{"id":97599,"date":"2026-09-25T01:27:48","date_gmt":"2026-09-25T04:27:48","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=97599"},"modified":"2026-09-25T11:16:13","modified_gmt":"2026-09-25T14:16:13","slug":"entrevista-priscilla-keller-fala-sobre-o-processo-de-criacao-da-encantadora-animacao-papaya","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/09\/25\/entrevista-priscilla-keller-fala-sobre-o-processo-de-criacao-da-encantadora-animacao-papaya\/","title":{"rendered":"Entrevista: Priscilla Keller fala sobre a encantadora anima\u00e7\u00e3o &#8220;Papaya&#8221;, que conta com participa\u00e7\u00e3o de Tulipa Ruiz"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dar vida a objetos inanimados \u00e9 uma caracter\u00edstica das mais am\u00e1veis das anima\u00e7\u00f5es, sejam essas focadas apenas em um p\u00fablico infantil ou aquelas que, invariavelmente, v\u00e3o encantar adultos podendo, inclusive, lev\u00e1-los \u00e0s l\u00e1grimas. Basta observar a vasta gama de personagens que, nos \u00faltimos trinta anos, a gigante Pixar criou em seus mais diversos longas, curtas metragens e, at\u00e9 mesmo, em sua vinheta de apresenta\u00e7\u00e3o com a famosa lumin\u00e1ria Luxo Jr. Muitos desse personagens, em diversos casos, s\u00e3o figurinhas ador\u00e1veis que, mesmo vivas, n\u00e3o conseguem se comunicar com palavras, mas, sim, com sons que remetem a uma linguagem infantil, olhares curiosos ou, simplesmente, sorrisos encantadores. Os sons oriundos de uma primeira inf\u00e2ncia, alias, s\u00e3o, em alguns exemplos, um dos modos mais cativantes de cria\u00e7\u00e3o de personagens animado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Papaya&#8221; (2026), primeiro longa metragem da diretora Priscilla Keller, \u00e9 um desses filmes que encantam. Aqui, a criaturinha que ganha vida \u00e9 uma sementinha de mam\u00e3o, a Papaya do t\u00edtulo, que conhecemos na abertura do longa ainda em seu formato beb\u00ea, sendo amamentada dentro do fruto junto com todos os seus irm\u00e3ozinhos tamb\u00e9m sementes. A rima visual encanta de cara, uma vez que pensar na polpa de um fruto como o mam\u00e3o a partir da ideia de um \u00fatero no qual beb\u00eas mamam em seios da natureza \u00e9 de uma proposta po\u00e9tica palp\u00e1vel. Tendo iniciado a produ\u00e7\u00e3o do filme quando seu pr\u00f3prio filho tinha apenas um ano e meio de idade, a diretora comenta que a maternidade lhe influenciou nesse olhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mundo exterior \u00e9 apresentado para a pequena Papaya a partir do momento em que um p\u00e1ssaro rompe a casca do fruto e seu olhar se v\u00ea diante do da sementinha curiosa. E \u00e9 a partir dessa entrada no mundo dito real que essa curiosidade ser\u00e1 sanada a partir de todos os perigos que a floresta em seu entorno e, consequentemente, o ainda mais perigoso mundo urbano ao qual eventualmente a intr\u00e9pida sementinha chegar\u00e1. Em sua proposta narrativa na qual tais desafios s\u00e3o apresentados de modo epis\u00f3dico, a estrutura de &#8220;Papaya&#8221; se assemelha em parte \u00e0 de outra anima\u00e7\u00e3o nacional, no caso, &#8220;O Menino e o Mundo&#8221;, filme de 2016 com dire\u00e7\u00e3o de Al\u00ea Abreu. N\u00e3o por acaso, Abreu \u00e9 um dos produtores de &#8220;Papaya&#8221; e Priscilla atuou como coordenadora art\u00edstica e assistente de dire\u00e7\u00e3o no filme indicado ao Oscar h\u00e1 dez anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quase psicod\u00e9lico em seu in\u00edcio ainda na floresta e visualmente cativante em suas cores que, como a pr\u00f3pria divulga\u00e7\u00e3o do filme pontuou, remetem aos grafismos latino-americanos e \u00e0s obras do artista pl\u00e1stico franc\u00eas Henri Matisse, &#8220;Papaya&#8221; traz na citada passagem pelos perigos