{"id":97379,"date":"2026-09-10T13:54:17","date_gmt":"2026-09-10T16:54:17","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=97379"},"modified":"2026-09-10T13:58:07","modified_gmt":"2026-09-10T16:58:07","slug":"entrevista-nunca-consideramos-a-hipotese-de-que-o-festival-de-brasilia-nao-fosse-acontecer-diz-eduardo-valente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/09\/10\/entrevista-nunca-consideramos-a-hipotese-de-que-o-festival-de-brasilia-nao-fosse-acontecer-diz-eduardo-valente\/","title":{"rendered":"Entrevista: &#8220;Nunca consideramos a hip\u00f3tese de que o Festival de Bras\u00edlia n\u00e3o fosse acontecer (em 2026)\u201d, diz Eduardo Valente"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/joao.paulo.barreto.824529\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na primeira quinzena de agosto, uma not\u00edcia caiu como uma bomba no meio cultural do cinema brasileiro: o <a href=\"https:\/\/festcinebrasilia.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Festival de Bras\u00edlia<\/a>, o mais longevo evento cinematogr\u00e1fico do pa\u00eds, seria cancelado pela primeira vez desde a ditadura devido a atraso no repasse de recursos do Governo do Distrito Federal destinados \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o do evento. \u201cFoi um pico de tens\u00e3o de 48 horas\u201d, revela Eduardo Valente, diretor art\u00edstico do Festival, em entrevista ao Scream &amp; Yell. Ap\u00f3s um breve impasse or\u00e7ament\u00e1rio, o governo local liberou as verbas necess\u00e1rias e a realiza\u00e7\u00e3o do festival foi confirmada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEnquanto dire\u00e7\u00e3o do festival, nunca cogitamos n\u00e3o realiz\u00e1-lo. Nunca consideramos a hip\u00f3tese de que o festival n\u00e3o fosse acontecer\u201d, explica Eduardo. \u201cO que poderia se cancelar seria a participa\u00e7\u00e3o da Secretaria de Cultura do Distrito Federal. Mas a gente ia construir caminhos alternativos\u201d, pontua. O epis\u00f3dio, estressante, trouxe um ponto positivo, segundo Eduardo: \u201cFoi tornar mais claro para alguns gestores que n\u00e3o estejam t\u00e3o ligadas ao universo espec\u00edfico do cinema brasileiro, da hist\u00f3ria do festival de Bras\u00edlia para entender que esse festival \u00e9 um pouco maior do que algumas pessoas pudessem imaginar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A curadoria da edi\u00e7\u00e3o 2026 do Festival de Bras\u00edlia j\u00e1 estava finalizada quando o epis\u00f3dio ocorreu, o que permitiu a Eduardo, respons\u00e1vel pela dire\u00e7\u00e3o art\u00edstica, auxiliar Sara e Henrique Rocha, respons\u00e1veis pela produ\u00e7\u00e3o do evento. O processo curatorial da edi\u00e7\u00e3o desse ano traz novos trabalhos de nomes como Julio Bressane, Ary Rosa e Glenda Nic\u00e1cio, Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner, Andr\u00e9 Novais Oliveira, Caetano Gotardo, Thamires Vieira, al\u00e9m de apresentar um trabalho p\u00f3stumo de Silvio Tendler e contar com \u201cA Pele Morta\u201d, uma esp\u00e9cie de homenagem ao cineasta Geraldo Moraes, na abertura do evento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c\u2019A Pele Morta\u2019 \u00e9 um filme que cumpre v\u00e1rias fun\u00e7\u00f5es\u201d, observa Eduardo. \u201c\u00c9 um filme absolutamente engajante no sentido humano, dram\u00e1tico, narrativo. \u00c9 um road movie dentro de toda uma tradi\u00e7\u00e3o desse g\u00eanero, que se passa quase todo dentro da bol\u00e9ia de um caminh\u00e3o, entre dois ou tr\u00eas personagens que ficam ali convivendo e que v\u00e3o tra\u00e7ando la\u00e7os e tendo tens\u00f5es e tal. E tem toda essa hist\u00f3ria com o pr\u00f3prio cinema de Bras\u00edlia a partir da figura do Geraldo (Moraes), que foi um cineasta dos mais decisivos para forma\u00e7\u00e3o de um cinema espec\u00edfico do Distrito Federal. \u00c9 um filme que caiu como uma luva\u201d (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/09\/10\/entrevista-solange-moraes-fala-sobre-a-producao-de-a-pele-morta-filme-que-abre-o-festival-de-brasilia-2026\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">saiba mais sobre o filme aqui<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na conversa abaixo, Eduardo Valente aprofunda o olhar sobre outros filmes da programa\u00e7\u00e3o da 59\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Festival de Bras\u00edlia do Cinema Brasileiro. Ele fala sobre &#8220;Tempo \u00e0 Faca&#8221;, filme escrito e dirigido por Diogo Oliveira tendo Ruy Guerra como co-autor, a posi\u00e7\u00e3o hors-concours de Julio Bressane no evento, que participa com \u201cPitico\u201d; e do retorno, dez anos depois de &#8220;Caf\u00e9 com Canela&#8221;, de Ary Rosa e Glenda Nic\u00e1cio com &#8220;Todo o Sentimento&#8221;. Leia abaixo!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-97381 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/brasilia2026.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/brasilia2026.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/brasilia2026-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Festival de Bras\u00edlia passou por esses momentos de d\u00favida sobre uma possibilidade de n\u00e3o realiza\u00e7\u00e3o esse ano, mas com a mobiliza\u00e7\u00e3o da comunidade de cinema no Brasil, a Secretaria de Cultura do DF voltou atr\u00e1s na decis\u00e3o. Como diretor art\u00edstico do evento, voc\u00ea poderia falar um pouco como foram aqueles momentos de incertezas no come\u00e7o de agosto?