{"id":98150,"date":"2026-11-05T00:35:13","date_gmt":"2026-11-05T03:35:13","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=98150"},"modified":"2026-11-05T00:36:17","modified_gmt":"2026-11-05T03:36:17","slug":"entrevista-builtres-uma-das-principais-bandas-de-rock-do-uruguai-fala-sobre-seu-novo-disco-nido-de-espinas-e-show-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/11\/05\/entrevista-builtres-uma-das-principais-bandas-de-rock-do-uruguai-fala-sobre-seu-novo-disco-nido-de-espinas-e-show-no-brasil\/","title":{"rendered":"Entrevista: Builtres, uma das principais bandas do Uruguai, fala sobre seu novo disco, \u201cNido de Espinas\u201d, e show no Brasil"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/lvinhas78\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leonardo Vinhas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que \u00e9 ser uma das \u201cmaiores bandas\u201d de um pa\u00eds muito musical, mas com uma ind\u00fastria de m\u00fasica pequena? E que essa mesma banda, massiva em seu pa\u00eds a ponto de ser headliner de festivais, mesmo aqueles com atra\u00e7\u00f5es internacionais, seja um grupo cult em solo estrangeiro? E como sustentar tudo isso ao longo de 37 anos de atividade, com relativa estabilidade na forma\u00e7\u00e3o? Essas s\u00e3o algumas das perguntas que Gustavo Parodi, guitarrista dos <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/buitres.oficial\/\">Buitres<\/a>, responde na entrevista a seguir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parodi e o vocalista Gabriel Peluffo montaram o Buitres Despu\u00e9s de la Una imediatamente ap\u00f3s o fim da sua banda anterior, Los Est\u00f3magos. Chamaram o amigo de inf\u00e2ncia Jos\u00e9 \u201cPepe\u201d Rambao para o baixo e Marcelo Lasso para a bateria, e estava formada a banda, que muito rapidamente passou a ser conhecida apenas como <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?s=Buitres\">Buitres<\/a> (\u201cabutres\u201d). O som inicialmente era bastante influenciado pelo punk, especialmente em suas vertentes mais cancioneiras, mas foi se abrindo para acomodar influ\u00eancias de folk, country rock e can\u00e7\u00e3o uruguaia, sempre mantendo a energia bruta do rock\u2019n\u2019roll e o senso mel\u00f3dico beatle, influ\u00eancias fundacionais da banda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo dos anos de exist\u00eancia, Parodi, Peluffo e Rambao se mant\u00e9m como o n\u00facleo principal da banda. Em 2005, Pepe Rambao foi para a segunda guitarra e deixou o baixo para Orlando Fern\u00e1ndez (irm\u00e3o dos <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?s=Buenos+Muchachos\">Buenos Muchachos<\/a> Pedro Dalton e Marcelo Fern\u00e1ndez, que tamb\u00e9m acompanha Dalton em muitas can\u00e7\u00f5es do projeto <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?s=Isla+de+Encanta\">Isla de Encanta<\/a>), que segue no posto desde ent\u00e3o. Somente a banqueta da bateria viu alguma rotatividade na banda, com cinco m\u00fasicos diferentes segurando as baquetas durante esses anos. Desde 2018, quem defende essa posi\u00e7\u00e3o \u00e9 Federico \u201cKako\u201d Bianco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Uruguai, a banda \u00e9 uma das principais refer\u00eancias para o rock nacional. Em pa\u00edses como Argentina, Col\u00f4mbia ou Espanha, s\u00e3o uma banda cult. E no Brasil s\u00e3o praticamente desconhecidos \u2013 o que n\u00e3o os impediu de fazer uma apresenta\u00e7\u00e3o inesquec\u00edvel <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/10\/25\/combo-cordeiro-buitres-lucio-maia-e-otto-conquistam-o-paraiso-do-rock-2025\/\">no festival paranaense Para\u00edso do Rock<\/a>, em 2025. Em 21 de novembro de 2026, voltar\u00e3o para um segundo show no pa\u00eds, agora na cidade ga\u00facha de Bom Princ\u00edpio como uma das atra\u00e7\u00f5es do <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/DejjAbyEQtV\/\">Can\u00edsio Rock<\/a>, festival organizado em benef\u00edcio do Hospital S\u00e3o Pedro Can\u00edsio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa volta serviu de pretexto para uma entrevista na qual Parodi conta sobre a decis\u00e3o de lan\u00e7ar o \u00faltimo \u00e1lbum da banda, \u201cNido de Espinas\u201d (2026), em vinil, CD e fita cassete, mas n\u00e3o nas plataformas tradicionais de streaming (o disco pode ser ouvido online e baixado <a href=\"https:\/\/buitresuy.bandcamp.com\/album\/nido-de-espinas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">apenas no Bandcamp<\/a>), mas o cerne da conversa \u00e9 repassar a longevidade dos Buitres, o pre\u00e7o que ela cobra de seus integrantes, e como a banda se v\u00ea na hist\u00f3ria da m\u00fasica de seu pa\u00eds \u2013 um papo sincer\u00e3o que come\u00e7a logo abaixo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_98153\" aria-describedby=\"caption-attachment-98153\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-98153 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/buitres.