{"id":97958,"date":"2026-10-23T09:42:06","date_gmt":"2026-10-23T12:42:06","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=97958"},"modified":"2026-10-23T09:42:32","modified_gmt":"2026-10-23T12:42:32","slug":"alexandre-fritzen-o-brasil-e-grande-demais-para-termos-um-comportamento-de-consumo-musical-padronizado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/10\/23\/alexandre-fritzen-o-brasil-e-grande-demais-para-termos-um-comportamento-de-consumo-musical-padronizado\/","title":{"rendered":"Alexandre Fritzen: &#8220;O Brasil \u00e9 grande demais para ter um comportamento de consumo musical padronizado&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/lvinhas78\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leonardo Vinhas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/alexandrefritzenmusico\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Alexandre Fritzen da Rocha<\/a>, m\u00fasica \u00e9 objeto de estudo, meio de vida, prazer art\u00edstico e desafio. Equilibra carreira solo, banda, diversos projetos e carreira acad\u00eamica \u2013 \u00e9 mestre em Pr\u00e1ticas Interpretativas e doutor em \u00f3rg\u00e3o pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Na m\u00fasica, vai da ambient music ao erudito, passando pelo rock progressivo, lo-fi, trilhas sonoras e rock com um p\u00e9zinho no progressivo (com a banda <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/bandadoraavante\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Dora Avante<\/a>), e j\u00e1 foi arranjador das Meninas Cantoras de Nova Petr\u00f3polis, um dos projetos mais ousados de canto contempor\u00e2neo, que tamb\u00e9m <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/11\/09\/entrevista-cristiante-ferronato\/\">foi destaque aqui no Scream &amp; Yell<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fritzen estava voltando de uma pequena turn\u00ea por Espanha e Portugal quando falou por videochamada com o Scream &amp; Yell. N\u00e3o era sua primeira experi\u00eancia internacional: j\u00e1 havia passado por Argentina, Fran\u00e7a, Let\u00f4nia, Uruguai e a pr\u00f3pria Espanha anteriormente. Sua discografia soma mais de dez \u00e1lbuns, entre projetos solo, com banda ou sob outros codinomes \u2013 como o Vakyr, seu projeto lo-fi, al\u00e9m de colabora\u00e7\u00f5es com outros artistas, entre elas a tamb\u00e9m ga\u00facha Carmen Correa, com quem fez o \u00e1lbum \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/02\/01\/tres-cds-livia-nery-laya-e-carmen-correa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Do Outro Lado<\/a>\u201d (2017).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A lista poderia continuar, incluindo projetos como Camerata Brasileira, Coletivo de M\u00fasica Popular da UFRGS, Coral da UFRGS, Coral de Cantoras de Bom Princ\u00edpio, Coro Juvenil do Moinho\/UCS, Grupo Vocal Mandrialis, Madrigal Presto, Renascentes e Rotalunar, al\u00e9m das muitas trilhas para teatro, dan\u00e7a, videogames e cinema. Mas \u00e9 justamente dessa pluralidade que trata a entrevista a seguir, uma conversa para entender como os caminhos criativos t\u00e3o diversos convivem com as necessidades de se manter em uma carreira integralmente dedicada \u00e0 m\u00fasica em um cen\u00e1rio cada vez mais complexo e \u00e1rido para quem vive da pr\u00f3pria sonoridade.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Alexandre Fritzen - Su\u00edte Raps\u00f3dica Eletroac\u00fastica - I. Geada em madrugada da serra\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/fW-0dblvBco?