{"id":9747,"date":"2011-09-10T09:33:10","date_gmt":"2011-09-10T12:33:10","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=9747"},"modified":"2016-10-13T10:22:18","modified_gmt":"2016-10-13T13:22:18","slug":"um-romancista-em-pele-de-contista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/09\/10\/um-romancista-em-pele-de-contista\/","title":{"rendered":"Um romancista em pele de contista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-9748\" title=\"alessandro\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/alessandro.jpg\" alt=\"\" \/><strong><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/eduardomarciano.\" target=\"_blank\">Gabriel Innocentin?i<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Julio Cort\u00e1zar: \u201co conto deve vencer por nocaute; o romance, por pontos\u201d. O livro \u201cA Sordidez das Pequenas Coisas\u201d (N\u00e3o Editora, R$25,00) deixa a impress\u00e3o de que o escritor Alessandro Garcia \u00e9 um lutador que vence por pontos, e n\u00e3o por nocaute. Seria digno de palmas, se fosse um romance.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema de alguns contos do livro de estr\u00e9ia de Garcia \u00e9 que ele parece insistir demais em criar uma atmosfera, um ambiente, em analisar em min\u00facia certos comportamentos \u2013 o que talvez seja uma indica\u00e7\u00e3o de que ele deve se sair melhor em narrativas longas. \u201cPelo al\u00edvio dos enfermos\u201d, por exemplo, enfileira cerca de 20 personagens em meras 9 p\u00e1ginas. O leitor se pergunta: afinal, por que o narrador est\u00e1 me contando tudo isso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cV\u00e3os\u201d \u00e9 exemplar. Temos uma narrativa longa demais para um conto, e abreviada demais para um romance. O narrador explica muito, transmitindo informa\u00e7\u00f5es em excesso. Garcia tenta encerrar em 15 p\u00e1ginas o que seria mat\u00e9ria para 150. As divaga\u00e7\u00f5es dos personagens e certa imprecis\u00e3o vocabular s\u00e3o as marcas n\u00e3o apenas de \u201cV\u00e3os\u201d, mas de todo o livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao examinar detidamente seus personagens, Alessandro Garcia aposta na fric\u00e7\u00e3o entre o que eles desejam e o que acontece de fato. \tPara Cort\u00e1zar, autor da predile\u00e7\u00e3o de Garcia, a efic\u00e1cia de um conto depende \u201cda sua intensidade como acontecimento puro\u201d. Quando opta pela explora\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise psicol\u00f3gica, Garcia, no entanto, est\u00e1 mais no terreno das hip\u00f3teses que no da a\u00e7\u00e3o. Terminada a leitura, n\u00e3o sobra muito al\u00e9m do choque \u2013 muito bem constru\u00eddo, como no conto \u201cVer\u00e3o em Porto Alegre\u201d, que de resto independe da localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica apontada no t\u00edtulo. Some-se a isto a moralidade, question\u00e1vel, do conto: o desejo como algo s\u00f3rdido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201cSenhas\u201d e \u201cProciss\u00e3o\u201d, Garcia n\u00e3o consegue estabelecer um equil\u00edbrio entre o que dizer e o omitir, resultando em fracassos. Este equil\u00edbrio \u00e9 alcan\u00e7ado em contos curtos como \u201cVelhos\u201d, \u201cEpifania\u201d e \u201cAs pernas fl\u00e1cidas de Dona Ata\u00edde\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conto \u201cTio\u201d \u00e9 talvez o mais infeliz do volume. A sordidez soa t\u00e3o mesquinha que seria mais bem etiquetada como indiferen\u00e7a. A hist\u00f3ria, assim, se torna desinteressante e nem a imita\u00e7\u00e3o \u2013 \u201cemula\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 uma palavra pesada demais \u2013 das famosas notas-de-rodap\u00e9 de David Foster Wallace consegue salvar o conto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DFW tinha aquela inten\u00e7\u00e3o do escritor moral: isto \u00e9 certo, aquilo \u00e9 errado, veja a que ponto chegaram as coisas. Alessandro Garcia, por outro lado, n\u00e3o est\u00e1 interessando em escrever com o dedo apontado, nem em oferecer atos puros de generosidade como contrapartida da baixeza humana, muito menos em fazer com que o leitor reflita sobre as conseq\u00fc\u00eancias morais de suas escolhas. (Quando o faz, em \u201cPequena resolu\u00e7\u00e3o de ano-novo\u201d, n\u00e3o consegue atingir a voltagem e a tens\u00e3o necess\u00e1rias.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele prefere as \u201cpequenas coisas\u201d em vez da perversidade ou sordidez puras, o que implicaria a aus\u00eancia de um mal absoluto, o Mal em mai\u00fascula. Aqui temos um conflito: qual o sentido de discutir a sordidez se parece haver um pudor em investig\u00e1-la a fundo?