{"id":97392,"date":"2026-09-11T00:01:49","date_gmt":"2026-09-11T03:01:49","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=97392"},"modified":"2026-09-10T23:25:30","modified_gmt":"2026-09-11T02:25:30","slug":"entrevista-denise-moraes-e-bruno-fatumbi-torres-falam-de-a-pele-morta-ultimo-projeto-de-seu-pai-geraldo-moraes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/09\/11\/entrevista-denise-moraes-e-bruno-fatumbi-torres-falam-de-a-pele-morta-ultimo-projeto-de-seu-pai-geraldo-moraes\/","title":{"rendered":"Entrevista: Denise Moraes e Bruno Fatumbi Torres falam de &#8220;A Pele Morta&#8221;, \u00faltimo projeto de seu pai, Geraldo Moraes"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/joao.paulo.barreto.824529\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2010, em Cuba, o roteirista Daniel Tavares apresentou \u00e0 Sol e Geraldo Moraes o primeiro roteiro de \u201cA Pele Morta\u201d, e seis dias depois, o cineasta decidiu que queria filma-lo. \u201cEle dizia que aquilo era Galeano. que era \u201cAs Veias Abertas da Am\u00e9rica Latina\u201d (livro lan\u00e7ando por Eduardo Galeano em 1971). Dizia que precisava fazer aquele filme\u201d, contou Sol Moraes, esposa e produtora, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/09\/10\/entrevista-solange-moraes-fala-sobre-a-producao-de-a-pele-morta-filme-que-abre-o-festival-de-brasilia-2026\/\">em entrevista ao Scream &amp; Yell<\/a>. Daniel e Geraldo ficaram trabalhando o roteiro at\u00e9 o diretor falecer, em 2017 \u2013 treze dias ap\u00f3s sua morte, o dinheiro do edital que contemplou \u201cA Pele Morta\u201d foi depositado em conta, e Sol decidiu chamar Denise Moraes e Bruno Fatumbi Torres, filhos de Geraldo, para dirigir o filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA gente ficou meio receoso\u201d, revela Bruno na conversa abaixo. \u201cFoi um misto de sensa\u00e7\u00f5es. Porque, primeiro, era muito pr\u00f3ximo da perda. E segundo, havia uma miss\u00e3o para cumprir, um filme para ser realizado\u201d. Bruno e Denise aceitaram o desafio e, 16 anos depois do roteiro ser apresentado \u00e0 Geraldo Moraes, \u201cA Pele Morta\u201d est\u00e1 pronto para encontrar seu p\u00fablico: o filme de Denise Moraes e Bruno Fatumbi Torres foi escolhido por Eduardo Valente, diretor art\u00edstico do Festival de Bras\u00edlia do Cinema Brasileiro, para ser o filme de abertura da edi\u00e7\u00e3o 2026 do evento: \u201c\u00c9 um filme que caiu como uma luva (para o festival)\u201d, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/09\/10\/entrevista-nunca-consideramos-a-hipotese-de-que-o-festival-de-brasilia-nao-fosse-acontecer-diz-eduardo-valente\/\">contou em entrevista<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA Pele Morta\u201d \u00e9 um road movie que acompanha, na bol\u00e9ia de um caminh\u00e3o, a rela\u00e7\u00e3o entre um caminhoneiro uruguaio (vivido por Cesar Troncoso) e um jovem rapper de origem ind\u00edgena (Luan Iturve), que trabalha como ajudante dele ao longo da viagem. Os dois ainda ir\u00e3o encontrar pelo caminho uma adolescente paraguaia (Ivana Gomez) em busca da irm\u00e3. \u201cA gente entendeu que o filme se tratava muito sobre um tipo de pertencimento muito constru\u00eddo a partir dos v\u00ednculos afetivos que vamos construindo ao longo da nossa vida\u201d, conta Denise em conversa com o Scream &amp; Yell. Abaixo, ela e o irm\u00e3o fala sobre \u201cA Pele Morta\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"A Pele Morta | Trailer Oficial\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/fDsebucygIA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/09\/10\/entrevista-solange-moraes-fala-sobre-a-producao-de-a-pele-morta-filme-que-abre-o-festival-de-brasilia-2026\/\">Na entrevista com a Solange Moraes<\/a>, ela me deu muitas informa\u00e7\u00f5es sobre o processo de cria\u00e7\u00e3o do filme e todas as dificuldades que voc\u00eas passaram para constru\u00ed-lo. \u00c9 inevit\u00e1vel eu come\u00e7ar essa entrevista te perguntando sobre quando voc\u00ea e sua irm\u00e3 receberam esse convite da Solange para assumir a dire\u00e7\u00e3o e encarar aquele trabalho que era uma vis\u00e3o do seu pai e trazer a sua vis\u00e3o junto com a de sua irm\u00e3 para ele. Eu queria te perguntar sobre esse processo de receber esse convite e tentar equilibrar a vis\u00e3o de voc\u00eas dois como cineastas com a de seu pai tamb\u00e9m?<\/strong><br \/>\nBruno &#8211; Cara, essa sua pergunta \u00e9 muito boa porque foi um processo muito curioso. Porque a Solange foi muito r\u00e1pida. Na verdade, Geraldo estava trabalhando no roteiro com o Daniel Tavares e anos depois ele faleceu. No dia seguinte ao vel\u00f3rio dele em Bras\u00edlia, tinha um encontro na casa de um outro irm\u00e3o meu, M\u00e1rcio. Nesse encontro de fam\u00edlia, que era pr\u00f3ximo at\u00e9 do dia dos pais, uma coisa desse tipo, a Solange sentou a gente num sof\u00e1 e falou: &#8220;Eu quero convid\u00e1-los, voc\u00eas dois, Bruno e Denise, para dirigir o filme &#8216;A Pele Morta'&#8221;. A gente ficou meio receoso: \u201cMas ser\u00e1 que vai dar certo? N\u00f3s temos vis\u00f5es t\u00e3o diferentes. Forma\u00e7\u00f5es t\u00e3o diferentes.