<\/strong><br \/>\nTemos uma divis\u00e3o de fun\u00e7\u00f5es bem firme na organiza\u00e7\u00e3o do Festival de Bras\u00edlia. Eu cuido da parte art\u00edstica e a a dire\u00e7\u00e3o da parte da produ\u00e7\u00e3o do evento \u00e9 da Sara (Rocha) e do Henrique (Rocha). Trabalhamos muito junto, com muitas trocas, mas a gente tenta deixar bem separado em tudo que \u00e9 poss\u00edvel, embora as coisas se conectem, obviamente. Ent\u00e3o, nesse ponto, a gente tenta preservar muito o trabalho que eu estou fazendo na dire\u00e7\u00e3o art\u00edstica toda, junto com as comiss\u00f5es de sele\u00e7\u00e3o, da montagem da programa\u00e7\u00e3o, da conversa com os filmes. Ent\u00e3o, minha participa\u00e7\u00e3o nessa outra parte do processo \u00e9 m\u00ednima, n\u00e3o s\u00f3 nessa quest\u00e3o espec\u00edfica desse ano, mas na gest\u00e3o constante mesmo do processo tanto pol\u00edtico institucional, quanto financeiro, etc. Tem toda uma s\u00e9rie de outros estresses que n\u00e3o d\u00e1 para todo mundo se preocupar com tudo. At\u00e9 mesmo porque temos a obriga\u00e7\u00e3o de assistir a 300 longas, 1400 curtas. Se formos ainda nos preocupar com o resto, n\u00e3o conseguimos fazer o nosso. Ent\u00e3o acompanhei muito lateralmente o andamento dessa quest\u00e3o at\u00e9 aquele momento. Eu estava informado de que, claro, o andamento estava um pouco mais complicado do que em outros anos, mas naquela semana em que houve o quase an\u00fancio de cancelamento da participa\u00e7\u00e3o da Secretaria de Estado, me envolvi ali 48 horas, que foi mais ou menos, tamb\u00e9m, o tempo que a coisa se solucionou. Sinto que para o meu trabalho, ou seja, para o trabalho art\u00edstico, fizemos todo o poss\u00edvel para que ele n\u00e3o fosse afetado no seu cotidiano com rela\u00e7\u00e3o a esses processos. At\u00e9 porque aquilo ali aconteceu quando faltava praticamente um m\u00eas para o come\u00e7o do festival, ent\u00e3o, a parte art\u00edstica j\u00e1 estava, no sentido da concep\u00e7\u00e3o, finalizada. E a gente tinha trabalhado esse tempo inteiro como qualquer outra edi\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, acho que foi um pico de tens\u00e3o de 48 horas. Eu acho que, talvez, a Secretaria de Cultura, que est\u00e1 com uma gest\u00e3o razoavelmente recente, porque houve toda uma troca l\u00e1 por conta desse processo de ano eleitoral, eu acho que a Secretaria e o governo do DF naquele momento, com todas as dificuldades que eles podem estar passando, acho que eles n\u00e3o mensuraram exatamente o que significa esse festival tanto para a cidade, para o Distrito Federal, quanto para o cinema brasileiro como um todo, e o quanto de resposta que haveria a uma possibilidade como essa. E acho que essa resposta se mostrou robusta o suficiente que o retorno a uma quase normalidade nesse sentido foi muito r\u00e1pido. Ent\u00e3o, em um certo sentido, sinto que tem at\u00e9 um lembrete importante e, eventualmente, positivo desse processo e da forma que ele aconteceu, que foi tornar mais claro para alguns gestores ou algumas pessoas que n\u00e3o t\u00eam toda uma hist\u00f3ria ou talvez n\u00e3o estejam t\u00e3o ligadas ao universo espec\u00edfico do cinema brasileiro, da hist\u00f3ria do festival de Bras\u00edlia para entender que esse festival \u00e9 um pouco maior do que algumas pessoas pudessem imaginar. E nesse sentido, acho que consigo enxergar algo de positivo nesse processo, porque esse lembrete do tamanho do festival tende a ter renovado uma certa quest\u00e3o ao redor dele que eu acho que vai ter continuidade de uma forma ou de outra. N\u00e3o sei se de uma forma pr\u00e1tica exatamente, mas certamente, de uma sensa\u00e7\u00e3o de que esse festival realmente tem uma import\u00e2ncia maior do que imaginaram em algum momento. Do meu ponto de vista como dire\u00e7\u00e3o art\u00edstica, foi uma quest\u00e3o muito pontual. Claro que muito estressante por um breve per\u00edodo, mas tamb\u00e9m deve ser dito aqui que n\u00f3s, enquanto dire\u00e7\u00e3o do festival, nunca cogitamos n\u00e3o realiz\u00e1-lo. O que poderia se cancelar seria a participa\u00e7\u00e3o da Secretaria de Cultura do Distrito Federal. Mas a gente ia construir caminhos alternativos. E a\u00ed, nesse sentido, \u00e9 importante salientar que houve um abra\u00e7o tanto da parte do Minist\u00e9rio da Cultura, quanto da parte dos pr\u00f3prios cineastas com os filmes, para entender que, talvez, o festival tivesse que ser feito dentro de uma outra realidade financeira menos confort\u00e1vel, mas que seria criado uma condi\u00e7\u00e3o dele ser realizado. Ent\u00e3o, na pr\u00e1tica, nunca consideramos a hip\u00f3tese de que o festival n\u00e3o fosse acontecer. O que se considerou era a hip\u00f3tese do quanto a Secretaria de Cultura e o Governo do Distrito Federal desse momento, manteriam a tradi\u00e7\u00e3o de muitas d\u00e9cadas de ser o principal parceiro e viabilizador do evento. E eles decidiram rapidamente, vendo a repercuss\u00e3o disso tudo. Perceberam que n\u00e3o era um bom neg\u00f3cio, no sentido amplo do termo, se retirar desse processo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;A Pele Morta&#8221;, filme de Bruno Fatumbi Torres e Denise Moraes, abre o festival. Sendo um projeto de longa data e que teria o saudoso Geraldo Moraes como diretor, \u00e9 bem simb\u00f3lico v\u00ea-lo como um dos longas a serem exibidos na noite de abertura.