<br \/>\nSeu livro n\u00e3o remete ao desencanto nem \u00e0 sordidez de um Bukowski, pois opta por uma abordagem sutil, preferindo enredar o leitor na situa\u00e7\u00e3o para depois golpe\u00e1-lo. O tratamento delicado enfraquece o tema escolhido como central para o livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAs nuances mais opacas\u201d trata da consci\u00eancia da sordidez: homens que se sentem culpados por procurarem prostitutas. Contudo, a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 forte o bastante para \u201creformar o \u00edntimo de um homem\u201d, como aponta Mariel Reis no posf\u00e1cio. Esta inten\u00e7\u00e3o tornaria o livro m\u00edstico, segundo Reis. Para ser verdade, seria preciso mais fervor, mais ilumina\u00e7\u00e3o e mais t\u00e9cnica, para que as epifanias atingissem o cora\u00e7\u00e3o do leitor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando procura ousar na forma, como em \u201cSubmers\u00e3o\u201d e \u201cDec\u00e1gono\u201d, Garcia n\u00e3o se sai bem. N\u00e3o se sabe o motivo do personagem de \u201cSubmers\u00e3o\u201d ter dois amigos, quando um n\u00e3o tem fun\u00e7\u00e3o. O uso dos flashbacks n\u00e3o tem justificativa, exceto a de indicar que Garcia est\u00e1 mais pr\u00f3ximo do romance do que do conto. \u201cDec\u00e1gono\u201d, contudo, tem boas partes, como a 8 e a 10. Muito pouco, no entanto, para justificar a constru\u00e7\u00e3o inusitada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o nos contos em que a oposi\u00e7\u00e3o entre sordidez e pureza se manifesta escancaradamente, embora n\u00e3o em sua m\u00e1xima pot\u00eancia, que Alessandro Garcia se sai melhor. O primeiro conto, do pai discursando para as filhas; aquele da fam\u00edlia cuja m\u00e3e tem um amante para substituir o pai que supostamente morreu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como apontado, n\u00e3o s\u00e3o ainda contos perfeitos. \u201cVeja bem, n\u00e3o vamos perder a oportunidade\u201d tamb\u00e9m remete \u00e0s preocupa\u00e7\u00f5es de DFW, mas desta vez mais bem filtradas por Garcia \u2013 e seria um conto melhor se come\u00e7asse pelo \u00faltimo par\u00e1grafo. \u201cFinados\u201d evidencia um fracasso em tentar equilibrar o registro coloquial com a coloca\u00e7\u00e3o perfeita de todos os pronomes, algo que soa desarm\u00f4nico tamb\u00e9m em outros contos. Em \u201cFinados, escapou um \u201c\u00e9 verdade\u201d, entre v\u00edrgulas, que est\u00e1 em outro conto, com um narrador completamente diverso deste menino sem pai. Este \u201c\u00e9 verdade\u201d ainda \u00e9 resqu\u00edcio da m\u00e3o do autor, n\u00e3o do narrador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAntes da noite chegar\u201d \u00e9 um conto sobre um escritor tentando escrever. Hmmm&#8230;n\u00e3o parece nada atraente, n\u00e3o \u00e9? Garcia tenta mostrar como \u00e9 o j\u00fabilo do criador, por\u00e9m a narra\u00e7\u00e3o distanciada em terceira pessoa torna frio o relato. Um depoimento do pr\u00f3prio Garcia teria mais efeito. Como o de Caio Fernando Abreu, que dizia ter um sentimento de \u201cgl\u00f3ria interior\u201d quando escrevia. Ou o do poeta norte-americano Theodore Roethke, que se ajoelhava quando acreditava ter escrito algo bom. N\u00e3o seria mais divertido se um conto sobre o tema mostrasse E\u00e7a de Queir\u00f3s trope\u00e7ando no bigode ao dar um duplo twist carpado depois de escrever uma frase perfeita?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSenhas\u201d \u00e9 uma cr\u00f4nica; como conto, \u00e9 dispens\u00e1vel (basta pensar em \u201cSenhora\u201d, de Dalton Trevisan, que trata do mesmo tema). \u201cFlor\u00eancio\u201d levanta uma quest\u00e3o grande demais para se limitar a um conto: \u201cComo definir um verdadeiro g\u00eanio?\u201d \u2013 al\u00e9m de ser um personagem \u00e0 procura de uma narrativa que d\u00ea conta de suas possibilidades picarescas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chama aten\u00e7\u00e3o a quantidade assustadora de ep\u00edgrafes. Todo conto tem uma. Estamos falando de 20 contos com ep\u00edgrafes. Na maioria das vezes, elas mostram o ponto de partida da hist\u00f3ria. Entende-se o valor afetivo que possam ter para o autor, mas em sua maioria s\u00e3o desnecess\u00e1rias para o leitor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem sabe Alessandro Garcia consiga encontrar no romance seu ve\u00edculo mais adequado, de forma a combinar o impulso para o lirismo e a an\u00e1lise psicol\u00f3gica com a capacidade de cria\u00e7\u00e3o de enredos. Talvez neste g\u00eanero de mais f\u00f4lego, o escritor ga\u00facho possa manifestar, de forma mais bem realizada, suas preocupa\u00e7\u00f5es com as pequenas coisas, a vida dos personagens que n\u00e3o aparecem no jornal, as mesquinharias e epifanias cotidianas. Neste sentido, um poss\u00edvel caminho a ser trilhado \u00e9 o da quest\u00e3o racial, presente em dois contos, em especial, \u201cSub\u00farbios\u201d, cujos tr\u00eas par\u00e1grafos iniciais poderiam muito bem ser o come\u00e7o de um romance.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*******<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Gabriel Innocentini (<a href=\"http:\/\/twitter.com\/eduardomarciano\" target=\"_blank\">@eduardomarciano<\/a>) \u00e9 jornalista e assina o blog  <a href=\"http:\/\/blogeurogol.blogspot.com\/\">Eurogol<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Gabriel Innocentini\nEm sua estreia como contista, o escritor Alessandro Garcia \u00e9 um lutador que vence por pontos, e n\u00e3o por nocaute. \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/09\/10\/um-romancista-em-pele-de-contista\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":32,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9747"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/32"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9747"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9747\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9909,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9747\/revisions\/9909"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9747"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9747"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9747"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}