lau e Alan Mak, o diretor aprofunda algumas relações e, ao dar clima e visual de fita policial setentista, não poupa o espectador de boas doses de sangue. Só que o sangue em Scorsese não tem qualquer glamour. Quando algum tiro ecoa, há um significado grandioso, um simbolismo de fim da linha, de falta de perspectiva. Não há otimismo, não há mulheres grávidas e não há redenção que sobrevivam ao jogo orquestrado pela câmera de Scorsese.

Presente sem se entregar, essa câmera testemunha os atos dos personagens e a sede de todos por um lugar de destaque naquela hierarquia sem começo nem fim. O objetivo dos "ratos" e de seus líderes não está em galgar degraus rumo ao poder, mas simplesmente em sobreviver diante de uma realidade imprevisível, que cobra deles posturas das quais precisarão se esquivar caso ainda queiram se manter inteiros. O catolicismo tão forte na obra de Scorsese se faz presente na noção de pecado e castigo, na conseqüência que vem pouco depois do ato, no "pagamento" cobrado ainda em vida e resultante em morte.

Há quem não tenha gostado dos projetos épico-intimistas recentes de Martin Scorsese. Um pouco de injustiça e incompreensão, porque Gangues de Nova York e O Aviador não são diferentes de outros trabalhos maravilhosos seus. São, sim, igualmente calcados no transe de personagens tão grandes quanto o mundo que habitam, mas tão pequenos e mesquinhos quanto os sentimentos que os aprisionam neste mesmo mundo. De qualquer forma, há Os Infiltrados, que é isso tudo também, e talvez ainda mais. Em sua essência, Scorsese está sempre falando de uma América criada, desenvolvida e mantida sob atos violentos.

Nesse sentido, seria ainda mais surpreendente pensar que a trilogia informal de Martin Scorsese possa ter se iniciado não em Os Bons Companheiros, mas justamente com a fundação de América de Gangues de Nova York. Depois seguiu pelo desenvolvimento de uma nação (um mundo?) neurótica e enlouquecida, em O Aviador; e chegou à perda total e absoluta de valores nos tempos modernos, apresentada em Os Infiltrados. Olhando toda a obra do diretor em perspectiva, é coerente e faz sentido. Um cinema sem muita esperança e com força e impacto de fazer sangrar.


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