{"id":97341,"date":"2026-09-08T02:29:45","date_gmt":"2026-09-08T05:29:45","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=97341"},"modified":"2026-09-08T02:31:30","modified_gmt":"2026-09-08T05:31:30","slug":"entrevista-fred-04-abre-o-jogo-sobre-ia-legado-e-novo-disco-do-mundo-livre-s-a","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/09\/08\/entrevista-fred-04-abre-o-jogo-sobre-ia-legado-e-novo-disco-do-mundo-livre-s-a\/","title":{"rendered":"Entrevista: Fred 04 abre o jogo sobre IA, legado e novo disco do Mundo Livre S\/A"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/aledemelo_\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Alexandre de Melo<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trinta anos ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o do movimento Manguebeat sacudir a m\u00fasica brasileira com uma mistura de ritmos pernambucanos, maracatu, p\u00f3s-punk e elementos eletr\u00f4nicos, Fred 04, l\u00edder da <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/mundolivre_sa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mundo Livre S\/A<\/a>, segue como uma das vozes mais inquietas do pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma tarde ensolarada, o veterano compositor conversou com a Scream &amp; Yell (pela terceira vez) antes de uma apresenta\u00e7\u00e3o especial da banda na capital paulista. No papo, ele resgata as mem\u00f3rias do in\u00edcio prec\u00e1rio, quando constru\u00eda trastes de guitarra com canos de bronze e encarava turn\u00eas sem verba de equipamentos, o aprendizado do cavaquinho durante um Carnaval em Olinda e a inspira\u00e7\u00e3o na obra do escritor Umberto Eco para criar a m\u00fasica e o conceito de &#8220;Computadores Fazem Arte&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A entrevista tamb\u00e9m recupera como a biografia &#8220;<a href=\"https:\/\/link.amazon\/B0iyeSEFa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mundo Livre S\/A 4.0 \u2013 Do Punk ao Mangue<\/a>&#8221; (2024), escrita por Pedro de Luna (respons\u00e1vel, tamb\u00e9m, pela bio \u201c<a href=\"https:\/\/link.amazon\/B0b4CtVAT\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Planet Hemp \u2013 Mantenha o Respeito<\/a>\u201d, 2018<em class=\"zhvwWe\" data-sfc-cp=\"\" data-sfc-root=\"ep\" data-complete=\"true\" data-copy-service-computed-style=\"font-family: &quot;Google Sans&quot;, Arial, sans-serif; font-size: 16px; font-weight: 400; margin: 0px; text-decoration: none; border-bottom: 0px rgb(10, 10, 10);\">)<\/em>, ajudou a reabrir portas para a banda em grandes festivais, como o Lollapalooza. A reflex\u00e3o sobre o legado ganha ainda mais for\u00e7a ap\u00f3s a homenagem da Acad\u00eamicos do Grande Rio, que levou o movimento Manguebeat para a Marqu\u00eas de Sapuca\u00ed no Carnaval de 2026 com o enredo &#8220;A Na\u00e7\u00e3o do Mangue&#8221;. Ele conta: \u201cFoi muito bonito o desfile e fez a gente perceber mais o legado do movimento.\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fred relembra tamb\u00e9m os percal\u00e7os do antol\u00f3gico disco \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2004\/12\/06\/bit-do-mundo-livre-s-a-e-para-se-admirar-ouvir-e-se-inspirar\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Samba Esquema Noise<\/a>\u201d (1994), reflete sobre a perda do valor simb\u00f3lico da m\u00fasica na era digital, aborda a rela\u00e7\u00e3o entre milit\u00e2ncia pol\u00edtica e cancelamento na imprensa tradicional e revela os bastidores do pr\u00f3ximo \u00e1lbum de in\u00e9ditas da banda.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Mundo Livre s\/a - Samba Esquema Noise\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/iLhx_U03Pwo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 diferente tocar o &#8220;Samba Esquema Noise&#8221; hoje? O que voc\u00ea enxerga nessas m\u00fasicas atualmente que n\u00e3o enxergava na \u00e9poca?