{"id":97574,"date":"2026-09-24T10:38:25","date_gmt":"2026-09-24T13:38:25","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=97574"},"modified":"2026-09-24T10:38:40","modified_gmt":"2026-09-24T13:38:40","slug":"libertadores-da-america-de-alejandro-droznes-da-aula-de-historia-nas-arquibancadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/09\/24\/libertadores-da-america-de-alejandro-droznes-da-aula-de-historia-nas-arquibancadas\/","title":{"rendered":"Literatura: \u201cLibertadores da Am\u00e9rica\u201d, de Alejandro Droznes, d\u00e1 aula de hist\u00f3ria nas arquibancadas"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de <a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Capelas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Entre est\u00e1dios e viagens pelo continente, trabalho do escritor argentino serve como convite para leitor brasileiro mergulhar na constru\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica do Sul<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O futebol \u00e9 um esporte de estranhas ironias. Quis o destino que o p\u00eanalti batido por um holand\u00eas \u2013 avis rara nos gramados sul-americanos \u2013 impedisse a Ta\u00e7a Libertadores da Am\u00e9rica de registrar um feito hist\u00f3rico em 2026: ter quatro representantes de um mesmo pa\u00eds nas semifinais da competi\u00e7\u00e3o maior do continente. Seria o auge do dom\u00ednio brasileiro no certame, coroando uma sequ\u00eancia de sete anos seguidos com ta\u00e7as levantadas por equipes da Terra de Santa Cruz. Uma hegemonia tamanha que, por vezes, at\u00e9 podemos nos esquecer que h\u00e1 outros times neste cantinho do planeta \u2013 o que n\u00e3o seria exatamente uma novidade, dada a postura isolada do Brasil quanto a seus pares na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em meio a essa coincid\u00eancia, vem a calhar a publica\u00e7\u00e3o no Brasil do curioso \u201c<a href=\"https:\/\/link.amazon\/B0igNKgx6\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Libertadores da Am\u00e9rica<\/a>\u201d, do escritor argentino <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/deamerica_\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Alejandro Droznes<\/a>. \u00c0 primeira vista, poderia se imaginar que \u00e9 um livro sobre a hist\u00f3ria do torneio, uma narrativa cheia de sangue, suor e trapa\u00e7a. Basta folhear o exemplar, por\u00e9m, para se perceber que o volume passa longe dessa inten\u00e7\u00e3o. Em dez cap\u00edtulos, \u201cLibertadores\u201d \u00e9 um misto de relato de arquibancada, di\u00e1rio de viagem e aula de hist\u00f3ria da regi\u00e3o, apresentando ao leitor brasileiro nomes como Jos\u00e9 de San Mart\u00edn, Sim\u00f3n Bol\u00edvar, Juan Lavalle ou Antonio Jos\u00e9 Sucre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo no primeiro cap\u00edtulo, por exemplo, Droznes aproveita uma viagem a Guayaquil para revisitar dois momentos hist\u00f3ricos. Um, bastante pessoal: a semifinal entre o Barcelona local e o seu River Plate pela Libertadores de 1990, uma das primeiras partidas de que o autor se lembra na vida \u2013 o confronto, decidido nos p\u00eanaltis, foi narrado pela imprensa argentina com \u201csuspeitas de corrup\u00e7\u00e3o na arbitragem, agress\u00f5es dos policiais equatorianos aos jogadores argentinos, falta de \u00e1gua e de luz no vesti\u00e1rio dos visitantes, um p\u00eanalti dado de presente ao time local e todo tipo de irregularidade\u201d. Familiar, n\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro, decisivo para a defini\u00e7\u00e3o do continente tal como ele \u00e9 hoje: o encontro entre San Mart\u00edn e Bol\u00edvar \u00e0 beira do rio Guayas. O primeiro, respons\u00e1vel por guiar os ex\u00e9rcitos de Argentina, Chile e Peru nas batalhas contra os espanh\u00f3is, acreditava em pa\u00edses independentes e aut\u00f4nomos. O segundo, vitorioso na liberta\u00e7\u00e3o de Nova Granada (a atual Col\u00f4mbia), Venezuela e da ent\u00e3o Governan\u00e7a de Quito, almejava uma grande p\u00e1tria unificada no que hoje se entende como