&#8221; Eu sou muito realizador. A minha irm\u00e3 \u00e9 mais acad\u00eamica, embora tamb\u00e9m j\u00e1 tenha feito filmes no passado. Foi um misto de sensa\u00e7\u00f5es. Porque, primeiro, era muito pr\u00f3ximo da perda. E segundo, havia uma miss\u00e3o para cumprir, um filme para ser realizado. O ideal seria que a gente fizesse o exerc\u00edcio de entender como o Geraldo filmaria. Mas a gente, em poucos dias, topou o desafio e come\u00e7amos a conversar sobre isso. A\u00ed foi um processo longo, tamb\u00e9m, que eu acho que vale relatar, que foi o processo de substitui\u00e7\u00e3o na Ancine. A gente, inicialmente, n\u00e3o sabia se ser\u00edamos aceitos como diretores. Claro que a tend\u00eancia era que desse certo. Mesmo pelo contexto da morte dele e o hist\u00f3rico que t\u00ednhamos. Mas isso levou quase meio ano para a Ancine aprovar. Ent\u00e3o, foram v\u00e1rios processos. Depois disso, a gente come\u00e7ou a trabalhar e a\u00ed vem aquela an\u00e1lise dos filmes do Geraldo que eu fazia. A Denise tamb\u00e9m j\u00e1 tinha filmado com ele. Fizemos o &#8220;No Cora\u00e7\u00e3o dos Deuses\u201d (1999), inclusive, juntos, n\u00f3s dois no mesmo set. Ent\u00e3o, a gente come\u00e7ou a fazer um exerc\u00edcio de tentar entender a linguagem do filme a partir da gente, porque n\u00e3o t\u00ednhamos tido trocas com Geraldo sobre isso. O Daniel Tavares ajudou demais nesse sentido. Porque ele estava trocando mais com Geraldo. Ent\u00e3o, ele sabia mais ou menos como o Geraldo via o filme. Buscamos ent\u00e3o uma linguagem mais mista, mais latino-americana, mesmo. Com uso de c\u00e2mera na m\u00e3o, mas, \u00e0s vezes, uns movimentos de c\u00e2mera, com traveling, mais limpos, mais suaves, que era uma coisa que o Geraldo exercitava muito nos filmes dele. Ent\u00e3o, a minha sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de que quando eu vejo o filme, alguma coisa baixou na gente ali, sabe? Porque quando eu vejo o filme, cara, ele n\u00e3o parece que \u00e9 um filme dirigido por mim, ele parece que flerta mais com os filmes do Geraldo do que com um filme meu ou um filme da Denise. Isso \u00e9 muito curioso, cara. H\u00e1 um filme dele que se chama &#8220;O C\u00edrculo de Fogo&#8221; (1990) que, curiosamente, quando eu assisto, a linguagem \u00e9 muito parecida sabe? Apesar de serem hist\u00f3rias diferentes. Ent\u00e3o, foi o exerc\u00edcio de deslocar o nosso olhar e tentar fazer o filme que seria o filme que o Geraldo ficaria orgulhoso em fazer. E observando o filme hoje, sinto que chegamos muito pr\u00f3ximos do que ele ficaria satisfeito. Acho que ele descansa em paz, mesmo, nessa obra p\u00f3stuma dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Denise Moraes &#8211; Meu pai tinha me convidado para trabalhar como assistente de dire\u00e7\u00e3o do filme. Ent\u00e3o, em princ\u00edpio, eu iria ocupar esse lugar. S\u00f3 que a gente n\u00e3o teve tempo de conversar sobre o filme. Porque ele veio a falecer justamente nesse processo bem inicial. Tivemos, tamb\u00e9m, um intervalo porque, quando ele faleceu, tudo foi suspenso. Ficamos bem distanciados. At\u00e9 era um filme que causava uma certa dor para gente. Porque era uma cria\u00e7\u00e3o que seria realizada por ele, ent\u00e3o n\u00e3o era t\u00e3o simples assim ocupar esse lugar. Tinha esse aspecto mais doloroso, digamos assim, inicial. Depois, a Solange convidou a mim e ao Bruno para assumir a dire\u00e7\u00e3o do filme. N\u00f3s dois j\u00e1 t\u00ednhamos feito filmes. Eu tenho curtas realizados, e Bruno j\u00e1 tinha tamb\u00e9m alguns curtas e tinha feito um longa. Ent\u00e3o, dos filhos, digamos assim, n\u00f3s \u00e9ramos dois que j\u00e1 tinham trabalhado com dire\u00e7\u00e3o de filmes. Ent\u00e3o, acho at\u00e9 que foi algo que ela levou em conta na hora de nos convidar. E a\u00ed a partir da\u00ed, acredito que o filme traz muito da perspectiva de cinema do nosso pai. Ele sempre viu o cinema muito nesse lugar pol\u00edtico. Principalmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Am\u00e9rica Latina. O pr\u00f3prio roteiro do Dani (Daniel Tavares) contou com meu pai como consultor. Ent\u00e3o, o pr\u00f3prio roteiro tem essa dimens\u00e3o pol\u00edtica muito forte de olhar para as fronteiras invis\u00edveis que existem na Am\u00e9rica Latina. E isso foi um aspecto que a gente preservou da pr\u00f3pria hist\u00f3ria mesmo. No sentido, tamb\u00e9m, de estar ali construindo esse filme conjuntamente a partir de vis\u00f5es de um cinema que \u00e9 do nosso pai. Esse foi o primeiro ponto. A partir da\u00ed, acho que e eu e o Bruno tivemos um cuidado de construir um filme, tamb\u00e9m, a partir das nossas pr\u00f3prias escolhas de dire\u00e7\u00e3o. Foi como falei, at\u00e9 porque a gente n\u00e3o tinha tido tempo de conversar com o nosso pai sobre nada do filme. Buscamos, sobretudo, valorizar essa dimens\u00e3o afetiva, que j\u00e1 era a proposta na narrativa, que eram esses tr\u00eas personagens de diferentes nacionalidades e que tinham ang\u00fastias muito particulares. Mas que tinham na quest\u00e3o do afeto, da conviv\u00eancia na estrada, uma forma de enfrentar isso junto. Ent\u00e3o, acho que foi um cuidado que tivemos de trazer bastante leveza para essa rela\u00e7\u00e3o afetiva entre os personagens. Foi uma vis\u00e3o muito nossa, minha e do Bruno, diante desse filme.<\/p>\n<figure id=\"attachment_97398\" aria-describedby=\"caption-attachment-97398\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-97398\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/apm_corte_finalizacao-1080p.00_46_07_10.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/apm_corte_finalizacao-1080p.00_46_07_10.