{"id":97929,"date":"2026-10-20T00:21:37","date_gmt":"2026-10-20T03:21:37","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=97929"},"modified":"2026-10-20T00:27:40","modified_gmt":"2026-10-20T03:27:40","slug":"entrevista-meu-cinema-tem-a-obrigatoriedade-de-trazer-questoes-politicas-e-sociais-diz-henrique-dantas-que-esta-com-novo-filme-jardim-dos-silencios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/10\/20\/entrevista-meu-cinema-tem-a-obrigatoriedade-de-trazer-questoes-politicas-e-sociais-diz-henrique-dantas-que-esta-com-novo-filme-jardim-dos-silencios\/","title":{"rendered":"Entrevista: &#8220;Meu cinema tem de trazer quest\u00f5es pol\u00edticas e sociais&#8221;, diz Henrique Dantas, que est\u00e1 com filme na Mostra SP"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de abertura por Rafael Carvalho<br \/>\nentrevista de <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 muito tempo que Henrique Dantas trabalhava na realiza\u00e7\u00e3o de um longa que contava a hist\u00f3ria de um m\u00e9dico negro brasileiro, residente fora do pa\u00eds, que volta ao Brasil para encarar o passado de sua fam\u00edlia no interior baiano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filme ganha corpo agora, depois do cineasta trilhar uma bela carreira fazendo filmes document\u00e1rios (para a TV, j\u00e1 havia dirigido a s\u00e9rie ficcional &#8220;A Bicicleta do Vov\u00f4&#8221;, derivado de um curta seu). &#8220;Jardim dos Sil\u00eancios&#8221; estreou no Festival do Rio e ser\u00e1 exibido nos dias 22 e 26 de outubro na Mostra de Cinema de S\u00e3o Paulo, depois de ter sido exibido nos Estados Unidos no American Black Film Festival.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui, o cineasta fala das inquieta\u00e7\u00f5es e experi\u00eancias pessoais que ajudaram a moldar o projeto. \u201cQuando eu estava montando \u2018Sinais de Cinza\u2019, filme sobre o cineasta baiano Olney S\u00e3o Paulo, ali por volta de 2012, come\u00e7aram a morrer muitas pessoas em volta de mim. Foram umas 14 pessoas em quatro meses, algo muito pesado\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse clima de luto fez com que ele desse um tempo na montagem do filme, mas o sentimento de pesar continuava a ponto dele n\u00e3o conseguir mais chorar nos muitos enterros que precisava frequentar. \u201cEnt\u00e3o, para n\u00e3o pirar, comecei a escrever um roteiro sobre uma pessoa que n\u00e3o se sensibilizava mais com a morte, por lidar com ela de maneira corriqueira. \u00c9 o que acontece com o personagem do filme\u201d, pontua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 da\u00ed que nasce a hist\u00f3ria de Tu\u00e3 (Fabr\u00edcio Boliveira), que foi viver na It\u00e1lia com a m\u00e3e na juventude, fugidos da Ditadura Militar brasileira que havia matado o pai dele. Depois de crescido, j\u00e1 formado como m\u00e9dico oncologista e ap\u00f3s a morte da m\u00e3e, ele recebe um chamado da av\u00f3, que vive na Bahia e est\u00e1 com um c\u00e2ncer terminal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A trama de &#8220;Jardim dos Sil\u00eancios&#8221; recupera, portanto, o arqu\u00e9tipo cl\u00e1ssico do filho pr\u00f3digo que retorna ao lar. Nesse caso, a cidade de Ilh\u00e9us, no litoral sul baiano. Al\u00e9m da av\u00f3, vivida por Helena Ignez, Tu\u00e3 vai ter de lidar tamb\u00e9m com o av\u00f4 (Luiz Pepeu), de personalidade totalmente distinta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse tipo de constru\u00e7\u00e3o narrativa, o filho que volta \u00e0 terra natal geralmente \u00e9 confrontado com os pais, talvez com os irm\u00e3os. Neste caso, no entanto, \u00e9 a partir do conv\u00edvio com os av\u00f3s que Tu\u00e3 vai redescobrir segredos e traumas familiares do passado, enquanto dele tamb\u00e9m \u00e9 demandado uma posi\u00e7\u00e3o sobre o que fazer daqui para frente. Isso porque o personagem acaba de deixar na It\u00e1lia a namorada (Federica de Benedittis) que lhe revela uma gravidez justo neste momento. Passado e futuro, portanto, se equilibram nos conflitos pessoais do protagonista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No choque geracional que o personagem leva, precisa se confrontar com duas for\u00e7as antag\u00f4nicas. Enquanto a av\u00f3 \u00e9 o la\u00e7o de afeto e compreens\u00e3o, doce e protetora, mesmo \u00e0 beira da morte, o av\u00f4 assume uma postura