pelos quais se depara nossa hero\u00edna mudan\u00e7as pontuais dessa mesma paleta. Tais altera\u00e7\u00f5es \u00e9 algo que representa bem os desafios na jornada da sementinha beb\u00ea que vai crescendo e se tornando adulta no decorrer de sua trajet\u00f3ria na qual a maturidade lhe \u00e9 for\u00e7ada. Com a cria\u00e7\u00e3o dos membros em seu desenvolvimento, fica evidente visualmente a premissa da sementinha que queria voar, algo que, destinado ao p\u00fablico infantil, ajuda ainda mais a cativar os pequeninos vidrados na plateia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse papo com o Scream &amp; Yell, a cineasta fala sobre o processo de cria\u00e7\u00e3o da anima\u00e7\u00e3o, que conta, ainda com a participa\u00e7\u00e3o de Tulipa e Gustavo Ruiz. Confira!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"PAPAYA | International Trailer | Priscilla Kellen\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/bPNe_cyKMYo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Durante o processo de cria\u00e7\u00e3o do filme, que se iniciou em 2018, seu filho era bem pequeno. A maternidade lhe influenciou nessa cria\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nSem d\u00favida, todo esse ambiente e o universo da maternidade colaborou para o processo criativo e para o desenvolvimento. E acompanhar o desenvolvimento do meu filho, tamb\u00e9m, servia como fonte de refer\u00eancia, de observa\u00e7\u00e3o, insights, para algumas cenas. A pr\u00f3pria cena da amamenta\u00e7\u00e3o era uma que eu tinha muito repert\u00f3rio vivo. E quando comecei a desenvolver o projeto, ele tinha um ano e meio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Verdade. Aquele come\u00e7o, com a cena da amamenta\u00e7\u00e3o das sementes, \u00e9 bem simb\u00f3lico e bonito, poeticamente falando.<\/strong> <strong>Pensar naquela seiva branca do mam\u00e3o como sendo uma amamenta\u00e7\u00e3o para as sementes, foi uma sacada muito bonita.<\/strong><br \/>\nO mam\u00e3o e o mamoeiro, tanto o fruto quanto a seiva, trazem muitas refer\u00eancias. De in\u00edcio, inclusive, uma das minhas ideias era fazer um filme mais adulto, porque, justamente, a imagem do fruto de mam\u00e3o remetia a um \u00fatero ou a uma vulva. Enfim, v\u00e1rias refer\u00eancias. O pr\u00f3prio seio, n\u00e9? E essa ideia das sementes dentro como se fosse um \u00fatero e, ao mesmo tempo, sendo amamentadas e nutridas pela m\u00e3e \u00e1rvore, com certeza estava diretamente ligada e me trazia essa simbologia dessa troca entre m\u00e3e e beb\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 um filme que dialoga muito bem com diversas fases da inf\u00e2ncia, tanto a primeira inf\u00e2ncia, quanto crian\u00e7as mais crescidas e at\u00e9 adolescentes e um p\u00fablico adulto, que, assim como eu, tamb\u00e9m pode se encantar com a hist\u00f3ria. Na cria\u00e7\u00e3o do roteiro, qual foi o foco que voc\u00ea teve nessa nesse impacto em diferentes faixas et\u00e1rias?<\/strong><br \/>\nEu sou uma pessoa que gosta muito de anima\u00e7\u00e3o, mesmo sendo adulta. J\u00e1 fui m\u00e3e aos 36, agora eu estou com 46. Ent\u00e3o, \u00e9 um lugar, um produto que eu gosto. Eu sou uma consumidora de anima\u00e7\u00e3o. E anima\u00e7\u00f5es adultas. Mas sabemos, como produtores de anima\u00e7\u00e3o no Brasil, que o mercado&#8230; Isso n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 no Brasil, t\u00e1? Mas em alguns pa\u00edses, como no Brasil, a anima\u00e7\u00e3o \u00e9 direcionada mais para o p\u00fablico infantil. Ent\u00e3o, o meu cuidado foi mais no sentido de deixar o filme, tamb\u00e9m, palat\u00e1vel para as crian\u00e7as, e n\u00e3o s\u00f3 para os adultos, mas, ao mesmo tempo, trazer outros questionamentos. Por ser um filme autoral e eu sendo mulher sem saber quando que eu ia