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/buitres.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/buitres-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-98153\" class=\"wp-caption-text\"><em>&#8220;Nido de Espinas&#8221;, da Buitres,. est\u00e0 \u00e0 venda na <a href=\"https:\/\/tiendadiscomoda.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Discomoda<\/a><\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas est\u00e3o voltando ao Brasil pela segunda vez. Qual o papel que o pa\u00eds ocupa no imagin\u00e1rio dos Buitres?<\/strong><br \/>\n\u00c9 um pa\u00eds vizinho com o qual sempre tivemos uma esp\u00e9cie de trava idiom\u00e1tica. Estamos falando por n\u00f3s, enquanto banda de rock. Nossa primeira experi\u00eancia no Brasil foi com Los Est\u00f3magos, a banda anterior ao Buitres. J\u00e1 eram os momentos finais da banda, mas fizemos uma pequena turn\u00ea pelo Estado de Santa Catarina em 1988 e nos demos muito bem. Poder\u00edamos ter voltado, mas o coment\u00e1rio das pessoas era sobre o idioma. Elas gostavam muito da m\u00fasica, das can\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o entendiam as letras. Chegaram at\u00e9 a perguntar: &#8220;Por que voc\u00eas n\u00e3o gravam algumas m\u00fasicas em portugu\u00eas?&#8221;. E, bom, depois vem toda a hist\u00f3ria dos Buitres a partir de 1989\/1990. E s\u00f3 no ano passado, depois de tanto tempo como banda, voltamos ao pa\u00eds [no festival Para\u00edso do Rock]. Ainda nos perguntam por que n\u00e3o gravamos duas ou tr\u00eas m\u00fasicas em portugu\u00eas para ver o que acontece (risos). No come\u00e7o, nos ach\u00e1vamos engra\u00e7ado, mas por que n\u00e3o tentar? Acho que seria uma boa ideia. Mas falando dos nossos shows por a\u00ed, temos \u00f3timas lembran\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o ao p\u00fablico brasileiro \u2014 especialmente naquela turn\u00ea de 1988. O p\u00fablico brasileiro \u00e9 gente muito aberta, que ouve, que presta muita aten\u00e7\u00e3o ao que est\u00e1 sendo feito. A experi\u00eancia do ano passado naquele festival foi maravilhosa para n\u00f3s. E agora estamos voltando novamente, gra\u00e7as aos esfor\u00e7os e a dedica\u00e7\u00e3o do Fernando Smith (m\u00e9dico respons\u00e1vel pela organiza\u00e7\u00e3o do Canisio Rock), que \u00e9 nosso amigo e f\u00e3. Essa \u00e9, basicamente, a rela\u00e7\u00e3o que temos com o Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E musicalmente, nunca houve uma ponte?<\/strong><br \/>\nNo que diz respeito \u00e0 m\u00fasica, a conex\u00e3o entre Uruguai e Brasil manifesta-se mais no campo da m\u00fasica popular \u2014 especialmente a m\u00fasica de fronteira \u2014 e na forte influ\u00eancia que o Brasil exerceu no Uruguai nas d\u00e9cadas de 1950 e 1960. Posso confirmar isso pelos meus familiares \u2014 meus pais, meus tios \u2014, vendo como a m\u00fasica brasileira era ouvida no Uruguai. E, claro, nem preciso mencionar toda a explos\u00e3o da bossa nova e tudo mais, n\u00e9? Acredito que o \u00faltimo artista que conquistou o Uruguai, que entrou com muita for\u00e7a por aqui, foi o Roberto Carlos. At\u00e9 a \u00e9poca de Roberto Carlos, o Uruguai recebia artistas brasileiros. Depois, houve uma esp\u00e9cie de ruptura, e o Uruguai foi conquistado pela m\u00fasica argentina em geral, principalmente no que diz respeito ao rock. Os argentinos, de modo geral, dominam totalmente o mercado latino \u2014 o mercado de l\u00edngua espanhola \u2014, muito mais do que os mexicanos ou os colombianos. Ent\u00e3o, a m\u00fasica brasileira sofre uma esp\u00e9cie de interrup\u00e7\u00e3o a partir do in\u00edcio dos anos 1980. No plano pessoal, a \u00fanica rela\u00e7\u00e3o que tive com o rock brasileiro nos \u00faltimos, digamos, 20 anos, foi com os Autoramas, de quem eu gosto muito, eles s\u00e3o de um estilo musical que muito me apetece. A \u00faltima coisa que ouvi com bastante entusiasmo vinda da\u00ed foi o CPM22. No final dos anos 90, in\u00edcio dos anos 2000, descobri o CPM22 em uma das minhas viagens anuais de f\u00e9rias a Florian\u00f3polis. Foi uma banda que me encantou. N\u00e3o sei como eles est\u00e3o hoje em dia, por exemplo; a menos que voc\u00ea acompanhe pelas redes sociais ou algo do tipo, \u00e9 bem dif\u00edcil saber. Ou seja, a m\u00fasica brasileira n\u00e3o chega aqui, assim como, certamente, a m\u00fasica uruguaia tamb\u00e9m n\u00e3o chega ao Brasil \u2014 exceto na regi\u00e3o de fronteira.