{"id":97524,"date":"2026-09-21T00:53:37","date_gmt":"2026-09-21T03:53:37","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=97524"},"modified":"2026-09-21T00:55:18","modified_gmt":"2026-09-21T03:55:18","slug":"entrevista-kiko-dinucci-lanca-medusa-e-diz-que-a-possibilidade-de-me-surpreender-me-mantem-vivo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/09\/21\/entrevista-kiko-dinucci-lanca-medusa-e-diz-que-a-possibilidade-de-me-surpreender-me-mantem-vivo\/","title":{"rendered":"Entrevista: Kiko Dinucci lan\u00e7a novo disco, &#8220;Medusa&#8221;, e diz que &#8220;a possibilidade de me surpreender me mant\u00e9m vivo&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Lisboa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/kikodinucci\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Kiko Dinucci<\/a> voltou \u00e0 guitarra para fazer um disco de amor \u2014 e encontrou no ru\u00eddo, na experimenta\u00e7\u00e3o e na ruptura uma maneira de falar sobre ele. Em \u201c<a href=\"https:\/\/orcd.co\/medusa_kiko_dinucci\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Medusa<\/a>\u201d (2026), seu novo \u00e1lbum, o m\u00fasico parte de uma rela\u00e7\u00e3o pouco convencional com o instrumento para construir um trabalho que combina guitarras atmosf\u00e9ricas, acordes abertos, texturas, disson\u00e2ncias e can\u00e7\u00f5es. \u00c9 um movimento diferente de \u201cRastilho\u201d (2020), disco que ampliou a repercuss\u00e3o de sua obra e que tinha no viol\u00e3o ac\u00fastico, explorado tamb\u00e9m como instrumento percussivo, uma de suas principais marcas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ruptura aparece tamb\u00e9m na forma de compor. Em \u201c<a href=\"https:\/\/orcd.co\/medusa_kiko_dinucci\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Medusa<\/a>\u201d, Dinucci afirma estar escrevendo letras de outro jeito e explorando a guitarra a partir de possibilidades que ainda n\u00e3o havia percorrido. O instrumento deixa de ser apenas uma ferramenta harm\u00f4nica para assumir diferentes fun\u00e7\u00f5es: pode soar como percuss\u00e3o, baixo ou simplesmente como uma massa sonora. \u00c9 uma concep\u00e7\u00e3o que passa por refer\u00eancias como Sonic Youth, Glenn Branca, Kevin Shields (My Bloody Valentine) e Jimi Hendrix e por uma ideia que o m\u00fasico considera fundamental: mais do que o dom\u00ednio t\u00e9cnico, interessa a capacidade de inventar. \u201cEu gosto muito da ideia de transformar a guitarra em outras coisas\u201d, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar do car\u00e1ter experimental, \u201c<a href=\"https:\/\/orcd.co\/medusa_kiko_dinucci\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Medusa<\/a>\u201d n\u00e3o abandona a can\u00e7\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio: Dinucci enxerga a pr\u00f3pria can\u00e7\u00e3o como um campo de experimenta\u00e7\u00e3o e estabelece um di\u00e1logo direto com a tradi\u00e7\u00e3o da m\u00fasica brasileira, de Chiquinha Gonzaga e da era do r\u00e1dio a Jo\u00e3o Gilberto e Tom Jobim. Ao mesmo tempo, aproxima esse repert\u00f3rio de elementos do rock alternativo, do piseiro e do arrocha. Em \u201cC\u00e3o Perdido\u201d, por exemplo, a presen\u00e7a de uma bateria de piseiro entre guitarras de rock n\u00e3o foi pensada como ironia ou provoca\u00e7\u00e3o. \u201cEu gosto muito desse choque, mas ele \u00e9 bem natural. N\u00e3o foi feito para chocar\u201d, diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O t\u00edtulo do \u00e1lbum surgiu a partir de \u201c\u00c1gua Viva\u201d, parceria com Sophia Chablau, e acabou reunindo tr\u00eas imagens diferentes para o m\u00fasico: a Medusa mitol\u00f3gica, a \u00e1gua-viva e a \u201cMedusa\u201d