{"id":97681,"date":"2026-09-30T00:01:57","date_gmt":"2026-09-30T03:01:57","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=97681"},"modified":"2026-09-29T23:22:04","modified_gmt":"2026-09-30T02:22:04","slug":"entrevista-quero-pautar-nas-minhas-musicas-as-defesas-dos-povos-da-floresta-amazonica-avisa-samuel-bera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/09\/30\/entrevista-quero-pautar-nas-minhas-musicas-as-defesas-dos-povos-da-floresta-amazonica-avisa-samuel-bera\/","title":{"rendered":"Entrevista: &#8220;Quero pautar nas minhas m\u00fasicas as defesas dos povos da floresta amaz\u00f4nica&#8221;, avisa Samuel B\u00e9ra"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/lvinhas78\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leonardo Vinhas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na figura de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/samuelpsoa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Samuel B\u00e9ra<\/a>, os pap\u00e9is de m\u00fasico e ativista se misturam e se complementam, e ambos est\u00e3o a favor da identidade beradeira. Sua carreira soma quase 30 anos, quando come\u00e7ou solo na cena hip-hop de Rond\u00f4nia, mas veio a se destacar \u00e0 frente da banda Quilomboclada, uma agremia\u00e7\u00e3o t\u00e3o numerosa quanto ruidosa que conseguia entregar no som todos os conceitos impl\u00edcitos em seu nome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Somente em 2025 que ele assumiu um v\u00f4o mais solo, agora sob o nome de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/samuelberaband\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Samuel B\u00e9ra Band<\/a>, mas ainda assim com um ineg\u00e1vel car\u00e1ter coletivo \u2013 afinal, letras, ritmos e figurino trazem os signos dessa j\u00e1 citada identidade beradeira. Isso porque, para Samuel Pessoa, como foi batizado, essa n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o est\u00e9tica. \u00c9, tamb\u00e9m, uma quest\u00e3o pol\u00edtica, art\u00edstica e pessoal. E, como ele explica nessa entrevista ao Scream &amp; Yell, \u00e9 ainda um ato necess\u00e1rio de resist\u00eancia e sobreviv\u00eancia em um estado (Rond\u00f4nia) que n\u00e3o esconde sua vontade de apagar sua hist\u00f3ria origin\u00e1ria para substitui-la por uma mais sulista, branca e agropecu\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/intl-pt\/album\/3Dgm800gpAzarEY35fyJMA\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Karipunagem<\/a>&#8220;, de 2025, \u00e9 o \u00e1lbum que apresentou esse novo trabalho e o corpo de ideias que o sustenta. Ao contr\u00e1rio da Quilomboclada, onde a distor\u00e7\u00e3o e o peso percussivo d\u00e3o o tom, esse novo projeto vem cheio de ritmos nortistas, como guitarrada e carimb\u00f3, misturados \u00e0s influ\u00eancias latinas e da m\u00fasica \u201cbrega\u201d que inescapavelmente ressoam pela regi\u00e3o amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre o resultado ouvido no disco e o que foi <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/06\/08\/festival-casarao-2026-selvagens-a-procura-de-lei-samuel-bera-band-e-nicles-se-destacam-em-porto-velho\/\">apresentado ao vivo na edi\u00e7\u00e3o 2026 do Festival Casar\u00e3o<\/a>, h\u00e1 uma diferen\u00e7a grande, e facilmente explic\u00e1vel: a banda n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 a mesma que gravou o \u00e1lbum como circulou bastante nos palcos brasileiros pelo projeto Sonora Brasil. Com a estrada, as can\u00e7\u00f5es adquiriram mais nuances e mais intensidade, e o resultado \u00e9 um show imperd\u00edvel, intenso e empolgante. Mas isso n\u00e3o quer dizer que o disco seja um trabalho menor. Mesmo com uma produ\u00e7\u00e3o mais limitada, o ouro est\u00e1 l\u00e1, expl\u00edcito nas m\u00fasicas e nas letras. Se \u201cValha\u201d, \u201cBate Cabe\u00e7a\u201d, \u201cLenitivo\u201d