<\/p>\n<figure id=\"attachment_98155\" aria-describedby=\"caption-attachment-98155\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-98155\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/buitres2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"644\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/buitres2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/buitres2-300x258.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-98155\" class=\"wp-caption-text\"><em>&#8220;Nido de Espinas&#8221; em vers\u00e3o fita cassete<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Com a m\u00fasica regional, voc\u00ea diz?<\/strong><br \/>\nSim. A fronteira tem essa magia, n\u00e9? Em todas as fronteiras \u2014 Rivera, Artigas \u2014, existe essa conex\u00e3o direta com o pa\u00eds vizinho e uma m\u00fasica que \u00e9 compartilhada, especialmente a m\u00fasica popular. Quando vou tocar em Rivera ou Artigas com o Buitres, percebo essa rela\u00e7\u00e3o que o habitante de l\u00e1 tem com o pa\u00eds irm\u00e3o. \u00c9 impressionante! Mas, se a gente se afasta uns 50 ou 60 km em dire\u00e7\u00e3o ao interior do Uruguai, a conex\u00e3o desaparece. E, na m\u00eddia, n\u00e3o \u00e9 como era quando eu era pequeno. Nos anos 1960, 1970, a gente ligava o r\u00e1dio, sintonizava uma esta\u00e7\u00e3o, e a m\u00fasica brasileira estava presente o tempo todo. Na minha casa, a gente respirava isso. Tenho aqui os discos que herdei dos meus pais \u2014 Os Dem\u00f4nios da Garoa, por exemplo; eu adoro eles! Ouvi-los me faz lembrar dos meus pais. Os Dem\u00f4nios da Garoa se apresentaram duas vezes na minha cidade natal, Pando \u2014 que \u00e9 uma cidade do interior. No final dos anos 1950, in\u00edcio dos 1960, era muito comum que bandas e artistas brasileiros viessem ao Uruguai \u2014 e n\u00e3o apenas a Montevid\u00e9u. Enfim, essa era toda a nossa rela\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica brasileira. Minha m\u00e3e adorava o Roberto Carlos. Mas, hoje em dia, quem domina a m\u00eddia uruguaia \u00e9 a Argentina, algo que n\u00e3o me agrada nem um pouco. N\u00f3s, como banda e como m\u00fasicos, nunca tivemos essa conex\u00e3o que muita gente aqui tem com a Argentina. Nossa influ\u00eancia musical n\u00e3o veio da Argentina \u2014 como aconteceu com muitos artistas uruguaios \u2014, mas sim da Espanha. Somos uma banda totalmente influenciada pela Espanha. Bom, antes de mais nada, fomos influenciados pelos Beatles e por todo o rock and roll dos anos 1950. Depois, no que diz respeito \u00e0 m\u00fasica contempor\u00e2nea, por todos os artistas que surgiram a partir da nova cena espanhola que surge com a queda do franquismo. Quando ocorre uma reabertura cultural na Espanha, aparecem v\u00e1rias bandas que nos influenciaram muito quando \u00e9ramos adolescentes, porque t\u00ednhamos uma liga\u00e7\u00e3o com amigos da Espanha e tudo mais. \u00c9 por isso que os Buitres s\u00e3o uma banda t\u00e3o diferente de todas as outras bandas uruguaias: absorvemos muitas influ\u00eancias de bandas da Espanha, e n\u00e3o dos nossos vizinhos argentinos. Acho que essa \u00e9 uma das particularidades da banda, especialmente no que diz respeito \u00e0s letras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Olha, pela defer\u00eancia aos Autoramas e por essa camiseta dos Deaf Devils, n\u00e3o faltaram ind\u00edcios de que voc\u00ea sempre preferiu sonoridades mais punk, mais garageiras\u2026<\/strong><br \/>\nPara mim, o rock and roll \u00e9 uma coisa s\u00f3. \u00c9 uma grande discuss\u00e3o que tenho com muita gente. O rock and roll \u00e9 uma m\u00fasica muito simples, primitiva, f\u00e1cil de tocar, mas que te atinge em cheio. Para mim, tudo o que chega direto ao peito, ao cora\u00e7\u00e3o, soa como rock and roll. E tem que ter guitarras; tem que ser uma banda baseada em guitarras. Os Buitres, no in\u00edcio, eram mais ou menos assim. Depois, com o tempo \u2014 todo mundo cresce, a gente entra na vida adulta, j\u00e1 estamos na casa dos 60 anos \u2014, cada um acaba desenvolvendo sua prefer\u00eancia por g\u00eaneros diferentes. \u00c9 normal que isso aconte\u00e7a em uma banda. Acho que eu fiquei \u2014 e me orgulho de dizer isso \u2014 estagnado na m\u00fasica que eu ouvia quando era adolescente; \u00e9 a m\u00fasica que, ainda hoje, me comove, e \u00e9 a m\u00fasica na qual consigo me desenvolver e ser feliz. Ent\u00e3o, o Buitres se transformou em uma banda que deixou de fazer aquela sonoridade punk do in\u00edcio para criar uma m\u00fasica um pouco mais&#8230; n\u00e3o diria &#8220;evolu\u00edda&#8221;, porque n\u00e3o gosto da palavra &#8220;evoluir&#8221; \u2014, mas um pouco mais complexa. E isso reflete os gostos e as ideias musicais de cada integrante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas, inclusive, est\u00e3o experimentando algo novo agora: v\u00e3o lan\u00e7ar um disco sem disponibiliz\u00e1-lo nas plataformas digitais.