usada nos palcos para concentrar os sinais dos instrumentos e encaminh\u00e1-los ao sistema de som. A figura do animal marinho, em particular, tornou-se uma met\u00e1fora para o amor que atravessa o disco \u2014 uma for\u00e7a capaz de provocar desejo, frustra\u00e7\u00e3o, ci\u00fame e conflito, mas tamb\u00e9m de \u201cqueimar por impulso\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As parcerias seguem essa l\u00f3gica de deslocamento. Ju\u00e7ara Mar\u00e7al, Cadu Ten\u00f3rio, Romulo Fr\u00f3es, Guilherme Held, Paola Ribeiro, Podeserdesligado e outros convidados n\u00e3o aparecem apenas como participa\u00e7\u00f5es, mas como agentes de transforma\u00e7\u00e3o das m\u00fasicas. Depois de realizar cerca de 90% do \u00e1lbum sozinho, em um processo que considerava solit\u00e1rio e limitador, Dinucci passou a enxergar esses encontros como \u201cuma esp\u00e9cie de interfer\u00eancia\u201d: maneiras de perder parte do controle e permitir que outras ideias entrassem no disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre as faixas est\u00e3o ainda \u201cFantasmagoria IV\u201d e \u201cSegundo Eterno\u201d, compostas originalmente para pe\u00e7as de Felipe Hirsch, que ganharam nova vida no \u00e1lbum. H\u00e1 tamb\u00e9m registros de celular feitos no momento em que algumas can\u00e7\u00f5es acabavam de nascer, preservando uma dimens\u00e3o crua e insegura do processo de composi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta entrevista, Kiko Dinucci fala sobre a constru\u00e7\u00e3o de \u201c<a href=\"https:\/\/orcd.co\/medusa_kiko_dinucci\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Medusa<\/a>\u201d, sua rela\u00e7\u00e3o com a guitarra, a tradi\u00e7\u00e3o da can\u00e7\u00e3o brasileira, o di\u00e1logo entre m\u00fasica popular e experimenta\u00e7\u00e3o, as parcerias e a necessidade de seguir buscando caminhos que ainda n\u00e3o conhece. Uma inquieta\u00e7\u00e3o aparece como fio condutor de sua trajet\u00f3ria: \u201cO que me move \u00e9 a curiosidade de ser surpreendido por mim mesmo.\u201d<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"C\u00e3o Perdido\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/V3ZSsAgvYcA?list=OLAK5uy_nVFjoRkq8rLOZSpI1O5JOwRjqIgQySqP8\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quero come\u00e7ar falando sobre \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/05\/16\/ao-vivo-com-o-poderoso-rastilho-como-fio-condutor-kiko-dinucci-lanca-luz-sobre-o-apagamento-do-povo-preto-em-sao-paulo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Rastilho<\/a>\u201d. Ele veio num momento muito interessante da sua carreira e, de certa forma, acabou ressignificando o seu trabalho pela ampla repercuss\u00e3o que teve. Voc\u00ea v\u00ea \u201cMedusa\u201d como uma continuidade daquele trabalho ou como uma esp\u00e9cie de ruptura?<\/strong><br \/>\nEu acho que \u00e9 ruptura. A \u00fanica coisa que os dois t\u00eam em comum \u00e9 uma certa viol\u00eancia que existe nos dois trabalhos. Mesmo \u201cRastilho\u201d, sendo um trabalho de viol\u00e3o ac\u00fastico, \u00e9 um disco muito violento no jeito de tocar, no modo como o viol\u00e3o se camufla de percuss\u00e3o, muitas vezes de bateria, de baixo. Mas \u201cMedusa\u201d \u00e9 uma ruptura no sentido de que estou compondo de outro jeito, escrevendo letras de outro jeito, tocando de outro jeito a guitarra. Se voc\u00ea pegar o meu outro disco em que eu toco guitarra, \u201cCortes Curtos\u201d (2017), n\u00e3o tem nada a ver com esse. \u201cCortes Curtos\u201d tem uma pegada meio p\u00f3s-punk do Gang of Four. O \u201cMedusa\u201d tem mais acordes, coisa que n\u00e3o costuma ter muito na minha obra: eu tocando acordes e cantando em