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea tem uma carreira tanto acad\u00eamica quanto autoral, e ambas parecem estar bastante interligadas. O que norteia seu trabalho de cria\u00e7\u00e3o musical, para al\u00e9m da quest\u00e3o est\u00e9tica? E onde ele se conecta com seu trabalho de pesquisa?<\/strong><br \/>\nAcho que, desde cedo, minha forma\u00e7\u00e3o foi dentro do campo da m\u00fasica de concerto. Com cinco anos comecei a estudar piano, num conservat\u00f3rio mesmo, passei aqueles 12 anos de conservat\u00f3rio e depois entrei na universidade. Mas, junto disso, sempre tive interesse pelas pr\u00e1ticas da m\u00fasica popular, embora n\u00e3o tivesse isso na minha forma\u00e7\u00e3o. Tive isso na minha pr\u00e1tica. Fui ter banda com 14 anos, inclusive com caras que tinham 40 e poucos anos na \u00e9poca, ent\u00e3o essa diferen\u00e7a de idade acabou sendo uma escola para mim. Comecei compondo can\u00e7\u00e3o, mas fui para um curso de bacharelado em composi\u00e7\u00e3o, onde aprendi a compor m\u00fasica de concerto. Ent\u00e3o, as duas coisas foram caminhando paralelamente. Logo no in\u00edcio da minha forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria surgiu um convite para fazer uma trilha sonora de teatro, dirigida pela Fernanda Pacini, cujo argumento era baseado na pe\u00e7a \u201cAs Moscas\u201d, do Sartre. Ali foi um campo de muita experimenta\u00e7\u00e3o. Essa primeira trilha que fiz era de m\u00fasica eletroac\u00fastica, bem \u00e1spera, com uma linguagem atonal. Paralelamente, eu fazia can\u00e7\u00e3o popular com um projeto que tinha na \u00e9poca. Ent\u00e3o, dentro da minha produ\u00e7\u00e3o composicional, existe uma parte que \u00e9 mais demanda de encomenda, como a trilha sonora, que acaba sendo uma m\u00fasica para outra coisa, embora possa existir tamb\u00e9m por si s\u00f3. E existe a m\u00fasica que fa\u00e7o mais naturalmente, como uma express\u00e3o mais livre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E voc\u00ea n\u00e3o se prende muito a uma est\u00e9tica espec\u00edfica.<\/strong><br \/>\nN\u00e3o mesmo. N\u00e3o me amarro muito numa est\u00e9tica fechada. N\u00e3o me preocupo com o nicho. Me preocupo em expressar o que estou sentindo artisticamente naquele momento. E, como passei por muitos g\u00eaneros musicais diferentes, \u00e9 natural que apare\u00e7a um pouco de m\u00fasica experimental contempor\u00e2nea, can\u00e7\u00e3o popular brasileira, rock progressivo, pop e tamb\u00e9m m\u00fasica mais tradicional, mais pr\u00f3xima da m\u00fasica cl\u00e1ssica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Isso me chamou aten\u00e7\u00e3o quando estava organizando a entrevista. Conheci seu trabalho inicialmente pelas Meninas Cantoras e depois fui descobrindo as coisas que voc\u00ea fazia como solista, como regente. H\u00e1 influ\u00eancias muito diferentes convivendo nesses trabalhos \u2013 j\u00e1 flagrei de barroco a trip hop (risos). Como aquilo que voc\u00ea ouve como ouvinte se filtra \u2014 ou n\u00e3o se filtra \u2014 naquilo que voc\u00ea produz?