ter de novo a oportunidade de fazer um filme onde eu pudesse construir a narrativa e trazer as minhas ideias, minha proposta de dire\u00e7\u00e3o de arte, ent\u00e3o, tentei trazer o m\u00e1ximo poss\u00edvel de um olhar para um filme que eu ia gostar de assistir, por exemplo, com o meu filho. Acho que, tamb\u00e9m, tem esse movimento. Quem est\u00e1 cuidando das crian\u00e7as, \u00e0s vezes est\u00e1 ali&#8230; Tem algumas produ\u00e7\u00f5es que parecem meio entretenimento s\u00f3 para segurar a aten\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as enquanto adulto faz outra coisa. N\u00e3o era essa a minha inten\u00e7\u00e3o. Minha inten\u00e7\u00e3o era fazer um uma hist\u00f3ria que a crian\u00e7a pudesse desfrutar na companhia de um adulto e que isso pudesse gerar alguma troca entre os espectadores independente da idade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma pergunta eu queria te fazer \u00e9 acerca da trilha sonora do filme, que \u00e9 da Talita Del Collado. Como foi esse processo de cria\u00e7\u00e3o que, para um filme que n\u00e3o possui di\u00e1logos, ocupa um espa\u00e7o t\u00e3o importante, sendo quase um personagem do filme sendo um guia para que as sensa\u00e7\u00f5es do p\u00fablico se ampliem ainda mais?<\/strong><br \/>\nEu queria fazer um filme sem di\u00e1logos, at\u00e9 porque era uma produ\u00e7\u00e3o de baix\u00edssimo or\u00e7amento. O or\u00e7amento inicial do filme era de menos de R$ 2 milh\u00f5es. Isso \u00e9 um or\u00e7amento muito baixo, ainda mais para a \u00e9poca em que a gente estava, com muitas incerteza dos editais e do que \u00edamos conseguir em termos de capta\u00e7\u00e3o e de composi\u00e7\u00e3o de equipe. Ent\u00e3o,\u00a0 tentei pensar em uma produ\u00e7\u00e3o que fosse visualmente atraente. Acreditei que ia ser mais f\u00e1cil animar uma coisa 2D, mais bidimensional, mas, na verdade, n\u00e3o foi bem assim. Mas eu tinha essa inten\u00e7\u00e3o. E com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 trilha sonora, era justamente pela ideia de fazer um filme sem di\u00e1logo para que ele pudesse viajar o m\u00e1ximo poss\u00edvel, tamb\u00e9m, para as comunidades mais longes, tanto do Brasil quanto da Am\u00e9rica Latina e de outros lugares, at\u00e9 na \u00c1frica. Foi pensando nessa barreira da l\u00edngua. Mesmo dublando o filme para o ingl\u00eas, nem sempre voc\u00ea consegue comunicar com pessoas que vivem uma aldeia e falam algum dialeto. Ent\u00e3o, eu queria que o filme conseguisse comunicar independente da l\u00edngua. Fiz esse exerc\u00edcio do trabalho sonoro, e muito puxando, tamb\u00e9m, para o ambiente sonoro que eu vivia no processo de desenvolvimento. Na \u00e9poca, eu estava morando em lugar bem afastado, ermo, assim, no meio do mato. E quando eu fazia meu filho dormir, eram os momentos em que,normalmente, eu tinha mais tempo para desenvolver roteiro e para desenvolver alguma coisa de arte, do visual. \u00c0s vezes, eu colocava trilha branca, sons de \u00e1gua, sons de chuva, sons de natureza e ficava ouvindo junto para ele embalar no sono enquanto eu estava trabalhando. E tudo isso ia me trazendo tamb\u00e9m uma sensa\u00e7\u00e3o de como \u00e9 ser uma sementinha ali. De ouvir o som de um p\u00e1ssaro de longe. De como seria os sons da natureza sendo ouvidos de dentro de um mam\u00e3o. Uma coisa ia nutrindo a outra. Ent\u00e3o, esses insights de refer\u00eancias sonoras eu ia juntando em pastas no meu computador e, depois, colocando no Animatic. E essa refer\u00eancia sonora, foi a partir dela que os animadores fizeram todo o trabalho de anima\u00e7\u00e3o. Quando a Talita chegou para fazer a trilha, existia uma trilha guia de refer\u00eancia que era um Frankenstein. M\u00fasicas aleat\u00f3rias, sons. Sons de diversos lugares do mundo. Tinha de tudo, v\u00e1rios m\u00fasicos de v\u00e1rios lugares do mundo, mas era s\u00f3 refer\u00eancia. Da\u00ed a Talita ouviu e falou: &#8216;Olha, eu gosto muito. Deu para sentir. Deu para entender o ambiente que voc\u00ea quer criar. Mas como tudo no visual vem para esse lugar mais latino-americano e tem uma brasilidade, eu queria trazer uma brasilidade, tamb\u00e9m, na trilha.