{"id":97556,"date":"2026-09-22T00:37:34","date_gmt":"2026-09-22T03:37:34","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=97556"},"modified":"2026-10-13T00:15:37","modified_gmt":"2026-10-13T03:15:37","slug":"festival-de-brasilia-onde-moram-os-irmaos-de-marisa-mendonca-e-erguido-com-um-estilo-muito-proprio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/09\/22\/festival-de-brasilia-onde-moram-os-irmaos-de-marisa-mendonca-e-erguido-com-um-estilo-muito-proprio\/","title":{"rendered":"Festival de Bras\u00edlia: &#8220;Onde Moram os Irm\u00e3os&#8221;, de Marisa Mendon\u00e7a, \u00e9 erguido com um estilo muito pr\u00f3prio"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leandro Luz<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 uma m\u00e1xima repetida \u00e0 exaust\u00e3o por espectadores de cinema por mais de um s\u00e9culo e que perdura ainda hoje: \u201cfilme bom \u00e9 aquele no qual nem sentimos o tempo passar\u201d. Que o peso do cinema cl\u00e1ssico narrativo impera sobre os nossos h\u00e1bitos, isso \u00e9 sabido, mas como se desvencilhar desse modo dominante de ver? De que maneiras os filmes podem contribuir para que os perscrutemos com os olhos mais livres?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cOnde Moram os Irm\u00e3os\u201d (<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/marisamendoncam\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marisa Mendon\u00e7a<\/a>, 2026) \u00e9 um belo exemplo de como o cinema pode se libertar desses v\u00edcios. L\u00edvia \u00e9 uma mulher de 40 anos que mora no escrit\u00f3rio dos pais. Sua fam\u00edlia vive um luto que imobiliza a todos &#8211; ela, sua m\u00e3e e, sobretudo, seu pai, alco\u00f3latra e em depress\u00e3o. \u00c0 L\u00edvia \u00e9 destinada a responsabilidade de cuidar dos neg\u00f3cios da fam\u00edlia, um sem-n\u00famero de apartamentos que precisam ser bem administrados para que n\u00e3o deem preju\u00edzo aos propriet\u00e1rios. Alguns im\u00f3veis possuem inquilinos h\u00e1 d\u00e9cadas, mais ou menos problem\u00e1ticos e dif\u00edceis de se lidar, outros est\u00e3o desocupados, acumulando d\u00edvidas de IPTU e de condom\u00ednio. Para preservar a sa\u00fade financeira familiar, L\u00edvia precisa estar sempre em movimento, fincando placas de \u201caluga-se\u201d nos canteiros do Plano Piloto de Bras\u00edlia e realizando visitas aos apartamentos vagos. Sa\u00fade, ali\u00e1s, \u00e9 um dos principais temas trabalhados pela diretora, em suas m\u00faltiplas possibilidades: financeira, mental e f\u00edsica.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-97559 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/foto-2-rafael-ribeiro-gontijo.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/foto-2-rafael-ribeiro-gontijo.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/foto-2-rafael-ribeiro-gontijo-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marisa Mendon\u00e7a n\u00e3o rejeita o cinema narrativo, mas suas inten\u00e7\u00f5es est\u00e3o menos ligadas ao encadeamento l\u00f3gico dos eventos e mais conectadas a um racioc\u00ednio espiralar. Ao acompanhar as desventuras da protagonista, o espectador nota rapidamente que est\u00e1 diante de uma narrativa quase kafkiana. Os sucessivos problemas enfrentados por L\u00edvia n\u00e3o ir\u00e3o acabar de repente. A corda esticada entre o final feliz e a trag\u00e9dia cria uma ang\u00fastia tremenda. Mendon\u00e7a escolhe uma terceira via, como se a corda estourasse para cima ou para baixo, e nunca para um ou para o outro lado j\u00e1 definidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de suas refer\u00eancias orbitarem o cinema cru e centrado nos atores de John Cassavetes e a deambula\u00e7\u00e3o t\u00edpica dos personagens criados pelo coerano Hong Sang-soo, \u201cOnde Moram os Irm\u00e3os\u201d \u00e9 erguido com um estilo muito pr\u00f3prio. Para Mendon\u00e7a, parece fundamental que o espectador