<\/strong><br \/>\nSim. \u201cNido de Espinas\u201d est\u00e1 saindo em vinil, CD e fita cassete \u2014 e isso nos d\u00e1 muito orgulho. Planejamos isso no ano passado, quando est\u00e1vamos na fase de mixagem do disco. Somos pessoas&#8230; bom, n\u00e3o somos exatamente muito velhos, como costumo dizer, mas ainda apegados a ouvir o disco e o artista como um todo. N\u00f3s crescemos comprando discos e nos reunindo na casa de algum amigo para ouvi-los. Colocar o disco para tocar, ouvir um lado, virar, ouvir o outro, ouvir de novo&#8230; Foi assim que entramos no mundo da m\u00fasica: ouvindo o disco de um artista, ou quando um amigo dizia: &#8220;Voc\u00ea precisa ouvir este disco, vou te emprestar&#8221;. \u00c9 a nossa forma de ver a m\u00fasica. \u00c9 claro que, ao longo da nossa carreira \u2014 que \u00e9 bem longa \u2014, muita coisa aconteceu. Fomos uma gera\u00e7\u00e3o que vivenciou uma esp\u00e9cie de ruptura em v\u00e1rios aspectos: nas comunica\u00e7\u00f5es, na forma de lan\u00e7ar m\u00fasica&#8230; S\u00e3o m\u00e9todos novos, muito pr\u00e1ticos e f\u00e1ceis, mas, ultimamente, n\u00f3s n\u00e3o concord\u00e1vamos com isso. Acabamos adotando uma postura contr\u00e1ria a essa pr\u00e1tica de lan\u00e7ar m\u00fasica apenas para que algu\u00e9m baixe uma \u00fanica can\u00e7\u00e3o, ou\u00e7a e pronto \u2014 sem ouvir mais nada al\u00e9m daquela m\u00fasica espec\u00edfica. Ent\u00e3o, a forma que encontramos para voltar no tempo foi lan\u00e7ar um disco curto, com oito faixas, e apresent\u00e1-lo no Planet\u00e1rio, com imagens e um bom som \u2014 e l\u00e1 voc\u00ea podia ir e comprar o vinil, o CD ou a fita cassete.<\/p>\n<figure id=\"attachment_98154\" aria-describedby=\"caption-attachment-98154\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-98154 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/buitres1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/buitres1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/buitres1-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-98154\" class=\"wp-caption-text\"><em>Buitres festejando o lan\u00e7amento do \u00e1lbum &#8220;Nido de Espinas&#8221; no Planet\u00e1rio<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas voc\u00eas o subiram no Bandcamp tamb\u00e9m.<\/strong><br \/>\n<a href=\"https:\/\/buitresuy.bandcamp.com\/album\/nido-de-espinas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O disco foi disponibilizado no Bandcamp<\/a> algum tempo depois, como uma forma de incentivar o p\u00fablico a passar por essa experi\u00eancia. Conhe\u00e7o muita gente que comprou o vinil, mas n\u00e3o tinha como ouvir \u2014 n\u00e3o tinha um aparelho para reproduzi-lo. E ir ao Planet\u00e1rio para ouvir e assistir a tudo aquilo&#8230; Para n\u00f3s, foi um orgulho, algo muito inovador. O nosso p\u00fablico, inclusive, encarou isso de uma forma quase combativa, sabe? Porque, se voc\u00ea quiser baixar o disco no seu celular, precisa pagar por ele no Bandcamp; ele n\u00e3o est\u00e1 dispon\u00edvel nas redes \u2014 n\u00e3o est\u00e1 &#8220;postado&#8221; em lugar nenhum. Aconteceu uma situa\u00e7\u00e3o bem curiosa: ontem \u00e0 noite, por exemplo, eu estava no YouTube e vi que algu\u00e9m postou uma m\u00fasica desse disco, acompanhada de imagens editadas por essa pr\u00f3pria pessoa, e um n\u00famero enorme de seguidores e f\u00e3s dos Buitres sa\u00edram repreendendo essa pessoa, criticando o fato de ela ter disponibilizado a m\u00fasica. Eles consideraram uma falta de respeito com a banda e com toda a proposta de &#8220;voltar no tempo&#8221; \u2014 de lan\u00e7ar um disco da mesma forma que se fazia h\u00e1 25 ou 30 anos. E isso me emocionou, porque pensei: &#8220;Olha s\u00f3, as pessoas entenderam a proposta! Elas voltaram a curtir o ato de comprar um disco, levar para casa e ouvir&#8221;. Por esse lado, para n\u00f3s foi um sucesso, foi um grande acerto, foi um estouro, porque conseguimos fazer algo que ningu\u00e9m tinha tido coragem de fazer: lan\u00e7ar um disco apenas em formato f\u00edsico \u2014 algo que a pessoa precisava ir l\u00e1 e comprar para poder ouvir. \u00c9 claro que, daqui a pouco, esse disco vai estar em todo lugar, dispon\u00edvel online e tudo mais; mas, pelo menos durante os dois primeiros meses, conseguimos mudar as coisas \u2014 vencemos a ind\u00fastria fonogr\u00e1fica, saca? Pelo menos da forma como ela estava estruturada. Esse tipo de coisa ainda pode ser feita por uns &#8220;velhos&#8221; de 