<\/strong><br \/>\n&#8220;A Pele Morta&#8221; \u00e9 um filme que cumpre v\u00e1rias fun\u00e7\u00f5es. A gente acredita que a sess\u00e3o de abertura tem uma import\u00e2ncia muito grande e, ao mesmo tempo, \u00e9 um evento um pouco diferente do resto do festival at\u00e9 no sentido de um determinado p\u00fablico mais institucional que aparece. \u00c9 tamb\u00e9m uma forma de celebrar o pr\u00f3prio festival que est\u00e1 come\u00e7ando e tudo mais. Ent\u00e3o, acho que os filmes que temos que exibir nesse recorte espec\u00edfico, eles precisam ter determinadas caracter\u00edsticas que s\u00e3o menos, eu diria, comuns de voc\u00ea encontrar. \u00c9 muito importante ser um filme que tenha um DNA relacionado com um festival conhecido pelas reflex\u00f5es sobre sociedade, pol\u00edtica, hist\u00f3ria do Brasil. &#8220;A Pele Morta&#8221; permite tudo isso de uma forma muito direta. N\u00e3o s\u00f3 de uma certa juventude ind\u00edgena vivendo entre as tradi\u00e7\u00f5es e os deslocamentos dentro de uma sociedade eminentemente capitalista e urbana de algumas maneiras distintas, e como encaixar os sonhos e os desejos. E como esses sonhos e desejos dessa juventude, hoje, j\u00e1 s\u00e3o diferentes, mas, ao mesmo tempo, tem toda uma liga\u00e7\u00e3o muito forte \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es e a um modo de vida ao outro. Por outro lado \u00e9 um filme absolutamente engajante no sentido humano, dram\u00e1tico, narrativo. N\u00e3o \u00e9 um filme em que essas quest\u00f5es que eu estou colocando aqui t\u00eam um peso te\u00f3rico, um peso de discuss\u00e3o social. Antes de mais nada, isso tudo \u00e9 vivenciado de uma maneira muito presente, muito viva dentro da exist\u00eancia de uma s\u00e9rie de personagens, principalmente tr\u00eas personagens que saem pela estrada entre o Mato Grosso do Sul at\u00e9 o Paraguai e num retorno. \u00c9 um road movie dentro de toda uma tradi\u00e7\u00e3o desse g\u00eanero, que se passa quase todo dentro da bol\u00e9ia de um caminh\u00e3o, entre dois ou tr\u00eas personagens que ficam ali convivendo e que v\u00e3o tra\u00e7ando la\u00e7os e tendo tens\u00f5es e tal. Ent\u00e3o, acho que \u00e9 um filme que tem essa caracter\u00edstica muito humana ao lidar com essas tem\u00e1ticas. Isso, para a sess\u00e3o de abertura, \u00e9 importante porque \u00e9 uma sess\u00e3o que tem um aspecto de um p\u00fablico, talvez, menos cin\u00e9filo radicalmente ou at\u00e9, talvez, menos engajado no que vai ser o festival ao longo do resto do tempo. Ent\u00e3o, o filme de abertura, ao mesmo tempo que n\u00e3o pode destoar do festival, ele tem que ter uma abertura para essa plateia dessa noite festiva e ao mesmo tempo emocional. E, por \u00faltimo, \u00e9 isso que voc\u00ea falou. Completando, talvez, esse, digamos, cen\u00e1rio perfeito de ter um filme que se encaixe em v\u00e1rias coisas, &#8220;A Pele Morta&#8221; tem toda essa hist\u00f3ria com o pr\u00f3prio cinema de Bras\u00edlia a partir da figura do Geraldo (Moraes), que foi um cineasta dos mais decisivos para forma\u00e7\u00e3o de um cinema espec\u00edfico do Distrito Federal e que tinha esse projeto muito caro a ele em desenvolvimento e prestes a fazer. E a\u00ed, com o falecimento dele, tendo a Solange, que era a companheira dele j\u00e1 nos \u00faltimos anos de vida, continuando com o projeto como produtora e chamando justamente dois filhos dele que s\u00e3o cineastas, artistas, um deles a Denise Moraes, que \u00e9, tamb\u00e9m, professora na UNB. Ent\u00e3o, o filme tem uma rela\u00e7\u00e3o muito profunda com o cinema do Distrito Federal, mesmo que seja uma produ\u00e7\u00e3o da Bahia, filmada entre o Mato Grosso do Sul e Paraguai, na estrada. Ent\u00e3o, assim, o filme n\u00e3o tem o Distrito Federal diretamente na tela, mas ele \u00e9 um filme profundamente conectado tanto pelo Geraldo, quanto pelos filhos dele ao assumirem a dire\u00e7\u00e3o, com o cinema brasiliense. Quando voc\u00ea junta tudo isso, a hist\u00f3ria que est\u00e1 na tela, os temas que est\u00e3o na tela, a hist\u00f3ria da produ\u00e7\u00e3o que est\u00e1 por tr\u00e1s, ele \u00e9 um filme muito adequado para se fazer uma sess\u00e3o de celebra\u00e7\u00e3o de uma nova edi\u00e7\u00e3o do festival. \u00c9 um filme que caiu como uma luva.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"A Pele Morta | Trailer Oficial\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/fDsebucygIA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E voc\u00ea falou sobre essa conex\u00e3o de passado e futuro do cinema brasileiro sendo representados na curadoria do festival, e um dos grandes nomes presentes \u00e9 o Ruy Guerra, co-roteirista de &#8220;Tempo \u00e0 Faca&#8221;, filme dirigido e, tamb\u00e9m, escrito pelo Diogo Oliveira.