cima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Geralmente, a minha marca registrada s\u00e3o os baixos, os riffs, as linhas mel\u00f3dicas. Isso aparece um pouco na primeira (m\u00fasica de \u201cMedusa\u201d), em \u201cC\u00e3o Perdido\u201d, na linha, no riff. Mas depois, no decorrer do disco, a guitarra vai se dissolvendo em acordes abertos. Ent\u00e3o, para mim, ele significa quase o contr\u00e1rio de \u201cRastilho\u201d. Nas letras tamb\u00e9m, fazendo um disco rom\u00e2ntico, mas com uma vis\u00e3o um pouco atormentada, talvez. E essas guitarras mais atmosf\u00e9ricas, mais abertas, sinto como se nunca tivesse feito isso. Sinto um frescor de novos caminhos. Ou\u00e7o o disco e penso: realmente, \u00e9 um caminho que eu nunca tinha percorrido. L\u00f3gico que eu tenho intimidade com a guitarra, com o barulho, com o experimentalismo, mas esse disco se manifesta de um outro jeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Falando de guitarra, j\u00e1 que voc\u00ea entrou no assunto do instrumento em si, em \u201cMedusa\u201d, a guitarra volta a ocupar um lugar muito espec\u00edfico no disco, de protagonismo. E, falando da sua rela\u00e7\u00e3o com o instrumento, o que voc\u00ea busca enquanto guitarrista e compositor? Porque voc\u00ea vai para uma forma que vai al\u00e9m do tradicional de pensar a guitarra como um instrumento harm\u00f4nico. Voc\u00ea acha que existe uma dimens\u00e3o f\u00edsica, corporal? Voc\u00ea j\u00e1 falou at\u00e9 do aspecto percussivo na maneira como utiliza o instrumento.<\/strong><br \/>\nEu tenho uma rela\u00e7\u00e3o com a guitarra em que n\u00e3o gosto muito de guitarristas. Eu nunca fui f\u00e3. Quando me perguntam quais s\u00e3o os meus guitarristas prediletos, n\u00e3o tem nenhum virtuoso na lista. Eu gosto do Tom Verlaine, do Television, por exemplo. N\u00e3o \u00e9 nenhum virtuoso, mas eu vejo nele uma inven\u00e7\u00e3o, um jeito de inventar. <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2006\/09\/07\/cinco-shows-em-uma-semana\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O pr\u00f3prio cara do Gang of Four<\/a> tamb\u00e9m \u2014 at\u00e9 esqueci o nome dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Andy Gill?<\/strong><br \/>\n\u00c9, Andy Gill. Ele tinha jeito de tocar muito inventivo, que n\u00e3o tem a ver com dom\u00ednio t\u00e9cnico. Tem mais a ver com dom\u00ednio criativo. Esses caras foram muito mais criativos. A\u00ed eu acho que tem um certo conflito meu com a guitarra. Nunca gostei daquela guitarra blues, de solos r\u00e1pidos, muito menos daquele tipo de guitarrista como Joe Satriani e Steve Vai. Acho muito cafona esse jeito de tocar guitarra. E, \u00e0s vezes, quando ou\u00e7o guitarra, fico trist\u00edssimo, porque \u00e9 um instrumento cafona que pode acabar com um disco ou com uma m\u00fasica inteira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Me acostumei a pensar na guitarra mais como arte. Ent\u00e3o talvez o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?s=Sonic+Youth\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sonic Youth<\/a> tenha aparecido um pouco nesse sentido. Quando conheci o Sonic Youth, eu estava imerso nas bandas de hardcore, e o Sonic Youth tinha aquela energia do hardcore, mas tamb\u00e9m tinha uma proposta de inova\u00e7\u00e3o com as afina\u00e7\u00f5es que eles usavam, uma inova\u00e7\u00e3o de sonoridade e no jeito de come\u00e7ar a fazer can\u00e7\u00e3o. Num certo per\u00edodo da carreira deles, come\u00e7aram a flertar com a m\u00fasica pop, com a can\u00e7\u00e3o, e eu achava muito interessante aquele conflito, muito harmonioso, entre o experimental e o pop. Comecei a prestar aten\u00e7\u00e3o nisso. Ent\u00e3o eu gosto muito da ideia de transformar a guitarra em outras coisas. Como falei, pode ser uma percuss\u00e3o, pode ser baixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembro que, quando o Victor Rice mixou \u201cMulher do Fim do Mundo\u201d (2015), da Elza Soares, ele escreveu para o Castor, o produtor, e falou: \u201cPor que est\u00e1 todo mundo tocando baixo?