60 anos; \u00e9 algo que todas as bandas novas deveriam fazer. \u00c9 por isso que a gente continua tocando, conversando com o pessoal, com os novos artistas e tudo mais. Estamos tentando passar essa experi\u00eancia, mostrando como lutar contra algo que n\u00e3o \u00e9 bom para o artista. \u00c9 disso que \u201cser independente\u201d se trata: n\u00e3o depender de ningu\u00e9m, fazer o que a gente quer, lan\u00e7ar o disco quando bem entendemos, tocar onde queremos tocar. N\u00f3s, felizmente, somos caras muito privilegiados, porque podemos fazer o que quisermos com a m\u00fasica, Conseguimos conquistar essa independ\u00eancia que, talvez, n\u00e3o traga tanto retorno financeiro, mas que preenche a alma. E, considerando o motivo pelo qual voc\u00ea subiu ao palco um dia e pegou uma guitarra&#8230; nesse sentido, somos caras muito, muito felizes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas est\u00e3o nessa estrada desde o in\u00edcio dos anos 1980. S\u00e3o mais de 40 anos nisso. A velocidade das mudan\u00e7as nesse per\u00edodo \u00e9 de deixar tonto. Se algu\u00e9m come\u00e7ou a ouvir m\u00fasica nos anos 1960 e chegou aos anos 1990, pouca coisa tinha mudado na ind\u00fastria, os formatos eram os mesmos, o peso da r\u00e1dio ainda era grande\u2026 O impacto maior talvez tenha sido o advento do videoclipe. Mas, nesses 40 anos, voc\u00eas viram a ind\u00fastria mudar drasticamente. Ainda assim, voc\u00eas continuam na ativa, com poucas mudan\u00e7as na forma\u00e7\u00e3o. Ok, foram cinco bateristas ao longo dos anos, mas o n\u00facleo central \u2013 voc\u00ea, [Gabriel] Peluffo e Pepe [Rambao] \u2013 permaneceu, o Orlando [Fern\u00e1ndez] est\u00e1 na banda h\u00e1 mais de 20 anos. Como voc\u00eas conseguem manter essa longevidade sem que as brigas entre os integrantes ou as mudan\u00e7as na ind\u00fastria os tirem do caminho?<\/strong><br \/>\n\u00c9 tudo uma quest\u00e3o de respeito. Veja bem, sempre me refiro ao Buitres como uma esp\u00e9cie de ind\u00fastria musical bem pequena, principalmente a minha rela\u00e7\u00e3o com o Gabriel. Sabemos o quanto fomos \u2014 e ainda somos \u2014 importantes, tanto para o p\u00fablico quanto para as bandas que surgiram porque, um belo dia, algu\u00e9m subiu num palco e pegou uma guitarra. No caso do Los Est\u00f3magos, por exemplo, \u00e9 uma banda cult m\u00edtica na Argentina, na Espanha, na Alemanha, no Canad\u00e1&#8230; Os discos do Los Est\u00f3magos s\u00e3o muito procurados. Mas, na \u00e9poca em que \u00e9ramos o Los Est\u00f3magos, a gente n\u00e3o se dava conta disso. Est\u00e1vamos em outro mundo, curtindo o que \u00e9ramos e tentando realizar coisas. O mesmo aconteceu com o Buitres. Os primeiros 10 anos do Buitres foram muito, muito dif\u00edceis. Apesar de ter sido, praticamente, a continua\u00e7\u00e3o do Los Est\u00f3magos, foi muito custoso para n\u00f3s; tivemos que come\u00e7ar do zero. Foram 10 anos vivendo em cima de um caminh\u00e3o, tocando por todo o pa\u00eds \u2014 que era, ali\u00e1s, exatamente o que a gente sempre quis fazer. Ou seja, nosso sonho nunca foi dar o salto para a Argentina; o que quer\u00edamos, na verdade, era levar o rock and roll para o nosso pa\u00eds. O rock and roll era algo praticamente proibitivo fora de Montevid\u00e9u. O que bandas como Los Est\u00f3magos e Buitres conseguiram, mais tarde, foi levar sua m\u00fasica para todo o pa\u00eds. E isso \u00e9 algo muito dif\u00edcil at\u00e9 hoje. \u00c9 um pa\u00eds que n\u00e3o tem infraestrutura para uma banda de rock. Ent\u00e3o, sair para tocar, fazer turn\u00eas apresentando seus discos, \u00e9 algo muito custoso \u2014 envolve movimentar muita gente \u2014, mas voc\u00ea precisa fazer mesmo assim. Porque o pessoal do interior do pa\u00eds \u2014 de Artigas, Paysand\u00fa, Rivera, Tacuaremb\u00f3 \u2014 tem todo o direito de ver sua banda em sua pr\u00f3pria cidade, no seu clube, no seu teatro; e \u00e9 isso que importa para n\u00f3s. De qualquer forma, voltando ao que voc\u00ea mencionou no in\u00edcio: tenho uma constata\u00e7\u00e3o que fiz h\u00e1 muito tempo \u2014 o Uruguai \u00e9 um pa\u00eds muito musical, extremamente musical. Ali\u00e1s, arrisco dizer que \u00e9 ainda mais musical&#8230; Veja bem: na Am\u00e9rica Latina, temos a percep\u00e7\u00e3o de que o Brasil \u00e9 sin\u00f4nimo de m\u00fasica \u2014 tem todo aquele ritmo, toda aquela energia. Mas o Uruguai, com seus 3 milh\u00f5es de habitantes, \u00e9 um pa\u00eds onde todo mundo toca um instrumento. Em toda casa h\u00e1 um viol\u00e3o, um piano, um acordeon; existem centenas de bandas por todo o pa\u00eds \u2014 n\u00e3o s\u00f3 de rock, mas de todo tipo. H\u00e1 muitos festivais. Costumo comparar o Uruguai \u00e0 Irlanda&#8230; \u00e9 a &#8220;Irlanda&#8221; da Am\u00e9rica do Sul. A Irlanda \u00e9 um pa\u00eds extremamente musical, de onde surgiram in\u00fameras correntes musicais. Se voc\u00ea for para l\u00e1 hoje \u2014 seja em Dublin, Belfast ou em qualquer cidadezinha \u2014, encontrar\u00e1 muita m\u00fasica nas ruas, nos pubs&#8230; O Uruguai \u00e9 muito parecido. A gente sai para caminhar por Montevid\u00e9u e, a cada duas quadras, sempre tem um lugar de onde sai m\u00fasica, com algu\u00e9m tocando.