e \u201cDan\u00e7a do Remo\u201d n\u00e3o te fizerem dan\u00e7ar e cantar junto, algo est\u00e1 muito fora de ordem contigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No papo a seguir, Samuel contou a hist\u00f3ria de &#8220;<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/intl-pt\/album\/3Dgm800gpAzarEY35fyJMA\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Karipunagem<\/a>&#8220;, apresentou as dificuldades de persistir em uma cena pouco sustent\u00e1vel financeiramente, e foi fundo no isolamento que a popula\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria da regi\u00e3o amaz\u00f4nica sofre n\u00e3o s\u00f3 no resto do pa\u00eds, mas principalmente em sua pr\u00f3pria terra.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"\u00c1LBUM KARIPUNAGEM\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Q5e2nxB5WzY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea tem uma longa hist\u00f3ria no rap, fundou a Quilomboclada, \u00e9 ativista e agitador cultural. Ent\u00e3o, a minha primeira pergunta \u00e9: o que que voc\u00ea quis expressar no &#8220;Karipunagem&#8221; que n\u00e3o cabia em nenhum dos outros trabalhos que voc\u00ea tem?<\/strong><br \/>\nEsse \u00e9 o meu projeto musical. A Quilomboclada foi meu primeiro projeto musical, mas \u00e9 um projeto coletivo. Como diz o nome, ela tem esse sentido de quilombo, s\u00e3o v\u00e1rias pessoas l\u00e1 dentro. E nos processos de composi\u00e7\u00e3o da Quilomboclada, sempre tive dificuldades para conseguir implementar uma concep\u00e7\u00e3o mais contempor\u00e2nea da m\u00fasica amaz\u00f4nica, porque a postura ali \u00e9 mais voltada para um som pesado, bem mais rock and roll mesmo, guitarra mais distorcida, essas coisas todas. Isso \u00e9 a minha praia tamb\u00e9m, \u00e9 de onde eu venho, mas o &#8220;Karipunagem&#8221; foi fruto de um trabalho de pesquisa que fiz sobre a chegada dessa musicalidade amaz\u00f4nica vinda do Caribe, por isso \u00e9 um som que vai para um ritmo mais brega, mais da cumbia e da guitarrada e do que a gente chama aqui no Norte de berad\u00e3o \u2013 os forr\u00f3s de berad\u00e3o, criado no seringais. Eu queria criar uma estrutura musical que contemplasse esse conceito de uma m\u00fasica amaz\u00f4nica mais contempor\u00e2nea, e na Quilomboclada eu n\u00e3o tinha essa esse espa\u00e7o nem essa autonomia para definir repert\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o que \u00e9 a &#8220;Karipunagem&#8221;?<\/strong><br \/>\n\u00c9 um neologismo que a gente criou a partir do termo \u201ckaripuna\u201d, que s\u00e3o os povos origin\u00e1rios aqui de Porto Velho. Antes de a cidade existir, era tudo territ\u00f3rio karipuna. Eles foram dizimados no per\u00edodo da constru\u00e7\u00e3o da Estrada de Ferro Madeira Mamor\u00e9 \u2013 quer dizer, n\u00e3o s\u00f3 no surgimento da cidade de Porto Velho, mas tamb\u00e9m pelos processos econ\u00f4micos aqui do Estado, que foram os dois ciclos da borracha. Eles t\u00eam uma aldeia hoje, mas est\u00e3o praticamente extintos (nota: para quem quiser saber mais dessa triste hist\u00f3ria de exterm\u00ednio brasileiro, <a href=\"https:\/\/pib.socioambiental.org\/pt\/Povo:Karipuna_de_Rond%C3%B4nia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">recomendamos essa leitura<\/a>). No meu trabalho de pesquisa, percebi que eles foram os mais afetados entre os povos nativos, e por conta disso resolvi homenage\u00e1-los. Em termos ancestrais, o porto-velhense traz essa heran\u00e7a na m\u00fasica, na culin\u00e1ria, na arte, no artesanato, no jeito de falar, de se vestir. Isso \u00e9 a \u201ckaripunagem\u201d: a continuidade a partir do povo karipuna. Vai desde o primeiro momento, que \u00e9 essa coisa dos encantados, a rela\u00e7\u00e3o com a floresta, e a\u00ed vem para a coisa da urbanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E