{"id":98073,"date":"2026-11-01T01:42:47","date_gmt":"2026-11-01T04:42:47","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=98073"},"modified":"2026-11-01T01:41:14","modified_gmt":"2026-11-01T04:41:14","slug":"50a-mostra-sp-o-dia-em-que-ela-volta-de-hong-sang-soo-e-um-novo-sopro-artistico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/11\/01\/50a-mostra-sp-o-dia-em-que-ela-volta-de-hong-sang-soo-e-um-novo-sopro-artistico\/","title":{"rendered":"50\u00aa Mostra SP: &#8220;O Dia em que Ela Volta&#8221;, de Hong Sang-soo, \u00e9 um novo sopro art\u00edstico"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leandro Luz<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hong Sang-soo \u00e9 disparado o cineasta que mais e melhor sabe filmar o \u201cmundo do cinema\u201d hoje. E isso n\u00e3o tem nada a ver com ativar estrelas hollywoodianas, recuperar g\u00eaneros cinematogr\u00e1ficos cl\u00e1ssicos ou recriar grandes momentos da hist\u00f3ria da s\u00e9tima arte. Eventualmente, pode nem ter a ver com uma ideia n\u00edtida de cinefilia. Em muitos dos filmes do diretor &#8211; e \u201cO Dia em que Ela Volta\u201d (\u201c\uadf8\ub140\uac00 \ub3cc\uc544\uc628 \ub0a0\u201d, Hong Sang-soo, 2026) se encaixa perfeitamente neste grupo -, o que est\u00e1 em jogo \u00e9 antes a maneira como a profiss\u00e3o das personagens ajuda a compor um instant\u00e2neo de uma vida do que as neuroses do cinema em si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 poss\u00edvel expandir ainda mais, uma vez que parte desses personagens que habitam os filmes do sul-coreano nem trabalha com cinema propriamente. Alguns s\u00e3o escritores, dramaturgos, pintores, enfim, trabalhadores da arte por excel\u00eancia. Em \u201cO Dia em que Ela Volta\u201d conhecemos Bae Jeongsu, interpretada por Song Seon-mi (em sua oitava parceria com Sang-soo), uma bem-sucedida atriz de cinema e de TV que ficou afastada das telas por uma d\u00e9cada em fun\u00e7\u00e3o da maternidade. Para o seu comeback, ela escolheu um filme independente \u201cde autor\u201d, e o enredo apresenta essa atriz passando por uma bateria de entrevistas com a imprensa no lan\u00e7amento desse novo trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tr\u00eas jovens jornalistas ou cr\u00edticas de cinema conversam, uma de cada vez, com Jeongsu em um restaurante especializado em comida alem\u00e3. A composi\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre muito parecida: filmada em \u00e2ngulo diagonal, sentada \u00e0 mesa, a atriz ocupa o lado direito do quadro, com a face esquerda do seu rosto mais voltada para a c\u00e2mera e a outra bem iluminada pela luz natural que emana atrav\u00e9s de uma janela; por sua vez, cada entrevistadora ocupa sempre o lado esquerdo no enquadramento. Interessa mais ao cineasta a luminosidade das express\u00f5es de Jeongsu a cada pergunta que recebe. O rigor da composi\u00e7\u00e3o \u00e9 confrontado com a varia\u00e7\u00e3o da dura\u00e7\u00e3o de cada conversa (a terceira parece consideravelmente mais curta) e com o tom adotado pelas mulheres ao perguntarem sobre o filme e, sobretudo, a respeito da vida \u00edntima da artista. Sang-soo e as micro varia\u00e7\u00f5es que costuma impor a suas narrativas. \u00c9 bom lembrar que o seu interesse est\u00e1 nos detalhes, raramente nos grandes gestos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-98074 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/odia2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/odia2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/odia2-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os espor\u00e1dicos e cuidadosos cortes para os planos-detalhe das m\u00e3os e das lou\u00e7as fazem parte da linguagem que Sang-soo vem construindo h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas &#8211; especialmente nos \u00faltimos dez anos. Desta forma, valorizam-se os planos longos e a performance dos atores sem que o ritmo escape ao controle. Ali\u00e1s, Sang-soo parece cada vez mais obcecado com o ritmo de seus filmes, e nem sempre o controla somente por meio do corte, mas em especial pela cad\u00eancia interna de cada plano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora o cineasta seja conhecido pela maneira peculiar com a qual escreve os seus roteiros &#8211; cena a cena, di\u00e1logo a di\u00e1logo, eventualmente na manh\u00e3 de cada dia de filmagem -, o m\u00e9todo utilizado n\u00e3o parece atrapalhar a precis\u00e3o na qual os seus filmes s\u00e3o atuados e depois montados. A radicaliza\u00e7\u00e3o de seu cinema est\u00e1 diretamente ligada \u00e0 escolha de filmar com uma equipe cada vez mais reduzida e de assumir para si as fun\u00e7\u00f5es principais antes, durante e depois do set de filmagem: aqui, Sang-soo dirige, escreve, produz, monta, fotografa, comp\u00f5e a m\u00fasica original e pensa o design de som; e o faz ao lado de sua companheira (de trabalho e de vida), Kim Min-hee, e de outros pouqu\u00edssimos colaboradores que ficam ao cargo de fun\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das escolhas mais eficazes em \u201cO Dia em