{"id":97608,"date":"2026-09-25T16:33:57","date_gmt":"2026-09-25T19:33:57","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=97608"},"modified":"2026-09-25T16:34:23","modified_gmt":"2026-09-25T19:34:23","slug":"do-deserto-ao-sesc-pompeia-tinariwen-faz-da-guitarra-uma-lingua-sem-fronteiras-em-passagem-sold-out-em-sao-paulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/09\/25\/do-deserto-ao-sesc-pompeia-tinariwen-faz-da-guitarra-uma-lingua-sem-fronteiras-em-passagem-sold-out-em-sao-paulo\/","title":{"rendered":"Do deserto ao Sesc Pompeia, Tinariwen faz da guitarra uma l\u00edngua sem fronteiras em passagem sold out por S\u00e3o Paulo"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de <a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Capelas<\/a><\/strong><br \/>\nfotos\u00a0<strong>de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/pg\/fernandoyokotafotografia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Fernando Yokota<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 um rito que muitos f\u00e3s de m\u00fasica repetem em S\u00e3o Paulo: a caminhada no corredor com ch\u00e3o de paralelep\u00edpedos, entre antigos galp\u00f5es industriais convertidos em espa\u00e7o cultural. Na noite da \u00faltima quinta-feira, 24, por\u00e9m, a chegada ao tradicional palco da comedoria do <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/sescpompeia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sesc Pompeia<\/a> (eleito pelo brit\u00e2nico Guardian <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/artanddesign\/2016\/jan\/08\/10-best-concrete-buildings-architecture-pantheon-gaudi-corbusier\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">um dos melhores edif\u00edcios de concreto do mundo<\/a>) foi um bocado diferente: em meio a uma pequena multid\u00e3o, uma placa avisava: \u201cTinariwen \u2013 Ingressos esgotados\u201d. Um grupo nada desprez\u00edvel de pessoas circulava pelo local com placas, avisos e at\u00e9 mesmo panfletos pendurados em cord\u00f5es de crach\u00e1 dizendo \u201ccompro ingresso\u201d, em busca de uma \u00faltima chance para ver o grupo tuaregue se apresentar na primeira de suas duas datas esgotadas em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A alta procura tinha motivo: os 1600 ingressos para as duas noites do <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tinariwen\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tinariwen<\/a> no Sesc Pompeia sumiram em poucos minutos do site da entidade. Nos dias que antecederam a apresenta\u00e7\u00e3o, houve fluxo intenso de entradas sendo transferidas pelo WhatsApp, num c\u00e2mbio mais movido por rela\u00e7\u00f5es pessoais do que pelo com\u00e9rcio de fato. Ainda assim, n\u00e3o suficiente para atender a demanda dos paulistanos em meio a turn\u00ea do grupo pelo Brasil, que teve ainda passagens por Olinda, Franca e Rio de Janeiro em a\u00e7\u00f5es do <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/mimofestival\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">MIMO Festival<\/a>. Houve at\u00e9 quem tentasse um movimento popular para convencer o Sesc a abrir a porta da antiga choperia, permitindo que quem estivesse de fora pudesse ver ao menos uma fresta do show.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-97615 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/luta.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/luta.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/luta-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">L\u00e1 dentro, outra faixa, com inscri\u00e7\u00f5es sobrepostas a uma bandeira branca, azul, vermelha e amarela, chamava a aten\u00e7\u00e3o de quem passava por ali: \u201cBem-vindo Tinariwen ao Brasil. Vossa luta \u00e9 a nossa luta\u201d. A mesma bandeira voltaria a reaparecer momentos depois, j\u00e1 no palco, quando homens e mulheres de turbantes a entregaram a Abdallah Ag Alhousseyni, um dos seis integrantes do Tinariwen que fizeram parte da apresenta\u00e7\u00e3o no Sesc Pompeia. Pode parecer um mero detalhe, mas ela \u00e9 a chave para entender por que a m\u00fasica do grupo vai muito al\u00e9m dos clich\u00eas batidos de \u201cblues tuaregue\u201d ou \u201cJimi Hendrix no deserto\u201d (algo que Mdou Moctar <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/05\/15\/entrevista-nao-podemos-todos-ser-o-jimi-hendrix-do-deserto-adoro-a-musica-dele-mas-sou-mdou-moctar-diz-o-guitarrista-nigerense\/\">aprofundou aqui mesmo<\/a> no Scream &amp; Yell).