<\/strong><br \/>\nTudo que voc\u00ea escuta acaba influenciando. Eu ainda sou daquela \u00e9poca em que era muito dif\u00edcil conseguir acesso \u00e0 m\u00fasica. Vim do interior do interior (risos), morava na zona rural de uma cidade de 23 mil habitantes do interior do Rio Grande do Sul. N\u00e3o existia a possibilidade de simplesmente ir a uma loja de discos e comprar m\u00fasica. Quando ia a Porto Alegre, tinha algum acesso, mas os discos eram caros. S\u00f3 fui ter internet em casa em 2008. Quando entrei na universidade, comecei a ter acesso a CDs, partituras e aos \u00e1lbuns que alguns amigos tinham. E, ao mesmo tempo, eu j\u00e1 estava fazendo m\u00fasica. Na academia existe uma tend\u00eancia de a gente se colocar dentro de quadrados um pouco mais fechados. Isso \u00e9 natural quando fazemos uma an\u00e1lise ou um estudo te\u00f3rico: segmentamos as coisas. Eu sempre fui meio o cara que estava fazendo um neg\u00f3cio que n\u00e3o pertencia \u00e0quilo, mas tamb\u00e9m fazia aquilo que n\u00e3o pertencia ao outro. Acho que nunca me incomodou muito. O que me incomodava era o inc\u00f4modo dos outros. Depois, esse inc\u00f4modo tamb\u00e9m deixou de me incomodar. Entendi que a minha influ\u00eancia era justamente essa variedade de coisas que ouvi: do Bach at\u00e9 B\u00e9la Bart\u00f3k, Igor Stravinski, Miles Davis, Tom Jobim, Genesis, do rock progressivo, [Luis Alberto] Spinetta, [Astor] Piazzolla, V\u00edtor Ramil. S\u00e3o caras que acho muito interessantes, mas n\u00e3o fico pensando: \u201cAgora vou fazer uma m\u00fasica com influ\u00eancia de n\u00e3o sei o qu\u00ea\u201d. Isso acontece naturalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>At\u00e9 mesmo quando voc\u00ea trabalha com trilha sonora?<\/strong><br \/>\nA\u00ed \u00e9 um pouco diferente. No audiovisual, quando recebo o trabalho com ele j\u00e1 montado, o editor tem aquelas trilhas brancas posicionadas para eu criar alguma coisa a partir delas. Ou\u00e7o aquilo e entendo o que talvez o editor e o diretor estejam querendo emocionalmente para aquela cena. A partir disso, proponho a minha leitura. Mas para n\u00e3o incorrer em um pl\u00e1gio, n\u00e3o \u00e9 simplesmente reproduzir aquilo que est\u00e1 ali. \u00c9 entender o que est\u00e1 sendo buscado e fazer outra coisa a partir disso. N\u00e3o acho que exista uma maneira espec\u00edfica de fazer m\u00fasica \u2013 embora muita gente diga que sim (risos). N\u00e3o me preocupo em soar como eu mesmo. Preocupo-me em transmitir o que estou pensando naquele momento, dentro do que preciso fazer. Isso me d\u00e1 uma certa liberdade, porque n\u00e3o fico aprisionado dentro de algo que preciso demonstrar como sendo \u201ca minha cara\u201d. \u00c0s vezes as pessoas perguntam: \u201cMas \u00e9 tipo o qu\u00ea? Como \u00e9 a tua m\u00fasica?\u201d. Eu digo: \u201cN\u00e3o sei, ouve a\u00ed\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas isso n\u00e3o impacta em termos mercadol\u00f3gicos? Ter um trabalho t\u00e3o plural n\u00e3o acaba dificultando na hora de vender seu trabalho?<\/strong><br \/>\nQuando estamos trabalhando com o mercado, precisamos saber quem s\u00e3o os nossos \u201cvizinhos da prateleira de discos\u201d. Hoje o Spotify faz um pouco isso para a gente com aquelas recomenda\u00e7\u00f5es de \u201cparecido com\u201d, embora \u00e0s vezes seja, \u00e0s vezes n\u00e3o seja. Entendo a necessidade quando preciso embalar o produto para lan\u00e7ar. Ele precisa ter um g\u00eanero, um r\u00f3tulo para a distribuidora, para o selo e depois para o pitch das plataformas. Ent\u00e3o entendo o que pode ser atrativo do ponto de vista de marketing, mas particularmente n\u00e3o me interesso muito por essa preocupa\u00e7\u00e3o. Tenho hoje quatro projetos, justamente para separar determinados lan\u00e7amentos. Um \u00e9 de