<\/strong><br \/>\nTem m\u00fasica que a gente nem tinha como tocar na \u00e9poca da turn\u00ea original do disco. &#8220;Terra Escura&#8221; e &#8220;Sob o Cal\u00e7amento (Se Espumar \u00e9 Gente)&#8221;, por exemplo, foram faixas fruto de muita experi\u00eancia de est\u00fadio. &#8220;Terra Escura&#8221; n\u00e3o tinha um arranjo da banda pronto; tinha um surdo eletr\u00f4nico e efeitos &#8220;borbulhantes&#8221; para dar um toque experimental, acompanhando a letra que fala da &#8220;p\u00e9rola do mar&#8221;. N\u00e3o tinha como levar aquilo para o palco at\u00e9 porque o nosso aparato instrumental era muito tosco naquela \u00e9poca. Isso foi at\u00e9 um trauma do &#8220;Samba Esquema Noise&#8221;. A gente tomou a postura de fazer o &#8220;Guentando a \u00d4ia&#8221; (o segundo disco) na contram\u00e3o justamente por esse trauma da turn\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Da turn\u00ea ou da grava\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nDa turn\u00ea. Porque na grava\u00e7\u00e3o, a Warner deu carta branca para a gente gastar mais de 600 horas de est\u00fadio, sem limite de tempo, convidando todo mundo. Tinha sess\u00f5es de percuss\u00e3o absurdas. Mas quando a gente caiu na estrada para divulgar o disco, viu que n\u00e3o haveria adiantamento de verba para equipamentos. Diferente do Na\u00e7\u00e3o Zumbi, que assinou com a Sony e teve um adiantamento de R$ 10.000 s\u00f3 para equipar a banda e ser fiel ao disco, no nosso caso o adiantamento para o lan\u00e7amento foi zero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu n\u00e3o tinha nem guitarra. Gravei o disco com guitarras emprestadas dos Tit\u00e3s, o Charles Gavin e o Nando Reis participaram do disco, e o selo Banguela era de membros dos Tit\u00e3s. Eles disponibilizaram todo o equipamento deles l\u00e1. Um pouco antes de come\u00e7ar a turn\u00ea, o Beto, que era empres\u00e1rio em S\u00e3o Paulo, nos ajudou. Nosso empres\u00e1rio em Recife era o Gutierrez (Guti), que era amigo do Beto. O Beto pegou cheque pr\u00e9-datado e comprou uma guitarra para mim em umas dez presta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A gente n\u00e3o tinha como transpor para o palco nem 10% das experimenta\u00e7\u00f5es que fizemos no disco. Tinha gente que dizia: &#8220;Velho, o disco \u00e9 uma coisa, o show \u00e9 outra completamente diferente&#8221;. Eu s\u00f3 fui passar a gostar mais da minha voz a partir do segundo disco. Ouvindo hoje em dia, d\u00e1 para ver uma mudan\u00e7a absurda, porque eu j\u00e1 tinha mais experi\u00eancia de est\u00fadio e grava\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Musicalmente, o que te orgulha de tocar ao vivo hoje do &#8220;Samba Esquema Noise&#8221;?<\/strong><br \/>\nOlha Alexandre, eu gosto pra caralho da vers\u00e3o de &#8220;Terra Escura&#8221; que a gente faz hoje, adaptada para o palco, mas tamb\u00e9m gostava muito da vers\u00e3o original. A pr\u00f3pria &#8220;Sob o Cal\u00e7amento&#8221;, que tocamos ao vivo hoje, teve que mudar muito porque a vers\u00e3o original tinha v\u00e1rios convidados e n\u00e3o consegu\u00edamos transpor para o palco. Na \u00e9poca, a mesa era anal\u00f3gica; para mixar, precisava de umas oito m\u00e3os operando os canais ao mesmo tempo por causa da quantidade de elementos. Foi um trabalho \u00e1rduo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Mundo Livre S\/A - Terra Escura\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/iziICeyFKfs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fred, como surgiu a ideia da biografia &#8220;Mundo Livre S\/A 4.0 \u2013 Do Punk ao Mangue&#8221;, escrita pelo Pedro de Luna?<\/strong><br \/>\nEle nos procurou. \u00c9 importante falar que a biografia contribuiu bastante nas celebra\u00e7\u00f5es dos 30 anos do &#8220;Samba Esquema Noise&#8221;. O lan\u00e7amento do livro fez uma grande diferen\u00e7a, at\u00e9 porque o Pedro \u00e9 um cara muito intenso em termos de correr atr\u00e1s. Ele \u00e9 um pesquisador muito determinado, insistentemente indo atr\u00e1s do melhor material poss\u00edvel, e atua tanto como pesquisador quanto como divulgador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi como se a gente tivesse a sorte de contar com um &#8220;marketing digital volunt\u00e1rio&#8221;, porque a maior parte do material sobre o Mundo Livre S\/A que chega em postagens no Instagram vem do Pedro, que est\u00e1 sempre escavando coisas at\u00e9 para ajudar a vender o livro. Isso foi um dos fatores para a gente retornar aos grandes festivais. <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/03\/27\/lollapalooza-brasil-2026-12-shows-de-uma-edicao-marcada-por-leques-publicidade-e-falta-de-identidade\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Lollapalooza (2026) foi um grande marco<\/a>; o \u00faltimo evento desse porte de que t\u00ednhamos participado foi em 2005, <a href=\"https:\/\/www.screamyell.com.br\/musicadois\/crf_tim.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o Tim Festival<\/a>, em S\u00e3o Paulo e no Rio, junto com Wilco, Arcade Fire e The Strokes. Tinha sido h\u00e1 mais de 15 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que tem no livro que as pessoas v\u00e3o descobrir sobre a banda?