{"id":97371,"date":"2026-09-10T10:52:22","date_gmt":"2026-09-10T13:52:22","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=97371"},"modified":"2026-09-10T10:52:22","modified_gmt":"2026-09-10T13:52:22","slug":"entrevista-solange-moraes-fala-sobre-a-producao-de-a-pele-morta-filme-que-abre-o-festival-de-brasilia-2026","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/09\/10\/entrevista-solange-moraes-fala-sobre-a-producao-de-a-pele-morta-filme-que-abre-o-festival-de-brasilia-2026\/","title":{"rendered":"Entrevista: Solange Moraes fala sobre a produ\u00e7\u00e3o de &#8220;A Pele Morta&#8221;, filme que abre o Festival de Bras\u00edlia 2026"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/joao.paulo.barreto.824529\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A Pele Morta&#8221; (2026), longa dirigido pelos irm\u00e3os <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/_denisemoraes_\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Denise Moraes<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/brunofatumbitorres\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Fatumbi Torres<\/a>, e produzido por <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/solgerasol\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Solange Moraes<\/a>, da <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/aracafilmes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ara\u00e7\u00e1 Filmes<\/a>, \u00e9 o longa de abertura da 59\u00aa edi\u00e7\u00e3o do <a href=\"https:\/\/festcinebrasilia.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Festival de Bras\u00edlia<\/a>, o mais longevo evento cinematogr\u00e1fico brasileiro, que teve sua primeira edi\u00e7\u00e3o ainda nos anos de trevas da ditadura militar &#8211; mesmo durante a persegui\u00e7\u00e3o do regime milico e endurecimento diante da decreta\u00e7\u00e3o do Ato Inconstitucional 5 em 1968, o festival ainda foi realizado no ano seguinte (somente entre 1972 e 1974 o evento n\u00e3o aconteceu por conta da censura do governo M\u00e9dici.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este ano, mais precisamente no come\u00e7o de agosto, ap\u00f3s muitas incertezas, chegou-se a ser anunciado o cancelamento da edi\u00e7\u00e3o 2026 n\u00e3o por causa da censura, mas, sim, por um atraso no repasse das verbas oriundas da Secretaria de Cultura do Distrito Federal. Por\u00e9m, com o clamor popular e de diversos representantes das classes art\u00edsticas brasileiras, o governo do DF voltou atr\u00e1s da decis\u00e3o do cancelamento e providenciou o financiamento do evento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A Pele Morta&#8221; \u00e9 um trabalho que homenageia o saudoso cineasta Geraldo Moraes, falecido em 2017, e tem seus filhos Denise e Bruno como diretores, bem como sua esposa, Sol Moraes, como produtora. O projeto coFme\u00e7ou a ser gestado em 2010, quando Daniel Tavares apresentou o roteiro ao casal Geraldo e Sol quando o diretor ministrava uma aula na Escuela Internacional de Cine y Televisi\u00f3n, em Cuba. &#8220;Ele dizia que aquilo era (Eduardo) Galeano. Que era &#8216;As Veias Abertas da Am\u00e9rica Latina&#8217;. Dizia que precisava fazer aquele filme&#8221;, comenta Sol Moraes, lembrando a contagiante energia do cineasta que planejava desvendar as fronteiras da Am\u00e9rica Latina ao dirigir aquele roteiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na hist\u00f3ria, Saulo, um jovem rapper ind\u00edgena de origem guarani-kaiow\u00e1 (Luan Iturve) da regi\u00e3o de Dourados, no Mato Grosso do Sul, ap\u00f3s a morte do irm\u00e3o, decide seguir ao lado de Justo (C\u00e9sar Troncoso), um caminhoneiro solit\u00e1rio que segue em busca de trabalho no Paraguai ap\u00f3s ser despejado da oficina mec\u00e2nica que ocupava e onde Saulo tamb\u00e9mBrasilia trabalhava. No caminho, d\u00e3o carona a Ros\u00e1rio (Ivana Gomez), adolescente que est\u00e1 em busca da sua irm\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse papo com o Scream &amp; Yell, Sol Moares aprofunda o processo de cria\u00e7\u00e3o do filme tanto pelo vi\u00e9s da produ\u00e7\u00e3o quanto da dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"A Pele Morta | Trailer Oficial\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/fDsebucygIA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No release do filme, h\u00e1 a informa\u00e7\u00e3o de que o primeiro contato seu e de Geraldo com o roteiro escrito pelo Daniel Tavara para o filme foi na Escuela Internacional de Cine y Televisi\u00f3n (EICTV), em San Antonio de los Ba\u00f1os, Cuba. Como se deu esse processo?