lo-fi, o Vakyr, que ocupa um lugar espec\u00edfico e, para entrar em determinados selos, precisa cumprir algumas normas. Tenho outro projeto, Frozen Roh, que algumas pessoas usam para medita\u00e7\u00e3o, para dormir, para coisas mais tranquilas. O Dora Avante \u00e9 um projeto de can\u00e7\u00e3o, uma mistura de MPB, talvez com rock progressivo ou indie rock. E no meu projeto solo eu misturo tudo. Ali vai tudo sem eu me preocupar. O \u00faltimo \u00e1lbum que lancei foi fruto de um bal\u00e9 que compus aqui em Caxias do Sul, mas tamb\u00e9m j\u00e1 lancei um \u00e1lbum de m\u00fasica eletroac\u00fastica e outro com can\u00e7\u00e3o, piano e voz.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Dora Avante - O Dom\u00ednio de Kronos (Dora Avante Ao vivo)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/juKcTyyeLeE?list=PLHEMErnRrctq6GuBS799EVU9pBkUdoq2Y\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que te estimula mais: uma encomenda, como uma trilha, ou ter liberdade para compor o que quiser em um projeto pr\u00f3prio?<\/strong><br \/>\nA segunda alternativa. Quando me proponho a fazer um projeto por minha conta, talvez seja mais confort\u00e1vel e mais sincero. N\u00e3o que as outras coisas n\u00e3o sejam sinceras, mas talvez o que tenha sido mais eu mesmo dentro de um processo criativo tenha sido o \u00e1lbum que lancei em 2020, \u201cSu\u00edte Raps\u00f3dica Eletroac\u00fastica\u201d. Ali foi uma reflex\u00e3o m\u00faltipla, n\u00e3o s\u00f3 artisticamente. Era o in\u00edcio da pandemia, do isolamento social. Consegui a aprova\u00e7\u00e3o de um projeto de lei de incentivo bem pequenininho, mas suficiente para fazer a proposta. E tive total liberdade para lan\u00e7ar uma coisa que j\u00e1 vinha na minha cabe\u00e7a: misturar m\u00fasica eletroac\u00fastica com elementos da m\u00fasica regional rio-grandense. S\u00e3o coisas extremamente diversas, que talvez n\u00e3o tenham um di\u00e1logo muito \u00f3bvio. Existe toda uma tradi\u00e7\u00e3o na m\u00fasica popular rio-grandense, com seus preceitos e preconceitos, e eu misturei aquilo de uma maneira que achei interessante. Isso n\u00e3o tira meu \u00edmpeto de compor para qualquer outra interface. Me sinto satisfeito olhando para minha discografia: com esse \u00faltimo \u00e1lbum, da mesma maneira que me senti no primeiro, ou com o \u00e1lbum que lan\u00e7amos da Dora Avante em 2024, \u201cVelejar da Vida\u201d. Aquilo tamb\u00e9m foi muito potente. Era uma cole\u00e7\u00e3o de can\u00e7\u00f5es que compus ao longo de muitos anos, ent\u00e3o existe ali algo um pouco autobiogr\u00e1fico, um relato de mais tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Essa turn\u00ea que voc\u00ea fez recentemente na Europa foi com o bal\u00e9?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. O que levei para a Espanha e para a Fran\u00e7a foi um concerto de m\u00fasica brasileira. Misturei can\u00e7\u00f5es minhas \u2014 com exce\u00e7\u00e3o de uma, que fa\u00e7o com a Dora Avante \u2014 e can\u00e7\u00f5es populares brasileiras que fizeram parte, em algum momento, das minhas influ\u00eancias. Queria levar tamb\u00e9m algo que o p\u00fablico pudesse reconhecer. As pessoas que foram me assistir na Espanha e na Fran\u00e7a, de modo geral, n\u00e3o conheciam meu trabalho. Uma ou outra conhecia alguma coisa, mas ainda n\u00e3o tenho mercado l\u00e1. Ent\u00e3o levei Tom Jobim, Jo\u00e3o Bosco, Milton Nascimento, coisas que est\u00e3o mais no senso comum do p\u00fablico