<\/strong><br \/>\nHist\u00f3rias de bastidores, por exemplo. Quando viajamos para o M\u00e9xico para gravar um clipe sobre o Subcomandante Marcos e os Zapatistas, houve um estresse absurdo na alf\u00e2ndega e na imigra\u00e7\u00e3o. A gente torcendo para eles n\u00e3o ouvirem o disco, porque as letras falavam &#8220;salve Marcos&#8221;. Por sorte e intui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o colocamos isso no t\u00edtulo da m\u00fasica, a faixa se chamava &#8220;Desafiando Roma&#8221;. O pessoal do Ex\u00e9rcito e da imigra\u00e7\u00e3o checava tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o epis\u00f3dios que n\u00e3o s\u00e3o comuns de acontecer com uma banda de rock no Brasil. Ao contr\u00e1rio de outras cenas onde os integrantes eram filhos de diplomatas ou da classe m\u00e9dia alta, o nosso baterista, quando entrou na banda, passava o dia carregando pneu de trator. Era um emprego informal porque ele era menor de idade. Passava o dia numa recapadora de pneus e de noite ia ensaiar. Esse era o nosso perfil, totalmente diferente do padr\u00e3o de bandas formadas por filhos de embaixadores ou pessoas com mais facilidades. De repente veio O Rappa no Rio, a galera de Pernambuco toda, fazendo as coisas na unha e na ra\u00e7a. Minha primeira guitarra era t\u00e3o barata que consegui comprar com a mesada.<\/p>\n<figure id=\"attachment_97346\" aria-describedby=\"caption-attachment-97346\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-97346\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Fred-e-o-livro-mais-leve.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Fred-e-o-livro-mais-leve.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Fred-e-o-livro-mais-leve-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-97346\" class=\"wp-caption-text\"><em>Fred 04 segura a biografia do Mundo Livre S\/A na Casa Natura, em 2025. Foto de Rafael Botas<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual foi essa primeira guitarra?<\/strong><br \/>\nEu a chamava de &#8220;Rose&#8221;. Era uma semiac\u00fastica sem marca, feita por pessoal de igreja. O antigo dono tinha tirado os trastes para tentar fazer um baixo fretless, mas desistiu e queria trocar por uma caixa de cerveja. Eu comprei e tive que refazer os trastes. Como n\u00e3o vendiam trastes separados na \u00e9poca, voc\u00ea tinha que comprar o cano de liga de bronze por metro e ir cortando com material pr\u00f3prio. Eu n\u00e3o tinha ferramenta nenhuma: comprei uma serra e fui fazendo o trabalho sozinho. Meu irm\u00e3o tinha a escala e eu vivia me cortando ao tentar regular a afina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quantos captadores ela tinha?<\/strong><br \/>\nTinha dois captadores. E eu pirava porque ela tinha uma ponte com alavanca, s\u00f3 que a alavanca em si tinha se perdido, ent\u00e3o eu tinha que fazer o efeito alavancando direto no mecanismo. Usei essa guitarra na garagem por uns tr\u00eas ou quatro anos. Depois consegui um emprego como radialista na Transam\u00e9rica de Recife, passei a ser CLT e com o sal\u00e1rio paguei as presta\u00e7\u00f5es de uma primeira guitarra nacional, se n\u00e3o me engano, uma Giannini ou Dolphin. N\u00e3o era profissional, mas j\u00e1 vinha pronta. Minha primeira guitarra profissional mesmo s\u00f3 veio com aqueles cheques pr\u00e9-datados depois do &#8220;Samba Esquema Noise&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Na\u00e7\u00e3o Zumbi tinha acabado de receber a grana da Sony para a turn\u00ea do &#8220;Da Lama ao Caos&#8221;. O <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?s=L%C3%BAcio+Maia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">L\u00facio Maia<\/a> tinha comprado uma Fender Telecaster, um amplificador massa, um cabe\u00e7ote e v\u00e1rios pedais. O sonho de consumo da minha vida era uma Telecaster branquinha. S\u00f3 que o L\u00facio adoeceu poucos dias antes de um show no Rio de Janeiro. Como eu j\u00e1 tocava algumas m\u00fasicas do Na\u00e7\u00e3o Zumbi na \u00e9poca da cooperativa (a gente fazia jam sessions juntos), eles me chamaram para substitu\u00ed-lo. L\u00f3gico que o L\u00facio \u00e9 muito mais virtuoso na guitarra do que eu, ele cresceu com a ideia de ser um virtuoso. Ele n\u00e3o tinha a ambi\u00e7\u00e3o de ser compositor na \u00e9poca. A gente at\u00e9 orientou o Chico Science quando o conheceu: &#8220;Chico, d\u00e1 uma maneirada no estilo do L\u00facio, porque ele quer solar como o Jimi Hendrix e n\u00e3o est\u00e1 combinando com o conceito do Manguebeat&#8221;. O Chico conversou com ele para conter os excessos. Se deixasse, o L\u00facio passava a m\u00fasica inteira solando.