que Ela Volta\u201d s\u00e3o os entreatos com a atriz fumando agachada em frente ao restaurante. S\u00e3o essas interrup\u00e7\u00f5es, esses breves intervalos de tempo que transformam um filme comum em um novo sopro art\u00edstico. A vida acontece de verdade nessas brechas. Para encerrar a obra, Sang-soo escolhe tamb\u00e9m uma situa\u00e7\u00e3o ligeira para amarrar essa ideia, em uma das raras ocasi\u00f5es em que uma personagem de seus filmes recusa \u201cmais um drink\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, antes dessa \u00faltima cena, h\u00e1 uma segunda parte, t\u00e3o fundamental quanto a primeira. As entrevistas se encerram e Jeongsu vai para uma aula de teatro. L\u00e1 chegando, a professora pede um exerc\u00edcio simples: escrever e encenar o que se passou durante o seu dia. Depois de 30 minutos ou 1 hora de escrita e memoriza\u00e7\u00e3o, a atriz representa as mesmas conversas que vivenciou anteriormente, condensadas em um \u00fanico di\u00e1logo que interpreta com a ajuda de uma colega de turma. A cena \u00e9 espantosa, pois d\u00e1 a ver uma s\u00e9rie de reflex\u00f5es que ampliam o v\u00edamos at\u00e9 ent\u00e3o. Um espelho do processo de cria\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio cineasta que abre possibilidades de discurso.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"THE DAY SHE RETURNS_Trailer_Eng Sub_MP4\" src=\"https:\/\/player.vimeo.com\/video\/1161631456?dnt=1&amp;app_id=122963\" width=\"747\" height=\"420\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; fullscreen; picture-in-picture; clipboard-write; encrypted-media; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\"><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se por um lado havia uma cordialidade excessiva entre Jeongsu e as jornalistas, no texto escrito e representado por Jeongsu &#8211; criado de mem\u00f3ria, repleto de lacunas e cacos -, a conversa \u00e9 mais seca e profunda. A atua\u00e7\u00e3o menos err\u00e1tica e mais concentrada. Sang-so, com este movimento, demonstra que o seu cinema pode parecer simples e improvisado, mas na verdade esconde uma concentra\u00e7\u00e3o profunda, uma aplica\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de m\u00e9todos de trabalho e sistemas de controle que o faz ser um dos cineastas mais emblem\u00e1ticos e distintivos de sua gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO Dia em que Ela Volta\u201d faz men\u00e7\u00e3o, em seu t\u00edtulo, a outro trabalho do cineasta, \u201cO Dia em que Ele Chegar\u201d (\u201c\ubd81\ucd0c\ubc29\ud5a5\u201d, Hong Sang-soo, 2011). Em comum, o fato dos dois protagonistas &#8211; aqui uma mulher, no filme de 2011 um homem &#8211; terem vivido um hiato em suas atividades profissionais &#8211; ela atriz, ele diretor de cinema &#8211; e os m\u00faltiplos encontros pelos quais eles cruzam. \u00c9 interessante perceber como o cineasta ficou particularmente famoso pelos protagonistas masculinos e bobocas que criou em sua filmografia, mas que nesses \u00faltimos anos os seus melhores trabalhos t\u00eam se concentrado gradativamente mais no universo feminino. A vida, como quase sempre, ditando os rumos da arte.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/mostra-de-cinema\/\">Leia mais sobre a Mostra Internacional de Cinema de S\u00e3o Paulo<\/a><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-98076\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/odia3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1063\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/odia3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/odia3-212x300.jpg 212w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Leandro Luz (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@leandro_luz<\/a>) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de cr\u00edtica nos podcasts\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Plano-Sequ\u00eancia<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1 disco, 1 filme.<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Hong Sang-soo \u00e9 disparado o cineasta que mais e melhor sabe filmar o \u201cmundo do cinema\u201d hoje.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/11\/01\/50a-mostra-sp-o-dia-em-que-ela-volta-de-hong-sang-soo-e-um-novo-sopro-artistico\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":137,"featured_media":98075,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,4],"tags":[7440,226],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/98073"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/137"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=98073"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/98073\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":98077,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/98073\/revisions\/98077"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/98075"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=98073"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=98073"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=98073"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}