\u201d A\u00ed o Castor falou: \u201cComo assim est\u00e1 todo mundo tocando baixo?\u201d Ele falou: \u201cO <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/05\/13\/entrevista-marcelo-cabral-fala-sobre-ramal-disco-solo-sem-contrabaixo-e-muitos-amigos-pelo-caminho\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cabral<\/a> est\u00e1 tocando baixo, o Kiko est\u00e1 tocando baixo na guitarra, fazendo frase de baixo, o Rodriguinho est\u00e1 fazendo outra frase de baixo na outra guitarra. Est\u00e1 todo mundo tocando baixo.\u201d Ent\u00e3o acho que existe uma procura por tentar extrapolar alguns limites do instrumento, inclusive os clich\u00eas, flertando contra os instrumentos, contra a sonoridade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enxergo a guitarra um pouco assim: uma ferramenta de amplid\u00e3o. Para mim, o Sonic Youth mostrou muito isso, e o Glenn Branca tamb\u00e9m. Voc\u00ea pode pegar a guitarra e explor\u00e1-la de outros jeitos. Gosto muito do Jimi Hendrix tamb\u00e9m, porque as pessoas tentam ligar o Jimi Hendrix a um cara virtuoso, e n\u00e3o era isso. Ele era um bluesman que tinha muita limita\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, mas tinha um poder de express\u00e3o muito forte. Ele batia quatro notas na guitarra e a express\u00e3o da m\u00fasica saltava, era muito gritante. Acho que essa liga\u00e7\u00e3o com o instrumento \u00e9 legal, e enxergo isso em outros instrumentistas. No Coltrane com o sax, no Nan\u00e1 Vasconcelos com o berimbau, com a percuss\u00e3o. Adoro quando o m\u00fasico extrapola. Se o Nan\u00e1 tocasse o berimbau s\u00f3 do jeito que as pessoas tocam na capoeira, ele n\u00e3o teria levado o instrumento para esse lugar. Gosto quando ele quebra um certo limite do instrumento.<\/p>\n<figure id=\"attachment_97528\" aria-describedby=\"caption-attachment-97528\" style=\"width: 2560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-97528\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Kiko-Horizontal1-por-Aline-Belfort-1-scaled.jpg\" alt=\"\" width=\"2560\" height=\"1714\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Kiko-Horizontal1-por-Aline-Belfort-1-scaled.jpg 2560w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Kiko-Horizontal1-por-Aline-Belfort-1-300x201.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Kiko-Horizontal1-por-Aline-Belfort-1-1536x1028.jpg 1536w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Kiko-Horizontal1-por-Aline-Belfort-1-2048x1371.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-97528\" class=\"wp-caption-text\"><em>Kiko Dinucci por Aline Belfort<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou de ser mais \u00e1spero, de ser mais experimental, mas \u00e9 interessante que, mesmo trilhando esses caminhos, a ideia de can\u00e7\u00e3o estruturada ainda est\u00e1 muito presente nesse disco. Para voc\u00ea, pensando no seu fazer art\u00edstico, o que significa fazer uma m\u00fasica hoje? E o que voc\u00ea percebe: existe esse limite entre uma can\u00e7\u00e3o e a experimenta\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nEu acho que a can\u00e7\u00e3o j\u00e1 \u00e9 um elemento experimental. Acho a m\u00fasica brasileira, a trajet\u00f3ria inteira da m\u00fasica brasileira desde o come\u00e7o da r\u00e1dio, totalmente experimental. O jeito que cada um foi colocando coisas&#8230; Acho