{"id":9785,"date":"2011-09-15T20:43:31","date_gmt":"2011-09-15T23:43:31","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=9785"},"modified":"2017-07-14T10:44:01","modified_gmt":"2017-07-14T13:44:01","slug":"quase-nada-se-modificou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/09\/15\/quase-nada-se-modificou\/","title":{"rendered":"Sob o CEL: Quase Nada Se Modificou"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-9786\" title=\"roberto\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/roberto.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Sob O CEL #3<br \/>\nQuase Nada Se Modificou<br \/>\npor Carlos Eduardo Lima<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estava eu vendo o show de Roberto Carlos na noite de s\u00e1bado, gravado em Jerusal\u00e9m. Matutava com meus bot\u00f5es sobre o quanto o Rei havia se tornado uma figura caricata e distante do que era naquele ponto fulcral da virada das d\u00e9cadas de 60\/70 do s\u00e9culo passado. Quanto de originalidade e espontaneidade ainda poderia habitar sua mente e seu corpo ap\u00f3s tantas idas e vindas do destino e perdas de parentes (enteada, duas esposas, m\u00e3e, pai) ao longo do tempo. Como ele lidara com tudo isso sob os holofotes da fama e fortuna? Ser\u00e1 que a p\u00e1lida e triste figura de hoje \u00e9 o resultado de tudo isso? Ou ser\u00e1 que \u00e9 apenas uma pessoa envelhecendo e deixando de lado aquelas qualidades que s\u00f3 temos quando somos jovens?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Minha divaga\u00e7\u00e3o sobre a vida do Rei cessou aos primeiros acordes de &#8220;O Port\u00e3o&#8221;. Executada l\u00e1 para o fim do show, minha can\u00e7\u00e3o predileta do repert\u00f3rio de RC logo me fez sentir vontade de chorar. Acho que \u00e9 imposs\u00edvel ouvir &#8220;O Port\u00e3o&#8221; sem que algum pingo de emo\u00e7\u00e3o tome conta do cora\u00e7\u00e3o. Talvez seja diferente daqui a cinquenta anos, quando duas gera\u00e7\u00f5es de brasileiros j\u00e1 tiver passado a barreira dos 30 anos sem ter em sua lembran\u00e7a os almo\u00e7os e jantares de fam\u00edlia sonorizados por m\u00fasicas do Rei. Tamb\u00e9m n\u00e3o haver\u00e1 mais a exibi\u00e7\u00e3o do protocolar especial de Natal com o velho Roberto recebendo convidados e dando sua anu\u00eancia para o novo sucesso da moda. Essas lembran\u00e7as ter\u00e3o sumido para sempre, nos deixando \u2013 quem nasceu a partir de 1970\/80 \u2013 prisioneiros de uma circunst\u00e2ncia hist\u00f3rica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O som de Roberto Carlos nos anos 70 \u00e9 o som das paradas de sucesso, livre de mensagem pol\u00edtica (quase sempre), calcado em mensagens religiosas (quase sempre) e permeado pela vontade do Rei em se dirigir para um p\u00fablico adulto. Era inofensivo, bondoso, simples, mas com uma caracter\u00edstica marcante: a capacidade de despertar a identifica\u00e7\u00e3o com o ouvinte. Quem est\u00e1 na casa dos 20, 30, 40 anos tem potencial para se emocionar com can\u00e7\u00f5es do Rei feitas nos anos 70. \u00c9 o que nossas m\u00e3es, pais, av\u00f3s ouviam no r\u00e1dio, viam na televis\u00e3o, compravam na loja de discos mais pr\u00f3xima. Os lan\u00e7amentos vinham anualmente, no m\u00eas de dezembro, para servir de presente de Natal. A partir de 1974, ano do lan\u00e7amento do disco que tem &#8220;O Port\u00e3o&#8221;, a Globo passou a exibir o especial de Natal do Rei, na noite de 24 de dezembro. Roberto deixava de ser um cantor\/compositor de sucesso massivo e acumulava a partir da\u00ed um sal\u00e1rio de funcion\u00e1rio da emissora de TV. Isso foi decisivo para uma mudan\u00e7a gradativa em sua carreira, uma pasteuriza\u00e7\u00e3o progressiva de seu repert\u00f3rio e a necessidade de emitir opini\u00e3o sobre assuntos contempor\u00e2neos, entre os quais a ecologia, a brasilidade, o fim da ditadura, a inclus\u00e3o social dos anos 90&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1974, portanto, foi lan\u00e7ado mais um LP hom\u00f4nimo do Rei, cuja a terceira faixa \u00e9 &#8220;O Port\u00e3o&#8221;. A letra \u00e9 uma das mais harmoniosas constru\u00e7\u00f5es de Erasmo Carlos e Roberto. \u00c9 poss\u00edvel sentir cheiros e detalhes precisos de uma jornada de arrependimento e dor, met\u00e1fora talvez dos pr\u00f3prios autores, na faixa dos 30 anos, meio desbundados ap\u00f3s a fama, enfrentando um per\u00edodo de crescimento da MPB mais politizada de Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento e Gilberto Gil. Os companheiros de Jovem Guarda derivaram para o territ\u00f3rio do popular, sem qualquer preocupa\u00e7\u00e3o em revestir sua m\u00fasica de algum verniz buscando atingir a classe m\u00e9dia. A Roberto e Erasmo restava manter o rumo num h\u00edbrido de pop e rom\u00e2ntico, no qual can\u00e7\u00f5es como &#8220;Meu Mar&#8221; e &#8220;O Port\u00e3o&#8221; s\u00e3o highlights. Se em &#8220;Meu Mar&#8221;, can\u00e7\u00e3o do disco \u201cSonhos e Mem\u00f3rias\u201d, lan\u00e7ado por Erasmo em 1972, o Tremend\u00e3o projetava para seu futuro o desejo de morar num para\u00edso a beira-mar, em &#8220;O Port\u00e3o&#8221;, os dois