<\/strong><br \/>\nVerdade. Costumo dizer que o Festival de Bras\u00edlia \u00e9 profundamente ligado ao presente, no sentido de que ele est\u00e1 sempre refletindo sobre o cinema e sobre o pa\u00eds que a gente vive do presente, mas a forma como ele vivencia isso \u00e9 muito particular. \u00c9 uma forma onde ele est\u00e1 sempre muito atento a toda uma tradi\u00e7\u00e3o e, portanto, a um passado hist\u00f3rico, mas principalmente do cinema brasileiro. E ao mesmo tempo, tentando estar conectado a esse presente atrav\u00e9s de realizadores muito inquietos na maneira como filmam ou como buscam retratar as quest\u00f5es, e, assim, de alguma forma apontando pro futuro. Sinto que o festival est\u00e1 no seu melhor quando ele consegue estar, justamente, no conjunto das coisas que ele exibe ao longo de uma edi\u00e7\u00e3o, o tempo inteiro trafegando entre esses tr\u00eas tempos. Ou seja, profundamente ancorado no presente, mas ao fazer isso, muito atento ao que veio antes e talvez desvelando coisas que v\u00e3o vir depois. E a\u00ed, acho que o &#8220;Tempo \u00e0 Faca&#8221; \u00e9 um filme que tem isso muito claro. Porque, como voc\u00ea falou, ele era um projeto originalmente pensado e idealizado como estrutura narrativa, como roteiro dramat\u00fargico pelo Rui, que \u00e9 um cineasta que acabou de completar 95 anos. Dos cineastas vivos brasileiros, sem d\u00favida, \u00e9 aquele que tem a trajet\u00f3ria mais ampla. Ela vai desde ali do in\u00edcio dos anos 1960, final dos anos 1950, na verdade, mas, principalmente a partir dos longas do in\u00edcio dos anos 1960 at\u00e9 2024, quando o \u00faltimo longa dele participou da Competitiva Nacional em Bras\u00edlia. Ent\u00e3o, ele tem uma hist\u00f3ria muito larga com o cinema brasileiro e com o festival de Bras\u00edlia. O Rui, por exemplo, foi assistente de dire\u00e7\u00e3o de um filme do Walter Lima J\u00fanior que passou na primeira edi\u00e7\u00e3o do Festival de Bras\u00edlia, em 1965. Ent\u00e3o, ele, literalmente, est\u00e1 ligado ao festival desde o primeiro ano at\u00e9 agora. E, ao mesmo tempo, o Diogo, com o primeiro longa de fic\u00e7\u00e3o, \u00e9 um cineasta que come\u00e7ou a dar passos ali ao redor do pr\u00f3prio universo do Rui, como assistente, escrevendo, depois fazendo um document\u00e1rio sobre o Rui. \u00c9 um diretor muito ligado \u00e0quele universo do ambiente criativo ao redor do Rui, mas que, de fato, est\u00e1 fazendo seu primeiro longa de fic\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, a gente entende que \u00e9 um filme que tamb\u00e9m aponta para uma carreira que est\u00e1 come\u00e7ando. E na Mostra Caleidosc\u00f3pio, buscamos justamente radicalizar uma coisa que est\u00e1 sempre presente na Competi\u00e7\u00e3o Nacional, mas que, de alguma forma, na Caleidosc\u00f3pio, nos voltamos especificamente para os filmes que, seja na fic\u00e7\u00e3o, seja no document\u00e1rio, seja nos formatos h\u00edbridos entre essas formas, est\u00e3o apontando inquietudes de linguagem, de formas de narrar uma hist\u00f3ria, de formas de filmar uma hist\u00f3ria. Acho que voc\u00ea ter um filme que nasce do Rui numa sess\u00e3o que \u00e9 voltada um pouco para, justamente, questionar para onde o cinema est\u00e1 indo, o que ele vai tentar na frente, um filme dirigido por um cineasta que faz seu primeiro longa de fic\u00e7\u00e3o, eu acho que, de novo, assim como o filme de abertura, talvez seja um conjun\u00e7\u00e3o muito feliz de fatores que, para mim, \u00e9 algo muito espec\u00edfico do Festival de Bras\u00edlia. Essa maneira de um filme conseguir falar do passado, do presente e do futuro do Brasil e do cinema brasileiro ao mesmo tempo. Ent\u00e3o, ficamos muito felizes quando assistimos ao filme no nosso processo e pensamos que ele seria uma maneira renovada, talvez, de trazer o Rui para estar com a gente.<\/p>\n<figure id=\"attachment_97384\" aria-describedby=\"caption-attachment-97384\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-97384\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Luiz-Carlos-Vasconcelos-e-Julio-Adriao-foto-de-Aryellson-Carvalho.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Luiz-Carlos-Vasconcelos-e-Julio-Adriao-foto-de-Aryellson-Carvalho.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Luiz-Carlos-Vasconcelos-e-Julio-Adriao-foto-de-Aryellson-Carvalho-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-97384\" class=\"wp-caption-text\"><em>Cena de &#8220;Tempo \u00e0 Faca&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E al\u00e9m do Ruy Guerra com co-assinando o roteiro de &#8220;Tempo \u00e0 Faca&#8221;, o festival traz outro veterano na dire\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o Julio Bressane.<\/strong><br \/>\nSim. Essa \u00e9 outra alegria! Ter um filme novo do Julio Bressane, que tamb\u00e9m \u00e9 um outro cineasta que faz essa ponte de que falei. Foi o cineasta que mais ganhou o pr\u00eamio de Melhor Filme em Bras\u00edlia. Foram quatro vezes na hist\u00f3ria! E a\u00ed a gente vai passar o filme novo deles hors concours (fora da disputa). S\u00e3o essas pontes entre a hist\u00f3ria e a tradi\u00e7\u00e3o do festival, o presente e o futuro, sabe? O Bressane, especialmente nesses \u00faltimos, talvez, 15 anos, desde, justamente, a \u00faltima a \u00faltima vez que ele ganhou o festival, que foi com o &#8220;Cle\u00f3patra&#8221; (2007), eu acho que ele come\u00e7ou cada vez mais a tra\u00e7ar uma trajet\u00f3ria muito pessoal, muito espec\u00edfica. Ele tem filmado cada vez mais filmes mais simples em termos da manufatura t\u00e9cnica e at\u00e9 financeira para que ele, justamente, n\u00e3o fique dependente de processos muito longos de capta\u00e7\u00e3o, de desenvolvimento e, ao mesmo tempo, realizando uma s\u00e9rie