{"id":97949,"date":"2026-10-22T10:13:14","date_gmt":"2026-10-22T13:13:14","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=97949"},"modified":"2026-10-22T10:13:14","modified_gmt":"2026-10-22T13:13:14","slug":"festival-do-rio-fui-olhar-voce-dormir-de-anna-azevedo-e-um-dos-melhores-filmes-brasileiros-deste-ano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/10\/22\/festival-do-rio-fui-olhar-voce-dormir-de-anna-azevedo-e-um-dos-melhores-filmes-brasileiros-deste-ano\/","title":{"rendered":"Festival do Rio: &#8220;Fui Olhar Voc\u00ea Dormir&#8221;, de Anna Azevedo, \u00e9 um dos melhores filmes brasileiros deste ano"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leandro Luz<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cVai se foder, filho da puta\u201d \u00e9 a \u00faltima frase que ouvimos de <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/05\/07\/as-30-musicas-mais-tocadas-de-aldir-blanc\/\">Aldir Blanc<\/a> em \u201cFui Olhar Voc\u00ea Dormir\u201d (Anna Azevedo, 2026), um dos melhores filmes brasileiros deste ano, vencedor do pr\u00eamio de melhor longa-metragem document\u00e1rio pelo voto popular no Festival do Rio 2026. A frase \u00e9 proferida a plenos pulm\u00f5es por meio de um registro caseiro, situado em uma das \u00faltimas sequ\u00eancias, na qual o casal Aldir Blanc e Mari L\u00facia de S\u00e1 Freire filma a janela de seu apartamento na Rua Garibaldi, na Tijuca, enquanto os vizinhos tamb\u00e9m batem panelas e protestam contra o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?s=bolsonaro\">Governo Bolsonaro<\/a> e a sua pol\u00edtica de destrui\u00e7\u00e3o operada no decorrer da pandemia do COVID-19, em 2020.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aldir Blanc faleceu no dia 4 de maio de 2020. O document\u00e1rio de Azevedo n\u00e3o ignora as circunst\u00e2ncias de um pa\u00eds que permitiu que milhares de mortes por COVID-19 ocorressem em virtude da ignor\u00e2ncia dos abutres que ocupavam o poder. Tamb\u00e9m n\u00e3o menospreza o luto vivido por uma vi\u00fava que se tornou guardi\u00e3 dos livros e dos objetos cotidianos que a rondam em um apartamento de porte m\u00e9dio na Zona Norte do Rio de Janeiro. N\u00e3o obstante, ele capta, sobretudo, a vida que insiste em vibrar nas luzes do sol que atravessam as janelas e as cortinas daquele ambiente.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-97954 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/aldir3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/aldir3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/aldir3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u201cFui Olhar Voc\u00ea Dormir\u201d n\u00e3o \u00e9 um filme sobre o compositor Aldir Blanc. Nem a respeito das conquistas e das derrotas de um homem comum. Na verdade, o document\u00e1rio parte dos cerca de dois mil exemplares de cartas, bilhetes, correspond\u00eancias e recadinhos deixados por ele para sua esposa ao longo de seu relacionamento. As declara\u00e7\u00f5es de amor s\u00e3o in\u00fameras. Os deboches, os estresses e as paranoias tamb\u00e9m. Enuncia Aldir em um bilhete, com sagacidade: \u201cDirei aos gar\u00e7ons que voc\u00ea \u00e9 eterna\u201d. Em desalento, registra em outro: \u201cA mulher bonita que floriu o meu caminho est\u00e1 me deixando. Mesmo que n\u00e3o parta. Ainda que fique est\u00e1 me deixando\u201d. S\u00e3o canetadas marcantes que n\u00e3o viraram m\u00fasica, nem livro. Textos que foram escritos e destinados apenas a uma leitora e que, no entanto, ganham agora o mundo, amplificados pelas lentes de Anna Azevedo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A prop\u00f3sito, a raz\u00e3o de aspecto reduzida do 1,33:1, escolhida por Azevedo e seu diretor de fotografia, L\u00e9o Bittencourt, para enquadrar Mari, seu apartamento e as mem\u00f3rias compartilhadas por mais de 30 anos com Aldir Blanc se mostra uma escolha perfeita. Com a imagem mais pr\u00f3xima a um quadrado, valoriza-se mais o contato do corpo de Mari com as paredes, as estantes e os objetos. S\u00e3o frequentes os planos silenciosos ou, por vezes, embalados por suaves can\u00e7\u00f5es, que registram, por exemplo, uma estante resistindo, imp\u00e1vida, ao tempo e \u00e0 poeira. A poesia da intimidade revelada em pequenas e bem compostas por\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O roteiro assinado pela diretora e por Cl\u00e1udio Uch\u00f4a costura assuntos diversos, um ao lado do outro, sem que pare\u00e7am desconectados. Para al\u00e9m da pesquisa envolvendo as missivas de Aldir, a dupla tamb\u00e9m lan\u00e7ou m\u00e3o de horas de filmagens amadoras feitas com uma c\u00e2mera VHS para compor o document\u00e1rio. Vemos Aldir na cama, rodeado por livros (sempre eles) e por pequenos objetos repousados em bandejas e potes improvisados. Vemos Mari esquivando-se da lente, implicando a todo tempo com o seu \u201cPitoco\u201d e tentando sempre coloc\u00e1-lo no centro das aten\u00e7\u00f5es. Vemos, inclusive, o que ningu\u00e9m mais v\u00ea: um lar vivo, palp\u00e1vel, honesto em sua bagun\u00e7a, aut\u00eantico em sua simplicidade. Vemos ele, pelos olhos dela, pelos olhos dele, pelos olhos da cineasta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra felicidade do roteiro \u00e9 jamais deixar de lado os conflitos conjugais, ainda que eles recebam um tratamento bem mais acanhado do que o restante dos temas. A ponta da caneta de Aldir \u00e9 de um alcance sobrenatural. Vai da poesia mais delicada \u00e0 piada mais suja. Tergiversa\u00e7\u00f5es sobre boquetes e bebedeiras coexistem com um autorretrato \u00e1spero e dissimulado (n\u00e3o no sentido de falso, mas do que est\u00e1 