Grande Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais do que uma celebra\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, a reuni\u00e3o buscava definir o futuro daquela regi\u00e3o espec\u00edfica, opondo duas vis\u00f5es sobre a Am\u00e9rica. Al\u00e9m disso, San Mart\u00edn estava em posi\u00e7\u00e3o delicada: depois de tantas batalhas, suas tropas n\u00e3o estavam mais mobilizadas e fortes o suficiente para encerrar o dom\u00ednio espanhol no continente, expulsando os colonizadores da regi\u00e3o do Alto Peru. O encontro tamb\u00e9m serviu para selar o fato de que seria Bol\u00edvar o respons\u00e1vel pela tarefa \u2013 n\u00e3o \u00e0 toa, o territ\u00f3rio acabou homenageando o libertador na hora de escolher seu nome aut\u00f4nomo: Bol\u00edvia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em vez de simplesmente narrar esses acontecimentos, por\u00e9m, Droznes os tece numa trama de muita sensibilidade, discutindo as muitas vers\u00f5es por tr\u00e1s dos fatos e fazendo perguntas sempre que necess\u00e1rio. \u00c9 essa natureza questionadora, por exemplo, que o leva at\u00e9 Caracas para entender como \u00e9 vivido o futebol no pa\u00eds sul-americano que prefere comemorar <em>home runs<\/em> em vez de gols. Ou que impulsiona o escritor a buscar a kafkiana sede da Confedera\u00e7\u00e3o Sul-Americana de Futebol (Conmebol) em meio \u00e0 cidade de Luque, um sub\u00farbio da capital paraguaia Assun\u00e7\u00e3o. Ou ainda, faz com que ele v\u00e1 at\u00e9 a pequena cidade boliviana de Yacu\u00edba, quase na fronteira com a Argentina, s\u00f3 para testemunhar um jogo da Copa Sul-Americana que nem na TV passou direito.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-97578 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/libertadores4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/libertadores4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/libertadores4-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em todos esses lugares \u2013 e ainda em Potos\u00ed, San Miguel de Tucum\u00e1n ou Riobamba \u2013, a prosa de Droznes cativa pelo cuidado com os detalhes, convidando o leitor a passear com ele entre museus, arquibancadas, quartos de hotel, restaurantes acanhados e rodovi\u00e1rias brutalistas. \u00c9 um livro bastante sensorial, n\u00e3o s\u00f3 pelas descri\u00e7\u00f5es dos gritos de torcidas ou das iguarias gastron\u00f4micas da regi\u00e3o, mas tamb\u00e9m pelo excelente trabalho gr\u00e1fico da <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/pinard.livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">editora Pinard<\/a>, respons\u00e1vel h\u00e1 anos por trazer p\u00e1ginas esquecidas e\/ou subestimadas da literatura latino-americana ao Pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Curiosamente, \u00e9 justamente quando fala do Brasil com maior aten\u00e7\u00e3o que o livro encontra seu ponto fraco. Escrito ao longo de 2018, \u201cLibertadores da Am\u00e9rica\u201d pousa no pa\u00eds em meio \u00e0s oitavas de final do torneio daquele ano, no encontro entre Santos e Club Atl\u00e9tico Independiente \u2013 at\u00e9 hoje, o maior vencedor da Libertadores, com sete ta\u00e7as. Talvez por justamente partir do ponto de vista argentino, Droznes d\u00e1 quase mais import\u00e2ncia ao clube de Avellaneda e sua rivalidade com o Boca Juniors do que ao time de Pel\u00e9, num relato entremeado \u00e0 hist\u00f3ria do Tratado de Tordesilhas e da fuga de Dom Jo\u00e3o VI ao Brasil no s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar da pisada na bola \u2013 talvez de menor import\u00e2ncia para os brasileiros justamente num livro que tem para n\u00f3s o m\u00e9rito maior de evidenciar nossos vizinhos \u2013, o escritor chuta no \u00e2ngulo numa das quest\u00f5es centrais da nossa identidade nacional. \u201cNo caso do Brasil, a independ\u00eancia ocorreu porque o filho do rei desobedeceu a seu pai. As coisas aconteceram assim. Portanto, v\u00e1 l\u00e1 saber o que os brasileiros entendem por \u2018Libertadores\u2019\u201d, brinca o argentino. (Em tempo, vale o adendo: no curto mas informativo pref\u00e1cio, o historiador Mat\u00edas Pinto faz um contraponto \u00e0 narrativa do hermano com uma coincid\u00eancia curiosa. Poucos lugares lutaram mais pela independ\u00eancia do Brasil que a Bahia \u2013 e talvez n\u00e3o seja \u00e0 toa que o time que d\u00e1 nome ao Estado tenha sido o primeiro representante do pa\u00eds no torneio continental, l\u00e1 em 1960).