<\/strong><br \/>\nSolange Moraes &#8211; Isso foi em 2010. Em dezembro ir\u00e1 fazer 16 anos. Olha que coisa! Como um filme demora para maturar. Geraldo fazia abertura da Polival\u00eancia da Escuela de Cuba. Ele fez isso durante quase seis anos. Ele ia para l\u00e1, fazia aquela aula inaugural, ficava 15 dias com os alunos que acabavam de ter sido selecionados. Alguns eram da Bahia, tamb\u00e9m, e do Nordeste. Geraldo fazia todo esse encontro, falava de cinema, est\u00e9tica, linguagem e narrativa. Depois, esses alunos iam para a Polival\u00eancia em um ano. Depois iam para os cursos espec\u00edficos de fotografia, som etc. E Daniel j\u00e1 tinha sido aluno na Escuela de Cuba, que tem uma tradi\u00e7\u00e3o de pegar os ex-alunos para as coordena\u00e7\u00f5es. Ele assistiu \u00e0 aula de Geraldo. E Geraldo sempre falava da Am\u00e9rica Latina. Ele era muito apaixonado pela Am\u00e9rica Latina. E eu tinha uma mania de dizer que eu s\u00f3 conheceria outros pa\u00edses depois que eu conhecesse toda a Am\u00e9rica Latina. \u00c9 fato que n\u00e3o, eu fui para outros, mas tinha isso. E a\u00ed quando Daniel acabou de assistir a aula, ele nos procurou e falou: &#8220;Olha, eu queria te passar um roteiro que eu acho que \u00e9 a sua cara. Assisti \u00e0 sua aula, vi voc\u00ea falando sobre a import\u00e2ncia pol\u00edtica da Am\u00e9rica Latina, e esse filme, esse projeto meu, ele fala da Am\u00e9rica Latina invis\u00edvel. (Ele fala) Das veias abertas da Am\u00e9rica Latina&#8221;. Geraldo falou: &#8220;Quero ver&#8221;. Ficamos l\u00e1 25 dias com Geraldo dando aula e, \u00e0 noite, fic\u00e1vamos lendo o roteiro no quarto. O roteiro mudou bastante. Havia muito mais personagens. Geraldo era um homem de um cinema solit\u00e1rio. Quanto menos fala, mais ele gostava. No sexto dia, t\u00ednhamos acabado de ler o roteiro e Geraldo disse que ia fazer. Ele dizia que aquilo era (Eduardo) Galeano. que era \u201cAs Veias Abertas da Am\u00e9rica Latina\u201d (livro lan\u00e7ando por Galeano em 1971). Dizia que precisava fazer aquele filme. A\u00ed no outro dia chamamos Daniel para um jantar e dissemos a ele que n\u00e3o tinha nem o que pensar, que a gente queria fazer o filme. Nisso, ficamos de 2010 at\u00e9 2015 s\u00f3 falando sobre o roteiro, mas Daniel achou que n\u00e3o estava pronto ainda, e Geraldo ficou tamb\u00e9m ali mexendo no roteiro. Em 2015, falei: &#8220;N\u00e3o, eu n\u00e3o vou perguntar a ele. Vou inscrever em um edital de desenvolvimento. Acabou passando e disse a eles que j\u00e1 podiam trabalhar. S\u00f3 que nessa \u00e9poca, Geraldo ficou doente e n\u00e3o fez uma viagem que ele faria com Daniel. Daniel foi sozinho, saiu de Dourados at\u00e9 o Salar do Uyuni (na Bol\u00edvia), que era onde o filme terminava, e veio para Salvador para fica com Geraldo uns vinte dias reescrevendo o roteiro. E foi bem na \u00e9poca que teve a queda pol\u00edtica. A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, caiu. Caiu o governo do Paraguai. Ca\u00edram os governos de esquerda que estavam na lideran\u00e7a, como o de Dilma logo depois. E Geraldo come\u00e7ou a falar assim: &#8220;N\u00e3o, esse roteiro n\u00e3o termina mais no Salar do Uyuni. Esse roteiro termina nos Pared\u00f5es dos Andes&#8221;. A Am\u00e9rica Latina est\u00e1 sem sa\u00edda. Est\u00e1 come\u00e7ando a ficar encurralada. Geraldo e Daniel colocaram o roteiro terminando nos Pared\u00f5es dos Andes. S\u00f3 que quando acabamos de prestar contas no edital de desenvolvimento, nem tinha acabado ainda e inscrevemos no Prodecine 5. E acabou ganhando! Falei: &#8220;Vamos rodar&#8221;. Geraldo preparou tudo com Daniel e comigo. Come\u00e7amos a montar a equipe. Chegamos a convidar na \u00e9poca o Ricardo Darin, que faria o papel de Justo, e Geraldo ia ser o diretor. E a\u00ed Geraldo foi fazer comigo uma produ\u00e7\u00e3o executiva de uma s\u00e9rie em Mato Grosso, em Pocon\u00e9. L\u00e1, em um dia de folga, teve uma pescaria que ele foi com o Roberto Bonfim, e l\u00e1 ele sofreu uma queda. Ap\u00f3s isso, ele ficou vivo vinte dias. Durante esse per\u00edodo, ele n\u00e3o sentia nada. Fizemos resson\u00e2ncia no corpo inteiro e n\u00e3o acusou nada. E no 22\u00ba dia, ele desmaiou e morreu no dia 5 de agosto de 2017. O dinheiro do edital foi depositado na conta no dia 28, 13 dias depois da morte dele. E eu n\u00e3o consegui mais olhar para o filme. Armazenei. Eu tinha ganho o edital para tr\u00eas longas: &#8220;A Pele Morta&#8221; (2026), &#8220;Longe