{"id":9912,"date":"2011-09-25T13:36:40","date_gmt":"2011-09-25T16:36:40","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=9912"},"modified":"2017-07-14T10:48:28","modified_gmt":"2017-07-14T13:48:28","slug":"sobre-os-20-anos-de-nevermind","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/09\/25\/sobre-os-20-anos-de-nevermind\/","title":{"rendered":"Sob o CEL: Sobre os 20 Anos de Nevermind"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-9913 aligncenter\" title=\"nirvana\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/nirvana.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"559\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/nirvana.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/nirvana-300x277.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Sob O CEL #4<br \/>\nSobre os 20 Anos de Nevermind<br \/>\npor Carlos Eduardo Lima<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Comecei a escrever sobre m\u00fasica em 1996, numa encarna\u00e7\u00e3o impressa do atual Portal Rock Press. Nessa altura, Kurt Cobain j\u00e1 tinha estourado seus miolos e o mundo era um lugar estranho e sem nenhuma garantia. E estava ficando pior. Os anos 90 do s\u00e9culo XX s\u00e3o, at\u00e9 agora, o in\u00edcio de uma nova sociedade, epitomizada por tecnologia e grana, na qual apenas o saber funcional, ou seja, aquele que vai ter dar mais condi\u00e7\u00e3o de ganhar mais grana num emprego totalmente tecnol\u00f3gico, vai ser &#8220;\u00fatil&#8221;. Uso as aspas porque, a meu ver, todo saber deveria ser \u00fatil, desde decorar nomes de capitais ou sei l\u00e1, conhecer marcas de avi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que quero dizer com isso tudo \u00e9 que, se a sociedade muda, a m\u00fasica muda com ela. Ela \u00e9 produto indissoci\u00e1vel da \u00e9poca em que acontece, ainda que possamos apreci\u00e1-la fora desse tempo de concep\u00e7\u00e3o, quando h\u00e1 as chamadas obras de arte atemporais. E n\u00e3o fui eu que disse isso apesar de sempre ter mantido essa opini\u00e3o em meus textos aqui e alhures. O pai desse pensamento \u00e9 o soci\u00f3logo alem\u00e3o Norbert Elias, manifestado em seu livro &#8220;Sociologia de Um G\u00eanio&#8221;, sobre o compositor Wolfgang Mozart.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cNevermind\u201d, do Nirvana, \u00e9, desse jeito, um produto espec\u00edfico da \u00e9poca em que foi feito, ou seja, 24 de setembro de 1991. O mundo em 1991 j\u00e1 prenunciava configura\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e modus operandi sociais e econ\u00f4micos de hoje e dava a id\u00e9ia de que se transformaria num lugar est\u00e9ril. Mais ou menos as mesmas intui\u00e7\u00f5es que outros escritores, George Orwell e Aldous Huxley, ingleses, socialistas e intelectuais, tiveram nos anos 20, quando o mundo retrocedia rumo ao fascismo. De alguma forma igualmente intuitiva, um sujeito oprimido de classe m\u00e9dia, sem qualquer erudi\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, foi capaz de colocar em forma de m\u00fasica todo o medo mundano diante de uma rotina f\u00fatil e sem sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kurt Cobain, sem exageros, foi o \u00faltimo compositor que conseguiu sintetizar o retrato de seu lugar e torn\u00e1-lo poss\u00edvel para pessoas que nunca viveram onde e como ele vivia. Adolescentes da Bulg\u00e1ria, da Austr\u00e1lia e do Uruguai devem ter se reconhecido nas letras de Cobain e sentido a at\u00e1vica vontade de mudar o mundo &#8211; ou mesmo rebelar-se contra ele &#8211; ap\u00f3s experimentar o peso das m\u00fasicas de Nevermind. N\u00e3o cabe julgar qualidade delas, mas a import\u00e2ncia e o efeito que tiveram. Se a MTV conspurcou o disco e o transformou em mais um competidor pelo topo das paradas, n\u00e3o importa. O estrago estava feito e o nome do Nirvana, cravado na hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era um tempo em que &#8220;m\u00fasica independente&#8221; e &#8220;ind\u00fastria musical&#8221; ainda faziam sentido e que havia algo que se perdeu hoje em dia: as conversas sobre m\u00fasica na loja de discos. Se temos downloads extra-r\u00e1pidos em banda larga, de nada eles valem se n\u00e3o houver informa\u00e7\u00e3o, percep\u00e7\u00e3o, capacidade de separar o joio do trigo, sabe, fazer valer a liberdade conquistada e n\u00e3o deix\u00e1-la perder o significado em termos como &#8220;f\u00e1cil&#8221; ou &#8220;gr\u00e1tis&#8221;, que nos fazem confundir as bolas \u00e0s vezes. O \u201cNevermind\u201d do Nirvana n\u00e3o era f\u00e1cil, nem gr\u00e1tis, mas era um grito por liberdade. Pode ser comparado \u00e0s grandes obras do rock, seja pelo ataque punk ou pela cr\u00edtica social da black music do in\u00edcio dos anos 70.