europeu, mescladas com can\u00e7\u00f5es minhas, que obviamente a maior parte das pessoas n\u00e3o conhecia. Foi tamb\u00e9m uma decis\u00e3o estrat\u00e9gica. Esse formato era muito mais barato e pr\u00e1tico de levar. N\u00e3o precisei levar equipamento, pagar passagem para outros m\u00fasicos, hospedagem, alimenta\u00e7\u00e3o e tudo mais. Ficou mais econ\u00f4mico para eu ir buscando esse mercado no qual ainda n\u00e3o estou inserido, mas no qual estou tentando entrar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea passou por muitos projetos diferentes. Alguns tiveram dura\u00e7\u00e3o curta, outros foram mais longos. Isso tamb\u00e9m funciona como um territ\u00f3rio de pesquisa? Um trabalho novo, mesmo quando nasce de uma rela\u00e7\u00e3o profissional, acaba se refletindo na sua m\u00fasica?<\/strong><br \/>\nSim. Gosto de dizer que sou um colecionador de mem\u00f3rias. Cada trabalho que fa\u00e7o, cada rela\u00e7\u00e3o humana que se estabelece nesses trabalhos, \u00e9 um campo de influ\u00eancia, seja na poesia, seja na composi\u00e7\u00e3o musical. Levo um pouco de cada um desses projetos. Foram v\u00e1rias coisas: a Camerata Brasileira, no passado, um trabalho que circulou bastante e produziu bastante; a Renascentes, uma banda de rock com a qual lan\u00e7amos um \u00e1lbum e excursionamos pelo Brasil; a Carmen Correa, que foi um trabalho supercurto, mas que resultou em um \u00e1lbum incr\u00edvel. At\u00e9 hoje, \u00e0s vezes estou em algum lugar e algu\u00e9m fala: \u201cNossa, voc\u00ea gravou o \u00e1lbum da Carmen\u201d. \u00c9 uma loucura, porque ele chegou a muitos lugares. E cada um desses trabalhos reverberou de alguma maneira. No caso das Meninas Cantoras, foram 13 anos de trabalho. Passei por tr\u00eas regentes, com suas transforma\u00e7\u00f5es dentro do projeto. Tamb\u00e9m houve o Vocal Mandrialis, em Porto Alegre, que foi um trabalho importante na minha trajet\u00f3ria. Em 2023 fiz os arranjos de um espet\u00e1culo de Natal para uma produtora de S\u00e3o Leopoldo, o que me rendeu o pr\u00eamio de melhor arranjador no Pr\u00eamio Profissionais da M\u00fasica, em Bras\u00edlia. S\u00e3o essas coisas que a gente vai colecionando: experi\u00eancias que trazem elementos diretos ou indiretos.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"JORGE DA CAPAD\u00d3CIA - Meninas Cantoras de Nova  Petr\u00f3polis\/Rs\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/0sc87rooGn0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Brasil tem uma quantidade enorme de linguagens musicais que convivem dentro do mesmo pa\u00eds e que, muitas vezes, n\u00e3o conhecemos. Como voc\u00ea enxerga esse cen\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o ao seu pr\u00f3prio trabalho<\/strong>?<br \/>\nTivemos uma transi\u00e7\u00e3o muito forte de mercado durante a pandemia. Isso mudou muito a perspectiva de como fazer as coisas \u2013 como circular, distribuir e divulgar m\u00fasica. Ent\u00e3o, como chegar \u00e0s pessoas \u00e9 algo que n\u00e3o sei responder. Acho que tudo depende do contexto de como apresentar as coisas: para quem, onde e quando. O Brasil \u00e9 muito diverso, n\u00e3o s\u00f3 na produ\u00e7\u00e3o musical, mas tamb\u00e9m na l\u00f3gica de mercado e de frui\u00e7\u00e3o da m\u00fasica ao vivo. Aqui no Rio Grande do Sul, por exemplo, estamos tendo uma dificuldade muito grande de apresentar o que seria a m\u00fasica autoral. Tenho v\u00e1rios amigos que est\u00e3o desistindo de