{"id":97895,"date":"2026-10-17T00:01:07","date_gmt":"2026-10-17T03:01:07","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=97895"},"modified":"2026-10-16T23:30:52","modified_gmt":"2026-10-17T02:30:52","slug":"festival-do-rio-alucinacao-vislumbra-um-pais-em-toda-a-sua-beleza-e-contradicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/10\/17\/festival-do-rio-alucinacao-vislumbra-um-pais-em-toda-a-sua-beleza-e-contradicao\/","title":{"rendered":"Festival do Rio: \u201cAlucina\u00e7\u00e3o\u201d vislumbra um pa\u00eds em toda a sua beleza e contradi\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leandro Luz<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cGente quer comer, gente quer ser feliz \/ gente quer respirar ar pelo nariz\u201d. Em \u201cGente\u201d, can\u00e7\u00e3o-manifesto pelo Brasil como tantas outras escritas por Caetano Veloso, podemos enxergar mais do que um espelho do pa\u00eds: descortina-se um desejo de na\u00e7\u00e3o, uma febre de esperan\u00e7a que mira o hoje e o amanh\u00e3. 1977 \u00e9 o ano de lan\u00e7amento de \u201cBicho\u201d, disco no qual Veloso experimentou novos sons influenciados pela J\u00f9j\u00fa nigeriana e pela disco music que dominava o mundo naquele per\u00edodo. Partindo desse contexto, h\u00e1 dois assuntos incontorn\u00e1veis para se falar de \u201cAlucina\u00e7\u00e3o\u201d, disco lan\u00e7ado por Belchior um ano antes de \u201cBicho\u201d: Caetano Veloso e o Brasil; e \u00e9 satisfat\u00f3rio perceber que o document\u00e1rio hom\u00f4nimo n\u00e3o se esquiva de nenhum dos dois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAlucina\u00e7\u00e3o\u201d (Renato Terra, Marcos Caetano e Leo Caettano, 2026) parte das can\u00e7\u00f5es de Belchior &#8211; todas elas tocadas na \u00edntegra, seguindo a ordem do \u00e1lbum, no decorrer de quase duas horas de filme &#8211; para vislumbrar um pa\u00eds em toda a sua beleza e contradi\u00e7\u00e3o. \u201cO Brasil \u00e9 grande\u201d, afirma Belchior no programa \u201cMPB Especial\u201d da TV Cultura, criado e dirigido por Fernando Faro, que havia come\u00e7ado anteriormente na TV Tupi sob a alcunha de \u201cEnsaio\u201d. O document\u00e1rio utiliza-se largamente &#8211; um acerto por reconhecer o brilhantismo do registro, por\u00e9m um erro por se estruturar excessivamente em torno de <a href=\"https:\/\/youtu.be\/TEK2Ld6RAig\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">um material amplamente conhecido<\/a> &#8211; desta participa\u00e7\u00e3o do artista no epis\u00f3dio lan\u00e7ado em 1974, ou seja, mesmo ano de lan\u00e7amento de seu disco autointitulado e dois anos antes de \u201cAlucina\u00e7\u00e3o\u201d, sua obra-prima resgatada pelo p\u00fablico brasileiro (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/03\/26\/download-ainda-somos-os-mesmos-belchior\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">e homenageado em tributo aqui no Scream &amp; Yell<\/a>) nesta \u00faltima d\u00e9cada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa obsess\u00e3o por cantar as grandezas do Brasil pode ser percebida em in\u00fameras m\u00fasicas de Belchior, mais objetivamente em \u201cMon\u00f3logo das Grandezas do Brasil\u201d, faixa do pouco conhecido \u201cPara\u00edso\u201d, \u00e1lbum lan\u00e7ado em 1982. O trio de diretores se aproveita dessa conex\u00e3o entre o artista e o seu povo para construir uma narrativa pautada em imagens de arquivo que revelam principalmente o cotidiano de trabalhadores an\u00f4nimos brasileiros. S\u00e3o materiais oriundos de diversos acervos e de perfis heterog\u00eaneos nos quais a montadora Jordana Berg trabalhou arduamente para estabelecer alguma ordem, elegendo blocos tem\u00e1ticos que frequentemente s\u00e3o disparados pelas pr\u00f3prias can\u00e7\u00f5es ou, eventualmente, pelo discurso de Belchior, que tamb\u00e9m aparece falando e cantando por meio do material escolhido. A abordagem \u00e9 mais rica como coment\u00e1rio social do que como biografia, uma escolha consciente dos realizadores.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-97897 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/bel3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"586\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/bel3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/bel3-300x234.