&#8221; E essa \u00e9, tamb\u00e9m, a expertise da Talita. Ela tem um trio de forr\u00f3 (N.E. Trio Mana Flor). Ela tem uma pesquisa sonora de Brasil que \u00e9 muito rica. E foi incr\u00edvel porque ela acabou fazendo uma coisa completamente diferente do que eu tinha proposto inicialmente, mas que casou perfeitamente no filme, mesmo ele j\u00e1 estando animado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como foi a entrada da <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?s=Tulipa+Ruiz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tulipa Ruiz<\/a> no projeto?<\/strong><br \/>\nA Tulipa veio para fazer a voz da m\u00e3e. Justamente porque n\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos di\u00e1logos, mas a gente tinha a presen\u00e7a forte da voz da m\u00e3e reverberando pela natureza e, tamb\u00e9m, ajudando a puxar de volta a aten\u00e7\u00e3o da Papaya para o lugar de origem dela, conforme ela ia se afastando da m\u00e3e. E eu sabia que precisaria de uma voz forte, mas que pudesse cantar. Porque a ideia n\u00e3o era ela gritar chamando a Papaya, mas que sua voz reverberasse junto com a natureza formando uma m\u00fasica. E eu sou muito f\u00e3 do trabalho da Tulipa. Vinha acompanhando o trabalho dela e eu sabia que ela tem uma conex\u00e3o muito bonita com a natureza, tamb\u00e9m. Falei: &#8220;Eu acho que \u00e9 a pessoa ideal&#8221;. Ela assistiu ao filme, topou participar fazendo a voz da m\u00e3e e cantar a m\u00fasica em cima da composi\u00e7\u00e3o da Talita. S\u00f3 que, ao assistir ao filme, ela lembrou de uma can\u00e7\u00e3o que o pai dela, o Luiz Chagas, havia composto para uma pe\u00e7a de teatro, que \u00e9 a can\u00e7\u00e3o da Borboleta, e que a m\u00e3e dela cantava como can\u00e7\u00e3o de ninar para ela e para o irm\u00e3o (Gustavo Ruiz). Ent\u00e3o, acho que at\u00e9 por conta do repert\u00f3rio todo do filme, ela voltou l\u00e1 naqueles tempos da inf\u00e2ncia. E eu achei incr\u00edvel a coincid\u00eancia da m\u00fasica. Achei que a letra tinha tudo a ver. E era uma sensa\u00e7\u00e3o que a gente tinha de que podia ter algum alguma coisa verbal, n\u00e3o literal, mas po\u00e9tica, que, tamb\u00e9m, ajudasse a dar um fechamento na narrativa. E foi essa coincid\u00eancia. Eu falei: &#8216;Nossa, essa m\u00fasica \u00e9 muito linda. O que voc\u00eas acham de traz\u00ea-la para o filme?&#8221; E da\u00ed a Tulipa e o Gustavo, que s\u00e3o os filhos do Luiz Chagas, acharam legal, tamb\u00e9m, e nos autorizaram a trazer a m\u00fasica para o filme . A Tulipa cantou e o Gustavo fez os arranjos. \u00c9 a \u00fanica m\u00fasica no filme que n\u00e3o \u00e9 da Talita. Mas, foi isso, assim. Esse presente do destino, das coincid\u00eancias do universo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 legal saber que a Talita possui um trio de forr\u00f3 porque o filme me transportou muito para esse ambiente. Eu sou nordestino, meu pai era muito ligado \u00e0s m\u00fasicas de Luiz Gonzaga e pude me aproximar muito dessas ra\u00edzes musicais com tri\u00e2ngulo, zabumba, sanfona. Em certos momentos, o filme foi me levando por esse caminho.