dura e conservadora, claramente contr\u00e1ria aos caminhos pol\u00edticos que vitimou o pai de Tu\u00e3 no passado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEu acho que a gente valoriza muito pouco a idade no Brasil, as pessoas mais idosas\u201d, afirma o cineasta. \u201cDirigi a s\u00e9rie \u2018Seculares\u2019 [dispon\u00edvel online no Sesc TV] em que entrevistei 53 pessoas com mais de cem anos de idade. Foi uma experi\u00eancia muito forte\u201d, confidencia. Essa rela\u00e7\u00e3o com os mais velhos est\u00e1 bem representada no filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dantas contou tamb\u00e9m que Helena Ignez foi a primeira pessoa que ele chamou para fazer o filme, ainda em 2011. \u201cNaquela \u00e9poca, o Festival do Rio fez uma pequena mostra de filmes que levou para Berlim. Tinha meu primeiro filme (\u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/05\/28\/dvd-doces-barbaros-novos-baianos-raul\/\">Filhos de Jo\u00e3o, O Admir\u00e1vel Mundo Novo Baiano<\/a>\u201d), sobre Os Novos Baianos, e tinha um filme da Helena. N\u00f3s convivemos muito em Berlim, s\u00f3 sa\u00edamos juntos. Ent\u00e3o contei a ela a hist\u00f3ria desse filme e ela aceitou participar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais de uma d\u00e9cada depois \u2013 \u201cJardim dos Sil\u00eancios\u201d foi rodado em 2023 \u2013, Dantas retorna agora ao mesmo Festival do Rio para apresentar o longa. \u201cO Rio \u00e9 uma cidade de macumba, de muitos terreiros. Recebeu muitos escravizados, fam\u00edlias que se dividiram entre l\u00e1 e a Bahia. Est\u00e1 sendo importante voltar agora ao Rio com este filme\u201d, revela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 com esses personagens mais velhos que Tu\u00e3 \u2013 e o espectador tamb\u00e9m \u2013 vai descobrindo os segredos e as min\u00facias da fam\u00edlia. N\u00e3o apenas o passado de luta pol\u00edtica do pai dele, mas tamb\u00e9m uma inclina\u00e7\u00e3o \u00e0 religiosidade de matriz africana que sempre povoou o universo daquele n\u00facleo, ainda que de forma velada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pr\u00f3prio t\u00edtulo do filme diz respeito ao espa\u00e7o sagrado da floresta que guarda outras camadas de liga\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m de desacordo, no seio familiar. Tu\u00e3, de alguma forma, aprende a resgatar algo que sempre esteve com ele, mas do qual estava completamente afastado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro ponto crucial da trama \u00e9 o atravessamento racial posto nas entrelinhas. \u201cEm determinado momento, percebi que eu e muita gente no Brasil nunca tinha sido atendido por um m\u00e9dico negro. Era algo dif\u00edcil de acontecer. Isso come\u00e7ou a virar uma quest\u00e3o para mim\u201d, revela o realizador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 nesse momento que Fabr\u00edcio Boliveira entra no projeto. Dantas confessou que tinha chamado, primeiramente, Wagner Moura para fazer o papel, mas ele estava justamente indo fazer a s\u00e9rie &#8220;Narcos &#8221; e come\u00e7ar uma carreira internacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cQuando chamei Fabr\u00edcio e contei a hist\u00f3ria do filme, ele se emocionou muito. E ali a gente entendeu que t\u00ednhamos de fazer aquele filme juntos. Foi muito importante t\u00ea-lo como ator\u201d, afirmou Dantas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cJardim dos Sil\u00eancios\u201d \u00e9 um verdadeiro filme de autor, n\u00e3o no sentido da afirma\u00e7\u00e3o do cineasta, mas porque re\u00fane as marcas e inquieta\u00e7\u00f5es \u00edntimas de um artista forjado na Bahia. Neste papo com o Scream &amp; Yell, Henrique Dantas se aprofundou no processo de cria\u00e7\u00e3o de Jardim dos Sil\u00eancios. Confira!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Jardim dos Sil\u00eancios - (2026) - Trailer Nacional.\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/kA8PBpsFOnw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Filme chegando \u00e0 Mostra de Cinema de S\u00e3o Paulo, como foi receber essa not\u00edcia da sele\u00e7\u00e3o do trabalho nesse momento em que o evento completa 50 anos?