de filmes de montagem junto com o Rodrigo Lima, que, hoje em dia, \u00e9 um dos principais parceiros dele. Fazendo pequenos document\u00e1rios&#8230; Acho que o J\u00falio, nesses 15 anos, optou por uma forma de produ\u00e7\u00e3o muito particular dele para se manter, como algu\u00e9m que acabou de completar 80 anos, muito ativo, muito presente. Todo ano tem filme novo do Julio. \u00c0s vezes curta, \u00e0s vezes m\u00e9dia, \u00e0s vezes longa de fic\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes document\u00e1rio, \u00e0s vezes tudo junto. E o &#8220;Pitico&#8221; \u00e9 uma dessas aventuras. Um filme muito pequeno em termos de produ\u00e7\u00e3o, de financiamento, de aonde ele se passa. Mas, ao mesmo tempo, com uma inventividade e uma liberdade acima de tudo muito grande. Ele \u00e9 um cineasta que j\u00e1 n\u00e3o se importa mais, exatamente, com os c\u00f3digos, com as din\u00e2micas para al\u00e9m da cria\u00e7\u00e3o. Ou seja, ele n\u00e3o est\u00e1 preocupado com o mercado, com a repercuss\u00e3o do filme num sentido mais pr\u00e1tico. Ele j\u00e1 est\u00e1 muito livre fazendo o que ele quer. E eu acho que o filme reflete isso. J\u00e1 h\u00e1 algum tempo, ele tem feito esse cinema. Quando passei pela dire\u00e7\u00e3o art\u00edstica do festival pela primeira vez antes dessa, que foi entre 2016 e 2018, j\u00e1 t\u00ednhamos exibido o filme do Julio nessas condi\u00e7\u00f5es. Ele n\u00e3o tem mais muito interesse por essa coisa de competir, de ganhar pr\u00eamio, de participar. Ele quer que os filmes sejam exibidos, sejam vistos, sejam discutidos. Ent\u00e3o, para n\u00f3s, que estamos sempre em contato com o Julio, com o Rodrigo, com esse universo, acompanhando a produ\u00e7\u00e3o dele, quando soubemos que esse filme ia estar pronto para fazer uma estreia brasileira conosco, achamos perfeito. E a gente sabe que \u00e9 isso. O Julio n\u00e3o est\u00e1 mais preocupado em competir. Pelo contr\u00e1rio. Ele prefere exibir fora da disputa. Um lugar \u00e0 parte. Ent\u00e3o, vai ser muito bom exibir esse filme novo. Porque s\u00e3o sempre descobertas. Eu estou muito curioso para ver como o p\u00fablico vai receber esse filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E n\u00e3o d\u00e1 para deixar de citar o saudoso Silvio Tendler, que vai ter a estreia de seu \u00faltimo filme, o &#8220;Pontos de Partida&#8221;.<\/strong><br \/>\n\u00c9 alegria ter a possibilidade de fazer essa estreia, essa primeira exibi\u00e7\u00e3o de um filme p\u00f3stumo do Silvio. \u00c9 um document\u00e1rio super importante. E, de novo, Silvio \u00e9 um cara que sempre deixou claro, e j\u00e1 nos \u00faltimos anos de carreira e de vida, j\u00e1 com uma s\u00e9rie de quest\u00f5es de sa\u00fade, uma s\u00e9rie de dificuldades, mas mantendo uma sede de realizar, de fazer sem parar, ele sempre deixou claro que era um cineasta sempre muito atento ao presente. \u00c9 um filme sobre a quest\u00e3o dos pontos de cultura como espa\u00e7os de reflex\u00e3o e de cria\u00e7\u00e3o cultural e de acesso \u00e0 cultura por popula\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas dos grandes centros urbanos. Nesse filme, ele parte principalmente de quatro pontos de cultura ali na regi\u00e3o da periferia de S\u00e3o Paulo, mas levanta uma discuss\u00e3o muito maior sobre a quest\u00e3o do que \u00e9 o ponto de cultura como a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, como social. Ent\u00e3o, \u00e9 um filme profundamente do presente, mas de um realizador que j\u00e1 estava debilitado. Ele aparece no filme fazendo entrevistas e voc\u00ea percebe, obviamente, que j\u00e1 ele j\u00e1 estava muito debilitado, muito fr\u00e1gil fisicamente, mas com a cabe\u00e7a e com um desejo de cinema e de pol\u00edtica e de falar do Brasil muito vivos. E a\u00ed ele acaba falecendo h\u00e1 um ano praticamente, justamente, logo antes do \u00faltimo Festival de Bras\u00edlia, no meio desse processo. A\u00ed, o Cl\u00e1udio Kahns, que \u00e9 o produtor e toda uma equipe que estava ao redor, leva at\u00e9 o fim essa montagem, essa prepara\u00e7\u00e3o. Ficamos muito contentes por poder celebrar mais essa figura que a gente homenageou, inclusive, no ano passado pelo fato dele ter falecido bem perto do festival. Homenageou no sentido de fazer ali todo um momento na abertura do festival para relembr\u00e1-lo. Mas voltar com ele com uma obra in\u00e9dita, isso \u00e9 uma grande alegria. Acho que o festival ter filmes de Julio Bressane e de Silvio Tendler e essa participa\u00e7\u00e3o t\u00e3o forte do Rui Guerra nessa outra obra, define isso para a gente. Para al\u00e9m de exibirmos obras cl\u00e1ssicas, ter toda uma mostra paralela do festival chamada Hist\u00f3ria(s) do Cinema Brasileiro, onde exibimos restauros de obras cl\u00e1ssicas, exibimos document\u00e1rios sobre a hist\u00f3ria do cinema no Brasil, podermos ter essa presentifica\u00e7\u00e3o dessa tradi\u00e7\u00e3o e desse passado atrav\u00e9s desses tr\u00eas nomes \u00e9 algo muito precioso. Fico muito feliz porque o presente e o futuro est\u00e3o sempre na tela do festival com muita clareza. Os curtas metragens, os primeiros longas, as mostras, os filmes ousados. E tem os filmes dessas figuras que, mesmo em idade muito avan\u00e7ada, nunca deixaram de ser extremamente inquietos e desejosos de n\u00e3o estarem somente felizes com seus pap\u00e9is j\u00e1 cumpridos no cinema brasileiro, mas est\u00e3o sempre reinventando o seu pr\u00f3prio cinema. Ent\u00e3o, \u00e9 muito legal. Acho que o festival fica muito vivo nessa combina\u00e7\u00e3o geral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A Mostra Competitiva Nacional de Longas e Curtas trazem uma variedade muito boa de cineastas, como o novo filme de Andr\u00e9 Novais Oliveira, al\u00e9m do de Glenda Nic\u00e1cio e Ary Rosa, bem como o longo mais recente de Gustavo Vinagre. Voc\u00ea poderia falar um pouco sobre esse processo de sele\u00e7\u00e3o e sobre o di\u00e1logo entre as produ\u00e7\u00f5es?