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/apm_corte_finalizacao-1080p.00_46_07_10-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-97398\" class=\"wp-caption-text\"><em>Cena de \u201cA Pele Morta\u201d<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O cinema do Geraldo Moraes possui muitos sil\u00eancios e em &#8220;A Pele Morta&#8221;, esses sil\u00eancios se fazem presentes, tamb\u00e9m. Algo de observar um tempo distendido, percebo que isso \u00e9 algo que o espectador possui muito acesso. Tais escolhas em &#8220;A Pele Morta&#8221; refletem algo do cinema de seu pai ap\u00f3s voc\u00ea ter assumido ou projeto com o Bruno ou seria algo que reflete o seu cinema e o de seu irm\u00e3o?<\/strong><br \/>\nDenise &#8211; Acredito que isso veio tamb\u00e9m muito da pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o narrativa do roteiro. O roteiro j\u00e1 tinha uma indica\u00e7\u00e3o assim. Ent\u00e3o, como o nosso pai trabalhou o roteiro junto com Dani, acredito que ao longo do desenvolvimento, eles foram trazendo muito esse lugar da valoriza\u00e7\u00e3o do \u00edntimo do personagem. De estar muito pr\u00f3ximo ao personagem, Das ang\u00fastias dos personagens. E o receber esse roteiro, foi um cuidado que tivemos. Eu e o Bruno fizemos uma discuss\u00e3o bem grande no in\u00edcio, quando recebemos o roteiro, sobre esse tema profundo do texto. O que a gente entendia? Para al\u00e9m da hist\u00f3ria que estava sendo contada, o que a gente via no filme como subtexto para tomar os nossos partidos de dire\u00e7\u00e3o. E a\u00ed, al\u00e9m da quest\u00e3o de uma reflex\u00e3o sobre essas fronteiras da nossa Am\u00e9rica Latina, que isso era mais claro no filme, a gente entendeu que o filme se tratava muito sobre pertencimento. \u00c9 um pertencimento que n\u00e3o est\u00e1, necessariamente, relacionado a um territ\u00f3rio fixo, a um lugar espec\u00edfico nesse sentido de um territ\u00f3rio geogr\u00e1fico, digamos assim, mas, sim, com um pertencimento muito constru\u00eddo a partir dos v\u00ednculos afetivos que vamos construindo ao longo da nossa vida. Ent\u00e3o, tomamos isso como um tema, digamos, um subtexto. O nosso tema central para explorar as quest\u00f5es e as op\u00e7\u00f5es da dire\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, esse filme tem esses tr\u00eas personagens com cada um carregando suas pr\u00f3prias mem\u00f3rias de lugares, de pessoas do passado. Mas, ao longo desse deslocamento, eles v\u00e3o fazendo reflex\u00f5es muito particulares sobre esses lugares de pertencimento de cada um deles. Porque o road movie tem um pouco isso, tamb\u00e9m. \u00c9 um g\u00eanero de filme que, normalmente, tem nesse deslocamento f\u00edsico e geogr\u00e1fico algo que indica muito essa reflex\u00e3o mais profunda dos personagens desse tipo de filme. Ent\u00e3o, \u00e9 um aspecto que buscamos muito trazer. E a\u00ed, eu acho que quando a gente est\u00e1 fazendo um filme que fala muito sobre essa jornada, assim, interior&#8230; (pausa) Na verdade, \u00e9 uma jornada exterior, porque o Nuestra Am\u00e9rica, que \u00e9 o caminh\u00e3o que vai se deslocando ao longo do filme, ele funciona muito como essa met\u00e1fora, tamb\u00e9m, desse processo de auto-reconhecimento. De cada um encontrar o seu lugar no mundo. A Ros\u00e1ria est\u00e1 em busca da irm\u00e3. Ent\u00e3o o pertencimento dela \u00e9 um pertencimento afetivo junto a essa irm\u00e3. O Saulo j\u00e1 tem um outro aspecto. Ele tem esse irm\u00e3o que morreu, ent\u00e3o ele tem essa busca tamb\u00e9m de encontrar um pouco o lugar dele, que \u00e9 a pr\u00f3pria reserva ind\u00edgena, o povo dele. E, ao mesmo tempo, o Justo \u00e9 um personagem que at\u00e9 fala no filme: &#8220;Eu vou onde tem trabalho&#8221;. Ele tem um pertencimento sempre transit\u00f3rio. Ele est\u00e1 sempre se movendo par onde tem trabalho. Ent\u00e3o, acho que quando o filme fala dessa jornada, tamb\u00e9m, interior, de encontrar esse lugar onde a gente se sente \u00fatil e pertencente, eu acho que, nesse sentido, buscamos, tamb\u00e9m, escutar. Trazer essa escuta. Uma escuta mais dessa intimidade dos personagens. Desse tempo do encontro, tamb\u00e9m. Onde eles est\u00e3o juntos. Ent\u00e3o, quando o Saulo encontra a Ros\u00e1rio, buscamos muito isso naquela conversa em torno da fogueira. Uma conversa muito \u00edntima. Eles est\u00e3o falando sobre dores muito profundas. E a\u00ed, quando voc\u00ea est\u00e1 conversando sobre temas mais profundos, normalmente, voc\u00ea tem esse lugar da escuta. \u00c9 um lugar de encontro, onde eles s\u00e3o muito parecidos. Ambos, n\u00e9? Porque um perdeu o irm\u00e3o, e a outra est\u00e1 em busca da irm\u00e3. Ent\u00e3o, foi um cuidado que tivemos , tamb\u00e9m, de respeito pelos personagens. Pelas dores dos personagens. Por isso, esses momentos de sil\u00eancio dentro do filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daniel &#8211; Acho que isso eu herdei dele, tamb\u00e9m. Os meus filmes t\u00eam muitos sil\u00eancios. Eu, por exemplo, estou num terceiro filme que dirigi depois de &#8220;A Pele Morta\u201d. Primeiro, fiz Venezuela e Brasil. O segundo, que eu fiz junto com minha irm\u00e3, que foi &#8220;A Pele Morta&#8221;, foi Paraguai e Brasil, e, agora, eu filmei Chile e Brasil. Ent\u00e3o, voc\u00ea v\u00ea que a tem\u00e1tica da Am\u00e9rica Latina est\u00e1 em mim. Era