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 quem tente dizer que n\u00e3o se deve misturar m\u00fasica e pol\u00edtica. No caso do Tinariwen, isso \u00e9 inevit\u00e1vel: fundador do grupo (e ausente das apresenta\u00e7\u00f5es no Brasil), Ibrahim Ag Alhabib viu seu pai ser morto aos quatro anos de idade, em 1963, durante uma rebeli\u00e3o tuaregue no Mali. \u00c9 uma luta que se estende at\u00e9 os dias de hoje: historicamente espalhados por uma regi\u00e3o que atravessa o Saara e o Sahel, os tuaregues viram seus territ\u00f3rios de circula\u00e7\u00e3o serem divididos pelas fronteiras coloniais e, depois, pelos Estados nacionais surgidos com a descoloniza\u00e7\u00e3o africana \u2013 caso do Mali, mas tamb\u00e9m da Arg\u00e9lia, de Burkina Faso, do N\u00edger e da L\u00edbia.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-97610 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/2026-09-24-Tinariwen-3000px-21.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/2026-09-24-Tinariwen-3000px-21.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/2026-09-24-Tinariwen-3000px-21-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em cada um desses pa\u00edses, os tuaregues tiveram de conviver com diferentes modelos de governo \u2013 no Mali, as rebeli\u00f5es come\u00e7aram porque o governo central do pa\u00eds centralizava a pol\u00edtica e mandava poucos recursos para o Norte, onde vivia o povo berbere. Depois de perder o pai, Ibrahim viveu como refugiado na Arg\u00e9lia, onde construiu sua primeira guitarra com uma lata de \u00f3leo, um fio de freio de bicicleta e um pau de madeira \u2013 a inspira\u00e7\u00e3o, reza a lenda, veio de um filme em que um cowboy tocava o instrumento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ibrahim tamb\u00e9m perambulou por outros pa\u00edses da regi\u00e3o, absorvendo a m\u00fasica da Arg\u00e9lia e do Mali, ao mesmo tempo em que ouvia registros contrabandeados de Bob Dylan, Jimi Hendrix e outros artistas americanos. J\u00e1 adulto, em 1979, ele conseguiu comprar sua primeira guitarra e formou uma banda para tocar em festas e casamentos. No ano seguinte, foi convocado pelo governo l\u00edbio de Muammar Gaddafi para receber treinamento militar, junto de outros jovens tuaregues. Entre exerc\u00edcios e planejamentos, o Tinariwen nasceu como um coletivo de m\u00fasicos, gravando fitas cassetes que circularam pelo Saara.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-97612 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/2026-09-24-Tinariwen-3000px-23.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/2026-09-24-Tinariwen-3000px-23.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/2026-09-24-Tinariwen-3000px-23-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo dos anos seguintes, Ibrahim e outros membros fundadores do grupo, como Alhassane Ag Touhami e Abdallah Ag Alhousseyni, alternaram a carreira musical e a luta armada, at\u00e9 que um acordo de paz em 1991 encerrasse os conflitos e permitisse que eles se dedicassem a gravar o primeiro disco do grupo, \u201cKel Tinariwen\u201d. De l\u00e1 para c\u00e1, foram mais de uma dezena de discos, um Grammy de Melhor \u00c1lbum de World Music em 2012 (seja l\u00e1 o que isso signifique) e m\u00faltiplas colabora\u00e7\u00f5es com nomes como Kurt Vile, Tunde Adebimpe, Mark Lanegan, Nels Cline ou Josh Klinghoffer, al\u00e9m de duas passagens pelo Brasil, em 2011 e 2016.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mais recente cap\u00edtulo dessa hist\u00f3ria \u00e9 o disco \u201cHoggar\u201d (2026), gravado na Arg\u00e9lia, lan\u00e7ado no in\u00edcio deste ano e marcado por uma forte carga pol\u00edtica, em meio ao recrudescimento do conflito no Mali. Hoje, um grupo de separatistas tuaregues busca a independ\u00eancia do pa\u00eds que chamam de Azawad, lutando contra o governo malin\u00eas. Dona da tal bandeira que apareceu no Sesc Pompeia, a Frente de Liberta\u00e7\u00e3o de Azawad (FLA) tamb\u00e9m enfrenta o Africa Corps, estrutura administrada pelo Minist\u00e9rio da Defesa russo que sucedeu a organiza\u00e7\u00e3o paramilitar Wagner Group na regi\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-97611 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/2026-09-24-Tinariwen-3000px-19.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/2026-09-24-Tinariwen-3000px-19.