ter o \u201cB\u00e9ra\u201d no seu nome tamb\u00e9m \u00e9 uma quest\u00e3o identit\u00e1ria forte, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nSim. Samuel B\u00e9ra vem de beradeiro, aquele que saiu da mata e veio pra cidade, e depois entra pros festejos, ou pro que a gente chama de manifestejo, n\u00e9? (risos) S\u00f3 consegui trazer tudo isso na Samuel B\u00e9ra Band porque eu tinha autonomia suficiente para definir repert\u00f3rio, analisar letra e cuidar da produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cara, longe de mim querer ser \u201cfiscal de ancestralidade\u201d, mas fico curioso com uma coisa. Voc\u00ea \u00e9 natural do Amazonas, n\u00e3o tem essa ancestralidade direta dos karipunas. Por que que voc\u00ea quis ent\u00e3o resgatar essa ancestralidade da regi\u00e3o, e n\u00e3o diretamente a de povos do Amazonas?<\/strong><br \/>\n\u00c9 porque estou em territ\u00f3rio karipuna! Fui pesquisar o que estava perto de mim, o que \u00e9 aqui de Porto Velho, dos seringais daqui. Claro que tenho muita influ\u00eancia do lugar que eu vim, o Seringal do Mirari (em Humait\u00e1, AM), mas os seringais nada mais eram que locais onde o caboclo era explorado. Quando os portugueses chegaram na Amaz\u00f4nia, eles ganharam essas terras n\u00e3o por conta do territ\u00f3rio de expans\u00e3o, mas sim pelo o territ\u00f3rio econ\u00f4mico, como os ciclos da borracha, e expulsaram quem j\u00e1 estava na terra. Meus povos de origem provavelmente s\u00e3o os tenharins e os jiahuis, que habitavam essa regi\u00e3o onde nasci. Mas n\u00e3o fui buscar minha raiz porque eu dialogava com um pesquisador e poeta de Porto Velho, o Barzinho \u2013 que \u00e9 o nome art\u00edstico do Serpa do Amaral. Ele me apresentou o embri\u00e3o da pesquisa, inclusive foi ele quem criou o nome \u201ckaripunagem\u201d, e foi me contextualizando esses processos de explora\u00e7\u00e3o. Falei:&#8221;P\u00f4, mano, isso a\u00ed d\u00e1 um trabalho musical, deixa eu dar continuidade nisso\u201d. E trabalhei a partir do que esse poeta j\u00e1 vinha fazendo, s\u00f3 que fazia de forma muito isolada, sem publicidade nenhuma. Os trabalhos culturais que rolam em Rond\u00f4nia, inclusive os lan\u00e7ados por editais, est\u00e3o dentro de uma l\u00f3gica mais p\u00f3s-colonizada \u2013 um olhar mais rom\u00e2ntico sobre a presen\u00e7a do colonizador. Eu queria fazer um trabalho a partir dos povos origin\u00e1rios, e o que o Barzinho tinha come\u00e7ado me permitia isso. O que eu queria era pautar nas minhas m\u00fasicas as defesas dos povos da floresta, e quando falo \u201cpovos da floresta\u201d, estou incluindo os povos origin\u00e1rios, os quilombolas, os extrativistas, os beradeiros, e tamb\u00e9m a fauna, a flora e os encantados que a ela pertencem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou desse exterm\u00ednio do povo karipuna\u2026 Quando fui <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/06\/08\/festival-casarao-2026-selvagens-a-procura-de-lei-samuel-bera-band-e-nicles-se-destacam-em-porto-velho\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">para cobrir o Festival Casar\u00e3o em junho<\/a>, foi minha primeira vez em Porto Velho, e me chamou aten\u00e7\u00e3o a predomin\u00e2ncia branca da popula\u00e7\u00e3o.<\/strong><br \/>\nPois \u00e9.