uma coisa que o Geraldo tinha. A gente acabou herdando. Acabamos herdando muitas coisas. A ancestralidade est\u00e1 a\u00ed. E gosto de trabalhar o cinema com sil\u00eancios at\u00e9 mesmo no extra quadro, no extra campo. E a gente conseguia fazer isso por conta da boleia do caminh\u00e3o. Outras situa\u00e7\u00f5es, assim, que s\u00e3o mais sugestivas no filme, como quando o Justo, \u00e0s vezes, est\u00e1 arrumando o caminh\u00e3o e tem uma coisa acontecendo no fundo, na profundidade de campo. S\u00e3o v\u00e1rios tipos de sil\u00eancios. Quando escutamos uma mosca que voa, estamos ouvindo um grande sil\u00eancio. Afinal, voc\u00ea tem a capacidade de ouvir uma mosca. Ent\u00e3o, a gente trabalhou muito com isso. Com esses elementos. O sil\u00eancio trabalhado atrav\u00e9s de micro-sons. Mas voc\u00ea tamb\u00e9m est\u00e1 falando dos intervalos. E desses tempos um pouco mais dilatados. Mesclamos cenas que t\u00eam uma certa din\u00e2mica, que tinha uma certa agilidade, com cenas que t\u00eam um respiro. Inclusive, tem uma cena muito simb\u00f3lica no filme que tem uma foto do Geraldo em cena. Ela se passa dentro da boleia do caminh\u00e3o. Nessa cena, os atores fizeram as pausas do jeito que deviam. Eram dois atores fazendo o seu primeiro filme. A Ivana (Gomez), do Paraguai, e o e o Luan (Iturve), do Brasil. Foi uma cena que a gente trabalhou esses tempos, que \u00e9 quando eles vasculham o que tem no frete e encontram fotos de fam\u00edlia. Era uma cena que a gente j\u00e1 tinha no roteiro. E est\u00e1vamos na decupagem, a gente falou: &#8220;Cara, quando eu falo do pai, a gente podia botar uma foto do Geraldo, n\u00e9&#8221;? A\u00ed a gente escolheu a foto, ficamos debatendo ali e colocamos aquela foto do Geraldo. Porque n\u00e3o deixa de ser uma homenagem para ele. O filme \u00e9 uma homenagem para ele. \u00c9 um filme para ele, de fato. E essa \u00e9 uma cena que tem esse sil\u00eancio que voc\u00ea est\u00e1 falando. \u00c9 um filme muito simples, muito singelo, muito despretensioso, que fala de resist\u00eancia ind\u00edgena e fala dessa coisa de voc\u00ea n\u00e3o abandonar quem voc\u00ea \u00e9. O Saulo sai no in\u00edcio do filme falando: &#8220;Cara, \u00e9 ruim querer mudar de vida&#8221; Eu vejo a estrada nesse filme como se fosse a cauda da cobra. \u00c9 a analogia da pele morta mesmo. O Justo fala isso no in\u00edcio do filme. A cobra se livra da pele dela, mas ela n\u00e3o deixa de ser a cobra. \u00c9 isso, sabe? A gente trabalhou essas analogias o tempo inteiro. Essas linguagens assim sugestivas o tempo todo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu queria perguntar sobre a simbologia da cena em que a foto do Geraldo aparece e aquela frase da Ros\u00e1rio dizendo: &#8220;Est\u00e1 faltando o pai.&#8221; Isso se encaixa de forma t\u00e3o org\u00e2nica no filme e a Solange me falou que algumas das roupas que o Justo usava, inclusive, pertenceram ao Geraldo. Voc\u00ea poderia falar sobre a constru\u00e7\u00e3o desse momento?<\/strong><br \/>\nDenise &#8211; Isso surgiu de forma bem espont\u00e2nea. Porque a gente queria fazer uma homenagem ao nosso pai dentro do filme. Homenagear ele n\u00e3o significava reproduzir o filme que ele faria porque a gente n\u00e3o teve tempo de conversar com ele sobre isso. Mas quer\u00edamos, de alguma forma, ter ele presente. Acredito que foi uma maneira que encontramos e que foi muito singela de homenage\u00e1-lo, de traz\u00ea-lo para o filme. De ter, realmente, a imagem dele registrada de alguma forma, j\u00e1 que ele n\u00e3o pode n\u00e3o p\u00f4de dirigir o filme, ele estaria ali perpassando, atravessando diferentes inst\u00e2ncias do filme, nem que fosse uma fotografia de um \u00e1lbum. \u00c9 uma cena muito linda, das minhas preferidas. Porque quando a gente fala de pertencimento, estamos falando muito de casa, tamb\u00e9m. De lar. E ambos est\u00e3o muito em busca desse lugar. E ali, no caminh\u00e3o chamado Nuestra Am\u00e9rica , traz uma cena muito simb\u00f3lica. O Nuestra Am\u00e9rica tamb\u00e9m \u00e9 a nossa casa. E eles est\u00e3o dentro do caminh\u00e3o. E ali tem v\u00e1rios m\u00f3veis que comp\u00f5em uma casa.&#8217;Ent\u00e3o, eles t\u00eam aquele esfor\u00e7o inicial ade colocar os m\u00f3veis no lugar. \u00c9 a Ros\u00e1rio quem instiga isso. E depois eles se sentam, come\u00e7am a conversar um pouco e ela pergunta para ele: &#8220;Como \u00e9 a sua casa?&#8221; E ele tem essa casa ainda na mem\u00f3ria. E quando ele faz a mesma pergunta, ela fica em sil\u00eancio. Porque ela n\u00e3o tem uma casa, ela n\u00e3o tem um lar. Ela vem de um lugar hostil. Tanto \u00e9 que ela sai em busca da irm\u00e3. Acho que \u00e9 muito simb\u00f3lico ter a foto dele ali exatamente nesse momento. Porque apesar de ser um filme com uma equipe muito diversa, tem gente do Paraguai, de Bras\u00edlia, e tamb\u00e9m personagens de diferentes nacionalidades, que tamb\u00e9m \u00e9 algo muito rico, eu o entendo muito como um filme familiar. Familiar nesse sentido do afeto, sabe? Dessa dimens\u00e3o, mesmo, afetiva. Tanto da narrativa que a gente prop\u00f5e como da forma como esse filme foi constru\u00eddo. At\u00e9 esse lugar delicado que a Sol viveu, de perder um grande companheiro e ainda ter que manter vivo e trazer esse legado dele ainda. De continuar a obra que ele iniciou. Ent\u00e3o, \u00e9 bem complexo. E eu acho que esse momento em que vemos a fotografia, em