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/2026-09-24-Tinariwen-3000px-19-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez pouco ou nada disso passasse pela cabe\u00e7a de quem esteve no Sesc Pompeia. Entender esses conflitos, por\u00e9m, \u00e9 fundamental para compreender, por exemplo, a aus\u00eancia do fundador Ibrahim Ag Alhabib em S\u00e3o Paulo. H\u00e1 alguns anos, o Tinariwen j\u00e1 n\u00e3o conta com uma forma\u00e7\u00e3o fixa: al\u00e9m do estilo de vida n\u00f4made e da comunica\u00e7\u00e3o ainda dif\u00edcil no deserto, o grupo tem de lidar com quest\u00f5es de fronteiras nacionais para poder viajar. Al\u00e9m disso, a banda ainda tem aberto espa\u00e7o a jovens m\u00fasicos tuaregues, como forma de renovar a mensagem que busca transmitir pelo mundo \u2013 n\u00e3o s\u00f3 de resist\u00eancia, mas tamb\u00e9m de saudade, melancolia e contempla\u00e7\u00e3o da paisagem do deserto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o que a aus\u00eancia do veterano tenha sido gravemente sentida: desde os primeiros acordes, com os rostos por vezes cobertos por turbantes, o grupo impressiona. Quem come\u00e7a cantando \u00e9 Abdallah Ag Alhousseyni, que ao longo da noite se alternar\u00e1 entre o microfone e um viol\u00e3o muito espertamente tocado, com uma \u00e1gil m\u00e3o direita. A mesma t\u00e9cnica ser\u00e1 utilizada pelos outros guitarristas do grupo, o jovem Elaga Ag Hamid (guitarra base) e Iayd Moussa Ben Abderrahmane, respons\u00e1vel tamb\u00e9m por assumir as faixas do ausente decano no palco. \u00c9 o caso da nova \u201cImidiwan Takyadam\u201d, que soa como medita\u00e7\u00e3o na vers\u00e3o em est\u00fadio com Jos\u00e9 Gonzalez, mas ganha ares balan\u00e7ados na vers\u00e3o ao vivo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-97614 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/2026-09-24-Tinariwen-3000px-243.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/2026-09-24-Tinariwen-3000px-243.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/2026-09-24-Tinariwen-3000px-243-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Boa parte do balan\u00e7o, por sua vez, se deve \u00e0 nada discreta cozinha do Tinariwen, composta pelo baixista Cheick Ag Tiglia e pelo percussionista Said Ag Ayad. Enquanto o segundo trabalha de maneira minimalista, mais presente, o baixista \u00e9 respons\u00e1vel por uma profus\u00e3o de notas, fazendo muitas vezes a cama para que seus colegas cantem \u2013 e a plateia dance junto com as m\u00e3os levantadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O grande trunfo do grupo, por\u00e9m, \u00e9 o membro fundador Alhassane Ag Touhami. Na maior parte do espet\u00e1culo, ele se dedica a dan\u00e7ar e cantar de maneira entusiasmada, muitas vezes assumindo o papel de se conectar com a plateia \u2013 uma esp\u00e9cie de Bez tuaregue, para fazer uma aproxima\u00e7\u00e3o nada sutil com o integrante chave do Happy Mondays. \u00c9 quando pega a guitarra e usa todos os dedos, sem palheta, por\u00e9m, que Hassan mostra a que veio. Em faixas como \u201cTahoult\u201d e \u201cTamatant Tilay\u201d, s\u00e3o dele os momentos mais faiscantes do grupo no uso do instrumento. Nelas, se torna mais percept\u00edvel a passagem do Tinariwen pela encruzilhada entre a m\u00fasica berbere e a influ\u00eancia do blues e do rock norte-americanos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-97613 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/2026-09-24-Tinariwen-3000px-40.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/2026-09-24-Tinariwen-3000px-40.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/2026-09-24-Tinariwen-3000px-40-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falar em encruzilhada, por\u00e9m, talvez n\u00e3o seja a melhor maneira de expressar a rota que comp\u00f5e a m\u00fasica do Tinariwen, apesar da figura caber muito bem ao imagin\u00e1rio do blues. A verdade \u00e9 que, no mundo da m\u00fasica, a \u00e1gua que corre por diferentes rios pode ser a mesma \u00e1gua, seja num o\u00e1sis do Saara ou no delta do Mississippi. Em torno da lamenta\u00e7\u00e3o de uma terra perdida, n\u00e3o s\u00f3 no espa\u00e7o, mas tamb\u00e9m no tempo, os tuaregues respeitam a estrutura da can\u00e7\u00e3o, num show que \u00e9 mais circular do que exatamente hipn\u00f3tico ou explosivo. \u00c9 um espet\u00e1culo para dan\u00e7ar e celebrar a vida \u2013 n\u00e3o porque ela \u00e9 boa, mas justamente porque ela \u00e9 dif\u00edcil, como bem ensinou Luiz Ant\u00f4nio Simas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez parte desse car\u00e1ter festivo se deva tamb\u00e9m \u00e0 barreira lingu\u00edstica: apesar da presen\u00e7a de alguns compatriotas do grupo e de um punhado de f\u00e3s capaz de cantar as letras em tamacheque (a l\u00edngua tuaregue), a vasta maioria dos presentes no Sesc Pompeia n\u00e3o exatamente compreende o que o Tinariwen canta. O adv\u00e9rbio da frase anterior poderia ser descartado, mas tem l\u00e1 sua justificativa: afinal, a carga pol\u00edtica pode permanecer ausente para muitos, mas a incompreens\u00e3o tamb\u00e9m faz sobressair a beleza das melodias e harmonias do sexteto. N\u00e3o \u00e0 toa, \u00e9 f\u00e1cil perceber a pot\u00eancia de \u201cAfric Tendam\u201d, que abriu o bis com Abderhammane inicialmente sozinho no palco com sua guitarra, depois acompanhado pelos colegas. \u201c\u00c9 uma can\u00e7\u00e3o para a \u00c1frica\u201d, disse o percussionista Said, em franc\u00eas e depois em ingl\u00eas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-97609 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/2026-09-24-Tinariwen-3000px-11.