do Para\u00edso&#8221; (2022) e &#8220;Nina&#8221; (2021). (Mas) Eu n\u00e3o queria rodar. Quando olhava para a conta, para o dinheiro, lembrava que era tudo com o Geraldo e, agora, eu estava sozinha. N\u00e3o queria. Tive um desespero e n\u00e3o fiz. Fiquei com depress\u00e3o durante um ano. Ent\u00e3o uma m\u00e9dica, Dra. M\u00f4nica, me disse: &#8220;Voc\u00ea precisa voltar. Se voc\u00ea for para um lado, voc\u00ea morre, se for para outro, voc\u00ea fica louca. Voc\u00ea tem que se cuidar&#8221;. E foi assim, muito pressionada, \u201ctem que fazer, tem que fazer, tem que fazer\u201d, que entrei em set. Convidei Denise (Moraes) e Bruno (Torres), que s\u00e3o filhos de Geraldo de casamentos anteriores: &#8220;Vamos nos juntar para fazer essa homenagem&#8221;. Eles toparam e a gente voltou para o set. Mas foi quando (Jair) Bolsonaro ganhou. Quando atravessamos a fronteira, o d\u00f3lar subiu de R$2,75 para R$4,70. E todo mundo: &#8220;Volta, volta, volta, volta&#8221;. Eu falei: &#8220;N\u00e3o tem como voltar n\u00e3o, gente. Vou ter que tomar um empr\u00e9stimo e vou seguir&#8221;. E assim fiz. Rodamos o filme e s\u00f3 agora estamos chegando, oito \/ nove anos depois de Geraldo morrer, porque a Gullane entrou para finalizar. Porque nesse edital, voc\u00ea n\u00e3o pode captar recurso. Voc\u00ea tem que filmar com o que voc\u00ea ganhou. Se n\u00e3o fosse a Gullane entrando para fazer toda parte de imagem sem me cobrar nada, e a Eva Pereira que deu a edi\u00e7\u00e3o do som, o filme n\u00e3o aconteceria. Contei essa hist\u00f3ria para voc\u00ea entender como a fatalidade vem no meio (de todo o processo). Houve uma morte no meio e essa morte nos tirou tudo o que t\u00ednhamos pensado e sonhado. Porque durante cinco anos, Geraldo e eu pensamos e desenhamos todo esse filme. Eu quero fazer um livro de tudo o que ele desenhou para o filme e que ele n\u00e3o fez, mas foi feito pelos seus filhos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_97373\" aria-describedby=\"caption-attachment-97373\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-97373\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/apm_corte_finalizacao-1080p.00_03_20_21.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/apm_corte_finalizacao-1080p.00_03_20_21.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/apm_corte_finalizacao-1080p.00_03_20_21-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-97373\" class=\"wp-caption-text\"><em>Cena de &#8220;A Pele Morta&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;A Pele Morta&#8221; traz algumas homenagens ao Geraldo Moraes, como o momento em que sua foto surge em cena. Como foi esse processo de saud\u00e1-lo dentro do longa?<\/strong><br \/>\nSolange Moraes &#8211; O filme \u00e9 cheio de camadas. Por exemplo, quando falei que queria usar as roupas de Geraldo no filme, a figurinista aceitou. Ent\u00e3o, as camisas do Justo s\u00e3o as camisas de Geraldo. Aquela de listinha vermelha, meio rosa, era a camisa de Geraldo mais usava. Ele chegou a ir ao Mato Grosso com ela para ver as loca\u00e7\u00f5es e tenho fotos dele, assim, em v\u00e1rios lugares com essa camisa. Ee vestia muito aquela camisa. E ela aparece no filme com o Saulo e termina com o Justo tamb\u00e9m usando. \u00c9 a mesma camisa. Na minha cabe\u00e7a, t\u00ednhamos que deixar o Geraldo aparecer na estrada. E Denise (Moraes) e Bruno (Fatumbi Torres) me ouviram, e, tamb\u00e9m, o Daniel (Tavares, roteirista). O Daniel participou de tudo, e continua participando. A gente queria deixar Geraldo na estrada. Porque, para Geraldo, o personagem principal era o Justo, um ex-preso pol\u00edtico. E Geraldo tamb\u00e9m tinha sido um militante pol\u00edtico, tamb\u00e9m chegou a ser preso. Ent\u00e3o, o Justo era uma pessoa que a gente tinha na hist\u00f3ria como algu\u00e9m que representava o Geraldo. E para os meninos, que j\u00e1 s\u00e3o mais jovens, e era um momento em que o Lula tinha sido eleito de novo e \u00e9 quando alguns pa\u00edses iam recuperando a democracia, eles entendiam que tinha que colocar o personagem principal como sendo o ind\u00edgena, e que ele tinha que voltar para a aldeia. Para lutar da sua aldeia para o mundo. Tanto \u00e9 que ele volta cantando o rap dos guarani-kaiow\u00e1, que \u00e9 em portugu\u00eas e guarani, em homenagem aos Br\u00f4 Mcs, que tamb\u00e9m s\u00e3o uma lenda l\u00e1 de Dourados, e que termina sendo a m\u00fasica que fecha filme. Foi quando falamos com Bruno sobre fazermos essa homenagem a Geraldo colocando ele na tela. Bruno filmou com o