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Cobain, ser de classe m\u00e9dia, ter TV a cabo, casar jovem e ter filhos n\u00e3o era exatamente sin\u00f4nimo de uma vida legal se isso fosse te aprisionar como um hamster na rodinha da gaiola. Tanto que ele n\u00e3o quis continuar experimentando tudo isso. Colocou em m\u00fasica o que pensava e deixou a tarefa de interpreta\u00e7\u00e3o para as gera\u00e7\u00f5es seguintes. Se voc\u00ea sacou a mensagem, ouviu \u201cNevermind\u201d nos anos 90, comprou seu CD em alguma loja de discos e preza tudo isso, vale investir uma grana numa das v\u00e1rias edi\u00e7\u00f5es de 20 anos do disco. Seja a dupla, com CD b\u00f4nus e trocentas faixas novas, sejam elas sobras de est\u00fadio, lados-b ou grava\u00e7\u00f5es ao vivo. Se tiver condi\u00e7\u00f5es de ir mais al\u00e9m, vale abiscoitar a edi\u00e7\u00e3o quintupla, com CD&#8217;s e DVD da apresenta\u00e7\u00e3o in\u00e9dita da banda na \u00e9poca do lan\u00e7amento do disco. Seja qual o formato que voc\u00ea escolha, n\u00e3o haver\u00e1 espa\u00e7o pra nostalgia, pois \u201cNevermind\u201d parece ter esgotado tudo sobre o que o mundo seria hoje e h\u00e1 vinte anos. Tudo est\u00e1 atual e desconfortavelmente suspenso na noite do tempo. D\u00e1 medo, mas \u00e9 grande arte.<\/p>\n<p align=\"center\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/On5DmiXTD8s\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/On5DmiXTD8s\"><\/embed><\/object><\/p>\n<div id=\"singlepostcontent\">\n<p style=\"text-align: justify;\">******<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CEL \u00e9 Carlos Eduardo Lima, historiador,    jornalista e f\u00e3 de m\u00fasica. Conhece Marcelo Costa por carta desde o fim    dos anos 90, quando o Scream &amp; Yell era um fanzine escrito por  ele e   amigos, l\u00e1 em sua natal Taubat\u00e9. J\u00e1 escreveu no S&amp;Y por um  bom   tempo, em idas e vindas. Hoje tem certeza de que o mundo como o    conhec\u00edamos acabou l\u00e1 por volta de 1994\/95 mas n\u00e3o est\u00e1 conformado com    isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/sob_o_ceu\/\"><strong>LEIA OUTRAS COLUNAS DE CARLOS EDUARDO LIMA NO SCREAM &amp; YELL<\/strong><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Ind\u00fastria ganha sobrevida investindo em reedi\u00e7\u00f5es de deixar f\u00e3 sem dormir (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/09\/16\/quem-quer-gastar-dinheiro\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cNevermind\u201d \u00e9, ainda hoje, um disco atual e sensacional, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2006\/10\/05\/nevermind-e-ainda-hoje-um-disco-atual-e-sensacional\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Entrevista com Steve Albini, por Elson Barbosa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/07\/16\/entrevista-steve-albini\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; O box &#8220;With The Lights Out&#8221; e &#8220;Nevermind Classic Albums&#8221;, por por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/07\/16\/entrevista-steve-albini\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Duas s\u00e3o as maneiras de se ver a colet\u00e2nea &#8220;Nirvana&#8221;, por Marcelo Costa (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musicadois\/nirvanacoletanea.html\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cBleach \u2013 Deluxe Edition\u201d, Nirvana, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/01\/11\/elbow-nirvana-e-snow-patrol\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Entrevista: Charles Cross fala sobre &#8220;Heavier Then Hell&#8221;, por Victor Hugo Lopes (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/literatura\/maispesadoqueoceu.html\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Um grupo de votantes aponta &#8220;Nevermind&#8221; como o Melhor \u00c1lbum dos anos 90 (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musica\/melhoresdosanos90analise.html\">aqui<\/a>)<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Sob o CEL #4\nKurt Cobain foi o \u00faltimo compositor que conseguiu sintetizar o retrato de seu lugar e torn\u00e1-lo poss\u00edvel para outras pessoas&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/09\/25\/sobre-os-20-anos-de-nevermind\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":44,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[46],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9912"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/44"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9912"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9912\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":43490,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9912\/revisions\/43490"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9912"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9912"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9912"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}