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Mundo Livre S\/A - Livre Iniciativa\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/T31KKTv3OCM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como o cavaquinho entrou na sua vida?<\/strong><br \/>\nFoi na \u00e9poca do meu primeiro emprego CLT como rep\u00f3rter de TV, nos anos 1990. Juntei o dinheiro das minhas primeiras f\u00e9rias e aluguei, com uma turma de cerca de 30 pessoas, o espa\u00e7o de uma boate fechada em Olinda para passar o Carnaval. Nessa casa tinha um integrante de um grupo de samba que passava o dia bebendo cacha\u00e7a e tocando cavaquinho. Quando vi a agilidade da palhetada e a afina\u00e7\u00e3o do instrumento, me encantei. Eu j\u00e1 tocava viol\u00e3o e guitarra, ent\u00e3o peguei a afina\u00e7\u00e3o r\u00e1pida. Assim que o Carnaval acabou, usei minha grana para comprar um cavaquinho. Em vez de tocar Cartola, comecei a tirar faixas do The Clash e do Sex Pistols no cavaquinho para ver como soavam. Acabou virando uma marca registrada minha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o Chico Science? Onde ele se encaixa nessa fase?<\/strong><br \/>\nO Chico tamb\u00e9m era CLT na \u00e9poca, trabalhava no processamento de dados da Prefeitura de Recife. Nos conhecemos por causa da fita cassete de &#8220;Computadores Fazem Arte&#8221;. Quando ele ouviu, foi assistir a um ensaio nosso. O Chico tinha duas coisas marcantes: um esp\u00edrito ativista incans\u00e1vel, ele n\u00e3o ficava s\u00f3 na ideia, ele botava pra fazer, por mais dif\u00edcil que fosse, e um senso de coletividade absurdo. Ele gravava fitas com bandas novas e distribu\u00eda, articulava contatos com bandas do Rio e de S\u00e3o Paulo (como o Ira!). E, claro, tinha um carisma gigante no palco. Eu era um cara t\u00edmido, que tocava quase de costas para o p\u00fablico; o Chico j\u00e1 nasceu com a presen\u00e7a de um verdadeiro l\u00edder.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Canto do Ver\u00e3o (1996) - Mundo Livre S\/A e Na\u00e7\u00e3o Zumbi - C\u00e2mera 02 - TV Jornal Digital\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/NUJ9YAFtQPs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea tocou em dois pontos interessantes: o circuito de festivais e o trabalho formal do m\u00fasico. Hoje, o artista autoral consegue produzir tudo em casa, mas n\u00e3o sei se ganha mais dinheiro do que na \u00e9poca das gravadoras. Qual \u00e9 a sua vis\u00e3o sobre isso?<\/strong><br \/>\n\u00c9 engra\u00e7ado. Quando surgiu o MP3 e houve aquela disrup\u00e7\u00e3o do Napster com o compartilhamento digital, aquilo representou uma amea\u00e7a frontal \u00e0 l\u00f3gica do mercado e das gravadoras multinacionais. As poucas vozes que se levantavam para alertar sobre o perigo eram caladas. Na \u00e9poca do Minist\u00e9rio da Cultura sob o mandato de Gilberto Gil, existiam discuss\u00f5es pelo Brasil, como o movimento Fora do Eixo, sobre a transi\u00e7\u00e3o para o digital. Eu era convidado para participar de pain\u00e9is por ser o autor do manifesto e da m\u00fasica &#8220;Computadores Fazem Arte&#8221;, mas logo fui banido porque era uma voz fora do quadrado. A galera estava t\u00e3o deslumbrada com a revolu\u00e7\u00e3o digital e a liberta\u00e7\u00e3o das amarras das gravadoras que aquilo virou um &#8220;fundamentalismo tecnol\u00f3gico&#8221;. A tecnologia foi colocada em um altar onde era proibido questionar qualquer efeito colateral. Quem questionasse era tratado como her\u00e9tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bandas como o Metallica questionavam essa hist\u00f3ria de m\u00fasica de gra\u00e7a. <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/01\/08\/entrevista-fred-04-mundo-livre-sa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Uma das coisas que eu apontava<\/a> era a din\u00e2mica da escassez versus abund\u00e2ncia. Qual \u00e9 a mensagem para o garoto que cresce consumindo MP3 de gra\u00e7a? A mensagem que o c\u00e9rebro recebe \u00e9 que aquilo \u00e9 um produto sem valor. A m\u00fasica perde seu valor simb\u00f3lico. O pessoal adorava o Napster, mas usava camisa com a capa dos discos do Led Zeppelin, dos Beatles ou do Iron Maiden. Nenhum daqueles discos, com aquele refinamento de produ\u00e7\u00e3o e est\u00fadios caros, teria sido poss\u00edvel sem