apresentar um show de can\u00e7\u00e3o popular ou um show de m\u00fasica instrumental porque as pessoas n\u00e3o v\u00e3o. E o motivo de elas n\u00e3o irem ainda \u00e9 uma quest\u00e3o que n\u00e3o foi respondida. A cena autoral est\u00e1 muito minguada. Em Porto Alegre, que explorei um pouco no ano passado, quando voltei a tocar, tive uma baixa ades\u00e3o de p\u00fablico. Pensei: \u201cNossa, deve ser eu. N\u00e3o estou mais morando na cidade, talvez meu alcance tenha diminu\u00eddo\u201d. Mas conversando com amigos que continuam morando l\u00e1, percebi que isso \u00e9 comum. Antigamente era normal uma pessoa ver o cartaz de uma banda autoral e pensar: \u201cVamos l\u00e1 conhecer o trabalho\u201d. As pessoas se mobilizavam. Isso n\u00e3o tem acontecido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mudou tamb\u00e9m a rela\u00e7\u00e3o do p\u00fablico com o show ao vivo. Hoje voc\u00ea vai a um show e percebe que muitas pessoas est\u00e3o ali apenas fisicamente.<\/strong><br \/>\n\u00c9. Ficam tirando selfie, fotografando, filmando para depois \u201ccurtir\u201d o show em casa. \u00c9 uma coisa invasiva. A gente se prepara de uma maneira diferente quando vai gravar e quando vai tocar ao vivo. At\u00e9 a l\u00f3gica do erro \u00e9 muito diferente no ao vivo e na grava\u00e7\u00e3o. Daqui a pouco vamos precisar ter, como algumas escolas j\u00e1 t\u00eam, um arm\u00e1rio para colocar o celular dentro para a pessoa poder aproveitar uma experi\u00eancia real do momento (risos). N\u00e3o aquele registro feito com um microfone p\u00e9ssimo, uma c\u00e2mera ruim, um \u00e2ngulo ruim, que pega um fragmento descontextualizado de determinada coisa para divulgar nas redes. \u00c0s vezes aquilo vira uma coisa pessoal, ligada ao ego, ou simplesmente uma tentativa de criar alguma coisa em cima daquele momento. \u00c9 esquisito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No meio disso, temos o streaming, com sua l\u00f3gica no m\u00ednimo peculiar\u2026<\/strong><br \/>\nExato. Meu projeto Vakyr, de lo-fi, tem uma m\u00fasica com mais de 1 milh\u00e3o de plays (\u201cSamba de Fim de Tarde\u201d). Ningu\u00e9m conhece o Vakyr. Muita gente j\u00e1 me ouviu e n\u00e3o faz a m\u00ednima ideia de quem \u00e9 o cara que faz aquela m\u00fasica. Para mim est\u00e1 tudo bem. N\u00e3o \u00e9 um rancor que tenho disso. Pelo contr\u00e1rio, acho muito interessante do ponto de vista etnomusicol\u00f3gico, pelo fen\u00f4meno. m\u00fasica. Ao mesmo tempo, temos v\u00e1rios lan\u00e7amentos e uma produ\u00e7\u00e3o muito rica de novas m\u00fasicas. O desafio \u00e9 ter espa\u00e7os para mostrar essas m\u00fasicas e um p\u00fablico interessado em consumi-las. Em Caxias do Sul, talvez isso seja ainda mais evidente, mas talvez seja um recorte regional. O Brasil \u00e9 grande demais para termos um comportamento de consumo musical padronizado no dia a dia. Estou falando do ch\u00e3o de f\u00e1brica da m\u00fasica, de quem faz m\u00fasica como subsist\u00eancia e que n\u00e3o est\u00e1 no mainstream, ou mesmo nas camadas do mainstream \u2013 quem est\u00e1 mais na cauda longa, l\u00e1 na pontinha..<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Samba de Fim de Tarde\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Vp8izBuTxg8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Para Alexandre Fritzen, m\u00fasica \u00e9 objeto de estudo, meio de vida, prazer art\u00edstico e desafio. 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