pai a vida inteira, desde que nasceu. Ele \u00e9 filho do segundo casamento de Geraldo. Esteve no set com o pai desde sempre. E Denise ocupa a cadeira que era de Geraldo na UNB \u2013 ele foi professor l\u00e1 e coordenador do curso de Cinema. Denise \u00e9 professora da UNB de Roteiro e Dire\u00e7\u00e3o e \u00e9 coordenadora do curso de Cinema. Ent\u00e3o, os dois t\u00eam muito esse perfil do pai. Um no set e o outro no set e na academia. E os dois est\u00e3o ali o tempo inteiro. E ficou linda a homenagem que eles fizeram. Porque a foto dele aparece na hora em que a menina est\u00e1 olhando a foto do pai. E a\u00ed entra um facho de luz. S\u00e3o muitos c\u00f3digos. Geraldo est\u00e1 presente no filme de alguma forma com aquela foto e em luz, porque ele j\u00e1 tinha partido. Ent\u00e3o, t\u00ednhamos essa cren\u00e7a, tamb\u00e9m. Em rela\u00e7\u00e3o ao Justo, que \u00e9 o e personagem do Cesar Troncoso, teve uma curiosidade. Depois que Geraldo morreu, os meninos come\u00e7aram a pensar nos atores para os personagens. E eu sabia que seria outra dire\u00e7\u00e3o. Quando apresentei a foto do Cesar Troncoso para eles, eles n\u00e3o tiveram d\u00favidas e foram direto com ele. Tanto o Luan (Iturve) quanto a Ivana (Gomez) foram selecionados atrav\u00e9s de teste de elenco. Eles passaram por v\u00e1rios testes na aldeia e em Concepci\u00f3n, no Paraguai. Testaram l\u00e1 e c\u00e1 e conseguiram achar essas duas p\u00e9rolas, que s\u00e3o o Luan e a Ivana. Os dois est\u00e3o estreando no filme. As homenagens a Geraldo s\u00e3o muito discretas e org\u00e2nicas. A mais expl\u00edcita \u00e9 essa em que ela fala: &#8220;T\u00e1 faltando o pai&#8221;. Que \u00e9 uma palavra linda, n\u00e9? &#8220;T\u00e1 faltando o pai&#8221;. Essa falta seria a dire\u00e7\u00e3o de Geraldo do filme l\u00e1 atr\u00e1s. E eles conseguem colocar o pai presente com aquela foto. Aquele \u00e1lbum \u00e9 feito pela fam\u00edlia. A fam\u00edlia dele e a minha mandaram fotos. Todas as fotos que fomos encontrando, usamos para montar aquele \u00e1lbum. E nos cr\u00e9ditos, aparece l\u00e1: &#8220;\u00c1lbum de Fam\u00edlia&#8221;. Foi todo mundo que foi contribuiu para criar essa homenagem a ele. \u00c9 engra\u00e7ado porque eles s\u00e3o bem diferentes, mas pensam cinema de forma muito igual. Acho que a est\u00e9tica deles ficou muito bonita na narrativa do filme. Duas pessoas, duas cabe\u00e7as, e eles conseguiram. Uma estudando cinema, se formando em Paris, volta ao Brasil, torna-se coordenadora do curso de cinema. E o irm\u00e3o que esteve no set com o pai a vida inteira. Lembro-me, inclusive, que o diretor de arte, Carlo Spatuzza, se emocionou quando contei a ele que seriam os dois filhos de Geraldo que iriam dirigir. Ele falou: &#8220;Sol, quero fazer esse filme de qualquer jeito&#8221;. E ele \u00e9 um cara famoso no Paraguai. Ele fez aquele filme &#8220;7 Cajas&#8221; (2012), que \u00e9 famos\u00edssimo no Paraguai. Ele fez tamb\u00e9m &#8220;Las Herederas&#8221; (2018), um filma\u00e7o muito forte do Marcelo Martinessi. Ent\u00e3o, \u00e9 um tributo ao Geraldo o tempo inteiro. Um cara que foi secret\u00e1rio do audiovisual, um cara que filmou durante muitos anos e em quase todos os estados do Centro-Oeste. Faltou s\u00f3 o Mato Grosso do Sul, que ia ser com esse filme. Ele fez em Goi\u00e1s, fez em Bras\u00edlia, no Tocantins, depois ele vem para a Bahia. E ele falava assim: &#8220;Eu quero fazer esse filme para seguir para a Am\u00e9rica Latina, rodando a Am\u00e9rica Latina&#8221;. S\u00f3 que n\u00e3o conseguiu fazer esse filme para a Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Entendi. O Geraldo tinha essa vontade de ter os contatos em todos os pa\u00edses latinos.<\/strong><br \/>\n\u00c9 porque, na verdade, ele era o presidente da Coaliz\u00e3o Brasileira para a Diversidade Cultural e eu a vice-presidente. Assumi a presid\u00eancia agora. E a Coaliz\u00e3o Brasileira tem um link com 45 pa\u00edses no mundo. Ent\u00e3o, todo ano, em janeiro, a gente vai para Paris para uma reuni\u00e3o de c\u00fapula dos 45 pa\u00edses. Quando ele estava na pr\u00e9 produ\u00e7\u00e3o, ele foi convidado para ser presidente da Coaliz\u00e3o das Am\u00e9ricas. S\u00f3 que ele n\u00e3o aceitou. Ele falou na \u00e9poca: &#8220;N\u00e3o, eu quero primeiro rodar o filme, quero viver na Am\u00e9rica Latina e depois aceito o convite&#8221;. Ele n\u00e3o aceitou porque quis primeiro rodar o filme. A gente tem um desenho de distribui\u00e7\u00e3o, que nos falta dinheiro, que \u00e9 muito forte. A gente tem o cine