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-97683 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/kapirunagem1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/kapirunagem1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/kapirunagem1-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/kapirunagem1-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A hist\u00f3ria de Rond\u00f4nia \u00e9 uma hist\u00f3ria de muitos massacres, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nTu tocou num assunto muito importante, porque foi a partir disso da\u00ed mesmo, dessa perspectiva, que nasceu o \u201cKaripunagem\u201d. Se voc\u00ea fizer um trabalho de pesquisa a partir do que est\u00e1 escrito \u201coficialmente\u201d, \u00e9 uma hist\u00f3ria de branco, totalmente branco e totalmente do Sul do pa\u00eds. \u00c9 tudo pelo olhar do cara que veio de fora. N\u00e3o tem quase nada com um olhar que parte daqui, sobre os povos daqui. Quando falo do \u201cKaripunagem\u201d, quando tenho uma oportunidade como essa, falo n\u00e3o s\u00f3 das m\u00fasicas, mas pauto essa resist\u00eancia. Essa \u00e9 a grande sacada: falar do \u00e1lbum \u00e9 pautar os povos karipuna, pautar os povos origin\u00e1rios e os povos da floresta. Essa foi a minha estrat\u00e9gia tamb\u00e9m para que eu pudesse falar deles aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como \u00e9 para voc\u00ea, Samuel, viver essa identidade em um lugar que adota uma postura sulista, onde inclusive \u00e9 percept\u00edvel a xenofobia e o racismo? Pergunto n\u00e3o s\u00f3 como artista, mas do ponto de vista pessoal tamb\u00e9m.<\/strong><br \/>\n\u00c9 muito complicado, para mim e para meus outros companheiros que trabalham nessa plataforma de defesa dos povos da floresta. Voc\u00ea imagina que n\u00f3s vivemos numa regi\u00e3o onde se concentra mais garimpo, cria\u00e7\u00e3o de gado e extra\u00e7\u00e3o de madeira \u2013 s\u00f3 perdemos pro sul do Par\u00e1. Enquanto Estado, ele \u00e9 \u201cnovo\u201d, mas \u00e9 um territ\u00f3rio antigo. Rond\u00f4nia s\u00f3 virou Estado em 1981, antes era Territ\u00f3rio Federal do Guapor\u00e9 \u2013 um nome muito bacana, ind\u00edgena, e poderia ter virado Estado do Guapor\u00e9. Mas para voc\u00ea ver o quanto a coloniza\u00e7\u00e3o aqui \u00e9 forte, o estado levou o nome de quem abriu as linhas telegr\u00e1ficas aqui, o Marechal Rondon. Fazer arte aqui \u2013 qualquer arte, n\u00e3o s\u00f3 m\u00fasica, mas literatura, artes pl\u00e1sticas, teatro, audiovisual \u2013 \u00e9 algo em que a gente est\u00e1 tomando os cuidados necess\u00e1rios a todo momento. Pega o pr\u00f3prio &#8220;Karipunagem&#8221; de exemplo: ele \u00e9 um \u00e1lbum musical, mas \u00e9 um \u00e1lbum ativista, porque est\u00e1 denunciando a destrui\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia numa regi\u00e3o onde ela \u00e9 dominada por quem destr\u00f3i, e eles est\u00e3o aqui em todos os espa\u00e7os. Eles comandam o com\u00e9rcio, comandam a ind\u00fastria, a pol\u00edtica do Estado, todos os setores que decidem o dia a dia do rondoniense. Voc\u00ea falou do embranquecimento daqui, e isso porque voc\u00ea n\u00e3o teve oportunidade de descer pro interior de Rond\u00f4nia. Se voc\u00ea sa\u00edsse de Porto Velho e entrasse na primeira cidade na BR, que \u00e9 Ariquemes, ou se chegasse em Vilhena, que \u00e9 a \u00faltima cidade na fronteira com o Mato Grosso, voc\u00ea ia sair estarrecido, porque voc\u00ea ia achar que est\u00e1 em um Estado do Sul! N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 pela cor branca ser predominante: tu ia ver os costumes, o sotaque, a m\u00fasica\u2026 \u00c9 como se eles ainda vivessem no Estado de onde vieram. Muitos deles n\u00e3o tratam Rond\u00f4nia como um estado que pertence \u00e0 Amaz\u00f4nia legal. tratam como se isso aqui fosse um um peda\u00e7o de Santa Catarina, sabe? Tem lugares que voc\u00ea, se voc\u00ea falar sobre Amaz\u00f4nia, se voc\u00ea falar chiando, se disser \u201cman\u00ednho\u201d, se usar o nosso dialeto beradeiro \u2013 voc\u00ea \u00e9 tirado. E a\u00ed a gente se resume \u00e0 capital pra trabalhar nossa musicalidade, mas mesmo assim com muita cautela, porque a gente sabe que vai ser reprimido. N\u00f3s vivemos em um dos estados mais bolsonaristas do Brasil. E junto com isso eles trazem um monte de pr\u00e9-concep\u00e7\u00f5es: s\u00e3o negacionistas, negam que a Amaz\u00f4nia