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/2026-09-24-Tinariwen-3000px-11.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/2026-09-24-Tinariwen-3000px-11-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi um raro momento em que o grupo falou diretamente com a plateia \u2013 na maior parte do tempo, os integrantes do Tinariwen alternaram \u201cobrigado\u201d e \u201cmerci\u201d. N\u00e3o que a comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o tenha funcionado: ap\u00f3s longos pedidos da plateia, o grupo correspondeu o carinho no bis com duas execu\u00e7\u00f5es primorosas de \u201cSastanaqam\u201d e \u201cChaghaybou\u201d, com direito ao baixo de Cheick Ag Tiglia colocando a comedoria toda do Sesc Pompeia para pular e bater palmas. A noite l\u00e1 fora era fria, mas havia muito calor dentro da comedoria \u2013 e a certeza de que assim como os tuaregues se acostumaram a circular pelo deserto, sua arte tamb\u00e9m \u00e9 prova de que a m\u00fasica vai al\u00e9m das fronteiras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O show do Tinariwen \u00e9 tamb\u00e9m uma amostra do que Joey Santiago, guitarrista dos Pixies, confidenciou ao Scream &amp; Yell numa entrevista feita recentemente \u2013 e ainda in\u00e9dita. Questionado sobre o decl\u00ednio das bandas de rock, ele respondeu: \u201ca guitarra el\u00e9trica n\u00e3o vai sumir. Ela \u00e9 um instrumento muito poderoso de express\u00e3o\u201d. Vendo o Tinariwen no palco e pensando em sua hist\u00f3ria da lata de \u00f3leo ao dom\u00ednio da \u00e1gil m\u00e3o direita no Sesc Pompeia, \u00e9 dif\u00edcil discordar.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Tinariwen - Tamatant Tilay @ Sesc Pompeia, S\u00e3o Paulo - 24\/09\/2026\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/FnEkz0FuPP0?list=PLGDwyOgPBK5E\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Bruno Capelas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@noacapelas)<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista. Apresenta o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/programadeindie\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Programa de Indie<\/a>\u00a0e escreve a newsletter\u00a0<a href=\"https:\/\/meusdiscosmeusdrinks.substack.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais<\/a>. Colabora com o Scream &amp; Yell desde 2010.<\/em><br \/>\n<em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/fernandoyokotafotografia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Fernando Yokota<\/a>\u00a0\u00e9 fot\u00f3grafo de shows e de rua. Conhe\u00e7a seu trabalho:\u00a0<a href=\"http:\/\/fernandoyokota.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/fernandoyokota.com.br\/<\/a>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Todas as fotos de Fernando Yokota, exceto a foto da faixa, por <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/ceosoares\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Carlos Soares<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em torno da lamenta\u00e7\u00e3o de uma terra perdida, n\u00e3o s\u00f3 no espa\u00e7o, mas tamb\u00e9m no tempo, os tuaregues respeitam a estrutura da can\u00e7\u00e3o\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/09\/25\/do-deserto-ao-sesc-pompeia-tinariwen-faz-da-guitarra-uma-lingua-sem-fronteiras-em-passagem-sold-out-em-sao-paulo\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":14,"featured_media":97616,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97608"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=97608"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97608\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":97618,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97608\/revisions\/97618"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/97616"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=97608"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=97608"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=97608"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}