solar, que \u00e9 um carro todo movido a energia solar. J\u00e1 or\u00e7amos tudo e ficou em volta de R$ 300 mil, que \u00e9 para a gente rodar as aldeias de Dourados at\u00e9 o Uruguai, fechando na cidade de Geraldo no Mato Grosso do Sul. Ent\u00e3o, estou buscando dinheiro para isso agora. Continuo captando porque \u00e9 um sonho nosso sair e dividir o filme pelas estradas e aldeias da Am\u00e9rica Latina. Filmamos na aldeia Guarani Kaiow\u00e1, mas quando fomos para o Paraguai, filmamos na estrada. Ent\u00e3o, a gente queria um carro como se fosse o filme rodando a estrada. \u00c9 uma distribui\u00e7\u00e3o de impacto que desenhei com ele. \u00c9 um sonho meu e dele que n\u00e3o conseguimos, mas estou lutando para isso acontecer, buscando essa grana. Porque Geraldo era muito apaixonado pela Am\u00e9rica Latina. E pelo mundo, porque a Coaliz\u00e3o est\u00e1 em v\u00e1rios pa\u00edses. E ele foi em v\u00e1rios pa\u00edses. Com Gilberto Gil, mesmo, ele foi acompanhando para Conven\u00e7\u00e3o mais hist\u00f3rica do mundo, que \u00e9 a Conven\u00e7\u00e3o do Unesco, de 2005. Geraldo estava l\u00e1 no Canad\u00e1 com Gilberto Gil. Com esse filme, ele queria fazer esse impacto na Am\u00e9rica Latina. S\u00f3 que n\u00e3o conseguiu. Estou fazendo isso agora.<\/p>\n<figure id=\"attachment_97374\" aria-describedby=\"caption-attachment-97374\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-97374\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/solange.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/solange.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/solange-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-97374\" class=\"wp-caption-text\"><em>Sol Moraes no set de &#8220;A Pele Morta&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando conversei com o Eduardo Valente, diretor art\u00edstico do Festival de Bras\u00edlia, ele me falou muito da simbologia de ter o filme estreando na sess\u00e3o de abertura do evento por conta da liga\u00e7\u00e3o de Geraldo Moraes com a cidade e com o festival.<\/strong><br \/>\nSim! Bras\u00edlia, para o Geraldo, foi uma cidade pol\u00edtica e cultural. Ele saiu fugindo de Goi\u00e1s na \u00e9poca, com os dois primeiros filhos, que \u00e9 M\u00e1rcio e Denise, que nasce l\u00e1 e \u00e9 uma das diretoras do &#8220;A Pele Morta&#8221;. Depois que a ditadura meio que d\u00e1 uma esfriada, ele vem para Bras\u00edlia, para a UNB. \u00c9 uma cidade muito forte para Geraldo do ponto de vista familiar, tamb\u00e9m, porque ele construiu uma fam\u00edlia l\u00e1. E pol\u00edtico, porque ele vai para a UNB e ele fundou o CPC, ele criou canais de televis\u00e3o para a UNB. Ou seja, ele \u00e9 um cara muito pol\u00edtico. E o Festival de Bras\u00edlia \u00e9 um festival pol\u00edtico. Isso para mim foi fant\u00e1stico. Digo que o cinema, ele traz presentes para a gente. Eu venho discutindo ao longo desses \u00faltimos quinze anos a import\u00e2ncia da engenharia da produ\u00e7\u00e3o. Eu ministro um curso, inclusive, sobre isso. Fiz quest\u00e3o de criar esse curso. J\u00e1 ministrei esse curso na UNB em Bras\u00edlia, no Par\u00e1, no Piau\u00ed, Amap\u00e1, Alagoas, Portugal e agora estou fazendo um fixo com uma escola de cinema da engenharia da produ\u00e7\u00e3o. Porque esse filme traz esse exemplo. \u00c9 um filme em que o roteiro nasce em Cuba. Ent\u00e3o, voc\u00ea tem toda a parte de escrita na maior escola de cinema do mundo. Cuba \u00e9 o pilar do cinema. Depois, vem para Salvador, e aqui ele participou de um edital e ficou em primeira supl\u00eancia. Eu sou uma produtora baiana, mas o estado da Bahia n\u00e3o consegue entender que esse filme \u00e9 baiano. Porque eles entendem que foi rodado em Mato Grosso e no Paraguai. Ent\u00e3o, o dinheiro para sair de um edital da Bahia para um filme internacional, n\u00e3o \u00e9 baiano. E isso com o CNPJ baiano, o dinheiro dos impostos ficam na Bahia, e eles n\u00e3o conseguem entender isso. Ent\u00e3o, para a engenharia da produ\u00e7\u00e3o, esse filme, para mim, como produtora, \u00e9 crucial. Porque ele nasce em Cuba e vem para Bahia. Depois o Geraldo morre, a gente vai buscar dois diretores em Bras\u00edlia, que s\u00e3o filhos deles, mas s\u00e3o diretores em Bras\u00edlia. A gente vai para o Mato Grosso, onde montamos uma estrutura e empregamos v\u00e1rias pessoas de l\u00e1. A pesquisadora do filme \u00e9 de Mato Grosso. O ator do filme, personagem principal, \u00e9 um ator ind\u00edgena do Mato Grosso. A\u00ed a gente sai para o Paraguai e, de l\u00e1, temos o diretor de