sinta, experiencie, viva a dura\u00e7\u00e3o de seu filme. S\u00f3 assim ser\u00e1 poss\u00edvel vivenciar tamb\u00e9m a ansiedade de L\u00edvia, interpretada com brilhantismo por Liliane Rovaris &#8211; certamente a atua\u00e7\u00e3o mais inspirada entre todas nesta edi\u00e7\u00e3o do Festival de Bras\u00edlia -, a frustra\u00e7\u00e3o de sua m\u00e3e, interpretada por Maria Paula Freitas, e a c\u00f3lera de seu pai, vivido por Marcio Vieira. O trio de atores faz dessa rela\u00e7\u00e3o familiar \u00e1spera algo \u00edmpar no cinema brasileiro recente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algumas pessoas poder\u00e3o comparar tamb\u00e9m com \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/10\/18\/tres-filmes-do-26o-festival-do-rio-malu-apocalipse-nos-tropicos-os-afro-sambas-o-brasil-de-baden-e-vinicius\/\">Malu<\/a>\u201d (Pedro Freire, 2024), cuja \u00f3tima interpreta\u00e7\u00e3o de Yara de Novaes tamb\u00e9m trazia \u00e0 tona qualidades e desafios semelhantes. Embora o filme de Mendon\u00e7a navegue por traumas aparentemente t\u00e3o irreconcili\u00e1veis e duros como os vividos pelos personagens criados por Freire, h\u00e1 aqui uma consci\u00eancia plena da escolha pela n\u00e3o psicologiza\u00e7\u00e3o das coisas. Rovaris encara a sua L\u00edvia com uma t\u00e9cnica que privilegia o corpo ao intelecto. Nunca conseguimos invadir a cabe\u00e7a da personagem porque o filme nos nega essa interioriza\u00e7\u00e3o. Ao inv\u00e9s disso, Mendon\u00e7a nos d\u00e1 as pernas desengon\u00e7adas, os ossos cansados, os l\u00e1bios crispados e o cenho cerrado de L\u00edvia. Nos d\u00e1 tamb\u00e9m a sua \u00e2nsia por se relacionar com o pr\u00f3ximo. Car\u00eancia e desespero s\u00e3o presum\u00edveis, claro, mas \u00e9 a materializa\u00e7\u00e3o de seu sorriso t\u00edmido que conta mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temas como as contradi\u00e7\u00f5es de Bras\u00edlia, a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e os conflitos geracionais est\u00e3o presentes e amarram essa espiral de acontecimentos. Na medida em que a narrativa avan\u00e7a, L\u00edvia se v\u00ea cada vez mais presa em um beco sem sa\u00edda. Entre as trapalhadas que se mete &#8211; umas com consequ\u00eancias mais graves do que outras &#8211; ainda \u00e9 concedida \u00e0 personagem, ao final, algum horizonte, mesmo que n\u00e3o tenhamos certeza do qu\u00e3o longe est\u00e1 do abismo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Onde moram os irm\u00e3os - Trailer\" src=\"https:\/\/player.vimeo.com\/video\/1216481956?dnt=1&amp;app_id=122963\" width=\"747\" height=\"420\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; fullscreen; picture-in-picture; clipboard-write; encrypted-media; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\"><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tom predominante em \u201cOnde Moram os Irm\u00e3os\u201d \u00e9 arriscado, longe das facilidades de comunica\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico, e ao mesmo tempo \u00e9 o que o torna t\u00e3o instigante, o que nos leva a permanecer em contato com ele para al\u00e9m da sess\u00e3o. Marisa Mendon\u00e7a, aliada a Rafael Ribeiro Gontijo, seu diretor de fotografia, quase sempre manipula a c\u00e2mera da maneira mais ben\u00e9fica aos interesses dram\u00e1ticos do filme. Uma exce\u00e7\u00e3o \u00e9 a cena do pai jogando sinuca e perdendo as estribeiras com uma tia que quer impedir a audi\u00e7\u00e3o de sua m\u00fasica favorita. O disco \u201cNa Quadrada das \u00c1guas Perdidas\u201d, lan\u00e7ado em 1979, segundo do cultuado violeiro e compositor baiano Elomar, gira no toca-discos da fam\u00edlia e faz ressoar alto a melanc\u00f3lica \u201cCampo Branco\u201d. \u00c9 neste instante de indigna\u00e7\u00e3o que a c\u00e2mera se desestabiliza junto com a desestabiliza\u00e7\u00e3o do personagem. Um ato de redund\u00e2ncia um tanto quanto alien\u00edgena