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-98156 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/buitres3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/buitres3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/buitres3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>De fato. Estive algumas vezes no pa\u00eds e experimentei literalmente isso que voc\u00ea est\u00e1 dizendo, tanto na capital quanto no interior. Mas com o rock a coisa sempre me pareceu um pouco d\u00fabia: existe uma movimenta\u00e7\u00e3o forte, com muitas bandas, algumas chegaram a fazer sucesso em outros pa\u00edses, mas ao mesmo tempo, parece uma coisa ainda underground, mesmo para as bandas maiores.<\/strong><br \/>\nO rock \u00e9 algo muito dif\u00edcil de levar adiante no Uruguai; ele n\u00e3o tem \u2014 e, na verdade, nunca teve \u2014 o apoio dos governos nem nada do tipo, porque ainda \u00e9 visto como algo que est\u00e1 fora da cultura. \u00c9 verdade que h\u00e1 muito investimento no candombe, na murga e em coisas desse tipo, mas, no caso do rock, ainda existe aquela ideia de que ele vem de fora. O candombe e a murga tamb\u00e9m v\u00eam de fora, mas, enfim&#8230; para mim, isso nunca deixa de me surpreender. Eu tenho uma banda paralela, um trio de rock and roll [Los Chanchos Salvajes]; a gente toca em por\u00f5es e lugares bem pequenos pelo pa\u00eds \u2014 principalmente em Montevid\u00e9u, porque l\u00e1 existem muitos por\u00f5es. E, numa cidade como Montevid\u00e9u, que \u00e9 bem pequena\u2026 se voc\u00ea pegar a programa\u00e7\u00e3o de rock and roll numa sexta ou num s\u00e1bado, vai encontrar pelo menos 30, 35, 40 lugares onde, a cada noite, tocam duas, tr\u00eas, quatro bandas \u2014 gente jovem que tem bandas de rock and roll e toca. Geralmente, o p\u00fablico \u00e9 formado por m\u00fasicos; n\u00e3o \u00e9 um p\u00fablico geral. Quem n\u00e3o \u00e9 m\u00fasico vai ver outra coisa; o rock and roll n\u00e3o chama a aten\u00e7\u00e3o dessas pessoas. Mas o Uruguai \u00e9 um pa\u00eds extremamente roqueiro, que nunca teve \u2014 ou teve pouqu\u00edssimas vezes \u2014 apoio do governo, e que sempre carregou esse estigma de ser uma m\u00fasica estrangeira. Isso n\u00e3o aconteceu na Argentina, e n\u00e3o creio que aconte\u00e7a no Brasil, no M\u00e9xico ou em qualquer outro lugar. Ent\u00e3o, \u00e9 muito mais digna essa luta do cara que pega uma guitarra el\u00e9trica, monta uma banda e sai para tocar. A gente sente que precisa apoiar esse tipo de pessoa, sabe? \u00c9 preciso estar ali com eles, dar conselhos. E isso faz parte \u2014 falo por mim \u2014 do meu trabalho: incentivar essa galera jovem a fazer coisas, a n\u00e3o ter medo, a perder a vergonha, a subir num palco, tocar e dizer coisas. Acredito que \u00e9 isso que toda banda deve fazer; \u00e9 a raz\u00e3o de existir de uma banda. Al\u00e9m de entreter e agradar ao p\u00fablico, voc\u00ea precisa abrir caminho para quem vem atr\u00e1s. Isso resume um pouco por que os Est\u00f3magos, os Buitres e tudo isso duraram tanto tempo \u2014 e, incrivelmente, as pessoas gostam muito da gente. Tudo isso sem ter a aten\u00e7\u00e3o da imprensa que outros t\u00eam, sem a mesma exposi\u00e7\u00e3o na m\u00eddia. N\u00f3s somos uma banda que consegue lan\u00e7ar seus pr\u00f3prios discos, vend\u00ea-los, criar formatos para esses lan\u00e7amentos e fazer com que tudo funcione. Somos um caso bem particular. Sinceramente, n\u00e3o sei exatamente a que se deve tudo isso, mas um dia algu\u00e9m vai escrever a respeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma coisa que notei na \u00faltima vez que estive em Montevid\u00e9u foi que bandas como os Buitres \u2014 e tamb\u00e9m os Trotski \u2014 passaram por uma renova\u00e7\u00e3o de p\u00fablico. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o pessoal que acompanha a banda desde o in\u00edcio; tem muita gente jovem tamb\u00e9m. E \u2013 o mais not\u00e1vel \u2013 \u00e9 um p\u00fablico que trata as m\u00fasicas novas com a mesma ansiedade e empolga\u00e7\u00e3o que as antigas. O que voc\u00ea acha que gera essa conex\u00e3o? O que faz com que o p\u00fablico mais jovem continue se conectando com a banda?