concluem que \u00e9 bom poder voltar pra casa e ser recebido pelos pais. \u00c9 como se voltassem de uma guerra, de um lugar onde n\u00e3o foram bem vindos, feridos, sofridos e necessitados daquilo que chamamos &#8220;colo de m\u00e3e&#8221;. Quem n\u00e3o passou por isso na vida? Quem n\u00e3o saiu de casa em busca de sonhos, de aventuras e se estrepou? Quem n\u00e3o sente a necessidade de n\u00e3o ter responsabilidades mesmo que seja por pouqu\u00edssimo tempo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O legal em &#8220;O Port\u00e3o&#8221; \u00e9 que os autores n\u00e3o se esquecem de algo muito importante quando se volta pra casa dos pais: l\u00e1 ficou grande parte de n\u00f3s, perdida em lembran\u00e7as, sentimentos e, muito provavelmente, coisas mal resolvidas. Quando o personagem da letra olha para seu retrato na parede e reflete sobre o porqu\u00ea de sua volta, admite ao mesmo tempo uma derrota clamorosa para a vida, notando que precisa se reencontrar para poder sair novamente em busca de algo. O encontro com a figura paterna\/materna que o abra\u00e7a no fim da m\u00fasica \u00e9 a pr\u00f3pria reden\u00e7\u00e3o de uma gera\u00e7\u00e3o que se arvorou a combater um monte de coisas, a emitir opini\u00e3o e participar de uma s\u00e9rie de processos hist\u00f3ricos de mudan\u00e7a social &#8211; sem sucesso.  &#8220;O Port\u00e3o&#8221;, meus amigos, \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o sobre porrada na cara, sofrimento e a necessidade de dar dois passos para tr\u00e1s, visando poder andar pra frente de novo. Gera\u00e7\u00e3o Hippie voltando pra casa? Militantes de esquerda saindo da pris\u00e3o? Gente de trinta anos precisando agir como adulta depois de uma adolesc\u00eancia prolongada? Qualquer resposta \u00e9 v\u00e1lida para descobrir de onde vem o personagem da can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, se voc\u00ea est\u00e1 pensando que essa letra ainda pode ser atual, n\u00e3o h\u00e1 qualquer engano. \u00c0s vezes o processo descrito a\u00ed pode se dar em apenas um dia de vida, noutras pode demorar muito tempo. O que fica claro \u00e9 que quem volta pras coisas que deixou, o faz por necessidade, mesmo que se sinta mais maduro e forte, nunca vai se sentir imune \u00e0s coisas que deixou, que viveu, ao cachorro que late assim que nos v\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Duas notas sobre esse texto:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Eu o escrevo em tom muito confessional, n\u00e3o s\u00f3 porque j\u00e1 precisei voltar pra casa, mas, sobretudo, pelo fato de haver experimentado o fim daquilo que eu sempre entendi por CASA nesses \u00faltimos dias. Ap\u00f3s a morte de minha m\u00e3e, colocado o apartamento para alugar, foram-se m\u00f3veis, recorda\u00e7\u00f5es, tralhas caseiras que eram o referencial de lar. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil passar por isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Olhe bem o v\u00eddeo do comercial de cigarro que foi sonorizado pela can\u00e7\u00e3o l\u00e1 no in\u00edcio dos anos 70. Um jovem Herson Capri volta pra casa, \u00e9 recebido por pais velhinhos, amigos e uma namoradinha de cabelo curto, todo feliz. Sim, o Rei musicando um comercial de cigarros&#8230;<\/p>\n<p align=\"center\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/s1QkbcdD8p8\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/s1QkbcdD8p8\"><\/embed><\/object><\/p>\n<div id=\"singlepostcontent\">\n<p style=\"text-align: justify;\">CEL \u00e9 Carlos Eduardo Lima, historiador,   jornalista e f\u00e3 de m\u00fasica. Conhece Marcelo Costa por carta desde o fim   dos anos 90, quando o Scream &amp; Yell era um fanzine escrito por ele e   amigos, l\u00e1 em sua natal Taubat\u00e9. J\u00e1 escreveu no S&amp;Y por um bom   tempo, em idas e vindas. Hoje tem certeza de que o mundo como o   conhec\u00edamos acabou l\u00e1 por volta de 1994\/95 mas n\u00e3o est\u00e1 conformado com   isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/sob_o_ceu\/\"><strong>LEIA OUTRAS COLUNAS DE CARLOS EDUARDO LIMA NO SCREAM &amp; YELL<\/strong><\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Sob o CEL #3\n&#8220;Acho que \u00e9 imposs\u00edvel ouvir &#8220;O Port\u00e3o&#8221; sem que algum pingo de emo\u00e7\u00e3o tome conta do cora\u00e7\u00e3o&#8221;, escreve Carlos Eduardo Lima \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/09\/15\/quase-nada-se-modificou\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":44,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[46],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9785"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/44"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9785"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9785\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":41395,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9785\/revisions\/41395"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9785"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9785"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9785"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}