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora Belchior tenha cantado e refletido sobre o seu pa\u00eds em todos os discos que lan\u00e7ou no decorrer de uma carreira longeva em est\u00fadio e nos palcos, apesar das dificuldades que enfrentou a partir dos anos 1990, foi mesmo em \u201cAlucina\u00e7\u00e3o\u201d que ele conseguiu reunir o maior n\u00famero de can\u00e7\u00f5es que se comunicavam diretamente com a ideia de \u201cgente\u201d defendida por Caetano Veloso e apresentada no in\u00edcio deste texto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Discorrer a respeito do cantor baiano para falar sobre o cearense natural de Sobral \u00e9 relevante porque n\u00e3o existiria Ant\u00f4nio Carlos Belchior sem Caetano Emanuel Viana Teles Veloso. Mais ainda: n\u00e3o existiria aquele sem que este carregasse em sua produ\u00e7\u00e3o l\u00edrica e musical uma s\u00e9rie de valores e c\u00f3digos de linguagem, j\u00e1 consolidados em meados dos anos 1970, nos quais serviram como \u00edmpeto para uma ruptura declarada. \u201cE o passado \u00e9 uma roupa que n\u00e3o nos serve mais\u201d, canta Belchior em \u201cVelha Roupa Colorida\u201d. A ironia tamb\u00e9m est\u00e1 presente no disco, como em &#8220;Apenas um Rapaz Latino-Americano&#8221;, na cita\u00e7\u00e3o a \u201cDivino Maravilhoso\u201d: \u201cnada \u00e9 divino, nada \u00e9 maravilhoso\u201d. Na dylanesca \u201cFotografia 3&#215;4\u201d, Belchior implica abertamente com o seu \u201cantagonista\u201d: \u201cVeloso, o sol n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o bonito pra quem vem do Norte e vai viver na rua\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qualquer an\u00e1lise med\u00edocre acerca dessa rela\u00e7\u00e3o conturbada entre os dois artistas ficaria apenas na superf\u00edcie, concentrada nos conflitos mais rasteiros. No entanto, a maior for\u00e7a da m\u00fasica de Belchior est\u00e1 em suas contradi\u00e7\u00f5es e em suas aproxima\u00e7\u00f5es com a m\u00fasica popular brasileira e internacional consagrada daquele per\u00edodo. Belchior e Caetano Veloso t\u00eam muito mais afinidades do que discord\u00e2ncias, e isso fica evidente pela sonoridade do disco de 1976 e pelo uso constante de refer\u00eancias estrangeiras nas letras. Um ano depois, no disco seguinte, \u201cCora\u00e7\u00e3o Selvagem\u201d, a m\u00fasica hom\u00f4nima de abertura nos diz: \u201cMeu bem, meu bem, meu bem \/ que outros cantores chamam baby\u201d. Essa cr\u00edtica recorrente de Belchior glosa da rela\u00e7\u00e3o que Caetano Veloso e a Tropic\u00e1lia institu\u00edram com os Estados Unidos, mas a sua pr\u00f3pria m\u00fasica mesmo tem muito dessa conex\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda sobra tempo para que \u201cAlucina\u00e7\u00e3o\u201d, o filme, estabele\u00e7a um ponto de contato com o presente pol\u00edtico brasileiro. Quando os primeiros versos de \u201cN\u00e3o Leve Flores\u201d explodem nas caixas de som do cinema, fica imposs\u00edvel n\u00e3o pensar, por exemplo, nas elei\u00e7\u00f5es que enfrentamos neste exato m\u00eas de outubro. \u201cN\u00e3o cante vit\u00f3ria muito cedo, n\u00e3o\u201d, aconselha Belchior. Aos jovens de ontem e de hoje, Belchior d\u00e1 um recado muito n\u00edtido: permane\u00e7amos sempre atentos e n\u00e3o deixemos nossos cigarros se apagarem pela tristeza.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/03\/26\/download-ainda-somos-os-mesmos-belchior\/\"><em>Ou\u00e7a e baixe \u201cAinda Somos os Mesmos\u201d, tributo ao \u00e1lbum \u201cAlucina\u00e7\u00e3o\u201d, de Belchior<\/em><\/a><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-97896 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/bel2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1334\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/bel2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/bel2-169x300.jpg 169w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Leandro Luz (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@leandro_luz<\/a>) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de cr\u00edtica nos podcasts\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Plano-Sequ\u00eancia<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1 disco, 1 filme.<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"H\u00e1 dois assuntos incontorn\u00e1veis para se falar de \u201cAlucina\u00e7\u00e3o\u201d, disco lan\u00e7ado por Belchior um ano antes de \u201cBicho\u201d: Caetano Veloso e o Brasil.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/10\/17\/festival-do-rio-alucinacao-vislumbra-um-pais-em-toda-a-sua-beleza-e-contradicao\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":137,"featured_media":97898,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,4,3],"tags":[1264,7377,8416,8415,8414],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97895"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/137"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=97895"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97895\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":97899,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97895\/revisions\/97899"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/97898"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=97895"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=97895"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=97895"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}