o Jo\u00e3o Gilberto experimental, o Tom Jobim experimental. Acho v\u00e1rias coisas que eu experimentalizo, mas \u00e0s vezes elas s\u00e3o consideradas apenas uma coisa ruidosa, dissonante. Mas n\u00e3o \u00e9 isso. Se voc\u00ea pegar meu disco, ele pode ser experimental porque eu estou dentro de uma salinha, sozinho, gravando o disco, e fico experimentando o processo. Se eu botar essa guitarra ao contr\u00e1rio? Se eu aumentar duas oitavas dessa outra guitarra aqui? Se eu processar essa guitarra na fita, no sampler? Ent\u00e3o tinha essa curiosidade pela experi\u00eancia, que eu acho que cai no experimental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, ao mesmo tempo, mesmo sendo um disco ruidoso e barulhento, ele n\u00e3o preza pelo choque, pela disson\u00e2ncia. Ele \u00e9 um disco, de certa maneira, harmonioso. Os intervalos, as coisas dialogam muito dentro dessas guitarras. Elas s\u00e3o meio macias tamb\u00e9m. Tem uma coisa meio orquestral, um pouco \u00e9pica. Ent\u00e3o acho que \u00e9 um jeito de repensar outras maneiras de enxergar o experimental. Enquanto a can\u00e7\u00e3o, eu acho um campo muito misterioso. Eu, como compositor de can\u00e7\u00e3o, me sinto na responsabilidade, no m\u00ednimo, de ouvir a can\u00e7\u00e3o desde o come\u00e7o, porque a can\u00e7\u00e3o foi feita no Brasil. Eu vou pegar, sei l\u00e1, desde a Chiquinha Gonzaga, ou coisas de antes, e ouvir todas aquelas can\u00e7\u00f5es da r\u00e1dio, da \u00e9poca de ouro da r\u00e1dio no Rio de Janeiro, Orlando Silva e todo esse pessoal. E depois passar para os anos 50, e passar para o nascimento do pop no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gosto de ouvir com o olhar, com o ouvido atento, tentando desvendar alguns mist\u00e9rios da can\u00e7\u00e3o. E a can\u00e7\u00e3o tem mist\u00e9rios mesmo. S\u00f3 tem uma estrofe, um refr\u00e3ozinho, e ela \u00e9 maravilhosa. Tem can\u00e7\u00e3o que \u00e9 complexa e \u00e9 maravilhosa. Tem os sambas. O samba \u00e9 uma express\u00e3o maravilhosa, porque s\u00e3o m\u00fasicas muito redondas, que voltam para o refr\u00e3o, e aquilo pode ficar girando duas horas. Acho que a can\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 a maior do mundo. Sinto que a gera\u00e7\u00e3o nova, mais nova, perde um pouco essa pesquisa da can\u00e7\u00e3o. Eles escutam, no m\u00e1ximo, da Gal Costa para frente. Acho que, se eles escutassem o que a Gal Costa ouviu&#8230; O que a Gal Costa ouviu? A Gal Costa ouviu Dalva de Oliveira, Maysa, Francisco Alves. A Gal Costa ouviu tudo isso. Tem coisas muito ricas mesmo, e sinto uma certa responsabilidade em trabalhar com can\u00e7\u00e3o no Brasil, porque \u00e9 um n\u00edvel muito alto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E, de certa forma, o seu trabalho consegue transitar entre essas ambi\u00eancias e sonoridades com naturalidade. Kiko, falando do t\u00edtulo do disco: quando a gente pega a figura da Medusa como figura mitol\u00f3gica, a gente tem v\u00e1rias palavras que se associam a ela. A gente fala de perigo, sedu\u00e7\u00e3o, monstruosidade. O que essa imagem significa para voc\u00ea quando pensou que esse seria o nome do disco?<\/strong><br \/>\nEsse nome apareceu por causa da m\u00fasica \u201c\u00c1gua Viva\u201d, com a <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/03\/16\/sophia-chablau-a-gente-devia-ter-um-debate-mais-aprofundado-sobre-os-caminhos-da-musica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sophia Chablau<\/a>. Eu pensei em \u201c\u00c1gua Viva\u201d, mas falei: \u201c\u00c1gua Viva j\u00e1 tem o livro da Clarice Lispector, j\u00e1 tem a novela dos anos 70, que tem at\u00e9 disco.