<\/strong><br \/>\nN\u00f3s, enquanto comiss\u00e3o, tanto nos longas como nos curtas, tentamos ser muito respeitosos disso que a gente chama de um DNA do festival. Sempre digo que esse DNA \u00e9 composto de dois elementos acima de todos os outros. Um desejo profundo de discutir aspectos mais variados da sociedade e da cultura brasileira. Sempre refor\u00e7o: um norte para mim \u00e9 lembrar que o festival se chama Festival de Bras\u00edlia do Cinema Brasileiro. Esse \u00e9 o nome completo dele. \u00c9 o nome na carteira de identidade, na certid\u00e3o de nascimento. Ent\u00e3o, nesse ponto, al\u00e9m de ser o festival mais longevo do pa\u00eds em atividade, ele \u00e9 o festival que sempre deixou claro que o seu objeto era o cinema brasileiro. \u00c9, portanto, por conseguinte, o Brasil. O Brasil tem que estar na tela nesse festival, sempre. E a\u00ed eu acho que esse \u00e9 um dos vetores principais para a gente enquanto estamos discutindo os filmes inscrito. E o segundo vetor \u00e9 a quest\u00e3o do cinema. Estamos sempre buscando filmes nos quais cineastas, seja de qual gera\u00e7\u00e3o, seja de qual regionalidade, seja de qual representatividade de grupos, os mais distintos que eles possam ter, eles t\u00eam que ser cineastas que tenham uma curiosidade e um desejo de explorar aspectos da linguagem cinematogr\u00e1fica. E isso pode estar no document\u00e1rio, isso pode estar na fic\u00e7\u00e3o, isso pode estar na anima\u00e7\u00e3o, como a gente tem esse ano na competi\u00e7\u00e3o, o &#8220;Ana, En Passant&#8221;, esse filme mineiro. Mais filmes que tentam explorar esses dois aspectos. Iluminar para a gente quest\u00f5es sobre a sociedade brasileira, mas sempre com interesse em explorar linguagem cinematogr\u00e1fica. Ent\u00e3o, esses s\u00e3o os dois vetores que estamos em busca em todos os filmes, seja de qual g\u00eanero eles vierem. Acreditamos que nisso o festival tem que ser m\u00faltiplo, porque, tamb\u00e9m, ao falar que ele \u00e9 do cinema brasileiro, ele n\u00e3o pode ser s\u00f3 do cinema de uma regi\u00e3o ou de um tipo de cinema ou de um g\u00eanero de cinematogr\u00e1fico. Ent\u00e3o, a gente vai ter esse ano anima\u00e7\u00e3o, document\u00e1rio, fic\u00e7\u00e3o mais cl\u00e1ssica, fic\u00e7\u00e3o que bordeia aspectos do document\u00e1rio. Vamos ter filme do Gustavo (Vinagre) junto com Gurcius, um aut\u00eantico filme de g\u00eanero no sentido mais espec\u00edfico do cinema de horror, do cinema que busca lidar com c\u00f3digos da linguagem, mas em cada um desses espa\u00e7os, sempre com filmes que permitam discuss\u00f5es profundas sobre o cinema em si, e especificamente cinema brasileiro, e sobre o Brasil, obre a nossa sociedade. \u00c9 isso que a gente busca. E a\u00ed, ao juntar esses sete filmes e os 12 curtas, igualmente, claro buscamos filmes que permitam isso, mas tamb\u00e9m um conjunto de filmes que nos permita, a\u00ed sim, essa variedade. Variedade de formatos, de origens regionais dentro do Brasil, de g\u00eaneros na realiza\u00e7\u00e3o, de quest\u00f5es na tela, as mais distintas. A gente sempre fala isso sobre curadoria e programa\u00e7\u00e3o: nunca \u00e9 um trabalho que se trata de exatamente receber 220 longas in\u00e9ditos, 300 longas no total de inscritos, n\u00e3o \u00e9 que a gente achou os melhores. \u00c9 que a gente achou os que representavam essas quest\u00f5es que s\u00e3o as tradicionais do festival e que, juntas, permitem essa variedade. A gente est\u00e1 pensando no conjunto. Estamos pensando nos sete filmes e n\u00e3o s\u00f3, em um por um , eleger os melhores. E a\u00ed achamos que esse grupo de sete filmes \u00e9 um grupo que permite muito isso.<\/p>\n<figure id=\"attachment_97383\" aria-describedby=\"caption-attachment-97383\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-97383\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/todoosentimento.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/todoosentimento.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/todoosentimento-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-97383\" class=\"wp-caption-text\"><em>Cena de &#8220;Todo o Sentimento&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E dez anos depois de &#8220;Caf\u00e9 com Canela&#8221;, \u00e9 bem legal ver Ary Rosa e Glenda Nic\u00e1cio voltarem a Bras\u00edlia com &#8220;Todo o Sentimento&#8221;.