<\/strong><br \/>\nSim, sem d\u00favidas. Eu. tamb\u00e9m. Meu pai \u00e9 sergipano, minha m\u00e3e \u00e9 mineira, eu nasci em S\u00e3o Paulo. A gente \u00e9 meio (a can\u00e7\u00e3o) &#8220;Paratodos&#8221; (de Chico Buarque). E para n\u00f3s, assim, se tivesse um forr\u00f3 na trilha, seria maravilhoso. Quando eu chamei a Talita, tamb\u00e9m j\u00e1 vinha um pouco com essa inten\u00e7\u00e3o de que ela trouxesse. Eu conhecia o trabalho dela no Trio Mana Flor, e n\u00e3o conhecia ainda o trabalho dela em trilhas sonoras, n\u00e3o sabia que ela fazia trilha sonora. E da\u00ed, quando fiquei sabendo, eu falei: &#8220;Gente, fant\u00e1stico, n\u00e9? Vai ser muito bom&#8221;. E eu sinto que ela fez uma coisa\u00a0 inimagin\u00e1vel.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-97601 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Papaya_Stills_4K_200.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"405\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Papaya_Stills_4K_200.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Papaya_Stills_4K_200-300x162.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ainda em rela\u00e7\u00e3o aos aspectos sonoros, na cria\u00e7\u00e3o dos sons da natureza que causam essa imers\u00e3o no p\u00fablico, como foi esse trabalho na produtora musical Submarino Fant\u00e1stico?<\/strong><br \/>\nQuando a Talita comp\u00f4s a trilha, ela j\u00e1 trouxe um ambiente da natureza mesclado ali na trilha. Ent\u00e3o, parte de chuva, meio Nan\u00e1 Vasconcelos, ela j\u00e1 tinha feito. Tinha j\u00e1 uma parte um pouco de p\u00e1ssaros e ela foi compondo junto com isso. Quando o filme chegou para a Submarino Fant\u00e1stico (N.E. Produtora musical baseada em S\u00e3o Paulo), est\u00e1vamos justamente na etapa de grava\u00e7\u00e3o das vozes com a Melissa Garcia, que era diretora de voz dos atores. Eram as vozes do cogumelo, da semente, da m\u00e3e. A Melissa estava em Portugal, mas dirigindo os atores que estavam gravando na Submarino Fant\u00e1stico. Em cima da trilha que da Talita que j\u00e1 estava quase fechada em sua composi\u00e7\u00e3o, o Ingo Andr\u00e9 foi criando novos elementos, mas sempre em di\u00e1logo com essa trilha. As pessoas que faziam as vozes tamb\u00e9m traziam sempre no sentido de combinar com os ru\u00eddos e com a trilha. Eu acho que foi muito legal isso, porque o trabalho acabou saindo bem colaborativo. um olhando para o que o outro tinha feito e todo mundo tentando se comunicar no mesmo universo. E por fim, o trabalho de edi\u00e7\u00e3o de som foi fechado l\u00e1 na Submarino. E a mixagem tamb\u00e9m foi com eles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Seu filme traz aquelas imagens dos mic\u00e9lios se ligando ao solo e eu me lembro que, por coincid\u00eancia, tinha revisto, pouco tempo antes de assistir ao &#8220;Papaya&#8221; o primeiro &#8220;Avatar&#8221;. Houve alguma influ\u00eancia em termos de constru\u00e7\u00e3o de imagens?<\/strong><br \/>\nDo &#8220;Avatar&#8221; especificamente, n\u00e3o. Assisti ao primeiro e n\u00e3o foi um filme assim que ficou tanto em minha na cabe\u00e7a. Mas eu tenho uma conex\u00e3o com a terra. Isso \u00e9 ineg\u00e1vel. Tenho h\u00e1bito de cultivar plantas. \u00c9 o meu hobby principal. E \u00e9 um assunto que tenho interesse. Ent\u00e3o, leio muito sobre isso. E tava num momento tamb\u00e9m de&#8230; \u00c9 que eu gosto muito da coisa toda dos cogumelos no filme. Cheguei at\u00e9 a pensar em produzir cogumelos comest\u00edveis nesse per\u00edodo que me mudei para o meio do mato. Depois, voltei para S\u00e3o Paulo. Mas s\u00e3o ideias que ficam sempre ali orbitando. Acho o reino fungi muito bonito. Porque a gente parece que enxerga os reinos animal, vegetal e mineral, mas temos os fungos ali, tamb\u00e9m, que s\u00e3o outra coisa. As bact\u00e9rias, por exemplo. E no fim das contas, n\u00f3s estamos todos nessa simbiose, nessa troca constante. E nessas pesquisas, meio que por curiosidade, vi que tinha essa rede de comunica\u00e7\u00e3o subterr\u00e2nea das plantas atrav\u00e9s da rede de mic\u00e9lios com os fungos, com alguns cogumelos, com os micro-organismos