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/09\/24\/discografia-comentada-gal-costa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tem um disco da Gal com esse nome<\/a>, se n\u00e3o engano.<\/strong><br \/>\nEu n\u00e3o lembro do disco da Gal, mas acho que tem. Ent\u00e3o eu falei: \u201cEsse nome n\u00e3o vai rolar.\u201d E uma pessoa me falou: \u201cKiko, tem outros nomes. Tem Caravella, tem Medusa.\u201d Na hora que veio Medusa, para mim fez todo sentido. Porque, sendo um disco rom\u00e2ntico, fala de amor, e a Medusa, nesse sentido da \u00e1gua-viva, ela n\u00e3o tem c\u00e9rebro nem cora\u00e7\u00e3o, mas tem impulsos nervosos. Quem encosta nela, ela libera um veneno e queima a pessoa, ou qualquer ser. Chega a matar seres que se aproximam dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu achei uma met\u00e1fora boa para o amor, porque o amor \u00e9 isso: por mais de boa inten\u00e7\u00e3o que voc\u00ea possa ter, ele pode queimar por impulso. O amor \u00e9 feito de desejo, de frustra\u00e7\u00e3o, de ci\u00fame, de conflitos, de amizade, de um monte de coisa. E sempre s\u00e3o territ\u00f3rios muito sens\u00edveis. Voc\u00ea pode passar de um para o outro de uma maneira muito sens\u00edvel. Eu achei que essa Medusa do mar simbolizava muito isso. E tem tamb\u00e9m a Medusa dos palcos, que \u00e9 a caixa onde voc\u00ea pluga tudo que est\u00e1 sendo tocado no palco. Voc\u00ea pluga nessa Medusa e ela manda para o t\u00e9cnico de som soltar no sistema de som. Ent\u00e3o achei interessante, porque ficam essas tr\u00eas leituras: a mitol\u00f3gica, a do mar e a el\u00e9trica. E as tr\u00eas t\u00eam a ver com o disco tamb\u00e9m.<\/p>\n<figure id=\"attachment_97529\" aria-describedby=\"caption-attachment-97529\" style=\"width: 1772px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-97529\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Medusa_capa-por-Tatiana-Blass.jpg\" alt=\"\" width=\"1772\" height=\"1772\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Medusa_capa-por-Tatiana-Blass.jpg 1772w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Medusa_capa-por-Tatiana-Blass-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Medusa_capa-por-Tatiana-Blass-150x150.jpg 150w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Medusa_capa-por-Tatiana-Blass-1536x1536.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1772px) 100vw, 1772px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-97529\" class=\"wp-caption-text\"><em>&#8220;Medusa&#8221;. Capa por Tatiana Blass<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Falando das parcerias que voc\u00ea fez no disco, elas claramente n\u00e3o s\u00e3o um exerc\u00edcio aleat\u00f3rio dentro dessa l\u00f3gica de mercado de hoje que muito artistas recorrem ao ter um feat a cada faixa. As parcerias em \u201cMedusa\u201d cumprem uma fun\u00e7\u00e3o estrutural dentro do \u00e1lbum, e a lista \u00e9 grande. Como voc\u00ea escolhe esse processo de estabelecer uma parceria? E teve algum encontro em que voc\u00ea pensou: \u201cImaginei que a m\u00fasica ia ser desse jeito\u201d, e, com essa parceria, ela foi para um outro lugar?<\/strong><br \/>\nAcho que todos foram para um outro lugar. No come\u00e7o estranhei um pouco a maioria e depois comecei a aceitar. Fiz cerca de 90% do disco sozinho, tudo na minha sala, gravando as guitarras e tudo, e estava achando um processo muito solit\u00e1rio e limitador. No momento em que voc\u00ea fica fazendo tudo sozinho, voc\u00ea est\u00e1 limitado a voc\u00ea mesmo. As ideias que voc\u00ea tem s\u00e3o apenas as suas. E, no momento em que voc\u00ea vai chamando outras pessoas, voc\u00ea vai perdendo um pouco esse controle. E notei que estava precisando disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o