<\/strong><br \/>\nFazer um filme, a depender do cuidado e do pertencimento que tenha com ele, parece um pouco com o caminho de ter um filho. Voc\u00ea cuida dele at\u00e9 quando ele pode se virar sem o seu cuidado, mas voc\u00ea nunca o deixa na porta de qualquer escola. Depois do filme estrear no America Black Film Festival, que \u00e9 o maior festival de cinema negro dos EUA, quer\u00edamos que o filme tivesse bons lugares para suas estreias. Nada melhor do que estrear, no mesmo m\u00eas de outubro de 2026, no Festival do Rio e na Mostra de S\u00e3o Paulo, os maiores festivais do pa\u00eds. Completo, ano que vem, 30 anos de audiovisual. Essa comemora\u00e7\u00e3o dos 50 anos da Mostra coroa um pouco essa trajet\u00f3ria. Meus \u00faltimos filmes que passaram nos dois festivais foram &#8220;Os Filhos de Jo\u00e3o&#8221; e &#8220;Sinais de Cinza&#8221;, os dois primeiros longas documentais que realizei na minha carreira. Voltar com minha primeira fic\u00e7\u00e3o \u00e9 muito gratificante, pois somos contadores de hist\u00f3rias e precisamos de olhos, ouvidos e sensa\u00e7\u00f5es para fruir o que fazemos com nossas ideias de hist\u00f3rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que lhe atraiu no desenvolvimento do roteiro que j\u00e1 vem sendo escrito h\u00e1 anos, al\u00e9m da pesquisa como um todo, para concretizar essa primeira incurs\u00e3o no cinema ficcional?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o posso chamar de atra\u00e7\u00e3o. Talvez seja melhor empregar a palavra \u201cnecessidade\u201d. Nos anos de 2011\/2012, quando montava o longa metragem &#8220;Sinais de Cinza &#8211; A Peleja de Olney contra o Drag\u00e3o da Maldade&#8221;, come\u00e7ou um processo muito estranho de mortes sucessivas em torno do meu c\u00edrculo de afetos, o que me deixou muito confuso. Eram tios, filho de amigos, amigos, av\u00f3 de minha companheira, entre outros. Depois da quinta morte, percebi que n\u00e3o conseguia mais chorar nos vel\u00f3rios, nos enterros, independente do grau de parentesco, ou proximidade que tivesse com a pessoa. Da\u00ed tive que parar a montagem do filme porque comecei a ter muita ins\u00f4nia. Para uma pessoa como eu, que dorme cinco horas por noite, ter ins\u00f4nia \u00e9 desolador. Parei a montagem e, como meus filhos estavam pequenos, fiz um tratamento de amor, de colo e de afeto. Um intensivo de amor de fam\u00edlia, que acabou me curando dessas minhas afli\u00e7\u00f5es. Ao ir para a Holanda, para um festival de Cinema em Amsterdam, surgiu a ideia de fazer o filme. Como meus trabalhos s\u00e3o muito envolvidos com quest\u00f5es pol\u00edticas, pois n\u00e3o acredito em arte que n\u00e3o seja eivada de pol\u00edtica, a ditadura militar acabou sendo um dos assuntos abordados, e comecei a escrever a hist\u00f3ria de Tu\u00e3, m\u00e9dico negro, baiano, que vive na Europa desde o final da d\u00e9cada de 70, por conta do assassinato de seu pai e das torturas que sua m\u00e3e sofreu ao ser presa pela repress\u00e3o. Ele se torna um m\u00e9dico especialista em oncologia infantil, o que faz com que ele se torne uma pessoa fria diante do alto \u00edndice de mortalidade que ele \u00e9 obrigado a conviver no seu cotidiano. O filme come\u00e7a com o suic\u00eddio de sua m\u00e3e, Iara, que nunca conseguiu se recuperar das torturas que sofreu no Brasil. A partir da\u00ed temos a jornada desse personagem que volta para o conv\u00edvio de seus av\u00f3s adotivos. Ao chegar na fazenda encontra sua av\u00f3, Sina, com um c\u00e2ncer terminal, mas, ao contr\u00e1rio da maioria das pessoas, ela aceita a morte como um destino inevit\u00e1vel, natural e rico de significados e possibilidades de entendimento. Al\u00e9m da av\u00f3, ele se depara com o av\u00f4, Hor\u00e1cio, ex-tenente coronel do ex\u00e9rcito brasileiro que foi odiado pela filha durante toda a sua vida por ter feito parte do ex\u00e9rcito durante a ditadura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na cria\u00e7\u00e3o dos personagens, temos Fabr\u00edcio Boliveira vivendo um m\u00e9dico negro. Al\u00e9m dele, Luiz Pepeu interpreta um fazendeiro tamb\u00e9m negro. <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/11\/29\/entrevista-henrique-dantas-fala-de-seu-doc-dorivando-sarava-o-preto-que-virou-mar\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lembro de ter conversado contigo<\/a> por ocasi\u00e3o do lan\u00e7amento do document\u00e1rio \u201cDorivando Sarav\u00e1\u201d e voc\u00ea me falou sobre o projeto em andamento de \u201cJardim dos Sil\u00eancios\u201d e em como era importante incluir personagens afrodescendentes em posi\u00e7\u00f5es de destaque social. A fun\u00e7\u00e3o do cinema como arte inclusiva tem essa obrigatoriedade. Como foi escrever esses personagens?