arte, que \u00e9 o Carlos Spattuza, a atriz, que \u00e9 a Ivana Gomez. L\u00e1, fizemos os testes de elenco. Temos tamb\u00e9m Amanda (Nascimento), de Pernambuco, que \u00e9 a diretora de produ\u00e7\u00e3o internacional. Ela trabalhou com Camilo Cavalcante. E Camilo, na mesma \u00e9poca que Geraldo ganhou o edital, ele tamb\u00e9m estava filmando. E eles brincavam porque Camilo come\u00e7ava o filme dele em Salar do Uyuni e terminava em Dourados, Mato Grosso do Sul. E Geraldo come\u00e7ava em Dourados e terminava em Salar do Uyuni. E eles brincavam dizendo que iam se encontrar na estrada. Ent\u00e3o, a gente tem uma diretora de produ\u00e7\u00e3o de Pernambuco que j\u00e1 tinha rodado no Paraguai antes e que eu queria que ela viesse para c\u00e1 para fazer essa expertise. Isso porque era um road movie e eu tinha que montar toda a estrutura na estrada. Olha quantos estados envolvidos. Fronteiras invis\u00edveis dentro dessa produ\u00e7\u00e3o. E depois a gente vai at\u00e9 a Filad\u00e9lfia, que \u00e9 um local que s\u00f3 vivem mennonitas (grupo crist\u00e3o protestante que descende do movimento anabatista do s\u00e9culo XVI) dentro da cidade. E eles n\u00e3o deixam nem cal\u00e7ar a cidade, porque eles acham que se cal\u00e7ar, a civiliza\u00e7\u00e3o chega e destr\u00f3i essa cultura alem\u00e3 deles dentro do Paraguai e Filad\u00e9lfia. Ent\u00e3o, foi um filme que eu contei com v\u00e1rias embaixadas. Contei com o ex\u00e9rcito, com o Minist\u00e9rio de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais.<\/p>\n<figure id=\"attachment_97375\" aria-describedby=\"caption-attachment-97375\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-97375\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/apm_corte_finalizacao-1080p.01_04_23_00.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/apm_corte_finalizacao-1080p.01_04_23_00.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/apm_corte_finalizacao-1080p.01_04_23_00-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-97375\" class=\"wp-caption-text\"><em>Cena de &#8220;A Pele Morta&#8221;<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Trata-se de um filme, ent\u00e3o, que n\u00e3o somente tem essas fronteiras da Am\u00e9rica Latina em seu roteiro com, tamb\u00e9m, teve na sua produ\u00e7\u00e3o muito dessa simbologia dessas fronteiras invis\u00edveis.<\/strong><br \/>\nSim. E eu estou, inclusive, escrevendo um livro sobre as produ\u00e7\u00f5es que n\u00e3o t\u00eam conhecimento das fronteiras da Am\u00e9rica Latina. E se voc\u00ea pensar, a gente n\u00e3o tem, a Ancine n\u00e3o tem acordo bilateral nem com o Paraguai e nem com a Bol\u00edvia. Os dois pa\u00edses que n\u00f3s \u00edamos filmar. Tanto que Justo vai para a Bol\u00edvia, mas a gente n\u00e3o atravessa a fronteira da Bol\u00edvia fisicamente. Atravessamos de forma imag\u00e9tica, imaginaria, quando o caminh\u00e3o sai e ele est\u00e1 indo para a Bol\u00edvia. E a menina est\u00e1 indo para a Argentina em busca da irm\u00e3, porque ela n\u00e3o a acha no Paraguai e vai para a Argentina. Ou seja, \u00e9 um filme que, fisicamente, foi rodado entre Brasil e Paraguai, mas imageticamente, foi rodado com v\u00e1rios estados do Brasil envolvidos. Pernambuco, Bras\u00edlia, Bahia, Rio Grande do Sul, porque tem v\u00e1rios t\u00e9cnicos de Geraldo que nasceram no Rio Grande do Sul. Ent\u00e3o, a gente fez essa homenagem. Temos pessoas do Paraguai envolvidas, pessoas da Bol\u00edvia, como a nossa coordenadora de produ\u00e7\u00e3o que era boliviana. \u00cdamos para a Bol\u00edvia, ent\u00e3o, ela j\u00e1 estava ali dentro para seguir com a gente. Quando o filme muda a rota, ela permanece. E no Paraguai, estivemos com a maior produtora, a Sabat\u00e9 Filmes, atrav\u00e9s da Isabela, s\u00f3 que ela ficou com medo. O tempo que eu levei com a Ancine para construir o contrato de co-execu\u00e7\u00e3o foram tr\u00eas meses. Ela desistiu porque o tempo era muito longo e ela ficou com medo de se prejudicar. Porque n\u00e3o existe acordo bilateral Brasil-Uruguai. Ent\u00e3o, a gente usa o acordo Ibero-americano, que \u00e9 um acordo mais solto. Foi algo bem complicado. A troca de moedas, o c\u00e2mbio. a gente tem um Banco do Brasil que fica em Pedro Juan Caballero\/Ponta Por\u00e3. Metade do Banco do Brasil fica em Pedro Juan Caballero e metade fica em Ponta Por\u00e3. Ent\u00e3o, o banco \u00e9 o qu\u00ea? Brasileiro ou paraguaio? Ent\u00e3o, n\u00f3s encontramos muitas fronteiras invis\u00edveis. E a\u00ed eu vim entender que o Brasil, por falar portugu\u00eas, ele