o investimento das gravadoras. No nosso caso, uma banda de Recife que nem tinha instrumentos profissionais pr\u00f3prios teve passagem e hotel pagos para gravar em um est\u00fadio profissional em S\u00e3o Paulo porque vendia disco. Mesmo que n\u00e3o fosse disco de ouro, as 40 mil c\u00f3pias vendidas pagavam a estrutura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje todo mundo repete jarg\u00f5es sobre a sustentabilidade dos rios, das florestas e da economia, mas e a sustentabilidade da cultura e da m\u00fasica? Ningu\u00e9m vai a uma feira livre e exige levar ma\u00e7\u00e3 ou alface de gra\u00e7a s\u00f3 porque vem da terra; houve trabalho para cultivar e transportar aquilo. Quando se subverte essa l\u00f3gica por deslumbre com a tecnologia, a sustentabilidade da m\u00fasica \u00e9 prejudicada. Teve um autor que escreveu o livro &#8220;<a href=\"https:\/\/link.amazon\/B07USv8ae\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Culto Do Amador. Como Blogs, Myspace, Youtube E A Pirataria Digital Est\u00e3o Destruindo Nossa Economia, Cultura E Valores<\/a>&#8221; (Andrew Keen). Ele era um entusiasta da Web 2.0 e da Wikip\u00e9dia, mas depois saiu do meio ao ver o rumo das coisas. A Wikip\u00e9dia tinha criado uma l\u00f3gica onde o conhecimento de algu\u00e9m com t\u00edtulo acad\u00eamico passava a ser questionado em nome da &#8220;sabedoria popular&#8221;, algo pr\u00f3ximo do negacionismo cient\u00edfico. As duas \u00fanicas men\u00e7\u00f5es de apoio ao livro dele que vi na m\u00eddia brasileira foram a minha e a do Caetano Veloso. O alerta do cara fazia total sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea comp\u00f4s &#8220;Computadores Fazem Arte&#8221;, que foi lan\u00e7ada em 1994 pelo Chico Science &amp; Na\u00e7\u00e3o Zumbi no \u00e1lbum &#8220;Da Lama ao Caos&#8221;. A ideia est\u00e1 sendo revisitada. Voc\u00ea j\u00e1 usou IA para compor?<\/strong><br \/>\nNunca baixei ChatGPT nem nada do tipo, n\u00e3o sei nem usar. A \u00fanica vez que baixei um programa para compor batidas no computador, passei o dia inteiro montando a bateria. Quando terminei e quis salvar, n\u00e3o soube como fazer e perdi o trabalho todo. N\u00e3o tenho paci\u00eancia para esse tipo de processo. A frase da m\u00fasica &#8220;Computadores Fazem Arte&#8221; \u00e9 de 1989: &#8220;Computadores fazem arte, artistas fazem dinheiro&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual era o contexto dessa frase na \u00e9poca?<\/strong><br \/>\nEm 1988, um amigo nosso que depois se tornou o DJ Dolores, o H\u00e9lder, que conhecemos na faculdade de Design da UFPE, foi contratado para trabalhar em uma ONG de educa\u00e7\u00e3o em Olinda (a TV Viva, um projeto pioneiro de TV comunit\u00e1ria). Eles tinham verba internacional e compraram o computador de computa\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica mais avan\u00e7ado do Nordeste na \u00e9poca, um Amiga (da Commodore). O H\u00e9lder come\u00e7ou a fazer vinhetas de anima\u00e7\u00e3o e vinhetas de \u00e1udio nesse computador. Eu fiquei t\u00e3o fascinado com aquilo que veio a ideia da m\u00fasica. Anos depois da m\u00fasica lan\u00e7ada, professores de Ci\u00eancia da Computa\u00e7\u00e3o vinham me dizer que a letra traduzia de forma intuitiva e vision\u00e1ria o impacto da tecnologia, virando at\u00e9 tema de reda\u00e7\u00e3o de vestibular.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Computadores Fazem Arte - @MundoLivreSAOficial (LIVE na Ilha Grande)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/75DbkbycB_0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Hoje a IA produz &#8220;arte em escala industrial&#8221;, mas os artistas muitas vezes n\u00e3o est\u00e3o fazendo dinheiro. Quem foi a inspira\u00e7\u00e3o para essa segunda parte da frase?<\/strong><br \/>\nA inspira\u00e7\u00e3o foi o Umberto Eco. Como acad\u00eamico e historiador da arte, ele tinha o sal\u00e1rio dele na universidade na It\u00e1lia. Mas ele ficou rico aplicando esse conhecimento como romancista, quando lan\u00e7ou &#8220;O Nome da Rosa&#8221; (1980). A narrativa desse livro traz uma erudi\u00e7\u00e3o absurda sobre os Templ\u00e1rios, os conventos, a pigmenta\u00e7\u00e3o das tintas&#8230; Ele pegou a sabedoria acad\u00eamica e a transformou em fonte de renda como escritor de fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu tamb\u00e9m tinha pesquisado a origem etimol\u00f3gica da palavra &#8220;arte&#8221;. No grego, uma das vertentes vem de techn\u00e9, que se refere \u00e0 habilidade manual