<\/strong><br \/>\nEstava pensando sobre como esse trabalho tem a ver com o processo que passei na vida, nos \u00faltimos dez anos, de adquirir doses de consci\u00eancia preta. De me entender como um homem que, a partir de diversas situa\u00e7\u00f5es de racismo, onde nunca soube me defender, fui escondendo envergonhadamente minha negritude, raspando o cabelo e me esfor\u00e7ando para ter um comportamento social mais colonizador, pois n\u00e3o tinha repert\u00f3rio para lidar com ela. Meu pai \u00e9 um homem negro que n\u00e3o se v\u00ea assim. Ent\u00e3o, em casa, n\u00e3o tinha repert\u00f3rio para entender que o que se passava se tratava de racismo. Lembro que em 1998, eu estava com Tacilla Siqueira, minha companheira, no Marrocos, e, l\u00e1, eu via que a sociedade me enxergava como um homem negro, \u00e1rabe, marroquino. Eles n\u00e3o me pediam documentos para entrar ou sair dos lugares. Os olhares dos policiais n\u00e3o me atravessavam. Isso me deixou muito surpreso e contente. O cineasta Ant\u00f4nio Olavo, amigo querido, foi uma pessoa muito importante nesse processo de conscientiza\u00e7\u00e3o preta do meu cinema. Olavo \u00e9 fundamental para a nossa cultura e fundamental na minha forma\u00e7\u00e3o. Poderia falar por horas aqui sobre esse complexo processo de conscientiza\u00e7\u00e3o preta, mas meus trabalhos t\u00eam me ajudado a falar por mim. E sim, fui criado em Ilh\u00e9us onde s\u00f3 existiam um casal de m\u00e9dicos negros que nunca tinham me atendido, como tamb\u00e9m n\u00e3o conheci fazendeiros negros na minha adolesc\u00eancia em Ilh\u00e9us. Acredito que na fic\u00e7\u00e3o voc\u00ea deva mexer com aquilo que voc\u00ea acredita e &#8220;Jardim dos Sil\u00eancios&#8221; tem rela\u00e7\u00e3o com meu processo religioso, com meu processo de entender os efeitos nefastos das diversas coloniza\u00e7\u00f5es que sofremos, seja do ponto de vista religioso, seja do ponto de vista social.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-97931\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/silencios4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/silencios4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/silencios4-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi o trabalho com Fabr\u00edcio, Helena e todo o elenco?<\/strong><br \/>\nFabr\u00edcio Boliveira foi a primeira pessoa que entrou no projeto. Ele foi fundamental desde que entrou. Primeiro porque Fabr\u00edcio \u00e9 uma pessoa muito sens\u00edvel, intensa e direta, al\u00e9m de um ator fora da curva. Isso fez com que desenvolv\u00eassemos uma rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a muito forte durante esses anos e que se mostrou fundamental quando est\u00e1vamos filmando. Depois convidei Ant\u00f4nio Pitanga, que acompanhou a gente at\u00e9 recentemente, quando teve que sair por estar filmando no mesmo per\u00edodo o filme dele sobre a Revolta do Mal\u00eas. E a\u00ed chamei o nosso, tamb\u00e9m grande ator, Luiz Pepeu, que fez uma constru\u00e7\u00e3o de personagem bel\u00edssima com a ajuda valiosa de Ana Paula Bouzas e do pr\u00f3prio Fabr\u00edcio. Pepeu \u00e9 um grande ator que faz parte desse pante\u00e3o dos grandes atores baianos. Escrever os personagens deste roteiro foi muito complexo, intenso e maravilhoso. Elas t\u00eam muitas camadas que procurei trabalhar ao longo dos anos em que o filme estava amadurecendo no estaleiro. Como venho de uma fam\u00edlia multirracial, convidei Helena para viver a personagem, V\u00f3 Sina, uma mulher branca, que na juventude foi Ekedi de um terreiro de candombl\u00e9 da regi\u00e3o, e que por n\u00e3o poder ter filhos, adota uma crian\u00e7a negra como filha, depois de se casa com um Ttenente do ex\u00e9rcito evang\u00e9lico, que a obriga a largar a religi\u00e3o. Helena Ignez, com 83, representou com muita inteireza uma personagem a beira da morte. A equipe foi aprendendo a trabalhar, se adaptando ao tempo de uma atriz de 83 anos, o que foi fundamental para o andamento do filme. Todo o elenco de apoio veio de Ilh\u00e9us. Atores que fazem ou fizeram parte do Teatro Popular de Ilh\u00e9us. Atores negros, como o grande Jos\u00e9 Delmo, um ator maravilhoso da regi\u00e3o. Tereza S\u00e1, Telma S\u00e1, Ruan Reis, M\u00e3e Alba Darabi s\u00e3o atrizes e atores negros de Ilh\u00e9us que foram fundamentais para a constru\u00e7\u00e3o dessa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cinema como identidade racial e pol\u00edtica.