<\/strong><br \/>\nAs m\u00fasicas. Acredito que o poder da m\u00fasica em si \u2014 a can\u00e7\u00e3o propriamente dita \u2014 \u00e9 muito importante. \u00c0s vezes, pedem para a gente se definir como banda: &#8220;Que tipo de banda voc\u00eas s\u00e3o? Qual \u00e9 o estilo de voc\u00eas?&#8221;. E n\u00f3s n\u00e3o gostamos de nos definir. Simplesmente dizemos que somos uma banda que toca m\u00fasicas. Claro, existe toda aquela quest\u00e3o de como voc\u00ea &#8220;veste&#8221; a m\u00fasica, como a apresenta ao p\u00fablico, mas o que sempre foi importante para o Buitres \u00e9 fazer can\u00e7\u00f5es. S\u00e3o m\u00fasicas que voc\u00ea pode tocar com um viol\u00e3o na praia, ou num churrasco; d\u00e1 para pegar o viol\u00e3o e tocar qualquer m\u00fasica do Buitres, entende? Acho que esse \u00e9 o segredo: a can\u00e7\u00e3o. N\u00e3o somos uma banda definida por um estilo, porque ningu\u00e9m consegue nos rotular em um g\u00eanero espec\u00edfico \u2014 especialmente hoje em dia. Somos, sim, uma banda de can\u00e7\u00f5es, e acredito que a can\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental. Como voc\u00ea a &#8220;veste&#8221;, como a embala e a entrega ao p\u00fablico, isso j\u00e1 \u00e9 outra hist\u00f3ria. E o segredo da renova\u00e7\u00e3o est\u00e1 nas m\u00fasicas tamb\u00e9m \u2014 can\u00e7\u00f5es que v\u00e3o passando de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. N\u00f3s somos uma banda que j\u00e1 viu passar quase tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es de p\u00fablico. Desde a \u00e9poca de Los Est\u00f3magos \u2014 aquele pessoal que cresceu com a gente, formou fam\u00edlia, teve filhos \u2014 e, em um show do Buitres, voc\u00ea via esse pessoal com os filhos nos ombros. E tem at\u00e9 casos em que esses filhos j\u00e1 s\u00e3o pais, e tamb\u00e9m carregam seus pr\u00f3prios filhos nos ombros! \u00c9 o que acontece quando se tem uma banda com mais de 40 anos de estrada, mas isso tamb\u00e9m enche a gente de orgulho. Ou seja, h\u00e1 momentos \u2014 em certas fases \u2014 em que voc\u00ea se pergunta: &#8220;Cara, toda aquela gente que apareceu em meados dos anos 2000, na \u00e9poca dos grandes festivais, dos Pilsen Rock (nota: festival que teve sua primeira edi\u00e7\u00e3o em 2003 e sete outras mais at\u00e9 2020, com as tr\u00eas primeiras tendo se tornado m\u00edticas na hist\u00f3ria do rock uruguaio) e tudo mais&#8230; e que de repente desapareceu, foi embora, eles pararam de gostar da banda?&#8221; A gente depois entende que esse pessoal, em algum momento, precisou estudar, constituir fam\u00edlia, ter filhos\u2026 e depois ficaram livres para voltar a um show de rock &#8216;n&#8217; roll, j\u00e1 levando o filho. Acho que essa \u00e9 um pouco a m\u00e1gica&#8230; com a Trotsky [Vengar\u00e1n] acontece a mesma coisa. Eles tamb\u00e9m surgiram na mesma \u00e9poca que n\u00f3s, uns 3 ou 4 meses depois do Buitres. Viramos bandas que a fam\u00edlia inteira ouve. \u00c9 algo muito inusitado, e \u00e0s vezes d\u00e1 at\u00e9 uma certa vergonha (ri), porque voc\u00ea pensa: &#8220;Cad\u00ea todo aquele rock &#8216;n&#8217; roll que eu tocava, que assustava os pais da galera que ia nos ver na \u00e9poca do Los Est\u00f3magos?&#8221; (risos). Mas enfim, \u00e9 normal&#8230; e, por sorte, aconteceu com a gente. Quer dizer, a gente nunca, nunca planejou isso. Nunca paramos para avaliar e dizer: &#8220;Vamos fazer isso para que todas essas coisas aconte\u00e7am&#8221;. As coisas simplesmente acontecem e, geralmente, voc\u00ea n\u00e3o percebe no momento em que est\u00e3o ocorrendo; s\u00f3 depois, quando j\u00e1 aconteceram e voc\u00ea consegue olhar de uma dist\u00e2ncia maior, entende como se deu. \u00c9 a\u00ed que voc\u00ea passa a valorizar tudo. D\u00e1 um orgulho danado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea mencionou sua outra banda, ent\u00e3o queria encerrar com uma pergunta sobre ela. O que voc\u00ea faz com o Chanchos Salvajes que n\u00e3o consegue fazer no Buitres? O que essa banda te proporciona?