est\u00e1 sendo devastada; enfiaram na cabe\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o um monte de coisa nesse processo colonial que os trouxe at\u00e9 aqui. Minha esposa, Patricia Morais, tamb\u00e9m \u00e9 artista, ela toca forr\u00f3, mas um forr\u00f3 mais amaz\u00f4nico misturado com forr\u00f3 nordestino, em um projeto que se chama Baile do Norte, e est\u00e1vamos brincando um dia desses que \u00e9 louco que a gente tenha que se justificar por tocar a m\u00fasica amaz\u00f4nica em um estado da Amaz\u00f4nia (risos). N\u00e3o tem muitos espa\u00e7os locais que respeitem a musicalidade berad\u00eara. Gra\u00e7as ao trabalho de v\u00e1rios artistas da m\u00fasica, do teatro, da literatura, do cinema, do audiovisual, a gente conseguiu fazer com que essa express\u00e3o se transformasse numa express\u00e3o cultural do portovelhense. A gente tenta mostrar essa musicalidade amaz\u00f4nica para os pr\u00f3prios Estados do Norte, mas tamb\u00e9m para fora, para que as pessoas tamb\u00e9m compreendam que o Brasil tem uma Amaz\u00f4nia aqui em Rond\u00f4nia, porque a gente acaba apagado da Amaz\u00f4nia para o resto do pa\u00eds. As pessoas se voltam muito para Bel\u00e9m do Par\u00e1 e Manaus quando se fala em m\u00fasica amaz\u00f4nica, e fica parecendo que Acre, Rond\u00f4nia, Roraima e Amap\u00e1 n\u00e3o pertencem \u00e0 Amaz\u00f4nia por conta desse processo colonial. Porque sofremos duas coloniza\u00e7\u00f5es: primeiro a dos portugueses, depois essa coloniza\u00e7\u00e3o interna, de quem veio do Sul do pa\u00eds e que de certa forma implementou aqui uma cultura que faz com que os povos nativos tenham vergonha de ser daqui, de fazer sua pr\u00f3pria musicalidade ou falar da sua pr\u00f3pria ancestralidade,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu n\u00e3o tinha essa dimens\u00e3o at\u00e9 ter estado a\u00ed. Mas na hora que cheguei, j\u00e1 no primeiro dia falei:&#8221;parece que estou no interior do Paran\u00e1&#8221; (risos). At\u00e9 porque o projeto urbano de Porto Velho \u00e9 muito parecido com o de cidades de m\u00e9dio porte paranaenses\u2026<\/strong><br \/>\n\u00c9 isso mesmo! N\u00f3s tocamos pelo Sonora Brasil em Londrina, no Paran\u00e1. A\u00ed eu falei pros caras de l\u00e1, falei: &#8220;Mano, se voc\u00eas descerem em Ji-Paran\u00e1 ou em Vilhena, \u00e9 como se voc\u00eas estivessem em Londrina\u201d (risos). Tudo \u00e9 parecido: o centro comercial, as pessoas, as formas, a est\u00e9tica, sabe? Nada com a cara da Amaz\u00f4nia. E essa coisa da est\u00e9tica nossa est\u00e1 mudando, e isso da gente tentar fazer com que ela mude \u00e9 muito novo tamb\u00e9m, entendeu? Porque a est\u00e9tica aqui \u00e9 a est\u00e9tica do sul. Essa \u00e9 a real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 assustador porque isso \u00e9 consequ\u00eancia de um processo muito violento, n\u00e9? De todos os tipos de viol\u00eancia: f\u00edsica, cultural, pol\u00edtica, ambiental\u2026<\/strong><br \/>\nExato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No show do Casar\u00e3o, a quest\u00e3o ambiental chamou aten\u00e7\u00e3o de cara, assim como no disco: a m\u00fasica de abertura j\u00e1 traz isso na lata\u2026<\/strong><br \/>\n(sorri) Sim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas a\u00ed vem uma diferen\u00e7a grande que senti entre o disco e o show. Ao vivo \u00e9 muito mais pesado. No disco eu ou\u00e7o bem a pesquisa que voc\u00ea falou: os ritmos latinos, a guitarrada, o carimb\u00f3, o brega. Mas ao vivo \u00e9 porrad\u00e3o. Tem o groove, tem o sabor amaz\u00f4nico, mas o peso \u00e9 ineg\u00e1vel.