da terra, e de volta para as plantas. E \u00e0s vezes at\u00e9 para os animais, para os p\u00e1ssaros quando se soltam p\u00f3len. Tudo isso, assim, me dava essa sensa\u00e7\u00e3o de um grande organismo onde estamos inseridos, mas o ser humano tem mania de achar que n\u00e3o est\u00e1 no meio disso tudo. Quis trazer isso para o filme. Ent\u00e3o, foi um pouco desse repert\u00f3rio mesmo de um lugar que eu gosto. \u00c9 um imagin\u00e1rio que me atrai e me d\u00e1 um certo alento para al\u00e9m at\u00e9 de espiritualidades ou ancestralidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E os cogumelos s\u00e3o personagens muito ador\u00e1veis no filme, com aquele momentos em que eles surgem como aquela conex\u00e3o do toque com a terra. Traz todo um aspecto ainda mais po\u00e9tico.<\/strong><br \/>\n\u00c9 tanta coisa que eu tinha vontade de trazer para o filme, mas n\u00e3o d\u00e1 para colocar tudo, porque, sen\u00e3o, fica muito cabe\u00e7udo. Mas, por exemplo, cheguei a fazer algumas experi\u00eancias com sementes de mam\u00e3o durante o desenvolvimento do filme, mas como pesquisa imag\u00e9tica para desenhar, para criar personagem. A semente, quando germina, fica t\u00e3o parecida com o sistema nervoso humano dissecado. N\u00e3o sei se voc\u00ea j\u00e1 viu essa imagem. Quando desseca o ser humano e separa s\u00f3 o sistema nervoso, fica o c\u00e9rebro em cima e todos os nervos at\u00e9 os tend\u00f5es, pontas dos dedos dos p\u00e9s e das m\u00e3os, \u00e9 muito parecido com uma semente com ra\u00edzes, sabe? E essas coisas ficavam me instigando no desenvolvimento. Mas n\u00e3o d\u00e1 para trazer tudo, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas voc\u00ea conseguiu uma \u00f3tima tradu\u00e7\u00e3o visual dessa desse aspecto quando come\u00e7a a germinar os, digamos, membros da Papaya.<\/strong><br \/>\n\u00c9, se a gente v\u00ea esses v\u00eddeos em time-lapse, sempre parece como se a planta fosse um animal se movendo. Ela se move numa outra velocidade, diferente da que a gente compreende.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu vi que est\u00e1 creditado como uma livre inspira\u00e7\u00e3o do livro da Mafalda Zemella , &#8220;Carocinho de Mam\u00e3o&#8221;. Como esse livro chegou a voc\u00ea e como foi o desenvolvimento da ideia a partir desse contato?<\/strong><br \/>\nA Ana Viana era uma grande amiga minha que morava em Santo Ant\u00f4nio do Pinhal, na Serra da Mantiqueira. Quando falei que estava morando no mato, era l\u00e1 que eu estava. Ela \u00e9 uma pessoa muito conectada com a natureza, passarinhos. Ela tinha um jardim imenso, que era meio horta, meio jardim, tudo misturado. E logo que meu filho nasceu, ele estava com 45 dias, eu fui para l\u00e1. E ela me viu nesse&#8230; Ela me viu muito diferente, assim, grudada com um beb\u00ea no meu corpo, praticamente im\u00f3vel e totalmente doada ali para a nutri\u00e7\u00e3o do beb\u00ea. E ela lembrou do livro que a m\u00e3e dela tinha escrito quando ela era crian\u00e7a, ou ela tinha lido quando ela era crian\u00e7a. Mas \u00e9 um livro da d\u00e9cada de 1950 da Mafalda Zemella, que \u00e9 a m\u00e3e da Ana Viana, e que chamava &#8220;Carocinho de Mam\u00e3o&#8221;. Basicamente, na hist\u00f3ria, tinha uma m\u00e3e, a \u00e1rvore de mam\u00e3o, e os filhos, frutos e sementes. E isso j\u00e1, em si, junto com a sensa\u00e7\u00e3o da Ana de me ver nutrindo o meu filho como se eu fosse&#8230; Porque eu estava ali meio im\u00f3vel m\u00f3vel, n\u00e9? Presa, vamos dizer assim. Acho que era essa a sensa\u00e7\u00e3o que ela teve, de que eu estava menos livre e, ao mesmo tempo, em uma doa\u00e7\u00e3o. Eu falei: &#8220;Nossa, acho que essa met\u00e1fora \u00e9 incr\u00edvel para trazer os personagens&#8221;. Por\u00e9m, a hist\u00f3ria n\u00e3o era o tipo de