que a gente p\u00f4de trazer essa fotografia ali nesse \u00e1lbum, essa fotografia do nosso pai, \u00e9 um momento muito \u00edntimo, tamb\u00e9m, nosso enquanto diretores no sentido do respeito a uma obra que veio dele. Que a gente recebeu como um legado e que a gente tinha que fazer jus. Ao mesmo tempo mantendo essa reflex\u00e3o dele. Era um debate que ele sempre trazia muito quando ele era vivo nas conversas, que \u00e9 o debate desse cinema pol\u00edtico nesse sentido da Am\u00e9rica Latina. De ter uma Am\u00e9rica Latina unida. Pensar, refletir sobre essas fronteiras invis\u00edveis que separam a nossa Am\u00e9rica Latina. \u00c9 um filme que para ele era muito importante. T\u00ea-lo ali nesse momento, por meio da fotografia, \u00e9 uma maneira da gente materializar o nosso agradecimento a ele, tamb\u00e9m, pelo seu legado. Eu e o Bruno tivemos experi\u00eancias muito diversas. O Bruno teve mais contato com ele, porque esteve com ele durante toda a trajet\u00f3ria de cinema, de cineasta, do nosso pai. Ent\u00e3o, o Bruno se formou muito com ele. Toda a forma\u00e7\u00e3o dentro do cinema do Bruno foi muito pr\u00f3xima do nosso pai. E no meu caso j\u00e1 foi muito diferente. Eu tive uma trajet\u00f3ria muito distanciada. Eu estudei fora, fiz o meu curso na Fran\u00e7a. Eu nem ia fazer cinema, eu me formei em arquitetura primeiro. Depois que, longe do Brasil, foi que eu falei: &#8220;N\u00e3o, quero fazer cinema&#8221;. N\u00e3o foi assim tipo: &#8220;Ah, meu pai faz cinema, eu quero fazer cinema&#8221;. Ao contr\u00e1rio. Acho que at\u00e9 o fato dele ser cineasta acabava me distanciando um pouco desse lugar do cinema. E a\u00ed eu fui construindo a minha carreira um pouco distante. Eu trabalhei em um filme do meu pai, que foi \u201cNo Cora\u00e7\u00e3o dos Deuses\u201d (1999), como segunda assistente de dire\u00e7\u00e3o. E depois fui construindo sozinha. Hoje, \u00e9 at\u00e9 interessante porque eu sou professora da Universidade de Bras\u00edlia no mesmo lugar que ele era professor. E no mesmo departamento que ele dava aula e no mesmo curso. Ent\u00e3o, acho que o filme, tamb\u00e9m, fala sobre isso. Sobre o caminho espont\u00e2neo que vai aparecendo, surgindo, e que, no final, leva a gente para lugares um pouco inusitados que a gente n\u00e3o imaginava. Ent\u00e3o, essa \u00e9 uma cena assim muito simb\u00f3lica, mesmo. De t\u00ea-lo na foto, a imagem dele dentro desse filme que est\u00e1 ali numa materialidade. Eu acho que isso \u00e9 o m\u00ednimo que a gente faria por ele. De t\u00ea-lo ali nessa cena que reflete sobre casa, sobre esse lugar familiar e \u00edntimo. De se constituir enquanto pertencente a algum territ\u00f3rio Que seja ele um lugar geogr\u00e1fico ou um territ\u00f3rio afetivo, mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Daniel, voc\u00ea falou sobre essas experi\u00eancias ligando pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina nos filmes, e em &#8220;A Pele Morta&#8221; h\u00e1 essa quest\u00e3o muito bem evidenciada. Inclusive, a Solange comentou sobre o pr\u00f3prio Geraldo, quando leu o roteiro em 2010, ter feito essa liga\u00e7\u00e3o com Eduardo Galeano. No filme, essas fronteiras da Am\u00e9rica Latina s\u00e3o invis\u00edveis, mas, tamb\u00e9m, palp\u00e1veis.<\/strong><br \/>\nBruno &#8211; Acho que, talvez, esse tenha sido o mergulho mais profundo que eu fiz com a Denise no filme. Que era essa coisa de quebrar a ideia da fronteira. E a gente tentou at\u00e9 de forma muito sutil colocar uma fronteira entre o Justo e o Saulo no in\u00edcio do filme. Ent\u00e3o, por exemplo, eles est\u00e3o sempre separados por algum elemento ali. Tem um poste, por exemplo, quando ele vai se despedir do posto que est\u00e1 entre o Justo e ele. \u00c9 muito sutil isso. Lembro que peguei na \u00e9poca o livro do Galeano, &#8220;As Veias Abertas da Am\u00e9rica Latina&#8221;, e a gente foi tentando traduzir em imagens esse conceito. Porque o roteiro do Daniel Tavares j\u00e1 fazia isso. Foi um mergulho muito profundo, porque a gente n\u00e3o queria falhar. E eu acho que a gente conseguiu isso, sabe? Eu estava conversando com o Eduardo Valente, que convidou o filme para abrir o Festival de Bras\u00edlia. E ele deixou isso muito claro. Que a gente conseguiu passar essa ideia da invisibilidade da fronteira da Am\u00e9rica Latina. At\u00e9 mesmo a \u00fanica fronteira que tem no filme, a gente quis faz\u00ea-la de uma forma clandestina. Que \u00e9 a cena que o Saulo fala com um cara que est\u00e1 abastecendo o carro. Ele fala: &#8220;Cara, que horas s\u00e3o&#8221;? A\u00ed ele responde: &#8220;De um lado da rua \u00e9 tal hor\u00e1rio, do outro lado \u00e9 outro hor\u00e1rio&#8221;. Era justamente uma leitura sobre algo que n\u00e3o precisaria existir, n\u00e9? Porque, teoricamente, a gente faria uma fronteira como se fosse uma fronteira real. Mas era super cab\u00edvel o Justo fazer uma rota clandestina. Sendo o caminhoneiro que ele \u00e9, fazendo mudan\u00e7a, ele tem aquela personalidade de um cara que faz frete de qualquer forma. Enfim, foi um mergulho que a gente mais se aprofundou durante o processo. Eu e Denise, a cada cena, a gente debatia sobre isso.<\/p>\n<figure id=\"attachment_97399\" aria-describedby=\"caption-attachment-97399\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-97399\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/DIRETORES-A-PELE-MORTA-DENISE-MORAES-E-BRUNO-TORRES.