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A literatura tamb\u00e9m \u00e9 um lugar de estranhas ironias: quis o destino que, justamente no ano em que Droznes escrevia seu livro, uma briga entre as torcidas do Boca Juniors e do River Plate levasse a decis\u00e3o da Libertadores da Am\u00e9rica para a capital da metr\u00f3pole de s\u00e9culos atr\u00e1s: Madri. Era um retorno, mas tamb\u00e9m uma despedida: a partir do ano seguinte, a final\u00edssima do torneio seria disputada em jogo \u00fanico e campo neutro. Houve quem acreditasse que era o come\u00e7o do fim \u2013 afinal, com uma entidade t\u00e3o esdr\u00faxula quanto a Conmebol, n\u00e3o seria surpreendente que o jogo decisivo do mais latino dos trof\u00e9us come\u00e7asse a ser disputado em Miami, \u201cperto dos EUA e longe de Deus\u201d. Felizmente, n\u00e3o foi o que aconteceu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Organizada em apenas dez dias, a final disputada no Santiago Bernab\u00e9u deu a Droznes a chance de encerrar seu livro com uma singular poesia aprendida em anos e anos de cancha, em uma noite em que a antiga col\u00f4nia pode ocupar o cora\u00e7\u00e3o da metr\u00f3pole. Quis tamb\u00e9m o destino que aquela tenha sido a \u00faltima vez que o grito de \u201ccampe\u00f3n!\u201d ecoou pelo continente \u2013 e se os tempos parecem ter mudado, eis aqui um bom livro para recordar as gl\u00f3rias e trag\u00e9dias eternas da Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-97576 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/libertadores3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"938\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/libertadores3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/libertadores3-240x300.jpg 240w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Bruno Capelas (<a href=\"https:\/\/x.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@noacapelas<\/a>)\u00a0\u00e9 jornalista. Apresenta o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/programadeindie\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Programa de Indie<\/a>\u00a0e escreve a newsletter\u00a0<a href=\"https:\/\/meusdiscosmeusdrinks.substack.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais<\/a>. Colabora com o Scream &amp; Yell desde 2010.<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/igrmllr\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00a0Igor M\u00fcller<\/a>\u00a0\u00e9 locutor de r\u00e1dio e um dos respons\u00e1veis pelo\u00a0Programa de Indie.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Entre est\u00e1dios e viagens pelo continente, trabalho do escritor argentino serve como convite para leitor brasileiro mergulhar na constru\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica do Sul\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/09\/24\/libertadores-da-america-de-alejandro-droznes-da-aula-de-historia-nas-arquibancadas\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":14,"featured_media":97575,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,9],"tags":[8385,8331],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97574"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=97574"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97574\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":97580,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97574\/revisions\/97580"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/97575"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=97574"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=97574"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=97574"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}