ou t\u00e9cnica, seja o oleiro fazendo um vaso, algu\u00e9m com habilidade culin\u00e1ria ou alqu\u00edmica. O computador representa o auge da habilidade t\u00e9cnica da civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na \u00e9poca da faculdade, trabalhei como revisor em uma editora, bico que o Chico Science me arrumou. Tinha um ilustrador l\u00e1 que desenhava os fatos dos jornais com uma rapidez incr\u00edvel. Quando entrou a editora\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica por computador, aquele profissional perdeu o emprego, porque o computador fazia os t\u00edtulos, a montagem e o tratamento visual com muito mais velocidade e recursos. &#8220;Computadores Fazem Arte&#8221; foi pensado nesse sentido: a arte-final, antes feita manualmente pelo ilustrador, passou a ser executada pela m\u00e1quina.<\/p>\n<figure id=\"attachment_97347\" aria-describedby=\"caption-attachment-97347\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-97347\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/walking.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/walking.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/walking-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/walking-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-97347\" class=\"wp-caption-text\"><em>Arte da capa do \u00e1lbum &#8220;Walking Dead Folia (Sorria Voc\u00ea Teve Alta!)&#8221;, do Mundo Livre S\/A<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nos \u00faltimos anos vivemos um per\u00edodo conturbado. Agora temos novas campanhas eleitorais e parece haver um certo sil\u00eancio, uma apatia.<\/strong><br \/>\nEu acho que existe um cansa\u00e7o. A gente gravou o disco &#8220;Walking Dead Folia&#8221; (2022) em plena pandemia, no auge do esc\u00e2ndalo das vacinas. O conceito inteiro do \u00e1lbum, incluindo a capa, que tentaram censurar citando a Pol\u00edcia Federal, e faixas como &#8220;Baile Infectado&#8221;, era um libelo sobre o que estava acontecendo naquele momento. Foi um per\u00edodo em que todo mundo sentiu a necessidade urgente de se posicionar porque envolvia uma trag\u00e9dia com mortes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje vejo uma ressaca, um cansa\u00e7o. Claro que alguns nomes v\u00e3o continuar se posicionando firmemente, como o Chico Buarque ou o Caetano Veloso. Mas, no geral, a cultura do cancelamento se sofisticou muito com a atua\u00e7\u00e3o do &#8220;gabinete do \u00f3dio&#8221;. Veja o caso do Ira!, que teve quase uma turn\u00ea inteira cancelada no Sul por causa de posicionamentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na gringa \u00e9 diferente. Um cara como o Roger Waters pode ter shows cancelados por defender a causa Palestina em Gaza, mas ele j\u00e1 tem a vida ganha para quatro gera\u00e7\u00f5es. No Brasil, o m\u00fasico que est\u00e1 tentando construir uma carreira s\u00f3lida sente o impacto direto no bolso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Com tudo o que aconteceu, voc\u00ea parece estar em um momento de resgatar esse legado. Como voc\u00ea v\u00ea seu papel hoje?<\/strong><br \/>\nEm 2006, a Rolling Stone Brasil publicou uma lista dos 100 maiores nomes da m\u00fasica brasileira de todos os tempos. Eu fiquei em 85\u00ba lugar, \u00e0 frente de nomes incr\u00edveis como o Belchior e o Pixinguinha. Logo depois disso, comecei a tomar posi\u00e7\u00f5es mais radicais. Com a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica crescendo a partir de 2010 e a opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, fui praticamente banido dos grandes ve\u00edculos de imprensa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando lan\u00e7amos o &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/01\/08\/entrevista-fred-04-mundo-livre-sa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Novas Lendas da Etnia Toshi-Bab\u00e1<\/a>&#8221; (2011), o disco vazou no YouTube antes do lan\u00e7amento oficial. Um cr\u00edtico do jornal O Globo ouviu e fez uma resenha excelente, elogiando. Mas a Folha e o Estad\u00e3o usaram o fato de O Globo ter &#8220;furado&#8221; como pretexto para n\u00e3o dar uma linha sobre o \u00e1lbum, que mais tarde ganhou o Pr\u00eamio da M\u00fasica Brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O &#8220;Samba Esquema Noise&#8221; e esse retorno aos grandes festivais me deram a oportunidade de resgatar a relev\u00e2ncia do meu legado na m\u00fasica brasileira. \u00c9 como se o mercado estivesse me dando uma segunda chance. Por isso, hoje minhas