<\/strong><br \/>\nFazer muito mais barulho com a guitarra (risos). Para come\u00e7ar, esse \u00e9 um dos meus grandes dilemas. Eu considero que fui um grande guitarrista e que deixei uma marca importante na \u00e9poca do Los Est\u00f3magos. Naquela \u00e9poca, eu percebia que fazia coisas inovadoras, coisas de que eu gostava. Depois, no Buitres, a gente acaba perdendo isso, porque, em prol da can\u00e7\u00e3o, voc\u00ea acaba sacrificando muita coisa\u2026 O t\u00e9cnico de som precisa criar um som potente, mas garantindo que tudo apare\u00e7a \u2014 os instrumentos, a voz do cantor&#8230; J\u00e1 o Chanchos Salvajes vai na contram\u00e3o de tudo isso; \u00e9 um trio que permite subir a um palco, aumentar o volume e extravasar&#8230; E tem tamb\u00e9m a quest\u00e3o de poder cantar o que eu penso. Sempre gostei de escrever, especialmente depois de tantas coisas que aconteceram nos \u00faltimos tempos \u2014 e continuo achando que vivemos em um mundo muito fodido, um mundo de mentira que nos engana demais \u2013 e tem muita gente que at\u00e9 gosta de ser enganada. Pois \u00e9. Enfim, a minha miss\u00e3o com Los Chanchos \u00e9 essa: te contar certas coisas que ningu\u00e9m mais vai te contar, ou que n\u00e3o v\u00e3o deixar que te contem. Eu j\u00e1 me considero um cara velho e tenho todo o direito de te dizer o que penso. E tudo isso vem acompanhado desse barulho todo que trago comigo. Essa \u00e9 a satisfa\u00e7\u00e3o. No Buitres, parei de escrever h\u00e1 muito tempo porque eu e o Gabriel pensamos de formas bem diferentes. N\u00e3o posso obrig\u00e1-lo a cantar coisas com as quais ele n\u00e3o se sinta \u00e0 vontade. Acho que est\u00e1 tudo bem; afinal, ele \u00e9 o cantor e precisa cantar o que pensa, o que expressa. Mas sempre mantemos um respeito m\u00fatuo. Criei o Los Chanchos Salvajes justamente para isso: para evitar uma &#8220;explos\u00e3o&#8221; \u2014 e at\u00e9 um problema card\u00edaco \u2014 e conseguir colocar para fora tudo o que guardo aqui dentro. Por isso eu disse l\u00e1 no come\u00e7o: para mim, o rock and roll \u00e9 algo que me tocou profundamente e mexeu com a minha cabe\u00e7a quando eu era adolescente, porque ouvi certas coisas que me marcaram, e quero manter isso vivo. A maneira de manter isso \u00e9 fazendo as minhas coisas do jeito que eu quero, sem precisar incomodar ningu\u00e9m, e sendo feliz por esse lado. O Gabriel disse numa entrevista, certa vez: &#8220;Que sorte que ele parou e montou o Los Chanchos Salvajes, porque sen\u00e3o a gente n\u00e3o ia aguentar nos ensaios&#8221;. Mas, enfim, faz parte. Tenho a sorte \u2014 e a alegria tamb\u00e9m \u2014 de poder fazer isso e me desenvolver nessa vertente. Assim como o Gabriel gravou seus discos de tango e milonga \u2014 porque \u00e9 algo de que ele tamb\u00e9m gosta muito. Acho que a m\u00e1gica do Buitres est\u00e1 justamente em conciliar todas essas coisas e apresent\u00e1-las como can\u00e7\u00f5es em um disco. O que esse \u00faltimo disco tem de especial? \u00c9 um trabalho com o qual todos n\u00f3s estamos muito, muito contentes, muito felizes. O som est\u00e1 \u00f3timo. Fazia tempo que n\u00e3o nos sent\u00edamos orgulhosos de um disco. T\u00ednhamos passado por algumas experi\u00eancias bem complicadas. Mas este disco, em particular, foi super tranquilo para n\u00f3s; faz\u00ea-lo foi um prazer. E o fato de ter sido lan\u00e7ado dessa forma, com essa sonoridade e essa intensidade, nos deixa muito, muito felizes.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Buitres - La Canci\u00f3n de la Hoja y la Flor\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/IaiSTdqX3P0?list=PLNM4Hm5ilXqjNXGfHOROWxEtk1fzfX6tm\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Buitres - Soy del Mont\u00f3n (En Vivo)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/06O829g4S_c?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"buitres - No Es Una Pena (Video Oficial)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/yVODvS-5Y7Q?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) \u00e9 produtor e autor do livro \u201c<a href=\"https:\/\/editorabarbante.com.br\/produtos\/o-evangelho-segundo-odair-censura-igreja-e-o-filho-de-jose-e-maria\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de Jos\u00e9 e Maria<\/a>\u201c.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"No Uruguai, a banda \u00e9 uma das principais refer\u00eancias para o rock nacional. Na Argentina, Col\u00f4mbia ou Espanha, s\u00e3o uma banda cult.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/11\/05\/entrevista-builtres-uma-das-principais-bandas-de-rock-do-uruguai-fala-sobre-seu-novo-disco-nido-de-espinas-e-show-no-brasil\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":98157,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,4833,3],"tags":[4069,4991],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/98150"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=98150"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/98150\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":98160,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/98150\/revisions\/98160"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/98157"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=98150"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=98150"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=98150"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}