est\u00e1 de costas para a Am\u00e9rica Latina. Glauber dizia muito isso. A gente tem que conhecer mais a Am\u00e9rica Latina. A gente n\u00e3o conhece a Am\u00e9rica Latina. Est\u00e1 todo mundo mirando para o Norte, todo mundo virando para a Europa. Ent\u00e3o, na sequ\u00eancia de acabar o filme, comecei a buscar dinheiro tentando ver como \u00e9 que eu ia fazer sem poder captar, porque o edital n\u00e3o permite. Fui para o SAPCINE, que \u00e9 em Cali. Eles queriam apoiar, mas n\u00e3o n\u00e3o davam passagem a\u00e9rea. Na Bahia entendem que o filme \u00e9 do Mato Grosso porque n\u00e3o foi rodado de Salvador e, por isso, n\u00e3o tem como me dar passagem para eu finalizar o filme em Cali. Fui para o Ventana Sur com apoio da Ancine, que foi quem bancou a passagem. Levei o filme para l\u00e1, ele foi selecionado para o corte final. Em uma sele\u00e7\u00e3o com 400 filmes inscritos, eles s\u00f3 escolhem cinco E &#8220;A Pele Morta&#8221; foi selecionado em 2019. L\u00e1, o diretor de Cannes nos disse que queria o filme quando estivesse finalizado. Ficamos t\u00e3o euf\u00f3ricos e felizes. Depois, Veneza, em 2019, pediu a c\u00f3pia do filme para passar l\u00e1. S\u00f3 que em 2020 veio a pandemia e a pessoa que fez o convite para quando o filme estivesse pronto acabou falecendo de Covid. Mas esse convite s\u00f3 veio porque viram o projeto no Ventana Sur, na Argentina, que \u00e9 o maior encontro de mercado de cinema da America Latina. O ano passado aconteceu no Uruguai por conta do novo presidente argentino que \u00e9 louco. Ent\u00e3o, para mim, esse filme me deu a no\u00e7\u00e3o de Am\u00e9rica Latina. Foi por isso que eu aceitei ser presidente da Coaliz\u00e3o agora no lugar do meu marido. Eu n\u00e3o queria aceitar antes por achar que a Coaliz\u00e3o estava morta e tal, mas quando eu fui para o Ventana Sur, que eu j\u00e1 tinha passado pelo Uruguai e fui \u00e0 Argentina, eu falei: &#8220;N\u00e3o, a gente tem que fazer alguma coisa. Est\u00e1 errado. Temos que come\u00e7ar a conhecer essa Am\u00e9rica&#8221;. Esse ano eu estou voltando com o filme j\u00e1 pronto para venda no mercado. Est\u00e1 aberto as inscri\u00e7\u00f5es agora do Ventana Sur e eu espero que ele seja selecionado pra gente poder vender o filme nesse maior mercado da Am\u00e9rica Latina e honrar a hist\u00f3ria do filme, que \u00e9 um trabalho totalmente latino-americano. E com v\u00e1rias participa\u00e7\u00f5es, v\u00e1rias nuances. Ent\u00e3o, para mim, como produtora, esse filme foi um doutorado em engenharia da produ\u00e7\u00e3o. E fui fazendo tudo empiricamente, de luto. A minha press\u00e3o arterial sa\u00eda de 9 para 19, sa\u00eda de 19 para 17, e era uma loucura. Passei muito mal. E ainda estou no embate com a Ancine porque tenho que explica que eu tamb\u00e9m sou gente. Que eu sofri essa dor de perder o Geraldo, que veio uma pandemia e que eu s\u00f3 estou terminando o filme agora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A produ\u00e7\u00e3o, de fato, precisa ser mais valorizada.<\/strong><br \/>\nSim. E n\u00f3s temos 62 cursos de cinema e nenhum \u00e9 voltado especificamente para a produ\u00e7\u00e3o. Todo mundo vai ser diretor. Ent\u00e3o, \u00e9 muito louco isso. O produtor \u00e9 subestimado. Todo mundo acha que o produtor, no m\u00e1ximo, ele \u00e9 um carregador de piano e n\u00e3o entende que o produtor \u00e9 um pensador estrat\u00e9gico para n\u00e3o cair. Por exemplo, quando o d\u00f3lar saiu a\u00ed de R$2,75 para R$4,70, todo mundo falou: &#8220;Volta&#8221;. A\u00ed eu fiz a conta. Se eu voltasse para c\u00e1, eu ia gastar mais de R$ 100 mil, fora hospedagem e alimenta\u00e7\u00e3o da equipe. Ent\u00e3o, (o custo) iria ficar em torno de uns R$ 400 mil. Eu tomo esse empr\u00e9stimo e acabo o filme. O empr\u00e9stimo \u00e9 meu, pessoa f\u00edsica, e estou pagando at\u00e9 hoje. Mas a Ancine n\u00e3o entende isso. Ent\u00e3o, para mim a produ\u00e7\u00e3o desse filme foi a mais desafiadora da minha vida. E tamb\u00e9m a mais fant\u00e1stica, porque o que eu aprendi com ela n\u00e3o tem pre\u00e7o. E os meus enteados, tanto Denise quanto Bruno, foram muito c\u00famplices. Foram perfeitos. Eles conseguiram levar um filme para a tela que me deu orgulho. E o Daniel Tavares, que nunca saiu do meu lado, tentou falar com a VideoFilmes, tentou falar com a Gullane, ele tentou falar com todo mundo para eu conseguir terminar o filme. E eu consegui como? Eu tenho um festival aqui na Bahia chamado &#8220;Os Filmes que Eu N\u00e3o Vi&#8221;. Trouxe o Fabiano Gullane para um Masterclass. Eu e o Fabiano somos amigos desde \u201cNarradores de Jav\u00e9\u201d (2003), quando busquei recursos com ele. Em um almo\u00e7o, ele me perguntou como estava minha vida e eu expliquei que estava com um filme parado. Ele disse: &#8220;Vamos terminar!