<\/strong><br \/>\nA gente tentou buscar no ao vivo uma parada mais visceral, e tamb\u00e9m tem umas quest\u00f5es de amadurecimento. Voc\u00ea grava um \u00e1lbum de um jeito, mas depois que tu vai pro ao vivo, ele muda de forma espont\u00e2nea. Quando tu percebe a vibe do ao vivo e a reciprocidade com a galera, voc\u00ea muda alguma coisinha. E a banda do show n\u00e3o \u00e9 a mesma que gravou o disco. O Jo\u00e3o Luiz (guitarrista) e o Adriano Pato (baixista) n\u00e3o est\u00e3o mais. Quem est\u00e1 comigo agora \u00e9 o Valmir Johnson no baixo e o Watson Nascimento na guitarra, al\u00e9m do J\u00fanior Lopes na bateria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma das minhas preferidas do repert\u00f3rio \u00e9 \u201cValha\u201d, e s\u00f3 quando eu voltei para S\u00e3o Paulo que fiquei sabendo que a frase do refr\u00e3o \u2013 \u201cna boca de quem n\u00e3o presta, eu n\u00e3o valho nada\u201d \u2013 aparece na parede de um pres\u00eddio portovelhense.<\/strong><br \/>\n(sorri) Esse pres\u00eddio \u00e9 a col\u00f4nia penal da Ilha de Santo Ant\u00f4nio. Ele foi constru\u00eddo numa cachoeira que tinha aqui, onde depois foram instaladas hidrel\u00e9tricas. Antes disso eram v\u00e1rias cachoeiras pr\u00f3ximas, e durante a ditadura militar existia essa coisa de construir pres\u00eddios em lugares afastados supostamente para dificultar a fuga dos presos. Quando eu estava fazendo o primeiro material da Quilomboclada, fui ao pres\u00eddio, que j\u00e1 estava abandonado e deteriorado pelo tempo. Em uma parede estava escrito \u201cna boca de quem n\u00e3o presta eu n\u00e3o valho nada\u201d. Eu anotei, fotografei, e decidi trabalhar isso poeticamente numa m\u00fasica. Foi assim que nasceu a \u201cValha\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>De muitas formas, o Nordeste conseguiu fazer um di\u00e1logo da sua cultura com o resto do Brasil. Mas o Norte ainda \u00e9 percebido como algo apartado, ou mesmo esquecido. Existe o custo amaz\u00f4nico, que dificulta muito a circula\u00e7\u00e3o, claro, mas voc\u00ea diria que h\u00e1 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o de preconceito que isola o norte do Brasil?<\/strong><br \/>\nO Brasil s\u00e3o v\u00e1rios \u201cBrasis\u201d, n\u00e9? E alguns desses \u201cBrasis\u201d s\u00e3o muito soberbos, acham que s\u00f3 existe o Brasil dele e nem quer saber dos outros. Tem muitos que classificam o que se faz aqui como uma subcultura, algo que pertence ao Brasil mas n\u00e3o tem relev\u00e2ncia. Al\u00e9m desse preconceito, tem tamb\u00e9m a nossa falta de enfrentamento. Ela n\u00e3o depende s\u00f3 de n\u00f3s artistas, a gente j\u00e1 tem muito trabalho para fazer com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o da nossa arte, da nossa m\u00fasica. Voc\u00ea sabe o trabalho que \u00e9 lan\u00e7ar um \u00e1lbum, criar m\u00fasica, lan\u00e7ar um single. Tudo isso \u00e9 muito complicado, tem custos, etc, e a nossa cadeia produtiva meio que n\u00e3o existe. Ou melhor, existe mas est\u00e1 completamente desarticulada. A\u00ed voc\u00ea tem os que t\u00eam poder de decis\u00f5es, mas eles dependem de uma pauta pol\u00edtica. Tenho conversado muito com a galera de Manaus, do Acre e de Roraima, o discurso \u00e9 o mesmo: os decisores preferem investir n\u00e3o sei quantos milh\u00f5es para uma dupla sertaneja vir tocar aqui, mas n\u00e3o querem investir no artista daqui. \u00c9 tipo assim: eu, como Samuel Pessoa, vou correr, vou lutar para fazer a circula\u00e7\u00e3o do meu \u00e1lbum, mas isso \u00e9 um custo da minha luta para que eu mostre em outras regi\u00f5es do pa\u00eds a musicalidade que \u00e9 feita na mata amaz\u00f4nica, na mata rondoniense. Mas se eu dependesse do espa\u00e7o pol\u00edtico ou cultural dos setores institucionais que s\u00e3o respons\u00e1veis por isso, eu n\u00e3o sairia daqui. Pelo contr\u00e1rio, eu nem gravaria. Pior ainda, eu vou ficar aqui trabalhando num subemprego, porque eles nem consideram que o que eu fa\u00e7o seja arte que pode ser consumida. A percep\u00e7\u00e3o deles sobre cultura \u00e9 deteriorada sem espa\u00e7o para o artista local. Qualquer