pensei nessas participa\u00e7\u00f5es como se fossem quase uma esp\u00e9cie de interfer\u00eancia. Acho que talvez a palavra seja essa: interfer\u00eancia. Por faixa, por exemplo, \u201cSegundo Eterno\u201d, contou com interfer\u00eancia de Ju\u00e7ara Mar\u00e7al. Foram as pessoas que mudaram coisas, que colocaram coisas que eu jamais imaginaria. E da\u00ed fui montando esse time, fui chamando as pessoas j\u00e1 pensando um pouco nisso: o que elas podem trazer de diferente com essa guitarra, mas que dialogue com essa guitarra tamb\u00e9m? Falava um pouco das influ\u00eancias, falava um pouco do My Bloody Valentine, dessa coisa atmosf\u00e9rica, e as pessoas foram fazendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Cadu Ten\u00f3rio, por exemplo, fez coisas eletr\u00f4nicas que entram no disco tamb\u00e9m. \u00c9 outro cara que mexe com m\u00fasica eletr\u00f4nica, mas que n\u00e3o parece m\u00fasica eletr\u00f4nica. Extrapola o limite. Ele trouxe um neg\u00f3cio totalmente novo que eu jamais pensaria ou faria sozinho. Ent\u00e3o eu penso mais nessas participa\u00e7\u00f5es nesse sentido: elas trouxeram alguma coisa nova para o disco, para me tirar do marasmo do processo solit\u00e1rio e da egotrip.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tem duas faixas do disco (\u201cFantasmagoria IV\u201d e \u201cSegundo Eterno\u201d) que voc\u00ea fez originalmente para uma pe\u00e7a do Felipe Hirsch. O que muda quando voc\u00ea comp\u00f5e uma m\u00fasica pensando que ela necessita estabelecer um di\u00e1logo para uma cena, um corpo, uma narrativa, e n\u00e3o meramente \u2014 como se fosse pouco \u2014 ser ouvida?<\/strong><br \/>\nAcho que essas m\u00fasicas do Felipe e das pe\u00e7as acabaram entrando porque me lembrei delas e elas dialogavam com o que eu estava fazendo. E talvez, de certa maneira, elas at\u00e9 tenham inaugurado algumas coisas que viriam a ser o disco depois. A \u00faltima faixa, \u201cFantasmagoria IV\u201d, \u00e9 uma faixa feita em 2023, acho. Ent\u00e3o eu j\u00e1 estava com esse samba na cabe\u00e7a. Eu estava pensando: \u201cO meu disco novo vai ter esse samba e eu preciso destruir para nascer.\u201d Eu estava com isso na cabe\u00e7a.<br \/>\nO engra\u00e7ado \u00e9 que, em 2024, eu tentei fazer um disco, tentei gravar essa m\u00fasica, mas deu totalmente errado. A\u00ed depois passei um tempo tentando fazer um disco de Noel Rosa, que me mostrou esse caminho de \u201cMedusa\u201d, esse processo do Noel Rosa, e essa m\u00fasica voltou. \u201cPara aquele disco que eu estava fazendo deu errado, n\u00e3o serviu, mas para esse agora vai servir.\u201d E ela entrou de outro jeito, com a grava\u00e7\u00e3o original do celular, quando eu estava compondo na rua. Tanto essa m\u00fasica quanto \u201cComo Foi\u201d, com o Romulo Fr\u00f3es, s\u00e3o grava\u00e7\u00f5es de celular de quando eu tinha acabado de compor. Ent\u00e3o tem uma vers\u00e3o muito crua ali. N\u00e3o estou nem cantando, as melodias ainda est\u00e3o meio inseguras, porque eu tinha acabado de fazer. E acho que foi isso. Eu fiz as m\u00fasicas para a pe\u00e7a, \u201cFantasmagoria IV\u201d e \u201cSegundo Eterno\u201d, mas acho que elas tinham esse potencial de pertencer a um disco. Acho que elas encaixaram bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea anteriormente falou da sua rela\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica, da tradi\u00e7\u00e3o da m\u00fasica brasileira, mas a\u00ed voc\u00ea estabelece esse di\u00e1logo com a experimenta\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo, voc\u00ea trabalha a can\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m pensa o ru\u00eddo. Voc\u00ea transita entre o popular e o contempor\u00e2neo. Como \u00e9 que essas dimens\u00f5es todas convivem na sua escuta e no seu processo de cria\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\n\u00c0 primeira vista, parece que s\u00e3o mundos que n\u00e3o combinam. Voc\u00ea vai pensar: \u201cRoberto Carlos vai combinar com My Bloody Valentine?