prioridades s\u00e3o um pouco diferentes, o que n\u00e3o significa que deixei de ser um cara engajado. Quem conhece minha hist\u00f3ria sabe o que j\u00e1 paguei e enfrentei. Recentemente, em Recife, participei sem cobrar nada do single de campanha da <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/rosamst_\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Rosa Amorim<\/a>, candidata a deputada federal pelo MST. Ela \u00e9 uma lideran\u00e7a importante, a \u00fanica parlamentar do movimento l\u00e1 atualmente. Acho que quem se preocupa com a preserva\u00e7\u00e3o da democracia no Brasil precisa olhar com aten\u00e7\u00e3o para a forma\u00e7\u00e3o do Parlamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como est\u00e1 a din\u00e2mica da banda e a prepara\u00e7\u00e3o de novo material?<\/strong><br \/>\nNosso baixista, o Pedro Diniz (Rasta), mora na Calif\u00f3rnia. A esposa dele foi fazer p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o na Universidade da Calif\u00f3rnia e ele foi junto. Ele \u00e9 produtor e continua muito ativo no mercado de l\u00e1; foi ele quem articulou nossa participa\u00e7\u00e3o no Lollapalooza e quem vendeu v\u00e1rios dos nossos shows recentes. Ele \u00e9 o nosso bra\u00e7o na Calif\u00f3rnia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele est\u00e1 produzindo uma m\u00fasica in\u00e9dita do nosso pr\u00f3ximo disco que fala sobre o estado atual da sociedade global. O t\u00edtulo original era &#8220;L.A. Disney&#8221;. A gente pensa em mudar para &#8220;Idiot.ice&#8221;. A letra \u00e9 cheia de trocadilhos e tiradas com figuras e express\u00f5es ic\u00f4nicas do cen\u00e1rio mundial, escancarando o surrealismo do contexto atual. Como o Pedro est\u00e1 morando l\u00e1 e me contando os relatos da rotina nos Estados Unidos de Trump, acabei adaptando o conceito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, temos uma parceria pronta com o Chico C\u00e9sar chamada &#8220;Coco Louco&#8221;, que ficou sensacional. \u00c9 um disco bem &#8220;mangue&#8221;, voltado para os ritmos de raiz, como a batida de coco misturada com cavaquinho e efeitos eletr\u00f4nicos. J\u00e1 temos &#8220;Coco Louco&#8221; gravada e mais cinco ou seis faixas em fase de pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o. O processo de grava\u00e7\u00e3o deu uma pequena pausada porque o est\u00fadio parceiro entrou na produ\u00e7\u00e3o de campanhas pol\u00edticas para as elei\u00e7\u00f5es, mas continuo produzindo em um est\u00fadio menor do meu pr\u00f3prio bolso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, tive a primeira sess\u00e3o de est\u00fadio para um projeto em parceria com o Apollo Nove (ex-integrante do Planet Hemp e produtor de nomes como Paralamas do Sucesso, Rita Lee). Estamos criando um espet\u00e1culo musical no formato de uma &#8220;\u00f3pera dist\u00f3pica&#8221;, mesclando elementos ac\u00fasticos e eletr\u00f4nicos para abordar as distopias tecnol\u00f3gicas. J\u00e1 registramos a primeira faixa em ingl\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, em novembro, vamos tocar no festival Cl\u00e1ssicos do Brasil, em Recife, onde uma equipe da TV p\u00fablica franco-alem\u00e3 (Arte TV) enviar\u00e1 uma diretora para gravar um document\u00e1rio sobre o movimento Manguebeat, tendo o show do Mundo Livre S\/A como um dos destaques exibidos na Europa.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Mundo Livre S\/A - 17- O Velho James Browse j\u00e1 dizia - 2016\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/f2KgptnK0GI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os shows do Mundo Livre S\/A est\u00e3o com mais produ\u00e7\u00e3o. Como come\u00e7ou essa fase?<\/strong><br \/>\nA experi\u00eancia do Lollapalooza foi incr\u00edvel porque nos estimulou a montar um show com pegada de megaprodu\u00e7\u00e3o. Levamos a maior equipe t\u00e9cnica da nossa hist\u00f3ria. Como tocamos \u00e0s 14h e n\u00e3o t\u00ednhamos recursos de ilumina\u00e7\u00e3o noturna, focamos no conceito audiovisual dos tel\u00f5es, trabalhando com um DJ de Recife para criar proje\u00e7\u00f5es exclusivas para cada faixa. Tamb\u00e9m trouxemos m\u00fasicos de apoio e um guitarrista convidado para dar mais peso ao som. Isso nos recolocou em um padr\u00e3o de show de grande porte (mainstream).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas tamb\u00e9m est\u00e3o preparando o lan\u00e7amento em vinil do &#8220;Novas Lendas da Etnia Toshi Babaa&#8221;, certo?