<\/strong><br \/>\nN\u00e3o gosto de falar sobre se o cinema tem ou n\u00e3o a obrigatoriedade de fazer alguma coisa. Mas o meu cinema, sim! Esse tem a obrigatoriedade de trazer quest\u00f5es pol\u00edticas e sociais para os filmes. Fui criado dos 7 aos 16 anos em Ilh\u00e9us e, desde que nasci, ando por essa regi\u00e3o. Minha m\u00e3e nasceu em Mara\u00fa (cidade a 102 km de Ilh\u00e9us). Nesse per\u00edodo, conheci apenas um m\u00e9dico negro na cidade e nunca fui atendido por ele. O primeiro m\u00e9dico negro que me atendeu foi um cubano, na Chapada Diamantina, atrav\u00e9s dos M\u00e9dicos Cubanos (N.E. Programa implementado pelo governo do PT), que, confesso, me deixou emocionado. N\u00e3o apenas pela quest\u00e3o racial, mas pelo atendimento humano que ele deu ao meu filho. Ent\u00e3o, colocar um m\u00e9dico negro e um fazendeiro negro em posi\u00e7\u00f5es sociais distintas das que vivi, \u00e9 lutar contra esse clich\u00ea racista que vemos ainda se repetir no cinema brasileiro. Sobre isso, Joel Zito (Ara\u00fajo, cineasta mineiro) fala muito bem no seu filme \u201cA Nega\u00e7\u00e3o do Brasil\u201d (2000). Mas \u00e9 algo que ainda tem pouca aten\u00e7\u00e3o do cinema m\u00e9dio brasileiro, que, vez por outra, se aventura a fazer den\u00fancias e acaba reproduzindo fetiches a partir de um olhar de classe m\u00e9dia alta que, no Brasil, \u00e9 a nata da branquitude.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na ocasi\u00e3o das filmagens, lembro que voc\u00ea me falou a respeito da dificuldade de conseguir apoio oriundo da prefeitura de Ilh\u00e9us na produ\u00e7\u00e3o do filme, que tem a cidade como um dos locais onde se passa a trama. J\u00e1 o munic\u00edpio de Nilo Pe\u00e7anha n\u00e3o tardou a entrar como parceiro no filme. Como foi esse processo?<\/strong><br \/>\nAcho importante falar que o roteiro do filme passou por laborat\u00f3rios no Festival de M\u00e1laga e no BR-LAB, al\u00e9m de ter vencido o pr\u00eamio Iberm\u00e9dia de roteiro no ano de 2022. Um produto reconhecido, com co-produ\u00e7\u00e3o com a Europa, em se tornar um case, que poderia ser visto como atrativo aos agentes p\u00fablicos locais. Esperei at\u00e9 o fim das filmagens para n\u00e3o cometer uma injusti\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao que vou falar agora. Mas Ilh\u00e9us, minha segunda cidade de origem, onde tenho minhas ra\u00edzes e parte de minhas ancestralidades, n\u00e3o tem o m\u00ednimo preparo e interesse de trabalhar de maneira s\u00e9ria com a cultura. Para eles, cultura \u00e9 show de Gustavo Lima e outras mumunhas. Acho, inclusive, que o novo Governo do Estado deveria fazer um curso com os 417 prefeitos do estado e seus respectivos secret\u00e1rios para que eles entendam a dimens\u00e3o da cultura e todo atrelamento dela com o turismo e outros setores econ\u00f4micos da sociedade. A economia criativa acaba de passar o setor automobil\u00edstico. Ela gera mais empregos do que o setor farmac\u00eautico. Mas a falta de vis\u00e3o dos governantes os afasta de qualquer outro entendimento mais elaborado do que seja cultura. Falta cultura para entender a cultura. N\u00e3o conseguem entender que, se Jorge Amado n\u00e3o existisse, a cidade de Ilh\u00e9us teria uma redu\u00e7\u00e3o na sua dimens\u00e3o simb\u00f3lica absurda. \u00c9 fundamental para o entendimento que a cultura \u00e9 a base de qualquer destino tur\u00edstico do mundo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-97932 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/silencios3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/silencios3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/silencios3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o houve uma reciprocidade na tentativa de di\u00e1logo com as inst\u00e2ncias governamentais no local, ent\u00e3o?