hist\u00f3ria que eu queria trabalhar. At\u00e9 porque, pela \u00e9poca, mesmo, ela tinha outros moldes, mais lobatianos, vamos dizer assim. Ent\u00e3o, tinha um pouco mais de moral, um saci, um bruxo, o bem e o mal, sabe? Tinha um pouco mais disso tudo. E a\u00ed eu me apeguei mais na imagem mesmo dos vegetais serem personagens e n\u00e3o a hist\u00f3ria em si. Por isso que uma livre inspira\u00e7\u00e3o. Porque, sem d\u00favida, esses personagens vieram a\u00ed desse imagin\u00e1rio da Mafalda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas o seu filme acaba trazendo uma reflex\u00e3o importante sobre o aspecto da industrializa\u00e7\u00e3o, sobre o uso do agrot\u00f3xico e sobre a import\u00e2ncia dessa conscientiza\u00e7\u00e3o.<\/strong><br \/>\nExato, mas, ao mesmo tempo, isso tamb\u00e9m era uma preocupa\u00e7\u00e3o minha, sabe? De n\u00e3o colocar as coisas de uma forma, assim, demonizada, n\u00e9? Porque acho que tudo o que a gente, o ser humano, desenvolve como pesquisa cient\u00edfica e de tecnologia, pode ser usado de formas completamente diferentes. Uma mesma descoberta pode ser usada de uma forma totalmente predat\u00f3ria ou de uma forma que seja interessante e nutritiva e sem degradar. Tentei ter esse cuidado. Tanto que, no final, eu acho que o filme traz muito conceito de agrofloresta, n\u00e9? O ser humano tamb\u00e9m est\u00e1 a\u00ed contribuindo com isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 verdade. O filme consegue equilibrar bem esse conceito e termina de forma muito pungente assim, criando esse un\u00edssono mesmo.<\/strong><br \/>\nEsstamos em uma fase na qual n\u00e3o tem como n\u00e3o atentarmos para esse esgotamento dos nossos recursos. Porque n\u00e3o acho que a gente acaba com o planeta, mas a gente se acaba, n\u00e9? E ainda nesse sentido, acho que eu n\u00e3o queria colocar o ser humano na hist\u00f3ria para podermos olhar um pouco mais de fora para o estamos fazendo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-97600 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/papaya.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1102\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/papaya.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/papaya-204x300.jpg 204w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e \u00e9 autor de \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/11\/11\/entrevista-mitico-guitarrista-baiano-alvaro-assmar-ganha-biografia-joao-paulo-barreto-fala-sobre-uma-vida-blues\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Uma Vida Blues<\/a>\u201d, biografia de \u00c1lvaro Assmar.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;A Tulipa veio para fazer a voz da m\u00e3e. Justamente porque n\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos di\u00e1logos, mas a gente tinha a presen\u00e7a forte da voz da m\u00e3e reverberando pela natureza&#8221;, conta a cineasta\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/09\/25\/entrevista-priscilla-keller-fala-sobre-o-processo-de-criacao-da-encantadora-animacao-papaya\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":97602,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,4],"tags":[8388,1848],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97599"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=97599"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97599\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":97607,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97599\/revisions\/97607"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/97602"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=97599"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=97599"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=97599"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}