possibilidade de financiamento para que a gente possa fazer essa circula\u00e7\u00e3o \u00e9 jogada no lixo. O Nordeste, principalmente o Pernambuco, conseguiu se destacar principalmente por conta do movimento manguebeat. N\u00e3o foi s\u00f3 a m\u00fasica do Chico Science \u2013 teve toda uma cadeia, uma uma atmosfera que envolveu jornalistas, produtores, designers, e tamb\u00e9m teve gente de l\u00e1 que viu que se o manguebeat desse certo, seria bom para o Estado. Como de fato foi. Chico andava com a bandeira do Pernambuco, ou seja, ele estava vendendo o estado l\u00e1 no Sul, porque todo mundo dessa atmosfera entendeu o processo, enquanto a gente aqui no Norte ainda est\u00e1 tentando convencer gestor p\u00fablico da import\u00e2ncia de se valorizar um artista local. Mas aqui tem deputado pedindo vista para o or\u00e7amento da Cultura, questionando se n\u00e3o pode ser investido em outras coisas. Imagina como \u00e9 a mentalidade pol\u00edtica da galera daqui, que \u00e9 comandada por uma assembleia legislativa ou por uma c\u00e2mara de vereadores cheia de gente que n\u00e3o \u00e9 local, os caras vieram de fora para c\u00e1. N\u00e3o estou sendo bairrista, n\u00e3o. O que quero dizer \u00e9 que esse tipo de cara n\u00e3o olha para Rond\u00f4nia com a perspectiva de criar uma pol\u00edtica que impulsione a cultura do Estado \u2013 porque na cabe\u00e7a dele n\u00e3o tem uma cultura \u201cv\u00e1lida\u201d no Estado! Esse cara quer aniquilar tudo que ele puder. Como que a gente vai conseguir fazer para nossa m\u00fasica, nossa arte, sair do estado de Rond\u00f4nia? N\u00f3s conseguimos um destaque agora porque a gente circulou pelo maior programa de circula\u00e7\u00e3o musical do pa\u00eds, que \u00e9 o Sonora Brasil, do Sesc. Para n\u00f3s, foi um feito. A galera do audiovisual tamb\u00e9m vai, batalha, produz document\u00e1rio, se inscreve nas mostras de cinema do Brasil e do mundo, ganham pr\u00eamio, e s\u00f3 a\u00ed \u201caparecem\u201d. Mas \u00e9 tudo a partir da a\u00e7\u00e3o dos artistas, entende? S\u00e3o os artistas que fazem esse corre.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Curupiro\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/YFi4tuXmHf0?list=OLAK5uy_lPRQL7n1C0PveVW46bCUTlR5e6RUWT0QY\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"OMNI SESSIONS | Samuel B\u00e9ra - Caboco Digital\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/cW1RATj9TsE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) \u00e9 produtor e<\/em><em>\u00a0autor do livro \u201c<a href=\"https:\/\/editorabarbante.com.br\/produtos\/o-evangelho-segundo-odair-censura-igreja-e-o-filho-de-jose-e-maria\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de Jos\u00e9 e Maria<\/a>\u201c.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Na figura de Samuel B\u00e9ra, os pap\u00e9is de m\u00fasico e ativista se misturam e se complementam, e ambos est\u00e3o a favor da identidade beradeira.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/09\/30\/entrevista-quero-pautar-nas-minhas-musicas-as-defesas-dos-povos-da-floresta-amazonica-avisa-samuel-bera\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":97682,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,4833,3],"tags":[5693,8246],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97681"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=97681"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97681\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":97684,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97681\/revisions\/97684"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/97682"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=97681"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=97681"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=97681"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}