ao que v\u00edamos at\u00e9 o momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A m\u00fasica de Elomar \u00e9 tocada mais de uma vez durante o filme, o que nos leva a prestar ainda mais aten\u00e7\u00e3o em sua letra. Logo no in\u00edcio da can\u00e7\u00e3o, ele canta, com o seu linguajar inconfund\u00edvel: \u201ccampo branco minhas penas que pena secou \/ todo o bem qui n\u00f3is tinha era a chuva, era o amor \/ num tem nada n\u00e3o, n\u00f3is dois vai penano assim \/ campo lindo, ai que tempo ruim \/ tu sem chuva e a tristeza em mim\u201d. Mais tarde, na m\u00fasica, a frase \u201cmeu dia inda vai nascer\u201d d\u00e1 uma dica para interpretarmos o fim do longa-metragem. Ap\u00f3s uma cena delicada de m\u00e3e e filha caminhando por uma trilha &#8211; um dos \u00fanicos momentos de respiro com a natureza, longe do concreto e das constru\u00e7\u00f5es imponentes de Bras\u00edlia -, \u00e9 novamente a lembran\u00e7a da m\u00fasica de Elomar que nos resgata. Que nas\u00e7a outro dia, tempestuoso ou ensolarado, para L\u00edvia e os seus.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-97557 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Cartaz-OMOI-1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1116\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Cartaz-OMOI-1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Cartaz-OMOI-1-202x300.jpg 202w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Leandro Luz (<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\/&amp;source=gmail&amp;ust=1743510468220000&amp;usg=AOvVaw2y1ecqCW_KBoFqtTKVBQEK\">@leandro_luz<\/a>) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a \u00e1rea de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programa\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de cr\u00edtica no\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/screamyell.com.br\/site\/&amp;source=gmail&amp;ust=1743510468220000&amp;usg=AOvVaw263alYeTRQy1GYVR0TXsQG\">Scream &amp; Yell<\/a>\u00a0e nos podcasts\u00a0<a href=\"https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/tudoebrasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/tudoebrasil&amp;source=gmail&amp;ust=1743510468220000&amp;usg=AOvVaw1BTqnliQ9DvtqDHkpafqt5\">Tudo \u00c9 Brasil<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia&amp;source=gmail&amp;ust=1743510468220000&amp;usg=AOvVaw3TjpLW5o8SaVAAdNU3jD2Z\">Plano-Sequ\u00eancia<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/1disco1filme-podcast\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/creators.spotify.com\/pod\/show\/1disco1filme-podcast&amp;source=gmail&amp;ust=1743510468220000&amp;usg=AOvVaw3DtKMpqv1bp5QVCI6MvWbM\">1 disco, 1 filme<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Marisa Mendon\u00e7a n\u00e3o rejeita o cinema narrativo, mas suas inten\u00e7\u00f5es est\u00e3o menos ligadas ao encadeamento l\u00f3gico dos eventos e mais conectadas a um racioc\u00ednio espiralar.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/09\/22\/festival-de-brasilia-onde-moram-os-irmaos-de-marisa-mendonca-e-erguido-com-um-estilo-muito-proprio\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":137,"featured_media":97558,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7550,4],"tags":[8363,8382],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97556"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/137"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=97556"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97556\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":97560,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97556\/revisions\/97560"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/97558"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=97556"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=97556"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=97556"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}