<\/strong><br \/>\nSim, vamos lan\u00e7ar a primeira vers\u00e3o em vinil do &#8220;Novas Lendas da Etnia Tosi-Bab\u00e1&#8221;. A arte do \u00e1lbum \u00e9 do Derlon, um grafiteiro fant\u00e1stico que mistura o estilo Armorial com a arte pop urbana. Esse \u00e1lbum traz no encarte o manifesto &#8220;A Cyber-Selva e o Novo Fundamentalismo&#8221;, onde eu alertava justamente sobre a fragilidade do consumo exclusivamente digital.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual \u00e9 a fragilidade do consumo de m\u00fasica exclusivamente digital?<\/strong><br \/>\nEssa semana eu vi um carinha defendendo isso. Ele falava da import\u00e2ncia do retorno do vinil, do DVD, do CD. Se uma Big Tech compra uma plataforma como o Spotify e muda sua pol\u00edtica de cat\u00e1logo, faixas e discos inteiros podem desaparecer do dia para a noite. J\u00e1 pensou querer ouvir um Stevie Wonder e n\u00e3o poder mais? E veja, eu escrevi sobre isso l\u00e1 atr\u00e1s, no encarte do &#8220;Novas Lendas da Etnia Toshi Babaa&#8221;. Ter a m\u00eddia f\u00edsica \u00e9 a \u00fanica garantia de que voc\u00ea \u00e9 dono daquela obra. Alexandre, al\u00e9m de tudo o que eu citei, livro, festivais, celebra\u00e7\u00e3o de disco e o caralho, que trouxe uma nova vida para o Mundo Livre, a venda do nosso trabalho em vinil pela Noize Record foi fundamental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fred, para fechar, quais novos nomes e projetos t\u00eam chamado sua aten\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nAlexandre, na nova cena de Pernambuco, preciso citar a dupla Barbarize (Yuri Lumin e B\u00e1rbara Esp\u00edndola) faz um trabalho incr\u00edvel, inclusive participei de uma faixa do \u00e1lbum recente deles (&#8220;M\u00e3e&#8221;). Tamb\u00e9m tem o Mago de Tarso, que se autodenomina &#8220;caranguejo do trap&#8221;. Tenho ouvido bastante art rock n\u00f3rdico e island\u00eas, o Bezerra da Silva da fase de coco, o disco recente do Criolo e o trabalho do pianista Amaro Freitas.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"MUNDO LIVRE S\/A - O SOM DA BARRA EP.1\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/RHNfjXMK2uo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Cultura Livre | Mundo Livre S\/A | 28\/09\/2024\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jsbnfdJFcvQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Mundo Livre S\/A - LIVE na Ilha Grande \ud83e\udd80\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/oegTq8sYeKE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Ensaio | Mundo Livre S\/A | 19\/10\/14\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/oJmbRlqIjqE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Chico Science &amp; Na\u00e7\u00e3o Zumbi + Mundo Livre S\/A Ao Vivo no Programa Repert\u00f3rio Popular (1994)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/qdtEP6NaL1Y?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Alexandre de Melo (<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/aledemelo_\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@aledemelo_<\/a>) \u00e9 jornalista, escritor e documentarista. Escreveu o livro \u201c<a href=\"https:\/\/link.amazon\/B0iYsVmz3\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ondas Tropicais &#8211; A Hist\u00f3ria da primeira DJ<\/a>\u201d e atuou em coberturas musicais no UOL, Billboard Brasil e grupo MIX.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Vocalista e l\u00edder do Mundo Livre S\/A conversa sobre 30 anos de \u201cSamba Esquema Noise\u201d, novos caminhos da m\u00fasica autoral e novidades da banda\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2026\/09\/08\/entrevista-fred-04-abre-o-jogo-sobre-ia-legado-e-novo-disco-do-mundo-livre-s-a\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":175,"featured_media":97348,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7548,4833,3],"tags":[5153],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97341"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/175"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=97341"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97341\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":97350,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97341\/revisions\/97350"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/97348"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=97341"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=97341"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=97341"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}