<\/strong><br \/>\nDialogar com a cidade de Ilh\u00e9us foi um processo muito ruim, desgastante, inf\u00e9rtil. E olhe que fui colega de sala do atual prefeito por nove anos (2023). Ele era um amigo, mesmo. N\u00e3o consegui nem encontrar com ele nas diversas vezes que fui na cidade. Os pr\u00f3prios secret\u00e1rios diziam que era dif\u00edcil encontr\u00e1-lo na cidade. Tive e tentei reuni\u00f5es com secret\u00e1rios que n\u00e3o tiveram nenhuma dimens\u00e3o da import\u00e2ncia de um filme de fic\u00e7\u00e3o, fruto de uma co-produ\u00e7\u00e3o com a Europa, para a divulga\u00e7\u00e3o da cidade. Para n\u00e3o ser de todo injusto, depois deles baterem fotos com a equipe e divulgarem apoio ao filme nas suas m\u00eddias, mesmo sem existir nada a n\u00e3o ser conversas, duas vassouras, uma p\u00e1, o empr\u00e9stimo de um carro 4 x 4 durante um dia, autoriza\u00e7\u00f5es relativas \u00e0s ruas que filmamos e facilita\u00e7\u00e3o ao apoio da Pol\u00edcia Militar. Dois empres\u00e1rios locais, sensibilizados pelo meu esfor\u00e7o, e meu hist\u00f3rico no cinema, nos deram apoio. Um \u00e9 meu primo, Rodrigo Mendes Mendon\u00e7a e o outro \u00e9 um primo segundo, Z\u00e9 Luiz Falc\u00e3o. Sai da cidade com o gosto amargo de ver a cultura da cidade completamente abandonada, com o Teatro Municipal fechado, nenhuma sala de cinema p\u00fablica, a Biblioteca Municipal sendo cedida para a pol\u00edcia militar e bandas, grupos de teatros, cineastas, passando a ver navios transatl\u00e2nticos nos belos horizontes de Ilh\u00e9us. Na educa\u00e7\u00e3o, vemos um descaso, com persegui\u00e7\u00e3o a professores e n\u00e3o cumprimentos de acordos. Espero, sinceramente, que a cidade tenha outra sorte ou que o atual prefeito consiga fazer o que me falava quando \u00e9ramos colegas, que ele seria prefeito para melhorar a vida do povo. O que vejo em Ilh\u00e9us s\u00e3o pr\u00e9dios e pr\u00e9dios aparecendo como uma praga e levando sombras para as praias, a cidade completamente esburacada, mas sempre linda e com um povo muito hospitaleiro e gentil. Meus pais moram na cidade e eu amo Ilh\u00e9us, mas nunca vi uma gest\u00e3o municipal que realmente mudasse a vida das pessoas. Est\u00e1 na hora de gerarmos um prefeito do povo e que governe para o povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E em rela\u00e7\u00e3o ao \u00e2mbito estadual?<\/strong><br \/>\nTenho buscado conversar com o Governo do Estado da Bahia, para que, nessa nova gest\u00e3o, apoiem o filme, como fizeram com outras produ\u00e7\u00f5es baianas. A gest\u00e3o de Rui Costa foi p\u00e9ssima para a cultura, com persegui\u00e7\u00f5es descabidas e processos muito question\u00e1veis, onde n\u00e3o se teve nenhum tipo de escuta com a classe audiovisual. Esse mesmo roteiro foi descartado por dois editais estaduais, sem nenhum tipo de justificativa t\u00e9cnica, mas, sim, pol\u00edtica, ao descartar do processo realizadores por motivos torpes, como, por exemplo, o de um comprovante de resid\u00eancia a ser colocado na documenta\u00e7\u00e3o. Comprovante este que apresento o mesmo h\u00e1 mais de 15 anos. Estamos com esperan\u00e7a que o audiovisual baiano possa amadurecer com a cria\u00e7\u00e3o da Bahia Filmes, uma luta da APC (Associa\u00e7\u00e3o de Produtores e Cineastas da Bahia) que vem de mais de doze anos. \u00c9 o terceiro governador para o qual apresentamos o projeto, mas, dessa vez, ele colocou no Programa de Governo, o que foi muito importante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ainda no aspecto da produ\u00e7\u00e3o, o filme tinha cenas originalmente passadas na Holanda, mas passou para a It\u00e1lia. Foi dif\u00edcil a empreitada de rodar no velho continente?<\/strong><br \/>\nSim. O filme acabou saindo da Holanda e indo para a It\u00e1lia. Nesse processo, contamos com o trabalho maravilhoso e imprescind\u00edvel da produtora Eliane Ferreira, que me foi apresentada por minha companheira. Sem ela, o filme n\u00e3o teria acontecido como aconteceu. Al\u00e9m de ser co-produtora, ela conseguiu para o filme a co-produ\u00e7\u00e3o de uma produtora italiana, a La Sarraz. E tem um fato curioso nesses interc\u00e2mbios. Ao dialogarmos com a equipe da It\u00e1lia, surgiu uma quest\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao cabelo de Fabr\u00edcio, que estava com dreadlocks. Eles diziam que, na It\u00e1lia, n\u00e3o teria nunca um m\u00e9dico com o cabelo assim. Um dia, quando eles apresentaram isso numa reuni\u00e3o que tivemos, eu falei que o fato deles n\u00e3o terem um m\u00e9dico negro que use o cabelo rastafari era, na verdade, o maior motivo para que Fabr\u00edcio n\u00e3o cortasse o