&#8221;. Eu falei: &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 entendendo, eu n\u00e3o tenho um tost\u00e3o&#8221;. Ele falou: &#8221; Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 entendendo. Eu estou dando a finaliza\u00e7\u00e3o do filme para voc\u00ea&#8221;. E finalizou o filme. Ent\u00e3o, assim, eu nunca vou esquecer a Gullane. \u00c9 uma das maiores produtoras do pa\u00eds, que teve todo esse olhar espec\u00edfico para um filme que estava parado e que n\u00e3o ia conseguir finalizar. Porque a Ancine n\u00e3o permite captar com Prodecine 5. E eu n\u00e3o sou uma mulher rica. N\u00e3o tenho dinheiro, n\u00e3o tenho casa pr\u00f3pria nem para vender. Ent\u00e3o, tudo isso \u00e9 muita informa\u00e7\u00e3o que voc\u00ea deve estar tomando susto a\u00ed que eu vou despejando em voc\u00ea. Mas que eu acho que \u00e9 necess\u00e1rio. Porque as pessoas t\u00eam que passar a enxergar a produ\u00e7\u00e3o como estrat\u00e9gica para um filme. E o governo tem que entender que o filme ele \u00e9 baiano, porque o CNPJ \u00e9 baiano, o produtor \u00e9 baiano e \u00e9 quem faz esse filme acontecer. Sem um produtor, o filme n\u00e3o sai do papel. E isso \u00e9 muito importante entender. Digo que o cinema \u00e9 uma orquestra. Se ela desafina, ela n\u00e3o anda. Se eu n\u00e3o tiver um diretor, eu n\u00e3o filmo. Se eu n\u00e3o tiver roteirista, eu n\u00e3o tenho hist\u00f3ria. Se eu n\u00e3o tiver os departamentos, eu n\u00e3o monto a est\u00e9tica narrativa e a linguagem do filme. O som, esse \u00e9 um filme de som! \u00c9 o Bresson, porque (tamb\u00e9m) \u00e9 um filme de sil\u00eancio. Ele tem quatro m\u00fasicas espec\u00edficas no filme. O resto \u00e9 sil\u00eancio. E o Bresson dizia isso: &#8220;Som tamb\u00e9m \u00e9 sil\u00eancio&#8221;. Porque \u00e9 no sil\u00eancio que se constr\u00f3i as narrativas. Ent\u00e3o, assim, esse filme, para mim, ele foi uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o, sabe? Um doutorado mesmo, vamos dizer assim, porque eu mergulhei tanto nos estudos. Estou com uma mala aqui no meu quarto s\u00f3 com notas fiscais, entendendo tudo por estado, por l\u00edngua, por v\u00e1rias nuances para poder montar esse filme. Ainda quero chegar na Am\u00e9rica Latina, temos dinheiro? N\u00e3o. (risos) (Mas) Vou atr\u00e1s. Vamos tentar.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-97372 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/A-Pele-Morta_baixa-resolucao.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1084\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/A-Pele-Morta_baixa-resolucao.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/A-Pele-Morta_baixa-resolucao-208x300.jpg 208w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e \u00e9 autor de \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/11\/11\/entrevista-mitico-guitarrista-baiano-alvaro-assmar-ganha-biografia-joao-paulo-barreto-fala-sobre-uma-vida-blues\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Uma Vida Blues<\/a>\u201d, biografia de \u00c1lvaro Assmar.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;A Pele Morta&#8221; (2026), longa dirigido pelos irm\u00e3os Denise Moraes e Bruno Fatumbi Torres, e produzido por Solange Moraes, da Ara\u00e7\u00e1 Filmes, \u00e9 o longa de abertura da 59\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Festival de Bras\u00edlia,\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/09\/10\/entrevista-solange-moraes-fala-sobre-a-producao-de-a-pele-morta-filme-que-abre-o-festival-de-brasilia-2026\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":97376,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,4],"tags":[8363,8362],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97371"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=97371"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97371\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":97377,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97371\/revisions\/97377"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/97376"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=97371"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=97371"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=97371"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}