\u201d E eu vou colocando coisas que fazem parte do meu mundo. Meu mundo n\u00e3o \u00e9 reto. Eu escuto de tudo, cresci escutando de tudo. Ent\u00e3o, para mim, pensar m\u00fasica quebra fronteiras de g\u00eanero musical. Nunca fiquei pensando: \u201cVou fazer um reggae, agora vou fazer um samba, agora vou fazer um heavy metal.\u201d Nunca pensei muito assim. Sempre foi tudo misturado. Eu nunca botei muito limite: \u201cIsso aqui n\u00e3o posso fazer porque tal p\u00fablico n\u00e3o vai gostar.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fico imaginando: se o Ramones, se o Iron Maiden gravassem um reggae, o que iria acontecer? Eles seriam assassinados? Os f\u00e3s v\u00e3o se matar? Vai acontecer alguma trag\u00e9dia? Eles n\u00e3o podem gravar um reggae, v\u00e3o ter que fazer aquele hard rock deles pelo resto da vida. E eu nunca enxerguei muito assim. Quando ponho, por exemplo, em \u201cC\u00e3o Perdido\u201d e \u201cCl\u00e1udia, Frota e Eu\u201d, umas viradas de arrocha ali, de piseiro, de bateria de piseiro, n\u00e3o foi por ironia, para fazer as pessoas rirem. Foi porque eurealmente acreditei que, no meio daquelas guitarras de rock alternativo americano, poderia entrar uma virada de piseiro e causar algum sentimento estranho nas pessoas. Alguma coisa como: \u201cO que foi isso aqui? Essa bateria?\u201d Gosto muito desse choque, mas ele \u00e9 bem natural. N\u00e3o foi feito para chocar. \u00c9 uma coisa que vai fluindo naturalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Depois de tantos discos, projetos e parcerias, o que te provoca ainda, Kiko, para voc\u00ea se sentir com vontade de pegar a guitarra, come\u00e7ar uma m\u00fasica? E o que voc\u00ea est\u00e1 tentando descobrir musicalmente?<\/strong><br \/>\nEu acho que o que me move \u00e9 a curiosidade de ser surpreendido por mim mesmo. Para mim, a melhor felicidade \u00e9 criar uma coisa e vir aquele sentimento de: \u201cNossa, decolou.\u201d A ideia decolou. Isso \u00e9 novo para mim, eu me surpreendi. Se eu sentir esse frescor, acho que o p\u00fablico est\u00e1 propenso a sentir tamb\u00e9m. Detesto ficar repetindo a mesma coisa. Meus discos n\u00e3o se parecem. Voc\u00ea pega o Met\u00e1 Met\u00e1, uma banda que nunca mais gravou porque a gente falou: \u201cTem algum assunto muito novo para p\u00f4r?\u201d N\u00e3o tem. Ent\u00e3o deixa parado. A gente faz os shows pelas m\u00fasicas antigas, recria as m\u00fasicas antigas ao vivo, improvisando e tudo mais. Mas eu sempre pensei nisso, em criar uma coisa que seja o oposto da anterior. Foi o caso de \u201cRastilho\u201d. E \u201cRastilho\u201d tamb\u00e9m j\u00e1 era o oposto de \u201cCortes Curtos\u201d. Ent\u00e3o, para mim, \u00e9 a possibilidade de me surpreender que me mant\u00e9m vivo e com vontade de fazer um trabalho novo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Kiko Dinucci - Como Foi? (Kiko Dinucci\/ R\u00f4mulo Fr\u00f3es) com Lcuas Pires e Arthur de Faria \" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/dWyzq9_liOI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Bruno Lisboa<\/a>\u00a0 escreve no Scream &amp; Yell desde 2014. A foto que abre o texto \u00e9 de Aline Belfort.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;Gosto de ouvir com o olhar, com o ouvido atento, tentando desvendar alguns mist\u00e9rios da can\u00e7\u00e3o. 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