<\/strong><br \/>\nSim, para n\u00f3s \u00e9 uma alegria grande porque o &#8220;Caf\u00e9 com Canela&#8221;, filme que marca a chegada deles ao cinema de longa metragem, foi exibido, nasceu para o mundo no Festival de Bras\u00edlia h\u00e1 dez anos enquanto, justamente, eu e uma outra equipe de curadoria, mas um universo similar, est\u00e1vamos organizando festival. Ent\u00e3o, a gente se conecta a uma descoberta que n\u00f3s mesmo tivemos naquele momento e permitimos o cinema brasileiro ter a partir da sele\u00e7\u00e3o e da exibi\u00e7\u00e3o do filme l\u00e1. No ano seguinte, justamente, o &#8220;Ilha&#8221; foi a mesma coisa. Tamb\u00e9m passou l\u00e1! E tamb\u00e9m passou na competi\u00e7\u00e3o logo no ano seguinte ao &#8220;Caf\u00e9 com Canela&#8221;. E a\u00ed eles ficaram um tempo fora do Festival de Bras\u00edlia. Tiveram dois filmes ainda exibidos na Mostra de Tiradentes, e algumas outras tentativas de filmes at\u00e9 explorando aspectos de um cinema mais comercial, algo que j\u00e1 estava ali indicado no &#8220;Caf\u00e9 com Canela&#8221;, um desejo, um interesse de falar desse cinema mais popular, desse cinema mais comercial. E a\u00ed teve alguns dos \u00faltimos longas deles que nem passaram em festivais, foram direto para lan\u00e7amentos comerciais. E a\u00ed, de repente, eles voltam com esse filme que n\u00e3o s\u00f3 est\u00e1 buscando fazer essa trajet\u00f3ria mais similar com aquele de dez anos atr\u00e1s, como retoma especificamente a um personagem, a uma situa\u00e7\u00e3o, uma linha narrativa do &#8220;Ilha&#8221;, mas em um outro registro. Um registro do cinema que a gente pode chamar de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica no sentido de projetar um futuro que n\u00e3o aconteceu, pelo menos n\u00e3o desse jeito. Ent\u00e3o, \u00e9 uma tentativa nova. N\u00e3o \u00e9 um filme que reprisa coisas que eles j\u00e1 fizeram. E, ao mesmo tempo, \u00e9 isso. \u00c9 um filme que come\u00e7a com imagens do 8 de janeiro em Bras\u00edlia. Ent\u00e3o, portanto, mesmo sendo um filme passado, filmado, projetado na Bahia, come\u00e7a com Bras\u00edlia na tela, com as quest\u00f5es pol\u00edticas brasileiras recentes. Ent\u00e3o, era um filme, digamos, perfeito. Acredito que talvez n\u00e3o pudesse estar chegando ao mundo em um outro lugar que n\u00e3o fosse o Festival de Bras\u00edlia por tudo isso. Pelo DNA do festival, pela rela\u00e7\u00e3o de Glenda e Ary com o festival e pelas quest\u00f5es que est\u00e3o na tela nesse filme espec\u00edfico. Ent\u00e3o, \u00e9 um filme que tenho certeza que vai causar muita discuss\u00e3o tanto pelos seus aspectos pol\u00edticos sociais como pelos seus aspectos cinematogr\u00e1ficos. E tenho certeza, tamb\u00e9m, que \u00e9 isso que Ary e Glenda esperam e querem e \u00e9 isso que a gente, enquanto propositores dessa sele\u00e7\u00e3o de filmes no Festival de Bras\u00edlia, quer sempre. Que os filmes passem pela tela do cinema no festival, mas que eles continuem vivos com as pessoas nos dias seguintes, nos meses seguintes, nos anos seguintes. E, para n\u00f3s, esse \u00e9 um pouco o DNA do festival. \u00c9 que as coisas todas come\u00e7am e convergem para o lugar do cinema como o espa\u00e7o da celebra\u00e7\u00e3o dessa arte, mas que o cinema n\u00e3o termine ali dentro. Que ele v\u00e1 para as ruas em v\u00e1rios sentidos. Acho que o &#8220;Todo o Sentimento&#8221;, certamente, far\u00e1 isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para fechar, queria lhe perguntar sobre a import\u00e2ncia da sele\u00e7\u00e3o de outros dois filmes aqui da Bahia e que t\u00eam mulheres negras como diretoras, no caso o &#8220;Afrolatinas: Mulheres Negras em Movimento&#8221;, da Viviane Ferreira, e &#8220;Mulheres do Bando&#8221;, da Thamires Vieira.<\/strong><br \/>\n\u00c9 uma alegria ter esses dois filmes na lista de selecionados. Inclusive, junto com Glenda, atrav\u00e9s do cinema baiano, temos tr\u00eas longas dirigidos por mulheres negra. \u00c9 sempre importante quando a qualidade dos filmes e a variedade deles nos permite. E eu acho que esse \u00e9 um tema muito importante, porque sempre foi uma defasagem hist\u00f3rica que o cinema brasileiro tem com v\u00e1rias diferentes representa\u00e7\u00f5es, seja \u00e9tnicas, seja raciais, seja de g\u00eanero, e que o cinema brasileiro est\u00e1 sempre trabalhando ativamente em v\u00e1rios sentidos para atualizar isso de v\u00e1rias maneiras, mas ainda \u00e9 uma defasagem que vai levar muitos anos para essa defasagem que j\u00e1 ocupou tanto tempo nessa cinematografia conseguir minimamente equilibrar algo disso. E a\u00ed a gente poder ter esses tr\u00eas longas com dire\u00e7\u00e3o de mulheres negras, eu acho muito forte. Porque s\u00e3o filmes muito fortes, cada um deles. Por exemplo, o filme da Thamires, o &#8220;Mulheres do Bando&#8221;, o grande motivo, inclusive, pelo qual ele est\u00e1 na Mostra Caleidosc\u00f3pio \u00e9 porque ele toma uma um pressuposto est\u00e9tico, art\u00edstico e narrativo para contar essa hist\u00f3ria que \u00e9 muito peculiar, muito diferente, muito novo. Porque ele tenta ativar um pouco esse lugar da mem\u00f3ria e dessa hist\u00f3ria do que foram especificamente essas participa\u00e7\u00f5es femininas dentro desse fen\u00f4meno baiano t\u00e3o essencial. Fen\u00f4meno baiano enquanto origem, mas que \u00e9 importante para o Brasil inteiro, que \u00e9 o Bando de Teatro Olodum, a partir de um de um jogo, mesmo, com atrizes de gera\u00e7\u00f5es bem diferentes, o que j\u00e1 deixa a\u00ed marcado essa quest\u00e3o da hist\u00f3ria, mas n\u00e3o da hist\u00f3ria parada no passado, mas transversal. Ent\u00e3o, voc\u00ea tem atrizes do come\u00e7o do processo do Olodum at\u00e9 o processo atual e tudo no meio interagindo