cabelo. Isso dava mais for\u00e7a para que Tu\u00e3 fosse um m\u00e9dico com cabelo rasta. Como disse anteriormente, caso n\u00e3o tiv\u00e9ssemos a presen\u00e7a de Eliane Ferreira na produ\u00e7\u00e3o executiva e na produ\u00e7\u00e3o junto comigo, n\u00e3o lograr\u00edamos \u00eaxito. Mas ao chegar l\u00e1, com meu p\u00e9ssimo ingl\u00eas e meu \u201cmacarr\u00f4nico\u201d italiano, dei muita sorte de ter uma equipe muito competente e que se esfor\u00e7ava para me entender e me respeitava muito enquanto artista. Acabou que fizemos uma linda fam\u00edlia e os guardarei pelo resto de minha vida e das minhas mem\u00f3rias. Eles piraram no roteiro. Como acredito em um cinema horizontal, todos se sentiram livres para falar comigo, em um pa\u00eds em que apenas o assistente de dire\u00e7\u00e3o fala com o diretor no set. Isso fez com que os conquist\u00e1ssemos a amizade e o respeito de toda a equipe. Pedro Semanovich, o diretor de fotografia e s\u00f3cio meu na Hamaca Filmes, foi junto comigo. Al\u00e9m dele, Fabr\u00edcio e Eliane, tamb\u00e9m. Com isso, conseguimos pensar o filme e fazer cenas bel\u00edssimas em Orvieto, uma cidade medieval que foi ocupada pelos Etruscos, antes de ser territ\u00f3rio romano. Esse filme foi t\u00e3o aben\u00e7oado pelos Orix\u00e1s que conseguimos filmar tudo e mais um monte de cenas que criei depois de come\u00e7armos a filmar. Em todas as ideias novas que apresentei, na It\u00e1lia e aqui na Bahia, as equipes foram absurdamente sensacionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-97933\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/silencios5.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/silencios5.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/silencios5-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tu\u00e3, personagem de Fabr\u00edcio Boliveira, passa pelo baque de perder a m\u00e3e, ap\u00f3s j\u00e1 ter tido o pai assassinado por militares na ditadura, e, al\u00e9m disso, como m\u00e9dico, lida, tamb\u00e9m, com a morte diariamente. Como foi a cria\u00e7\u00e3o da estrutura desse personagem nesse modo de lidar com o luto?<\/strong><br \/>\nConversamos muito sobre qual Tu\u00e3 quer\u00edamos. Eu e Fabr\u00edcio mergulhamos no entendimento dessa estrutura, dessa costura entre eu, ele e essa inven\u00e7\u00e3o. A premissa \u00e9 de um personagem que n\u00e3o embarca no luto, mas sim evita viver sofrimentos que surjam com a morte. De certa maneira, como ele teve que aprender a conviver com a falta, ele investe em virar uma pessoa \u201camortizada\u201d pelas mortes que passou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lendo seu roteiro, percebi na apresenta\u00e7\u00e3o dos personagens, al\u00e9m de seus pr\u00f3prios nomes, outros de origem da cultura africana e do candombl\u00e9. Poderia abordar como se deu o desenvolvimento dos mesmos utilizando essa equival\u00eancia?<\/strong><br \/>\nEu tive, h\u00e1 quase 30 anos, um encontro maravilhoso com M\u00e3e Stela de Ox\u00f3ssi, onde ela, em um jogo de b\u00fazios, me revelou que eu era tamb\u00e9m de Ox\u00f3ssi. Frequentei o Il\u00ea Ax\u00e9 Op\u00f4 Afonj\u00e1, mas acabei vindo morar em Cama\u00e7ari e me afastando da casa. Ao fazer o filme \u201cDorivando Sarav\u00e1\u201d, acabei de me aproximando do Candombl\u00e9 mais uma vez e fui parar no terreiro de uma filha de M\u00e3e Stella, M\u00e3e Oy\u00e1Tund\u00ea (M\u00e3e Djalma). Cheguei l\u00e1 para entrevist\u00e1-la e nunca mais sa\u00ed de l\u00e1. Tive a sorte de conhecer uma mulher fant\u00e1stica, amiga, conhecedora, acolhedora que foi e continua sendo muito importante em minha vida. Infelizmente, ela nos deixou no m\u00eas de maio de 2022 e, com isso, ficamos tr\u00eas anos na obriga\u00e7\u00e3o do Ax\u00eax\u00ea, que \u00e9 a maneira como n\u00f3s, de religi\u00e3o de matriz africana, acreditamos que devemos lidar com nossos mortos. Esse roteiro foi muito conversado com M\u00e3e Djalma, antes dela ir para o Or\u00fan. Dito isso, trouxe para o roteiro toda essa aproxima\u00e7\u00e3o que acabei tendo com os Orix\u00e1s. N\u00e3o \u00e9 um filme sobre Candombl\u00e9, \u00e9 um filme onde o Candombl\u00e9 tem uma camada importante, pela rela\u00e7\u00e3o familiar, hist\u00f3rica e afetiva que as personagens t\u00eam com o maravilhoso mundo dos Orix\u00e1s, inquices e voduns. Como Tu\u00e3, o personagem principal, tem uma