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/DIRETORES-A-PELE-MORTA-DENISE-MORAES-E-BRUNO-TORRES.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/DIRETORES-A-PELE-MORTA-DENISE-MORAES-E-BRUNO-TORRES-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-97399\" class=\"wp-caption-text\"><em>Denise Moraes e Bruno Torres no set de &#8220;A Pele Morta&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E a quest\u00e3o do personagem do Luan, o Saulo, ser um rapper, ser algu\u00e9m que \u00e9 ind\u00edgena, mas que tamb\u00e9m faz rap. Tem um momento do filme em que ele explica ao Justo a pron\u00fancia da palavra &#8220;rap&#8221;. \u00c9 interessante ver essa quest\u00e3o da coloniza\u00e7\u00e3o, da influ\u00eancia, de um olhar voltado para fora e n\u00e3o para dentro da Am\u00e9rica Latina \u00c9 interessante observar como ele consegue dar essa li\u00e7\u00e3o ao Justo nesse sentido.<\/strong><br \/>\nDenise &#8211; Isso \u00e9 uma coisa que a Solange achava bem interessante. Ela falou que quando o nosso pai ia construir, ia dirigir o filme, e come\u00e7ou a pensar na proposta de dire\u00e7\u00e3o, para ele, quem era o personagem principal era o Justo. E quando eu e o Bruno entramos na dire\u00e7\u00e3o, j\u00e1 de in\u00edcio, assim, em nenhum momento questionamos que o nosso personagem principal era o Saulo. Eu acho que houve uma identifica\u00e7\u00e3o muito grande entre a gente com esse personagem. Ent\u00e3o, o Saulo ele se tornou o protagonista da hist\u00f3ria. Apesar de ser uma hist\u00f3ria de co-protagonismo, de ter ali tr\u00eas personagens de diferentes nacionalidades, e o filme ser conduzido muito nesse intuito do encontro entre esses tr\u00eas personagens, para a gente era muito \u00f3bvio que o Saulo era o nosso personagem principal, que era o nosso protagonista. E esse personagem tem um aspecto que eu, particularmente, gosto muito, que ele \u00e9 um ind\u00edgena do nosso tempo, n\u00e9? Ele tem o p\u00e9 no presente. Ele \u00e9 um ind\u00edgena contempor\u00e2neo. Ee \u00e9 um rapper, ele fica mexendo o tempo todo no celular, ele transita muito bem entre as refer\u00eancias dessa cultura. Usa aquele bon\u00e9 dos Bulls, tem aquele som &#8220;de Playboy&#8221; que ele compra. Mas, tamb\u00e9m, na cultura dele, na ancestralidade. Tanto \u00e9 que as m\u00fasicas dele falam sobre as reivindica\u00e7\u00f5es do povo dele. Ent\u00e3o, tivemos esse cuidado de n\u00e3o construir uma representa\u00e7\u00e3o estereotipada de um personagem de um jovem ind\u00edgena nesse sentido, mas de trazer esse personagem que vive a sua identidade ind\u00edgena no presente. Mas, tamb\u00e9m, vai ressignificando essas pr\u00f3prias experi\u00eancias dele nesse tempo atual, nesse tempo presente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E ele se afirma tamb\u00e9m, n\u00e9? Em diversos momentos, como quando compra a caixa de som, na cena em que o Justo pergunta se ele tem documento. \u00c9 bem pertinente observar isso.<\/strong><br \/>\nDenise &#8211; Sim. Isso foi um cuidado que tivemos. Inclusive, aquela cena do shopping, tamb\u00e9m, \u00e9 uma cena que a gente quis muito. Aquela frase que ele fala: &#8220;Eu vou pagar \u00e0 vista&#8221;. Ent\u00e3o, apesar dele ser o empregado do Justo, porque ele est\u00e1 ali como um empregado, ele tem um sal\u00e1rio. Mas ainda assim ele n\u00e3o se dobra ao homem branco. Ent\u00e3o, nisso, tamb\u00e9m, ele tem uma for\u00e7a, uma determina\u00e7\u00e3o muito grande. Esse \u00e9 um personagem que a gente gosta muito. Da forma como constru\u00edmos o lugar dele dentro do filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bruno &#8211; \u00c9 legal essa observa\u00e7\u00e3o sua porque uma das coisas que a gente queria quebrar \u00e9 essa coloniza\u00e7\u00e3o norte-americana que a gente vem passando ao longo de muitos anos aqui no Brasil e na Am\u00e9rica Latina como um todo. Isso \u00e9 forte no filme. E eu acho que algo que refor\u00e7a isso \u00e9 o fato tamb\u00e9m da gente fazer um filme que \u00e9 falado em portugu\u00eas, em espanhol e em guarani. Isso, tamb\u00e9m, \u00e9 um elemento de fronteira. Tanto que o Justo n\u00e3o entende quando Saulo e Ros\u00e1rio falam em guarani e fica irritado com eles nesses momentos em que eles est\u00e3o falando em guarani. S\u00e3o muitos elementos, sabe? Ainda sobre a quest\u00e3o das fronteiras entre eles, s\u00e3o muitos elementos que a gente foi trabalhando aos poucos. Ela, \u00e0s vezes, est\u00e1 sentada entre eles, ent\u00e3o, ela separa os dois. Os elementos de fronteira, de uma forma sutil entre eles, est\u00e1 ali o tempo todo. Mas a partir do momento que a Ros\u00e1rio vai entrando nessa hist\u00f3ria, mais eles v\u00e3o se unificando, aparecendo mais no mesmo quadro, cada vez mais vezes. At\u00e9 eles estarem juntos no mesmo lugar ali. Eu acho que a despedida deles \u00e9 um reflexo disso no final, onde eles j\u00e1 est\u00e3o bem. Os dois j\u00e1 est\u00e3o bem. Ent\u00e3o, a gente trabalhou com os elementos de uma forma evolutiva, tamb\u00e9m. Essa coisa da fronteira e da Am\u00e9rica Latina. Porque o roteiro do Daniel Tavares, tamb\u00e9m, sugeria isso. Era um roteiro muito evolutivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando voc\u00ea falou da quest\u00e3o da divis\u00e3o, eu lembrei desse momento quando ela entra no caminh\u00e3o pela primeira vez, ela fica na ponta e o Saulo fica no meio. Depois ela passa para o meio. Ent\u00e3o, assim, h\u00e1 uma divis\u00e3o, realmente. E na cena em que ela d\u00e1 um sorvete para cada um, ela fica no meio, tamb\u00e9m, ap\u00f3s a briga.