e recriando nos seus pr\u00f3prios corpos, a partir de exerc\u00edcios de atua\u00e7\u00e3o, de dramaturgia, de lembran\u00e7a, de narra\u00e7\u00e3o, criando esse coro dessas mulheres. Isso atrav\u00e9s, menos de uma rememora\u00e7\u00e3o factual pura e simples, mas mais de uma reincorpora\u00e7\u00e3o mesmo do que foi essa hist\u00f3ria para essas mulheres do Bando de Teatro Olodum. Isso nos faz n\u00e3o s\u00f3 entender uma hist\u00f3ria ali, mas, tamb\u00e9m, pensar de que maneiras o cinema pode ousar nessa forma de tentar narrar aspectos do passado, nesse caso, por exemplo, de uma express\u00e3o cultural. Ent\u00e3o, acho que \u00e9 um filme muito ousado da Thamires nesse sentido. Por isso, para n\u00f3s, o lugar dele era na Mostra Caleidosc\u00f3pio, onde ele vai estar em contato com o filme do Diogo Oliveira e com outros tr\u00eas filmes de outros lugares cada um muito diferentes um do outro, mas todos muito inquietos e buscando explorar aspectos da linguagem. \u00c9 o lugar ideal para esse filme. Por outro lado, o filme de Viviane, que j\u00e1 tinha passado em Salvador no pr\u00f3prio Panorama, ele est\u00e1 nessa mostra Festival dos Festivais, que \u00e9 justamente um espa\u00e7o em que celebramos alguns filmes importantes que estrearam em outros festivais de cinema brasileiro ao longo do \u00faltimo ano. E a\u00ed, de novo, gera\u00e7\u00f5es diferentes, festivais de origem diferentes e formatos bem distintos. E eu acho que o filme da Viviane, que j\u00e1 \u00e9 uma pesquisa, tem um site, tem toda uma outra dimens\u00e3o al\u00e9m, inclusive de outras coisas para al\u00e9m de produ\u00e7\u00e3o audiovisual, de ensino, de universaliza\u00e7\u00e3o e democratiza\u00e7\u00e3o de acesso a v\u00e1rios tipos de coisas. Ent\u00e3o, traz um movimento que o longa representa de um gesto muito maior ali ao redor desse universo, mas que eu acho muito fascinante justamente porque vai em busca, como o pr\u00f3prio t\u00edtulo diz, dessa conex\u00e3o, dessa hist\u00f3ria comum, de uma s\u00e9rie de manifesta\u00e7\u00f5es de origem afro e africana, de origem cultural, religiosa, musical, social em v\u00e1rios pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina. Isso \u00e9 uma outra coisa que, para n\u00f3s, \u00e9 muito interessante pensar, pois vai estar at\u00e9 na sess\u00e3o de abertura desse ano com o &#8220;A Pele Morta&#8221;, que vai do Mato Grosso do Sul ao Paraguai, e \u00e9 com o ator uruguaio, o C\u00e9sar Troncoso, junto com o ator Luan Iturve, que \u00e9 um ator ind\u00edgena. Ele traz essa dimens\u00e3o do Brasil enquanto pa\u00eds latino-americano. Muitas vezes, o Brasil, por uma s\u00e9rie de circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas e atuais, tem uma tend\u00eancia, \u00e0s vezes, de ficar um pouco de costas para essa realidade da inser\u00e7\u00e3o dele em um contexto latino-americano com todos esses pa\u00edses pr\u00f3ximos geograficamente. E esse filme, n\u00e3o. Ele vai, justamente, fundo nisso. Ele vai olhar para essa participa\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es negras, especialmente das mulheres, mas numa vis\u00e3o mais transversal que a\u00ed vai conectar o Caribe, vai conectar \u00e1reas da Col\u00f4mbia, Venezuela, outros pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul, com toda uma tradi\u00e7\u00e3o afro-brasileira. Essa op\u00e7\u00e3o pelo termo &#8220;Afrolatinas&#8221; me parece muito interessante para o que esse filme busca colocar na tela. Ent\u00e3o, tamb\u00e9m, de novo, encaixa muito com nossos desejos, com as nossas vontades de estar no festival e dialogando com esse universo t\u00e3o rico ao redor assim.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Mulheres do Bando - Trailer Oficial\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/VNBBHQz8ZbY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e \u00e9 autor de \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/11\/11\/entrevista-mitico-guitarrista-baiano-alvaro-assmar-ganha-biografia-joao-paulo-barreto-fala-sobre-uma-vida-blues\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Uma Vida Blues<\/a>\u201d, biografia de \u00c1lvaro Assmar.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A edi\u00e7\u00e3o desse ano traz novos trabalhos de nomes como Julio Bressane, Ary Rosa e Glenda Nic\u00e1cio, Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner, Andr\u00e9 Novais Oliveira, Caetano Gotardo e Thamires Vieira\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/09\/10\/entrevista-nunca-consideramos-a-hipotese-de-que-o-festival-de-brasilia-nao-fosse-acontecer-diz-eduardo-valente\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":97388,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,4,4833],"tags":[8363],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97379"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=97379"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97379\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":97387,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97379\/revisions\/97387"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/97388"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=97379"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=97379"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=97379"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}