rela\u00e7\u00e3o de aproxima\u00e7\u00e3o com sua ancestralidade, assim como eu tenho e o pr\u00f3prio Fabr\u00edcio tem, os espectadores ter\u00e3o reflex\u00f5es semelhantes com o personagem. Todos os atores tiveram esse chamamento com a ancestralidade, inclusive Helena Ignez, que me trouxe reflex\u00f5es maravilhosas durante o processo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Trata-se de uma obra sobre reencontros. Estes tanto familiares como de quest\u00f5es \u00edntimas de seu protagonista com suas origens. No aspecto familiar, h\u00e1 no texto uma riqueza grande dentro de um aspecto cultural. Como sua estreia no cinema de fic\u00e7\u00e3o, como se deu essa escolha de temas?<\/strong><br \/>\nSou uma pessoa muito atenta a fam\u00edlia, seja minha companheira e meus filhos maravilhosos, seja a grande fam\u00edlia de amigos que formamos com os anos no lombo. Tenho minhas pr\u00f3prias quest\u00f5es familiares, minhas reflex\u00f5es sobre quem sou e o que estou ainda fazendo aqui. Sou fruto de fam\u00edlias multirraciais, com origens, ra\u00e7as e credos diferentes, com tens\u00f5es hist\u00f3ricas e felicidades tamb\u00e9m. Quanto ao reencontro, sou um cara otimista. Acredito na \u201cbeleza das respostas das crian\u00e7as\u201d e acredito muito na \u201clei natural dos encontros\u201d e reencontros. E por mais que tenha minhas pr\u00f3prias quest\u00f5es familiares, talvez o cinema me guie a pensar junto com minha fam\u00edlia essas quest\u00f5es. Cinema \u00e9 cachoeira, rio e mar. Como sou canceriano e meu elemento \u00e9 \u00e1gua, vou surfando nesse cinema doce e salgado, plantando sil\u00eancios e compondo meus jardins. &#8220;Jardim dos Sil\u00eancios&#8221; \u00e9 o primeiro filme de uma s\u00e9rie que quero fazer de Jardins. Tenho um outro projeto chamado \u201cJardim de Mem\u00f3rias\u201d e estou pensando em criar outro roteiro de jardineiro roteirista. Aprendi uma coisa na It\u00e1lia que me fez muito bem. L\u00e1, diretor \u00e9 chamado de regente. Com isso, passo a ver o filme como uma grande m\u00fasica, onde n\u00e3o existe instrumento melhor do que outro. Diretor \u00e9 bom pra empresa, cadeira de diretor \u00e9 bom pra quem gosta de poder. Gosto do meu p\u00e9 no ch\u00e3o, de cortar quiabo para Xang\u00f4, no p\u00e9 descal\u00e7o no terreiro de barro, de ver toda a fam\u00edlia formada com a equipe, junta, comendo junto, sentados em \u201ctr\u00eas tabelas\u201d, sem privil\u00e9gio, sem gritos, sem fofocas e sem guerras.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-97930 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/silencios1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1125\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/silencios1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/silencios1-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e \u00e9 autor de \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/11\/11\/entrevista-mitico-guitarrista-baiano-alvaro-assmar-ganha-biografia-joao-paulo-barreto-fala-sobre-uma-vida-blues\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Uma Vida Blues<\/a>\u201d, biografia de \u00c1lvaro Assmar. Texto de abertura publicado originalmente no Jornal A Tarte.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;Fazer um filme, a depender do cuidado e do pertencimento que tenha com ele, parece um pouco com o caminho de ter um filho&#8221;, revela o cineasta\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/10\/20\/entrevista-meu-cinema-tem-a-obrigatoriedade-de-trazer-questoes-politicas-e-sociais-diz-henrique-dantas-que-esta-com-novo-filme-jardim-dos-silencios\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":97934,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,4,4833],"tags":[7377,8419,226],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97929"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=97929"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97929\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":97943,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97929\/revisions\/97943"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/97934"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=97929"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=97929"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=97929"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}