<\/strong><br \/>\nBruno- Isso. Exato. Tem uma cena em que ele canta um rap na boleia e no final ele fala: &#8220;Mas o Agro \u00e9 pop&#8221;. Nesse momento, colocamos um peda\u00e7o do para-brisa, da estrutura vertical do para-brisa entre eles. Eles est\u00e3o separado por um elemento, assim, sabe? \u00c9 muito sutil e n\u00e3o era para ser did\u00e1tico. A gente n\u00e3o queria fazer isso em todas as cenas. Mas quer\u00edamos mostrar que eles ainda n\u00e3o estavam totalmente unificados, entendeu? E que eles precisavam se unificar. Ent\u00e3o, eles s\u00e3o s\u00edmbolos de um coletivo mesmo. Talvez o Luan represente o Brasil, esse pa\u00eds, e o Justo \u00e9 um uruguaio, quase paraguaio, como ele mesmo falou no filme e representa uma outra na\u00e7\u00e3o. Mas eles est\u00e3o l\u00e1, est\u00e3o juntos, atravessando essas estradas. Ent\u00e3o, acho que essas coisas sutis s\u00e3o as mais interessantes de um filme. \u00c9 melhor do que voc\u00ea ficar tornando a coisa muito did\u00e1tica. Porque, no fim das contas, lembro do Geraldo, porque ele falava: &#8220;Se pudesse me definir com uma palavra, uma frase, eu falaria que sou um contador de hist\u00f3rias&#8221;. Ent\u00e3o, para a gente, o ideal era focar em contar essa hist\u00f3ria. A linguagem, os elementos narrativos, a gente trouxe para enriquecer um pouco a estrutura e dramaturgia visual do filme. Foi o que fizemos. Agora vamos entender se fomos bem sucedidos. Porque o filme, agora, encontra o p\u00fablico. E esses preconceitos velados tem v\u00e1rias vezes no filme, n\u00e9? O Justo pergunta pro Saulo se ele tem documento. Quando o Saulo vai comprar o som, ele \u00e9 atravessado ali pelos vendedores brancos que n\u00e3o acreditam que ele possa ter dinheiro para comprar, e ele fala que vai comprar \u00e0 vista. O filme tem isso. \u00c9 isso. Vamos ver como \u00e9 que vai bater com o p\u00fablico. Vamos estrear esse filme em Bras\u00edlia, que tem muito a ver com Geraldo, que tem uma hist\u00f3ria gigante aqui, e vamos em frente.<\/p>\n<figure id=\"attachment_97396\" aria-describedby=\"caption-attachment-97396\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-97396\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/apm_corte_finalizacao-1080p.00_46_17_04.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/apm_corte_finalizacao-1080p.00_46_17_04.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/apm_corte_finalizacao-1080p.00_46_17_04-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-97396\" class=\"wp-caption-text\"><em>Cena de \u201cA Pele Morta\u201d<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Luan j\u00e1 era rapper?<\/strong><br \/>\nBruno &#8211; N\u00e3o, n\u00e3o era.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Olha s\u00f3, eu imaginei que ele fosse. Mas ele n\u00e3o ser e aprender a fazer aquilo torna isso ainda mais magn\u00edfico.<\/strong><br \/>\nBruno &#8211; Ele era m\u00fasico. Toca o viol\u00e3o e canta. E ele era muito articulado, assim. Por isso o selecionamos. Precis\u00e1vamos encontrar um ator ind\u00edgena, uma pessoa que tivesse a capacidade de absorver o processo. E dentre os ind\u00edgenas com quem trabalhamos, v\u00e1rios que pr\u00e9-selecionamos eram n\u00e3o-atores. Entre eles, encontramos dois muito bons. S\u00f3 que um, que era o Alliston, parecia muito mais novo do que o Luan, que \u00e9 justamente o ator que faz o personagem do irm\u00e3o dele, que \u00e9 recolhido para fazer trabalho comunit\u00e1rio. Sobre o Alliston, tem uma coisa que eu queria falar sobre ele depois. Mas o Luan compreendia mais o processo. Ele era mais centrado. O outro menino era um talento, mas era dois anos mais novo que o Luan. E Luan tinha esse intelecto. Nos testes, ele j\u00e1 entendia, ele j\u00e1 trocava bem com a gente. Ent\u00e3o, trouxemos o Luan para esse protagonismo e colocamos esse outro menino para ser o irm\u00e3o. Ou seja, o Luan entrou de cabe\u00e7a na prepara\u00e7\u00e3o de elenco, tamb\u00e9m. A parte do rap ele foi pegando. Ele tinha o ouvido musical, mas ele n\u00e3o era um rapper. Ent\u00e3o a gente tinha l\u00e1 uma esp\u00e9cie de consultoria com os Br\u00f4 MC&#8217;s. A m\u00fasica \u00e9 dos Bro MC&#8217;s, inclusive, que \u00e9 um grupo ind\u00edgena Guarani Kaiow\u00e1 de rap. Eles que foram respons\u00e1veis por fazer com que o Luan passasse essa ideia de ser rapper. Essa pergunta que voc\u00ea fez \u00e9 muito boa, porque eu vejo que a gente conseguiu vender bem a ideia de que ele \u00e9 um rapper. Mas ele n\u00e3o era.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o que voc\u00ea queria dizer sobre o Alliston?