oculto). Tamb\u00e9m h\u00e1 espa\u00e7o para a solid\u00e3o e para as ang\u00fastias. Um exemplo \u00e9 a sua experi\u00eancia, na d\u00e9cada de 1970, como residente no Centro Psiqui\u00e1trico Pedro II, no Hospital Gustavo Riedel, em Engenho de Dentro, que apenas \u00e9 aludida, com bastante timidez e de forma bem abstrata, em algumas falas de Mari no presente e em outras de Aldir, por meio do arquivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre textos declamados, can\u00e7\u00f5es que ocupam a banda sonora e imagens de arquivo que tomam a narrativa de assalto, a diretora ainda encontra tempo e espa\u00e7o para instaurar ru\u00eddos no apartamento. Um projetor incide a sua luz em uma tela montada na sala de estar. Proje\u00e7\u00f5es nas cortinas e na cama contam hist\u00f3rias, restauram lembran\u00e7as e reanimam fantasmas. Lentamente, Azevedo incorpora esses elementos em seu filme e, finalmente, direciona a proje\u00e7\u00e3o ao corpo de Mari. Quase que por m\u00e1gica, o clich\u00ea se revela um dispositivo singular. As palavras de Aldir Blanc apossam-se do corpo de sua musa, que com estoicismo se mant\u00e9m sempre no controle. At\u00e9 mesmo quando leva os bilhetes ao mar, na sequ\u00eancia final do document\u00e1rio, parece ter entendido o seu papel como personagem, consciente da presen\u00e7a da c\u00e2mera e preparada para lidar com ela com algum n\u00edvel de autonomia.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-97955 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/aldir4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"541\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/aldir4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/aldir4-300x216.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O t\u00edtulo do filme faz men\u00e7\u00e3o a uma das mensagens mais bonitas deixadas por Aldir para Mari: \u201cN\u00e3o h\u00e1 nada que substitua essa emo\u00e7\u00e3o\u201d; essa frase do escritor arremata uma longa carta que descreve um amante vigilante em vig\u00edlia por sua amada. \u201cP.s.: guarda esse com cuidado.&#8221;, ele acrescenta, demonstrando consci\u00eancia da import\u00e2ncia do gesto &#8211; e, quem sabe, da engenhosidade das pr\u00f3prias palavras. \u00c9 tamb\u00e9m a partir de uma declara\u00e7\u00e3o que o filme reserva um de seus momentos mais emocionantes, no qual Mari relata a primeira noite de amor do casal: \u201cele parou na altura do umbigo e me disse: \u2018voc\u00ea \u00e9 bonita\u2019\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aldir Blanc queria ser um inc\u00f3gnito como dois de seus \u00eddolos, Dalton Trevisan e Rubem Fonseca &#8211; h\u00e1 um trecho hil\u00e1rio de sua participa\u00e7\u00e3o no Programa do J\u00f4 afirmando ter inventado mil desculpas no decurso dos anos para n\u00e3o comparecer ao show. De certo modo, Anna Azevedo honra este desejo, brincando com a montagem &#8211; assinada por Nina Galanternick &#8211; e cuidando para que as imagens n\u00e3o revelem demais, cortando excessos e resguardando os mist\u00e9rios do planeta Blanc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O compositor de \u201cO B\u00eabado e a Equilibrista\u201d aparece uma \u00fanica vez interpretando uma can\u00e7\u00e3o de sua autoria com o seu \u201cviol\u00e3o de compositor\u201d, como dizia o pr\u00f3prio, nas velhas imagens em VHS que o document\u00e1rio recupera. O momento &#8211; e o filme como um todo &#8211; valoriza as grandes can\u00e7\u00f5es presentes na obra-prima \u201cVida Noturna\u201d (2005), \u00fanico disco solo de est\u00fadio gravado por Aldir, que canta com o aux\u00edlio de poucos e bons amigos. Logo na primeira faixa, hom\u00f4nima, Aldir canta suavemente os seguintes versos: \u201cEu tenho no bolso uma carta \/ uma est\u00fapida esponja de p\u00f3-de-arroz\u201d. Obsess\u00f5es \u00e0 parte, eis o artista e seu tempo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-97952 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/aldir1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/aldir1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/aldir1-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Leandro Luz (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@leandro_luz<\/a>) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de cr\u00edtica nos podcasts\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Plano-Sequ\u00eancia<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1 disco, 1 filme.<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O t\u00edtulo do filme faz men\u00e7\u00e3o a uma das mensagens mais bonitas deixadas por Aldir Blanc para Mari L\u00facia de S\u00e1 Freire\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/10\/22\/festival-do-rio-fui-olhar-voce-dormir-de-anna-azevedo-e-um-dos-melhores-filmes-brasileiros-deste-ano\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":137,"featured_media":97956,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,4],"tags":[4392,8420,7377],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97949"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/137"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=97949"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97949\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":97957,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97949\/revisions\/97957"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/97956"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=97949"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=97949"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=97949"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}