<\/strong><br \/>\nBruno &#8211; Voc\u00ea v\u00ea a for\u00e7a do roteiro do Daniel e a import\u00e2ncia desse filme existir de uma certa maneira. Porque se voc\u00ea ler a primeira frase da sinopse que foi entregue, \u00e9: &#8220;Saulo vivendo o luto da perda do irm\u00e3o Nathan&#8221;. Isso est\u00e1 no trailer tamb\u00e9m. Ou seja, a gente tinha no centro da quest\u00e3o um irm\u00e3o que morreu. Mas n\u00e3o colocamos no filme se ele foi assassinado ou n\u00e3o. Isso que eu vou te falar \u00e9 muito forte porque foi uma coisa que foi muito pesada pra a gente, mas n\u00f3s sempre entendemos que, apesar de n\u00e3o explicarmos sobre a morte do irm\u00e3o no filme porque achamos que n\u00e3o era necess\u00e1rio, at\u00e9 porque busc\u00e1vamos por algo sutil no roteiro, mas para n\u00f3s esse personagem tinha sido assassinado. E ali \u00e9 um conflito gigante. N\u00e3o sei se voc\u00ea j\u00e1 foi em Dourados, mas \u00e9 praticamente assim: um lado da cidade s\u00e3o as comunidades ind\u00edgenas e o outro lado da cidade s\u00e3o os condom\u00ednios, da alta classe e todo o agroneg\u00f3cio. Ent\u00e3o, eles vivem conflitos de terra o tempo inteiro e, de fato, eles s\u00e3o assassinados o tempo todo. Por isso que o Daniel Tavares colocou isso no filme. E a gente teve um hist\u00f3rico do filme virando realidade. Porque, praticamente quatro meses depois que fizemos o filme, esse menino, o ator que faz o irm\u00e3o do Saulo, foi assassinado. Ent\u00e3o, tivemos uma perda nesse filme que flerta com a hist\u00f3ria, infelizmente. E que mostra que esse filme precisa existir. Isso para que a gente consiga, de alguma maneira, se \u00e9 que o cinema tem esse poder e essa for\u00e7a, embora seja uma ferramenta e eu acredite muito que seja uma ferramenta muito forte de utopia, para que a gente consiga mudar de alguma forma isso. Porque n\u00f3s, os brancos, tiramos tudo dos ind\u00edgenas. A gente tirou tudo deles. Eles j\u00e1 n\u00e3o tem nada. E l\u00e1, em Dourados, \u00e9 uma desigualdade absurda. \u00c9 um dos lugares que mais tem \u00edndice de suic\u00eddio no Brasil. Na \u00e9poca, era a que mais tinha. Hoje, eu n\u00e3o sei se continua sendo o bairro, que, na verdade, \u00e9 uma comunidade ind\u00edgena ,onde mais tem suic\u00eddio. Ent\u00e3o, assim, muitas vezes eles se suicidam, muitas vezes eles s\u00e3o assassinados de maneira misteriosa. Por resist\u00eancia, n\u00e9? Outra coisa que aconteceu alguns meses depois foi que a oca que filmamos, que \u00e9 uma oca real de uma rezadeira, foi queimada. Eles atearam fogo na loca\u00e7\u00e3o do filme que era uma oca real. Entende? Porque a\u00ed vem as quest\u00f5es de igreja evang\u00e9lica, tamb\u00e9m da bancada evang\u00e9lica. Ou seja, \u00e9 um filme que est\u00e1 falando dessa resist\u00eancia ind\u00edgena. E essa morte do Alliston foi uma pancada para todos n\u00f3s. Ele era um talento. A gente conversava sobre, na \u00e9poca do lan\u00e7amento do filme, traz\u00ea-lo, entende? Fazer com que ele tivesse chances de atuar, porque ele queria muito ser ator. Ou seja, foi muito forte para a gente lan\u00e7ar esse filme agora dentro desse contexto. N\u00f3s tivemos quatro perdas nesse filme. O Geraldo, o Ant\u00f4nio Luiz Menin, que morreu de Covid, o Petrus Barreto, que era o advogado do projeto e o Alliston, que \u00e9 algo que flerta com a hist\u00f3ria, infelizmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu acho que o Eduardo Valente foi muito feliz em colocar como a abertura do festival esse filme, por conta da hist\u00f3ria de seu pai com a cidade e com a UNB e com o Festival de Bras\u00edlia.<\/strong><br \/>\nDenise Moraes &#8211; Ah, com certeza. A gente fica muito emocionado com essa grande homenagem. Poder exibir o filme no Festival de Bras\u00edlia. Isso porque o nosso pai foi professor da UNB. A maior parte da trajet\u00f3ria dele profissional foi aqui nessa cidade. Ent\u00e3o, poder apresentar esse filme tem um significado pol\u00edtico forte. Porque \u00e9 um tema que, politicamente, \u00e9 importante a gente trazer essas reflex\u00f5es sobre a Am\u00e9rica Latina. Mas tem, tamb\u00e9m, um significado afetivo muito, muito forte de estar abrindo esse festival nessa cidade que abra\u00e7ou nosso pai. Ele veio do Rio Grande do Sul, mas foi a cidade que ele encontrou, tamb\u00e9m, como lugar de pertencimento. Ent\u00e3o, \u00e9 uma grande honra mesmo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/A-Pele-Morta_baixa-resolucao.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e \u00e9 autor de \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/11\/11\/entrevista-mitico-guitarrista-baiano-alvaro-assmar-ganha-biografia-joao-paulo-barreto-fala-sobre-uma-vida-blues\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Uma Vida Blues<\/a>\u201d, biografia de \u00c1lvaro Assmar.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cA Pele Morta\u201d \u00e9 um road movie que acompanha, na bol\u00e9ia de um caminh\u00e3o, a rela\u00e7\u00e3o entre um caminhoneiro uruguaio, um jovem rapper de origem ind\u00edgena e uma adolescente paraguaia\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/09\/11\/entrevista-denise-moraes-e-bruno-fatumbi-torres-falam-de-a-pele-morta-ultimo-projeto-de-seu-pai-geraldo-moraes\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":97395,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,4],"tags":[8364,8365,8363],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97392"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=97392"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97392\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":97400,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97392\/revisions\/97400"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/97395"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=97392"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=97392"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=97392"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}